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montesclaros.com - Ano 22 - sexta-feira, 16 de abril de 2021


Manoel Hygino    manoelhygino@santacasabh.org.br
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Por Manoel Hygino - 14/4/2021 07:53:21
O desafio cruel

Manoel Hygino

O desembargador Rogério Garcia de Lima guarda, com cuidado, velhas fotos, não só aquelas relativas ao exercício da magistratura, inclusive de viagens ao exterior, para conferências e reuniões com colegas de outros países. Nascido em São João del-Rei, ama com fé e orgulho o passado e gosta de a ele referir-se em seus escritos, até em discursos.
Dias atrás, teve em mãos uma foto da década de 1940, de um casamento em Belo Horizonte, do seu tio avô paterno, o letrado Dr. João Garcia de Lima. No precioso flagrante, aparecem ainda o avô paterno Euclides Garcia de Lima, o irmão José e o cunhado Miguel. Lembrou:
“Vovô Euclides era extremamente inteligente e culto. Além de excelente médico, era notável educador. Foi inspetor de ensino (hoje superintendente regional em São João) durante mais de uma década. Implantou merenda escolar nas escolas: criança com fome não aprende, escreveu em um texto daquela época”. Há uma escola estadual, em nossa cidade, com o nome “Dr. Garcia de Lima”.
O desembargador olha a emblemática figura do avô e pensa nesse mundo de hoje: “Tantos avanços científicos e tecnológicos, inteligência artificial. Medicina sofisticada e computadorizada. Julgávamo-nos deuses imortais, conforme o historiador Yuval Harari (livro “Homo Deus”). Mas nos descobrimos incapazes de derrotar o coronavírus. Somos frágeis e mortais. Pior parece que, com tanta computadorização, deixamos de ser racionais. Não sabemos mais pensar e nem dialogar. Que falta faz o Dr. Garcia”!
Já observava Will Durant que, para saber mais e mais, o homem procura aprender a respeito de menos e menos. Daí, essa coisa minúscula, invisível até nos microscópios mais possantes, estar hoje desafiando mesmo os pesquisadores mais conceituados. Quando julgam ter avançado em termos de coronavírus, surgem variantes diante de seus olhos e de toda a tecnologia.
O homem está diante de um repto cruel e invisível. Nossas vidas submetidas ao desconhecido traiçoeiro e letal. Há muito a aprender. Até conseguirmos, vidas inúmeras serão ceifadas.


85602
Por Manoel Hygino - 13/4/2021 07:39:47
A nova confreira

Manoel Hygino

Eram quatro candidatos, com currículos robustos, adjetivo tão na moda: Antônio Júlio de Menezes Neto, Marlon Moraes de Freitas, Maria Esther Maciel e Renan Antônio da Silva, com biografias e bibliografias ricas, atividades até em outros países. Algo muito bom.
Mas os votos computados durante a eleição definiram a terceira mencionada para ocupar a cadeira nº 15, da Academia Mineira de Letras, vaga desde o falecimento do confrade Bonifácio Andrada. Ele sucedeu a Moacyr Andrade, o jornalista Odair de Oliveira e o desembargador Hélio Armond Werneck Torres. A cadeira teve como fundador Dilermando Cruz e como patrono Bernardo Guimarães.

Nomes estes, como se observa, da mais alta representatividade, e a que a nova acadêmica acrescentará fulgor à bancada feminina do sodalício, composto de acadêmicas de provado prestígio por intensa atividade no campo das letras. Deste modo, Maria Esther Maciel oferecerá sua contribuição, avalizada pela atuação em centros literários importantes no Brasil e no exterior, e pela experiência em seus quinze livros já publicados, em diferentes gêneros.
Não vou referir-me aos muitos livros que Maria Esther Maciel já editou, tampouco ao que já escreveu para jornais e revistas. Nem me arvoro a relacionar os cursos que já fez no Brasil e fora, porque senão ocuparia todo o espaço. Vou dizer, simplesmente, que ela é uma escritora rara em seu mister, capaz de agradar ao leitor, o essencial, portanto.
É o que se sente e se confirma com seu “Longe, aqui. Poesia incompleta (1998-2019), lançado há dois anos, que consolida seu prestígio e a manifestação da crítica, desde que saiu de sua Patos de Minas, transferindo-se para Belo Horizonte.
No volume, ela evoca Zenóbia, nascida na Fazenda Palmyra, que se mudou para Beagá, tornando-se bióloga, especializada em Botânica, contendo pequena enciclopédia de animais e plantas, quase todos inéditos.
Conta Maria Esther: “Em 1987, Zenóbia conheceu na rua uma mulher que vendia palavras. Eram todas inventadas. Encantou-se com “lágrima”. Comprou-a, sem alarde. Porém, mais tarde, soube que essa era uma palavra roubada”. Acácia Mirabilis foi o nome que Zenóbia usou quando publicou o seu livro sobre os milagres de Santa Clara. Já ao escrever sobre Teresa d`Ávila, escolheu o nome Notylia. Descobriu-o quando pesquisava orquídeas numa ilha que inventou no dia de sua maior alegria”.


85597
Por Manoel Hygino - 10/4/2021 08:20:48
Esta hora sofrida

Manoel Hygino

Há poucos dias, em Brasília, o presidente da república declarou que o governo não pode seguir pagando auxílio emergencial, porque isto “custa para toda a população e pode desequilibrar nossa economia”. Tem razão, mas a posição não resolve o problema.
Acrescentou: “o Brasil tem que voltar a trabalhar”. Também tem razão, mas é preciso que o próprio governo aja e abra vagas para trabalho, buscando investimentos aqui mesmo, porque lá fora ficou difícil depois do descrédito a que chegamos pelos erros de nossa política diplomática.
A taxa de desemprego no trimestre encerrado em janeiro foi de 14,2%, a pior para o período desde 2012. Bem verdade que o contingente de brasileiros ocupados chegou a 86 milhões de pessoas, isto é, 1,7 milhões mais, relativamente ao trimestre terminado em outubro. A maior parte veio da população informal – empregos sem carteira assinada no setor privado, os trabalhadores por conta própria sem CNPJ e os domésticos sem carteira.
E curiosamente, só recentemente descobrimos que a nação tinha 37 milhões de “invisíveis” para o Estado, governo e sociedade. Não fora bastante a estrutura de desigualdade, a pandemia e o redemoinho federal produzindo mais pobreza e indigência, representando mais miséria, fome e pobreza.
E o brasileiro consome menos: as classes C e D diminuíram suas compras em 28% em fevereiro sobre janeiro, segundo pesquisa. Os dados por região apontam que o maior recuo foi no Sudeste, com queda de 31%. Curiosamente, o Ministério do Exterior do Chile revela aumento de 24% nas exportações de vinho para o Brasil, com US$ 185 milhões de receita. Avelã exportou para cá mais de 690% de aumento.
Quem esperava um milagre com o auxílio emergencial já começado verificará que pouco resultará. Será uma decepção, porque a inflação reduziu o poder de compra e, em Belo Horizonte, a cesta básica teve alta de 22,8% em um ano. Não só isso: há milhares de vulneráveis mais, identificados ou não.
Não será fácil vencer esta fase da guerra que nos aflige e que exige colaboração e sacrifício de ponderáveis parcelas da sociedade, que fazem de conta que tudo está às mil maravilhas. Prova está na sucessão de baile, e aglomerações alegres de toda natureza que se repetem nos fins de semana, enquanto a Covid ceifa vidas inapelavelmente. Falta de solidariedade ou ignorância, pura e simples?


85592
Por Manoel Hygino - 7/4/2021 07:55:59
A República Lusa

Manoel Hygino

A República no Brasil se proclamou em relativa paz. Em 15 de novembro de 1889, o imperador se encontrava em Petrópolis e foi chamado à corte. Quando chegou, horas após, foi informado de que se instalara. D. Pedro II teve uma conferência de 5 minutos com o Visconde de Ouro Preto. Este lhe pediu a demissão coletiva do ministério.
Logo nas primeiras horas da manhã, contudo, os empregados que se dirigiam ao trabalho ouviram o tropel de cavalaria. Às 10h, estudantes davam vivas à República na rua do Ouvidor. Às 17h, o fato estava consumado. Os militares tinham feito o novo regime, sem que uma voz se levantasse contra ela. Mas em Portugal foi diferente.

Quem conta é Caio Boschi, professor aposentado de História da UFMG e titular da PUC-MG, doutor em História Social pela USP, vice-presidente da Academia Mineira de Letras. Em oportuno ensaio, põe os pingos nos is e isso interessa aos portugueses e aos antigos colonos.
Ele se baseou em documentos oficiais das chancelarias do Brasil e de Portugal, e seu estudo foi divulgado pelo site do sodalício. Preparava-se o centenário da abertura dos portos do Brasil às nações amigas, ocorrido em 1808, programando-se uma grande exposição comemorativa no Rio de Janeiro.
Hermes da Fonseca, eleito presidente, encontrava-se na Europa, e, mais especificamente, em Portugal, em viagem particular.
Em 4 de outubro de 1910, Costa Mota, enviado extraordinário do Brasil a Lisboa, encaminhou ao seu Ministério, no Rio de Janeiro, mensagem preocupante: “Rebentou esta noite uma revolução. Alguns regimentos se passaram para os revolucionários. Cruzador São Rafael insubordinou-se. Houve batalha nas ruas durante toda noite. Agora, nove horas da manhã, houve fuzilaria em diversos pontos da cidade. Situação gravíssima. Marechal Hermes da Fonseca do exército brasileiro está ainda no Palácio de Belém”.
Os Republicanos tinham urdido um plano amplo. Hermes teve de manter-se no encouraçado São Paulo por dois dias, esperando a situação se definir. Para despedir-se dele, compareceu ao navio o presidente do governo provisório, Teófilo Braga, seu amigo e escritor, juntamente com dois ministros. Mas se assinalou que o encontro tivera caráter particular. Somente no dia 7, o chanceler Rio Branco, na capital brasileira, recebeu um telegrama dizendo que Hermes partira no dia anterior. Enfim, instalada a República! O ensaio de Caio Boschi lança luzes sobre os últimos momentos da monarquia portuguesa.


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Por Manoel Hygino - 6/4/2021 07:59:22
Pós Semana Santa

Manoel Hygino

Em 2021, o transcurso da Semana Santa, a que os cristãos devotam especial carinho e respeito, se deu no ápice da pandemia que deixou o espantoso saldo superior a 330.000 mortes no Brasil, pelas quais choram pessoas de todas as religiões.
Foi a semana mortal no Brasil, pela sexta vez consecutiva e a previsão do futuro é ainda insegura e frágil. De certo, realmente, somente, que a Semana Santa passou, mas o terrível flagelo desta segunda década de dor continua.
Nestes dias, os cristãos se dedicaram às preces e às meditações, embora segmentos sociais ou grupos se voltassem para a prática de atos contrários ao espírito de solidariedade que deveria predominar entre os homens, sobretudo diante da adversidade.
Evocamos então, Jesus, que não procurou a morte em Jerusalém, mas perseguiu com devoção inflexível um caminho que o levou ao sacrifício, de que não tentou escapar. Como sustentou o rabino Gamaliel ben Gamaliel, lá pelos anos 40 depois de Cristo, ele não tinha ambições políticas, jamais projetara um levante popular, “quer na esperança de que sua morte provocasse uma”.
Gamaliel lembra fatos e pessoas, inclusive que Jesus – ou Joshua – alimentou uma multidão, tal como Elias o fizera, e que operava para um homem ressurgir dos mortos. Ainda que caminhou sobre a água, o que nenhum profeta fizera antes. “Outros dizem que sua linhagem remontava a Abraão, mas sustentam que ele não foi gerado de pai humano”.
Gamaliel ben Gamaliel acrescenta: “Seja como for, esse Joshua era inofensivo. Mas, apesar de tudo, uma pessoa que chamava a atenção, e era mesmo estranha, sobre quem se sabia muito pouco. A discussão sobre se o homem Joshua foi ou não profeta é, por fim, estéril”.
Joshua disse: “Fazei ao próximo aquilo que desejais que vos façam”. Foi honrado e se tem de dizer que ele se situou na forte linhagem dos profetas e “o desprezo era sua única atitude em relação as pessoas que fazem exibições públicas de vaidade”. Ensinava que “quem olha o irmão com raiva no coração, já o matou”.


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Por Manoel Hygino - 3/4/2021 07:58:38
Esperar é o que resta

Manoel Hygino

Percebe-se facilmente. A hora que vivemos é extremamente delicada. Cada brasileiro deve agir com todo cuidado para não acrescentar um item a mais e contribuir com a Covid-19, ela sozinha um manancial de dúvidas pungentes e de certezas de alto poder destrutivo.
A mudança de meia dúzia de pessoas no ápice do Planalto não solucionará, isoladamente, os inúmeros e gravíssimos problemas que nos atingem e que podem tornar-se explosivos, quando – vencida a pandemia – sobrevierem as sequelas, dentre outras consequências inevitáveis.
O presidente do Senado admitiu: “Há dois caminhos que devemos perseguir no Brasil neste momento: o de união nacional e o do caos nacional”. A declaração, curta e clara, oferece uma imagem dramática do momento que vivemos e da perspectiva tenebrosa que resta, se a nação não chegar a uma definição lúcida e indesviável, imprescindível e urgente, nas atuais circunstâncias.
Como se esperava, o ano presente iniciou envolto em incertezas e dificuldades para uma robusta retomada da economia e que exigiria tomada de decisões firmes da União. A começar pela pandemia, que tem levado a novos sacrifícios da população e todas as áreas praticamente de atividades industriais e comerciais. A lentidão até aqui da vacinação, que daria novo rumo à vida nacional, impacta negativamente na oferta de vagas de empregos.
Outro entrave foi o término do auxílio emergencial, que vinha ajudando no período crítico, contribuindo para puxar o PIB pela injeção no consumo das famílias, envolvendo o segmento social dos chamados “invisíveis”. Uma segunda dúvida que paira sobre a capacidade do governo é aprovar a agenda das reformas, como a tributária, a mais demandada por investidores internos e externos, visando diminuir o custo de entrada de investimentos e, assim, promover segurança para um estímulo real ao seu incremento.
E há a reforma administrativa, dos Fundos Públicos, postergadas em meio ao aquecimento das disputas políticas. Para analistas, são fatores primordiais para acenar confiança ao mercado internacional e investidores.
Não há o que esperar de positivo neste primeiro semestre, mas aguardar com confiança o segundo, quando a vacinação será agilizada, segundo se afirma. Oxalá.


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Por Manoel Hygino - 31/3/2021 08:06:52
Uma perda no Sul

Manoel Hygino

Deixou de viver, no Rio Grande do Sul, em 24 deste março, Nelson Hoffmann, um dos mais queridos e prestigiados escritores da fronteira Sul. Ardoroso defensor das causas da região e dos indígenas, portou-se como um cidadão do Brasil.
Nascido em Roque Gonzales, sacerdote que quis ali implantar uma comunidade cristã e foi morto pelos índios, nem por isso Nelson abandonou a defesa dos habitantes históricos do território, defensores da terra em que nasceram. Nascido em 19 de dezembro de 1939, Nelson foi um dos artífices da autonomia do município, além de primeiro agente executivo e primeiro roque-gonzalense a assumir a chefia do município.
Contabilista, advogado, professor, exerceu outros cargos públicos, enquanto se dedicava às atividades literárias e culturais, que lhe deram projeção nacional. Estabeleceu e estreitou relações com autores de todo o país, mesmo do exterior, exercendo missão que o tornou conhecido não só na América Latina.
Participou da imprensa em Roque Gonzales, que se transformou em instrumento de aproximação supranacional, integrando entidades acadêmicas. Correspondente de jornais e revistas do país, conselheiro editorial, manteve permanente correspondência com autores mundo afora.
Considerando mestre da narrativa longa na literatura missioneira, praticava todos os gêneros literários, preferindo a ficção. Traduzido nos Estados Unidos, França, Espanha e Itália, também publicado em Portugal e Uruguai, destacou-se em países distantes como Coréia do Sul, Japão e Austrália.
Foi agraciado com troféus, medalhas e diplomas, em nível regional e nacional. Participou de inúmeras antologias, teve mais de três dezenas de trabalhos individuais publicados e seu romance A Bofetada (1978) marca o início do movimento literário na região. Autor do dístico Roque Gonzales – Terra e Sangue das Missões, oficializado por lei e, também por lei, foi homenageado com a denominação da Casa de Cultura Nelson Hoffmann, em sua cidade.
Colaborador dos jornais “Igaçaba” e, agora, de “O Nheçuano”, teve em suas páginas ferramenta para suas ideias, pensamentos e iniciativas, aliado à filha Inês e filhos, excelentes nos seus misteres. O passamento de Nelson Hoffmann deixa um vazio em Roque Gonzales e em toda a região missioneira, ao Rio Grande do Sul enfim, a que serviu superiormente durante toda a vida.


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Por Manoel Hygino - 27/3/2021 08:01:16
A corte e os mineiros

Manoel Hygino

Em 2020, para comemorar o trigésimo aniversário da JASA (José Anchieta da Silva Advocacia), publicou-se “30 anos de Advocacia”, preciosa sequência das edições anteriores, registrando os 20 e 25 anos da vitoriosa empresa. Sua leitura constitui um presente rico para quem por ela se interessar.
Na página 809 e seguinte, tem-se a exposição. “A presença do Serro das instituições jurídicas, acadêmicas e culturais”, texto dedicado à histórica cidade, ao ensejo de seu aniversário como comarca. Anchieta – presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas – lembra Eduardo Pereira Lins (um dos três juristas que presidiram o Supremo Tribunal e Federal), em que ingressara em 1917, duas vezes reeleito e, como tal aposentado.
Francisco de Assis Barbosa, que pertenceu à ABL, observa que – à frente do STF – Edmundo recebeu o Cardeal Pacelli, surpreendido conversando, em latim, longa e naturalmente, com o futuro Pio XII. Ivan Lins, seu filho, da Academia Mineira de Letras, confessa que aprendeu latim em casa, como quem bebe leite.
Anchieta evoca a presença do Serro na mais alta corte da Justiça Brasileira, com Saião Lobato, Visconde de Sabará, Pedro Lessa e Edmundo. Saião foi nomeado presidente do recém-criado Supremo Tribunal Federal por Deodoro, cabendo-lhe presidir a sessão de instalação, em 1891.

Nascido em 25 de setembro de 1859, Pedro Lessa foi magistrado, político e professor. Nomeado para o Supremo, substituindo Lúcio de Mendonça, é considerado o “Marshall” brasileiro. Dentre outros méritos, ampliou o habeas corpus, contribuindo para criação do que viria a ser o mandado de segurança. Também eleito para a Academia Brasileira de Letras, são de sua autoria importantes obras no campo do Direito.
Presentemente, só há um mineiro na mais alta corte nacional de Justiça, a ministra Carmem Lúcia, que é do Norte do Estado, nascida em Montes Claros, com pais de Espinosa, nome do primeiro colonizador a entrar em nosso território. Na Academia Mineira de Letras, está Carlos Mario da Silva Veloso, ex-ministro e ex-presidente da STF, lúcido intelectual, imparcial e brilhante, a que os jornalistas recorrem quando há necessidade de uma opinião valiosa na área jurídica.


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Por Manoel Hygino - 25/3/2021 06:00:25
Esperando milagres

Manoel Hygino

Talvez sob influência do nome – Messias, o chefe da nação, confia muito em milagres para liquidar a pandemia no país, quando já se antevê o dramático balanço de 12 milhões de brasileiros infectados pelo coronavírus. No dia 10 de março, o número diário ultrapassou os Estados Unidos, com 2.286 óbitos, superando em dias posteriores. Falando na Assembleia Legislativa de Minas, o ex-secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, admitiu que nos dias seguintes o número de casos poderia quintuplicar. É o que se escreveu: quintuplicar.
Pensando nisso, o presidente da República planejou o envio de uma comitiva científica a Israel para conhecer mais a respeito de um medicamento aparentemente capaz de evitar o colapso total da saúde entre nós. O próprio presidente anunciou: “Nossa equipe vai decolar no sábado à noite para Israel. Todas as tentativas foram feitas, acordos e memorandos, e agora vai até os hospitais e laboratórios. Por nossa intenção, está tudo acertado para isso”, disse o presidente para apoiadores.
Palavra de presidente é para ser respeitada e sua determinação cumprida, como admoestar o ex-ministro Pazuello, que deixou o cargo em meados do mês. Em princípio, tratava-se de um mágico “spray” nasal em estudo em Israel. Depois, mudou-se o objetivo da visita, pois se cogitaria conhecer avanços sobre medicamentos, inclusive vacinas. “Mais do que um intercâmbio, estamos buscando protocolos, acordos na área da ciência e tecnologia, que será muito proveitoso para o momento que vivemos, um legado para o futuro”.
A delegação partiu de Brasília, chefiada pelo chanceler Ernesto Araújo, e a própria viagem foi um vexame. Todos saíram daqui sem máscaras, mas tiveram de usá-las para descer em Israel. O celebrado “spray”, porém, está apenas em estudos preliminares e ainda em sondagem de aplicação à doença. Nada mais. Trata-se de mera perspectiva, que pode também ser negativa.
Uma viagem praticamente inútil. E Bolsonaro declarou sincero: “Como é para ser usado em quem está hospitalizado, quem está em UTI, eu acho que não tem problema nenhum usar esse spray no nariz do cara. O que é esse spray? Não sei”.
Ninguém sabe, porque tudo pode mudar com o novo ministro, que é um cardiologista e não reza pelo catecismo de indicações médicas do presidente. A sucessão no Ministério foi outra demonstração de falta de efetivo conhecimento da complexidade e gravidade da hora que vivemos...e em que podemos morrer.


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Por Manoel Hygino - 24/3/2021 08:01:28
Além da pandemia

Manoel Hygino

Todos os anos, na manhã de 13, terceiro mês, o inicial telefonema era do Padre Murta, Adherbal, para felicitações pelo aniversário. Ainda com timbre de púlpito, o querido sacerdote festejava e formulava votos bondosos. Quando o aparelho não mais tocou em casa naquela data, deu tristeza. O Padre Murta, culto e intelectual, sempre solidário, nos deixara.
Assim foi. Permaneceu, todavia, a lembrança amável do discípulo de Cristo, sempre presente, com sua voz firme, deixando-nos a esperança de que, 365 dias após, estaria novamente no aparelhinho preto da sala, como em seus sermões e orações, todos os dias, em Montes Claros, em que foi membro das entidades culturais mais representativas.
Nesta década de infindos dias de dor e lágrimas em toda a humanidade, em 2021, parece que o Padre Murta não quis aqui permanecer por não poder dividir o padecimento dos muitos milhares de diminuídas famílias. A dor que restaria seria imensamente maior que a esperança que se alimentava.
Este decênio deixa um legado de luto e sofrimento em todos os cantos do planeta a que a Covid chegou. Um estigma cruel que não se apagará, mas que exige dos dirigentes das nações espírito público e solidariedade.
No Brasil, o que se quer é, no mínimo, consciência do momento dificílimo que atravessamos, de verdadeiro sentimento de patriotismo e de amor ao próximo, evitando a polarização política, que conduz a desacertos graves, cuja extensão e profundidade se podem medir a cada dia e hora. A situação tenderá ao pior e a história julgará quem agiu com correção e humanismo.
Como li alhures: durante as guerras, todas elas, a primeira coisa a morrer é a verdade. Não admitimos a mentira. Não merecemos sofrer mais do que estamos sofrendo. Há de usar-se de extremo cuidado: o clima de tensão agora transcorrendo não é só o da Covid. O país vive amargas horas, o orçamento segue deficitário, o desemprego é altíssimo, boa parcela da população passa necessidades – mesmo fome. Há de ter-se humildade para reconhecê-lo.
Parece que não poucos se omitem e não levam a sério a hora desafiadora que vivemos. Trocam-se acusações, levantam-se suspeitas, transferem-se os problemas no tempo, mas eles permanecem insolúveis. O resultado é o que se vê: confunde-se pandemia com pandemônio. O preço do erro ou do crime se torna altíssimo.


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Por Manoel Hygino - 20/3/2021 07:52:24
523 anos depois

Manoel Hygino

Em 10 de março, houve eleição. Destinava-se à escolha dos novos dirigentes da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, neste ano 122 de sua existência, a ser comemorada em 21 de maio. Em muitas cidades brasileiras, há uma Santa Casa, bendita herança lusitana.
Quem fundou a instituição e a ela dedicou até a consumação de seus dias, foi Leonor de Lancastre, nascida em Beja, em 1458, mulher de dom João II. Falecidos o esposo e o filho, este em consequência de desastre aos 16 anos, Leonor devotou-se à cauda dos necessitados.
Descendia ela das mais nobres famílias de Portugal e com a morte do marido, viveu modestamente, vestida com o hábito de franciscana, sem professar. Atravessou uma das épocas mais intensas da vida nacional, com as lutas na África, a guerra com Castela, a preparação das descobertas e as viagens dos grandes navegadores, inclusive à Índia e ao Brasil, bem como os esforços militares e políticos para consolidação do Império ultramarino.
Dona Leonor se voltou ao amparo dos necessitados, tratamento dos enfermos, o amparo aos condenados à morte sem defesa, à proteção às crianças e aos idosos, através das Santas Casas, que evoluiu no universo português. Em 2019, quando a SCMBH completou 120 anos, festejou a efeméride juntamente com a Santa Casa de Macau, na China, que chegava aos 450 com os mesmos princípios e desígnios.
A escolha de seus dirigentes, em Belo Horizonte, este ano, se fez virtualmente por motivos sabidos. Foi reeleito para mais três anos o provedor Saulo Levindo Coelho, de ilustre clã da Zona da Mata, neto do senador Levindo Eduardo Coelho e filho do ex-governador Ozanan Coelho. Já com 21 anos à causa, começa novo mandato, em meio à dramática pandemia do coronavírus, com muitos milhares de vidas já extirpadas à nação. É o provedor com mais longo tempo de devotamento à entidade, seguindo José Maria de Alkmim, que ali esteve além de 36 anos. Com diretores conscientes de sua missão (Guilherme Gonçalves Riccio, Gonçalo de Abreu Barbosa e Carlos Renato de Melo Couto), o reeleito reconhece as próximas dificuldades e desafios, mas a causa é justa e humana. Resta preservá-la com sincera disposição como o fez Dona Leonor, em 15 de agosto de 1498.
Neste período de dor e angustia para o Brasil e o mundo, pode-se avaliar a grandeza da benemérita obra das Santas Casas, como a de Belo Horizonte oferecendo um exemplo de solidariedade aos que lutam contra a maior pandemia deste meio milênio de história.


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Por Manoel Hygino - 17/3/2021 08:14:54
Futuro de Cuba

Manoel Hygino

E Cuba, como está, esquecida até pelos noticiários radiofônicos? O novo coronavírus é matéria e mais importante tema? O assunto, focalizado, há poucos dias, pelo jornalista Aylê-Salassié F. Quintão, de Brasília, desperta pelo menos interesse. Cientistas políticos admitem o fim da austeridade na execução orçamentária da “economia planificada” e “mudança na mentalidade”.
O país começou 2021 com moeda unificada, com o peso cubano lá embaixo: 24 cups por 1 dólar e 4,16 cups por 1 real. Além da redução de subsídios, há agora autonomia para as estatais e permissão para abertura de negócios privados em 2 mil atividades. É um susto para aquela população que se acostumara à dureza do regime antigo. Agora se abrem perspectivas para 600 mil trabalhadores autônomos, enquanto os cupons de alimentação só servem aos extremamente pobres (e havia algum por lá?) e idosos, prevendo-se aumento de salários acima de 400%.
Os fatos e os homens mudaram muy rapidamente. Aylê-Salassié recorda: “Quantos intelectuais, ditos revolucionários no Brasil, agregaram ao seu currículo, como virtude, a atividade de cortar cana em Cuba! Ninguém era dispensado do trabalho. Iam para lá fugidos da ditadura no Brasil ou para receber instruções e treinamento de guerrilha, voltada para a implantação do socialismo na América Latina”. Como se sentirão os brasileiros operários nos canaviais d ilha, a esta altura? Ao regressarem, tiveram dias de euforia, exerceram cargos públicos relevantes, participaram do Fórum de São Paulo, propondo apoiar frentes políticas na América Latina e elegeram candidatos à chefia máxima nacional. Não é, Zé Dirceu, conterrâneo de Passa Quatro?
O sonho de não poucos acabou, com o fim dos Castros na liderança, com a sua despedida do comando. Para Stefan Salej, “um sistema político fracassado na área de economia, absolutamente hermético quanto aos direitos de cidadãos”.
Um professor universitário nascido após queda do antigo regime, Diaz-Canel, sucessor de Raul Castro, pretende – como anota Aylê -, transformar o que encontrara.
O historiador inglês Richard Gott preconizou que não haverá grandes mudanças, porque estas ocorreram enquanto o castrismo diluía. O jornalista brasileiro também observou: “Cuba já não era a mesma. Jovens viraram as costas na passagem do enterro de Fidel. Os poucos governos socialistas que restaram não sustentaram os compromissos com Cuba”.


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Por Manoel Hygino - 13/3/2021 07:33:33
Brasil/China

Manoel Hygino

É estranha a posição do Brasil diante da China, desde o tempo de Donald Trump, que trocava figurinhas com o presidente cá de baixo, reunindo-se, às dezenas, até numa aprazível Beverly Hills, que em nada, todavia, resultou de prático e relevante. Há muito, a grande nação da Ásia deixou de ser queridinha dos nossos dirigentes, como antes. Só por que Washington não se conforma com o notável crescimento chinês? O que ganhamos com isso?
Luiz Carlos Azedo, veterano e conceituado jornalista do Rio de Janeiro, ponderou: “Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, porém, as relações do Brasil com a China estão sob estresse político, provocado por declarações inamistosas e postagens provocativas nas redes sociais do presidente da República e dos seus filhos. Os chineses são conhecidos pela paciência, mas resolveram reagir duramente a um comentário do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), acusando a China de espionagem. “Isso é totalmente inaceitável para o lado chinês e manifestamos forte insatisfação e veemente repúdio a esse comportamento”, diz a nota da embaixada chinesa. O plano de fundo é a disputa pelo mercado brasileiro de internet 5G. Responsáveis por 33,5% das nossas exportações, se forem excluídos da disputa por Bolsonaro, a priori, os chineses vão se reposicionar em relação ao Brasil”.
A despeito de tudo, a maior nação do hemisfério Sul das Américas não deixou de tratar em alto nível as questões que nos afetavam e nos afetam, aperfeiçoando liames e ampliando nossas relações, com Pequim, objeto de intervenções inadequadas e extemporâneas do Itamaraty e de membros da família presidencial e seus aliados.
Deve-se ressaltar, por exemplo, o acordo do INPE com o Programa China-Brasil Earth Resources que visa eliminar as barreiras que impedem o desenvolvimento e a transferência de tecnologias impostas por países desenvolvidos. Mais do que isso: permite-se o ingresso do Brasil no emergente mercado de imagens via satélites, até recentemente dominado pelos ditos poderosos do mundo, em Washington.
A professora Renata Adriana Barbosa Silva, do Centro Universitário Internacional Uninter, enfatiza a importância do novo satélite a serviço do INPE na fiscalização de áreas em desmatamento, no monitoramento da região costeira e possíveis desastres ambientais, entre outros serviços preciosos. Daí se avaliará que resultados positivos advirão da parceria. O Brasil só tem a ganhar.


85543
Por Manoel Hygino - 10/3/2021 08:03:50
Tudo agora urge

Manoel Hygino


Adjetivos e substantivos mais fortes comparecem aos veículos de comunicação, diante das dificuldades reinantes e da complexa situação que se atravessa. Os números da Covid aparecem em escala crescente em termos de transmissão e óbitos. Impulsionada pelas safras de soja, café e milho, a agropecuária também revela forte participação no PIB, anunciado na semana passada. Para o IBGE, a elevação decorre do crescimento e ganho de produtividade das lavouras, que conseguiram recordes.
Apesar de tudo, o consumo das famílias caiu 5,5% em 2020, relativamente ao exercício anterior. Assim, sendo o consumo das famílias o principal componente do PIB, sob a ótica da demanda, constatou-se a maior queda da série histórica. Anteriormente, o pior PIB fora em 2006, mas em 2020, houve um recuo de 4,1%. Não só isso: O Brasil ficou em 21º lugar em um ranking de crescimento econômico de 50 países, confirmando projeções do FMI. No âmbito de nações, o Brasil desceu ao 12º lugar, com previsão de cair para 14º.
O país parou no fim da primeira semana de março do 2020 perverso. Quem tiver o costume de guardar jornais, revistas, gravações radiofônicas ou de televisão, poderá mostrar às futuras gerações o pérfido retrato que restou.
Cidades do Sul brasileiro, inclusive capitais, a exemplo do ocorrido com Manaus, passaram a enfrentar a mais trágica experiência de sua história. Não havia mais leitos de tratamento intensivo, os profissionais se achavam em exaustão máxima, as estatísticas de transmissão ou de mortes alcançavam novos limites, as ruas e movimento comercial estavam parados. A Covid-19 encontrava-se na espreita dos desatentos ou aos alheios ao malefício.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, repetiu a advertência de todas as entidades médicas do mundo e dos profissionais de Saúde, os mais conceituados ou os mais humildes e anônimos: A situação é grave e a tendência de ver piorar. “Estamos preocupados, - disse ele – e a preocupação não é apenas com o Brasil. Os vizinhos do Brasil, quase toda a América Latina. Isso significa que, se o Brasil não for sério, vai continuar afetando todos os vizinhos e até além. Não é apenas sobre o Brasil”.
O país acompanha, com inquietude, para não dizer medo, as medidas adotadas para não atrasar mais a imunização contra a Covid, em âmbito nacional.
Enquanto isso sofre a população na incerteza, e as famílias choram a perda de entes queridos levados ao túmulo.


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Por Manoel Hygino - 9/3/2021 08:06:41
Dia do Jumento

Manoel Hygino

Primeiro, o pequi, que pode desencadear uma guerra entre Montes Claros e Goiás. Agora, o Dia Nacional do Jumento, cujo projeto prevê uma data específica, por iniciativa do deputado Célio Studart, do PV-CE. O texto respectivo já foi protocolado na Câmara dos Deputados, não sei se antes ou depois da recente visita do presidente da República ao estado natal de tanta gente famosa.
A intenção é que, em 13 de maio, a data seja comemorada anualmente. O parlamentar justifica que umas das intenções é homenagear o padre Antônio Batista Vieira (1919-2003), fundador do Clube Mundial do Jumento, em 1996. Studart diz que o texto ajuda a conscientizar a população sobre a importância de proteger os jumentos, “que são patrimônio nacional, histórico e cultural”. “A espécie corre o risco de extinção, devido a ações extrativistas perpetradas por empresários e com o aval do governo”, justificou.
No velho Israel (que não é o de agora, o grande vacinador contra a Covid 19), os jumentos eram as montarias de propriedade de dois juízes: Jair e Abdon. Aquele tivera 30 filhos, 30 cidades e 30 jumentinhos, em cima dos quais andava com os filhos (Juízes 10,3-4). Abdon foi mais cuidadoso: 40 filhos e 30 netos, os quais montavam 70 jumentos (Juízes 12,13-14), como está em livro do meu confrade na Academia Mineira de Letras, Pedro Rogério Moreira.
Aliás, “jumento bravo” foi como o Senhor qualificou Ismael, o filho nascido da união da escrava Agar com Abrão, depois, Abraão. No Gênesis 16:12, está escrito: “Este menino será como um jumento bravo; sua mão se levantará contra todos e a mão de todos contra ele; e levantará sua tenda diante de seus irmãos”.
Repito o confrade: “o Senhor não reconheceu Ismael como filho de Abraão, pois declarou ao pai dele Isaac, filho único”.
Abandonados pelo pai, Ismael e a mãe Agar perambularam pelo deserto até se fixarem perto do Egito. Ele tornou-se hábil flecheiro. Casou-se com uma egípcia, viveu 137 anos e deixou grande descendência na fronteira de Israel com o Egito. Final: aparentemente, não guardou mágoa de Abraão, pois compareceu a seu sepultamento.
Perdoar faz bem.


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Por Manoel Hygino - 6/3/2021 07:32:08
A ronda trágica

Manoel Hygino

No Brasil, ponderável parcela da população crê que o dia 13, quando cai numa sexta-feira, é aziago: algo triste, aflitivo, fatídico, pode acontecer. Este ano, contudo, o 26 ocorreu numa sexta e poderia causar males em dupla dose.
Um ano antes, no dia 26 de fevereiro de 2020, registrara-se o início da Pandemia, a maior do mundo em qualquer tempo. Era uma quinta-feira de Carnaval e daí poucos estabeleceram liame com tormenta de tamanha e tão graves consequências.
Transcorrido um ano, avalia-se que uma hecatombe desencadeou-se sob nossos olhos, sem que boa parte da população se desse conta do macabro evento. Em verdade, uma imensa tragédia se abateu sobre o planeta, documentado fartamente pelos meios de comunicação. Jamais, nunca, em tempo algum, assistiu-se a catástrofe que não se queria ver. O pior cego...
Os jornais ocuparam boa parte – ou parte inteira – da primeira página do dia 26, com os números confirmados. As providências que cabia ao governo adotar desde a primeira hora vieram incompletos e com atraso, o que se há de compreender, pois o próprio primeiro mandatário da nação, como o dos EUA, Trump, menosprezavam a extensão profundidade da tragédia anunciada.
A vacinação começou com retardo, porque havia os que nela não acreditavam. A imunização da população, que sempre constituiu um apanágio e glória para nossas equipes, se faz lentamente, porque faltava o essencial. Faltou até agulha para a vacinação esta semana.
Para evitar o pior – se houvesse pior possível: os governantes estaduais e municipais tiveram de adotar medidas drásticas e práticas para conter a transmissão do vírus, sobretudo após identificação das variantes que se tornaram agora uma tenebrosa inquietação. Tenta-se salvar o que ainda se pode.
Mas parte da população inconformada por ficar em casa pachorrentamente, ignorando as orientações dos protocolos, preferiu aglutinar-se nas noites para baladas, pancadões, bailes funks, que ampliaram e ampliam os horizontes sombrios da contaminação. Os apelos das autoridades médicas e da Imprensa têm sido insuficientes.
No mundo, totalizaram 112 milhões, os atingidos pela Covid, dos quais 2,5 milhões com óbitos. Mas a morte ainda ronda.



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Por Manoel Hygino - 3/3/2021 08:12:22
A hora crítica

Manoel Hygino

A mim me espanta ver que ainda haja quem se disponha a promover festas provocadoras de aglomerações neste tempo amargo de pandemia, como se viu no Rio de Janeiro, na semana passada. Para comemorar o quê, se já ultrapassamos a marca macabra dos 250 mil mortos? Dezoito estados determinaram medidas drásticas para reduzir o avanço do novo coronavírus e suas variantes no Brasil. Fevereiro foi recorde de morte nas nossas montanhas: um morto a cada 12 minutos. O sábado começou com a informação de que faltariam combustíveis nos postos. Nada pior àquela altura.
De minha terra, outras preocupações: aumento da ocupação de leitos Covid; muito alta a taxa de internação, com ocupação dos hospitais no limite. Em quatro dias, de uma situação confortável quanto a leitos, uma situação muito crítica; hospitais com 100% de UTI-Covid. Se a doença se alastrar nessa velocidade, é possível a cidade ficar sem assistência; a população precisa contribuir, para evitar a disseminação do coronavírus, como em todo o país.
Flávio Bolsonaro (o da Rachadinha, na Alerj) comentou: “O isolamento não adianta de nada e já sabemos o resultado”.
O presidente da Câmara dos Deputados defendeu o presidente nos projetos quanto ao acesso a armas de fogo. Que bom! Mata-se o vírus a tiro. Michel Ryan, executivo do Programa de Emergências da Organização Mundial de Saúde diverge: “É preciso prestar solidariedade à população brasileira e prestar o suporte necessário a que se acerte no combate à doença”. Adiantou: “A questão não é fácil. Uma lição agora para todos: é que isso não acabou para ninguém”.
Presidente Jair Messias Bolsonaro: “O povo não consegue ficar dentro de casa. O povo quer trabalhar. Esses que fecham tudo e destroem empregos estão na contramão daquilo que o povo quer. Não me critiquem. Vão para o meio do povo, mesmo depois das eleições, porque durante as eleições é muito fácil. Eu quero ver é depois”.
Notícia de todos os jornais e demais veículos do país em 27 de fevereiro: o índice de desempregados no Brasil é de 13,9%. Quase 14 milhões de pessoas.
Não se vê com bons olhos o futuro a curto e médio prazo. O brasileiro que se cuide, diante das perspectivas nada alvissareiras. Não é pessimismo.


85531
Por Manoel Hygino - 2/3/2021 08:29:05
A ficha do preso

Manoel Hygino

Sem desejar entrar no mérito do problema, que já fede a enxofre, não pode o jornalismo ignorar o que em derredor acontece, como no caso da prisão do deputado Daniel Silveira, que não estava na ficha suja para candidatar-se. Natural da bela Petrópolis, de que o insigne médico Oswaldo Cruz foi prefeito, o nobre parlamentar exercia o primeiro mandato, para o qual angariara 37.788 votos. Com curso de direito, professor de muay thai, o que não sei de que se trata.
Segundo um jornal, em 2007, foi investigado pelo uso de três atestados médicos falsos por faltar ao trabalho com o cobrador de coletivos em sua cidade natal. Seu currículo diz mais: Foi policial militar por seis anos. Por mau comportamento, cumpriu 54 dias de prisão e teve 14 repreensões e duas advertências por “cristalina inadequação ao serviço policial militar, mesmo tendo recebido inúmeras oportunidades, confirmando ineficiência do caráter educativo”.
Deixou a PM em 4 de outubro de 2018 para se candidatar a deputado federal. Como não havia completado 10 anos de serviço militar, não pôde se licenciar para concorrer. Em 2018, ganhou notoriedade ao exibir quebrada uma placa em homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco, num comício em Petrópolis.
Na Câmara, integrou a bancada mais radical do bolsonarismo. Durante a pandemia, foi alvo de ação civil pública do MP-RJ para impedir sua participação em atos contra o fechamento do comércio no Rio de Janeiro.
Em maio de 2020, Silveira disse “estar torcendo” para que manifestantes contrários ao presidente Jair Bolsonaro fossem atingidos por policiais. Na ocasião, o deputado gravou vídeo enquanto se dirigia para um ato no Rio de Janeiro com apoiadores do governo federal. “Vocês vão pegar um ‘polícia’ zangado no meio da multidão, vão tomar um no meio da caixa do peito, e vão chamar a gente de truculento”, disse em gravação.
Silveira se tornou alvo de dois inquéritos na corte suprema. Ironicamente, teve prisão motivada pelo crime previsto na Lei de Segurança Nacional (LSN), sancionada durante a ditadura militar (1964 – 1985), que ele defende.
O imbróglio ainda vai render muito, enxovalhando ainda mais a imagem do Brasil. Espera-se que não fira a “normalidade institucional”.


85528
Por Manoel Hygino - 27/2/2021 07:43:33

A hora amarga

Manoel Hygino

Correm os dias, e somos vencidos pela perversidade do coronavírus, uma tragédia anunciada, mas com tempo suficiente para revidá-la com providências cabíveis no campo científico, tecnológico e administrativo. Falhamos e não custa identificar os responsáveis pelos momentos difíceis de agora.
O mundo, o Brasil – porque é nossa terra – sofre mais do que deveria e se encontra em um beco quase sem saída, diante da lentidão de medidas indispensáveis, resultante da incompreensão e despreparo de nossos dirigentes. As notícias assustam e alarmam, mas são as que não se esperaria diante da responsabilidade, missão e importância dos que tem dever de cuidar da população.
Quais as previsões? As menos favoráveis, agravadas pelo desentrosamento entre áreas da gestão pública, por rivalidades esdrúxulas e por excessiva burocracia.
Inquieta o brasileiro mais atento à situação constatar que a população diminui diariamente com mais de mil mortes por Covid-19. A administração tem problemas de outra natureza, entre as quais as organizações criminosas, poderosas e atuantes até em nível internacional, como no caso das drogas, do contrabando, da sonegação de tributos, e tantos outros, integradas à corrupção.
No torvelinho interminável das ações dos fora da lei, furta-se ao povo o direito ao trabalho, capaz de sustentá-la, ou a educação sequer básica, já que a formação profissional é dificultada por ensino não à altura das necessidades mínimas e fator imperativo de acesso do jovem ao mercado de trabalho, já tão restrito.
O governo sabe que o brasileiro é pobre e passa fome, e reconhece que tampouco pode propiciar permanente adjutório emergencial, um faz de conta de expansão econômica. O chefe da nação confessa que o Brasil está quebrado. Mais do que isso, porém, não faz evoluir recuperação da vida nacional em plenitude, como se exige e o cidadão carece.
No que tange ao ensino e educação, é útil saber que, nos dois primeiros anos do atual governo, os investimentos do MEC foram os menores desde 2015. A situação tem impacto nas instituições de ensino superior e técnicos federais. Esses recursos estavam ou estão direcionados à expansão da oferta de políticas públicas, como aquisição de equipamentos, insumos para laboratórios e obras. Os pagamentos de salários e custeio do Ministério também passam por reduções.


85520
Por Manoel Hygino - 23/2/2021 08:14:38
Rachadinha ainda

Manoel Hygino

As “coisas” acontecem e se perdem no vendaval de notícias que a imprensa divulga e o presidente xinga, reiteradamente. Como se a razão dos problemas brasileiros residissem somente em possíveis erros e más intenções dos meios de comunicação.
Apareceu num cantinho de página de jornal. A Justiça do Rio encerrou em 21 de janeiro o inquérito que investigava William Bonner e Renata Vasconcelos, do Jornal Nacional, da TV Globo. O procedimento fora aberto a partir de notícia-crime apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro.
O filho do presidente alegava que os jornalistas tinham cometido crime de desobediência, por supostamente descumprirem decisão judicial proibindo a exibição de documentos sigilosos sobre o rumoroso caso da “rachadinha”. O hoje senador é acusado de ter chefiado um esquema de devolução de salários na Assembleia do Rio de Janeiro, quando Flávio era deputado estadual.
Na decisão de janeiro, a juíza Maria Tereza Donatti, do 4º Juizado Especial Criminal, se pronunciou, afirmando que o trancamento do inquérito é necessário ao livre exercício da “Imprensa”. E se encerrou, assim, a ação, no que tange a Bonner/Renata.
Aí reside a lentidão da Justiça, porque espocam incessantemente expedientes para atrasá-la, servindo aos interesses das partes. Este caso da “rachadinha” soma anos, no empurra empurra das áreas do Judiciário, geradas pelas iniciativas protelatórias dos que se julgam prejudicados.
No episódio em questão, encaixam-se outros, entre os quais o caso Queiroz, em que ganha espaço e realce o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que identificara movimentações suspeitas na conta do ex-assessor de Flavio. O Conselho encontrara depósitos duvidosos na conta do senador.
E assim se vai levando, mas a imprensa deve silenciar, senão leva xingatório do presidente, em termos que os próprios meios de comunicação procuram evitar, dado seu baixo nível. Não seria melhor agilizar o andamento do processo da rachadinha?
Estamos simplesmente adiando soluções, como interessa a alguma das partes. Quanto ao xingatório presidencial, o que preocupa é que as crianças e jovens aprendam o vocabulário. Enfim, não é esta a maneira de dirigir-se à comunidade um chefe da nação.
Veja-se como se conduziram os mandatários do povo em situações difíceis antigamente.
É também uma questão de respeito.


85515
Por Manoel Hygino - 20/2/2021 07:56:12
A Amazônia

Manoel Hygino

Em artigo de meados de janeiro, em Brasília, o professor e jornalista Aylê-Salassié F. Quintão, começava-o assim: “O futuro nem chegou e o governo, com milhares de famintos batendo às suas portas e os estados e municípios quase insolventes, já anuncia que está quebrado. Não estamos sós…”.
Depois, continua: “Viciado em opiniões e leituras acadêmicas, qual não foi minha surpresa recente, ao consultar, por curiosidade, um grupo de analistas de mercado da Seeking Alfa (Nova York), e deparar com gente altamente antenada na realidade conjuntural global e que se encaixa perfeitamente na realidade brasileira atual”.
E há mais: “Pequenas coisas, atos impulsivos, casuísticos, voltados para administrar questões temporárias e específicas, tendem a produzir efeitos imprevistos. Qualquer iniciativa pontual precisa ter seus efeitos futuros projetados e avaliados: consequências imediatas podem ser favoráveis, mas as últimas podem ser fatais para as economias, para os governos e até para os regimes políticos. Um pequeno bem no presente poderá ser seguido por uma catastrófica mudança no por vir”.
O que, afinal, pretende-se com a liberação para exploração das terras indígenas no Brasil? É um assunto de alta relevância e que se estuda há décadas. Já está suficientemente amadurecido para a decisão. Há uma imensidão de riquezas encoberta pela selva amazônica: petróleo, gás natural, ouro, diamante, minério de ferro e outros.
Há inúmeros aspectos a considerar: o desenvolvimento de atividades na região Norte, em áreas extremamente sensíveis a conflitos, pode institucionalizar a violência contra os povos indígenas. Tem-se de levar em conta que, embora proibida, a mineração é uma realidade em 700 mil km de florestas nas áreas demarcadas, segundo pesquisa. Trata-se, pelo que se vê e se sente, um problema que tem a ver com o mundo, daí o interesse de outras nações.
Paulo Haddad, economista e professor, ex-ministro, observou recentemente que, “em lugar do desmonte das políticas públicas ambientais, realizado por um governo populista e sem discernimento histórico, a Amazônia precisa que sejam consolidados os processos de preservação, conservação e reabilitação da sua riqueza natural, para que se possa evitar o empobrecimento de seus habitantes”. Mais? O pontífice, Francisco, em Encíclica, alertou: “Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando essas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos”.


85512
Por Manoel Hygino - 17/2/2021 08:16:28
Vacinação, antes e agora

Manoel Hygino

Oswaldo Cruz tem sido lembrado reiteradamente neste tempo de Covid-19. E razão há de sobra. Ele praticamente salvou o Brasil de uma derrocada, no princípio do século passado, quando das epidemias de febre amarela e peste bubônica em cidades grandes da costa Leste. Inclusive, Rio de Janeiro e Santos. Uma guerra real, porque as pessoas não queriam submeter-se às normas sanitárias. Mas triunfou.
Ao ser convidado a enfrentar, em seguida, a tuberculose e a varíola, causou um motim, vamos dizer, quase uma revolução. Para eliminar a varíola, teria de apelar para a vacinação, vista com horror por segmentos expressivos da população. Lois Mattos Miller lembra que, no Congresso, houve verdadeira repulsa. Um senador, que era professor de Medicina, chegou a dizer que “os agentes de Saúde Pública que ousassem penetrar em sua casa para vaciná-lo teriam de passar sobre seu cadáver”. Outro membro da Casa Alta do Congresso admitiu que o povo exerceria legítimo recurso contra a violência implantada, com uma revolução.
Boletins contrários à vacinação eram diariamente distribuídos pelas ruas cariocas, ainda com tinta fresca. Afirmava-se que Oswaldo Cruz e o presidente da República, Rodrigues Alves, eram contra a República e “faziam do povo cobaia, com instigação de charlatães egoístas”. Somente um levante poria fim à medida arbitrária. Multidões se dirigiam ao Palácio do Governo e ao Parlamento, em protesto.
Médicos que se opunham à imunização argumentavam que a vacina seria prejudicial à população. As medidas preconizadas por Oswaldo Cruz eram condenadas fortemente. A Imprensa contrária aos protocolos alertava até que médicos usavam seringas não esterilizadas, propagando doenças venéreas e provocando gangrena e morte e desrespeitando lares.
Registrou-se imensa revolta na Escola Militar. Um general, um senador e dois deputados, ao lado dos cadetes, dirigiram-se ao Catete em represália. Ambos foram feridos e os rebeldes decidiram se render. O número de mortos por febre amarela em 1903 somou 594 casos, decrescendo a zero em fevereiro de 1907.
Pois, na pandemia reiniciada em 2020, um que se opunha tenazmente à vacinação era o próprio presidente da República, supondo que determinado produto importado seria um santo remédio, mesmo sem o beneplácito de prestigiosas entidades de Saúde do mundo. Quase 240 mil pessoas já perderam a vida e muitos ainda tombarão à moléstia no país. E os brasileiros brigam para imunizar-se.


85511
Por Manoel Hygino - 17/2/2021 08:15:14
Começa a guerra do pequi

Manoel Hygino

Tudo começou quando o jornalista Luiz Ribeiro publicou, em periódico da capital, reportagens contando que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, protestaria contra a ideia de Montes Claros, cidade mais importante do Norte de Minas, seria oficializada como Capital Nacional do Pequi.
Em verdade, a titulação já era adotada há décadas, mas só agora um parlamentar federal, nascido em MOC (esta com quase 415 mil habitantes), o deputado Marcelo Freitas, acendeu a fogueira. Despertou o governador Ronaldo Caiado, que se ergueu contra a ideia. Está declarada a guerra Goiás x Montes Claros, um estado contra um município.
Luiz Ribeiro, nascido na cidade, como eu - ele ostentando o título de membro da Academia Montes-clarense de Letras -, percebeu que as chamas clareiam agora a extensão do problema. E o povo de sua/nossa terra é bom de briga, desde o tempo de apenas Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José de Formigas. Depois, no Segundo Reinado, com a rivalidade entre Liberais e Conservadores, só havia paz quando o interesse da cidade era reconhecido.
Caiado, formado na escola de valorosos conquistadores da terra goiana, médico e político atuante, com presença expressiva nos embates parlamentares e nas reivindicações de seu povo, considera chegada a hora de defender o pequi, que representa a culinária e a cultura goianas. Mas o mesmo dirão os montes-clarenses, que chegaram antes ao cerrado. Não retrocederão, até porque, já está cristalizada a fama do pequi mineiro, indispensável à mesa sertaneja e responsável por ponderável fração da economia regional. Sem esquecer o óleo e o licor.
Faço um depoimento pessoal: certa vez, esperando a chegada do trem de ferro lá pelas bandas de Granjas Reunidas, devorei, com a ajuda de um único amigo, também rapazelho, uma gamela inteira de pequi cozido. E sobrevivi.
Uma guerra de pequi se sentirá de longe, tal o poder de dispersão de seu cheiro em derredor, o que identificaria o campo de batalha, de que se afastariam decididamente os que não o suportam o odor. E não são poucos. Assim, o que me parece mais indicado é não se aproximarem os que não se interessam pela briga. Montes Claros é ciosa de suas responsabilidades e valores históricos e tem a experiência de 1930. Os inimigos que se cuidem.


85504
Por Manoel Hygino - 12/2/2021 08:01:43

O Pavilhão da Gameleira

Manoel Hygino

Há exatos cinco décadas, uma estrutura de mais de 80 metros de comprimento e com quase 10 mil toneladas desabava sobre uma centena de operários na construção do Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte. Assim, jornal de Belo Horizonte se referiu, em edição de 4 de fevereiro, à tragédia que enlutou dezenas de famílias e lhes deixou um rastro de dor, não completamente apagado.
O projeto visava implantar um grande centro de exposições de produtos de Minas Gerais, em termos minerais e industriais, que substituiria a antiga Feira Permanente de Amostras, onde se instalou a Rodoviária.
Israel Pinheiro, governador de Minas, queria manter vivo, em quem viesse à capital, o que o Estado produzia, revelando sua importância econômica. Estava-se no final da gestão, que se esgotaria em março, mais de cinco anos, pois, de governo.
O autor do projeto era Oscar Niemeyer, que já criara o do Conjunto Arquitetônico da Pampulha e, depois, da nova capital brasileira, no Planalto Central. Israel, no tempo de Valadares, implantara a Cidade Industrial e as estâncias hidrominerais de Araxá e Poços de Caldas, dentre outros empreendimentos marcantes, e esperava inaugurar o Pavilhão de Exposições, cujo vão central seria o maior do mundo.
Todas as manhãs, o governador ligava para a obra para conhecer o recalque dos pilares. Ele conhecia obra e a acompanhava como a uma criança. No ocaso, não queria decepcionar-se. O desabamento resultou em 65 mortos e 50 feridos.
Para remover os escombros, a Vale e a Mendes Júnior se colocaram à disposição, mas o desastre era maior do que se supunha. Os Bombeiros, sozinhos, não davam conta, até porque, se pretendia salvar operários. O peso da laje principal era de mais de 100 mil toneladas.
Jamais ouvi de Israel, com quem me encontrava todas as manhãs no Palácio, qualquer insinuação ou ordem para acelerar o empreendimento, a fim de inaugurá-lo em seu mandato.
O terceiro andar do Palácio dos Despachos se enchia de personagens importantes. Inclusive, Joaquim Cardozo, cujo escritório se encarregara dos cálculos estruturais da obra monumental.
Não restava muito a fazer, senão buscar os ainda vivos do restante das pesadas peças de concreto resultantes do desabamento. O governador não derramou uma lágrima, embora chorasse por dentro. Os únicos que poderiam falar à Imprensa éramos o redator destas linhas e o ex-senador José Augusto Ferreira Filho. No fundo, havia pouco a esclarecer. Os fatos, dolorosos, diziam tudo.



85502
Por Manoel Hygino - 10/2/2021 07:59:24
Obra para sempre

Manoel Hygino

Precioso livro foi lançado em 2020 pela Chiado Books (Brasil, Portugal, Angola e Cabo Verde), mas precisa ser reconhecido em sua grandeza e importância. Refiro-me a “A Saga de Antônio Dó”, na versão definitiva que lhe deu o autor, Petrônio Braz, com cerca de 700 páginas.
A escritora Isabel Cabral Costa, da Associação Portuguesa de Escritores e embaixadora da Língua Espanhola em Portugal, exalta a obra de Petrônio Braz, fruto de 23 anos de estudos do personagem, da época e da região em que viveu, para enfim apresentar uma reconstituição, que se poderia classificar de histórica. Nele se descreve a luta do protagonista, contra o despotismo dos coronéis, impondo pela força a justiça numa terra sem lei.
Antônio Dó poderia ser incluído entre aqueles que o excelente crítico Fábio Lucas considera “heróis forjados no sofrimento e no desafio”, integrantes de “grupos de bandoleiros pelo sertão, numa luta pelo poder hipotético, fixando o lúdico exercício de viver perigosamente”.
A situação do território em que viveu Antônio Antunes de França (Antônio Dó), baiano de Pilão Arcado, nunca foi pacífica, já que reivindicada a direita do Rio São Francisco pela Bahia, como defendido pelo governador geral Marquês de Angeja. Antônio Dó – para evitar problemas – muda-se para a faixa mineira de São Francisco, adquirindo fazenda em Boa Vista, a quatro léguas. Segundo Brasiliano Brás, já com pequena fortuna, Dó entra em atrito com o poderoso fazendeiro Manoel Francisco da Silva, que manda invadir a propriedade. Humilhado na Delegacia de Polícia, embrenha-se pelo sertão para arquitetar vingança. A partir daí, segundo Petrônio, o personagem “transpõe as características regionais para universalizar a problemática dos seres vitimados pela opressão”. Perseguido, não se transformou em bandido, mas num homem sem medo, disposto a lutar até a morte por seus direitos. E morre, simplória e ingloriamente. Enfim, a obra é um dos melhores lançamentos no Brasil em 2020.
Petrônio, com a nova edição de sua obra, se consolida como um dos maiores pesquisadores da grande região norte-mineira, polo de acontecimentos não suficientemente conhecidos até hoje, mas relevantes para verdadeiramente se conhecer a terra e as gerações que ali se forjaram. Elas contribuíram para definir o próprio mapa da província e do Estado, enfim, do Brasil.


85500
Por Manoel Hygino - 9/2/2021 08:39:30
Sputnik voa alto

Manoel Hygino

Há quase um ano, a pandemia do coronavírus nos alcançou e não mais nos abandonou. Um período dos mais tristes da história deste país, com mais de 230 mil vítimas fatais. E quando a terrível praga, que segue desafiando a ciência e o poder público de todas as nações, nos deixará em paz e saudáveis? Ninguém responderia com segurança.
O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta por divergências profundas com o atual mandatário nacional, não é otimista. Ele admite mais 60 dias para o aparecimento de uma megaepidemia, em decorrência da variante do vírus que apareceu no Amazonas:
"O Ministério da Saúde não tem credibilidade, afirma. Temos mais uma crise, essa nova variante em Manaus, em que o mundo inteiro está fechando os voos para o Brasil e nós estamos enviando pacientes para outros estados sem fazer os bloqueios de biosegurança. Provavelmente, a gente vai plantar essa cepa em todos os territórios da federação e daqui a 60 dias a gente pode ter uma megaepidemia". "Ele (Bolsonaro) insistiu, durante muito tempo, em teorias muito frágeis, de que o Brasil era um país tropical, que aqui não teria doença, que o brasileiro morava no esgoto (e era resistente a todos os vírus), depois falou que era uma gripezinha. Ele minou completamente o espírito de quem tinha que se prevenir".
Mas Mandetta parece benévolo. Este 2021 nasceu condenado. Os jornais do dia 1º já ostentavam uma nota alarmante: A cada 15 minutos, um mineiro morre de Covid. Em janeiro, o Estado registrou o maior número de mortes desde o começo da temporada letal. No atual ritmo, Minas levaria 5 anos e 2 meses para vacinar a população. E, para controlar casos e mortes, seria necessário imunizar 90% dos cidadãos, conforme especialista dos Estados Unidos. Abrigam-se nestas montanhas praticamente 22 milhões de pessoas. A imunização já se fez em 167.827. É só fazer as contas.
É horrível dizê-lo, mas caminhamos para 10 milhões de casos no país. Nosso Estado já sofreu mais de 15 mil óbitos.
No segundo dia do mês, mais de 100 mil aplicações haviam ido feitas no mundo. Mas 1/3 da população mundial, 35%, não começou campanha de imunização em massa, por falta de condições econômicas. Enquanto isso, a vacina Sputnik V tem eficácia acima de 90%, e está em nosso programa de imunização. Putin deve exultar-se.


85497
Por Manoel Hygino - 6/2/2021 07:59:07
Ezequiel Dias

Manoel Hygino

Apenas recentemente se soube que a Sinopharm ofereceu a Minas a oportunidade de os mineiros participarem da fase 3 de testes clínicos de vacina contra a Covid-19 e, em seguida, para sua produção. Proposta data de agosto de 2020, quando o estado se achava no pico de transmissão de infecções.
A Fundação Ezequiel Dias é um dos berços maiores desse tipo de pesquisas no Estado, seguidora da Fiocruz - Fundação Oswaldo Cruz -, de modo que a sua utilização poderia ser uma grande esperança para amenização da crise ora vivida. Mas não foi, o que é uma pena, porque a instituição poderia prestar excelentes serviços a Minas e à Saúde, além do que já faz desde sua criação, como Instituto Filial de Manguinhos, em 1907. É uma história bonita.
Então, o presidente de Minas, Francisco Salles, aliou-se à União para somar forças, à consecução do projeto, que muito satisfez Oswaldo Cruz, que já ideava a instalação de núcleos filiais nos estados.
A iniciativa deu certo, e o novo Instituto se inaugurou no quarteirão da Praça da Liberdade com Bahia, onde hoje está a Biblioteca Pública. Naquela época o nome mudou, mas ficaram dois funcionários essenciais: Ezequiel Dias, diretor, e Emiliano Olinto, zelador – preparador, como conta Pedro Salles, considerado o historiador de nossa medicina, ou um dos mais importantes.
O próprio Pedro Salles, de Pará de Minas, conta que Ezequiel era “um longilíneo franzino de muito talento e grande atividade, que adoecera muito moço” (o informante não revela a doença, mas dá para deduzir), sem lhe diminuir a capacidade de trabalho. Salles tampouco diz, mas Ezequiel se tornou cunhado de Oswaldo Cruz, trabalhando juntos no Rio de Janeiro, em Manguinhos, uma dupla perfeita.
Deslocado para o Maranhão para instalar o Laboratório Bacteriológico do estado, Ezequiel deu conta do recado, mas piorou seu estado físico, obrigando-se a vir para Minas para aqui implantar a nossa filial, com todo carinho, enfrentando dificuldades, mas concretizando seu propósito até 22 de outubro de 1922, quando faleceu, exatamente há cem anos.
A obra de Ezequiel pode e deve ser ampliada em favor de Minas e do Brasil. O caso das vacinas é um exemplo que precisa ser evocado. O estado e o país ainda terão desafios no campo da saúde.


85492
Por Manoel Hygino - 3/2/2021 07:53:00
Sem estribeiras

Manoel Hygino

Em fevereiro, tem carnaval. O assunto serviu de mote para músicas do período, tornado símbolo de um povo considerado cordial e alegre, mas não tanto como se propalava. Tornou-se propício a excessos de múltipla natureza, sobretudo de violência. Mas, neste ano muito singular de 2021, do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, como inserido em registros oficiais e em nossos templos religiosos, a situação mudou, a duras penas.
Grande parte do país – ou todo ele, praticamente – se curvou à imposição de um vírus que aparecera em laboratórios, há mais de um ano, e não dá sossego: o corona. Minas decidiu que não concederá ponto facultativo nos dias do Momo, de 14 a 20 de fevereiro.
Não haverá folga nem recesso para o funcionário público, sobretudo, visando evitar aglomerações e crescimento das infecções, embora o presidente da República deva estar articulando alguma fuga ao protocolo sanitário, como reiteradamente.
A maior cidade do Brasil seguirá Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, idem. Se houver ensejo, a festança fica para julho. Em Manaus, palco de enorme mortandade por Covid, e falta de oxigênio, também houve orientação das autoridades para que não se festejasse o carnaval. Será que ainda haveria gente disposta a sair pelas ruas em louvor a Momo?
No Brasil, é possível. A despeito dos avisos e recomendações, houve alegres aglomerações na passagem do ano. No aniversário de São Paulo, milhares e milhares de paulistanos se juntaram para comemorar, esquecidas do grande número de brasileiros que perdiam a vida. Não só: para enaltecer o título da Libertadores da América pelo Palmeiras. Multidões se formaram sem estribeiras, inclusive, resultando em mortos e feridos. E prisões.
Onde anda a solidariedade dos nascidos neste país, abençoado por Deus? Tenho meditado e não encontro explicação plausível. Estamos abandonando a cordialidade e os foros de civilização. A constatação se confirma, todos os dias, com ajuntamentos nos bairros e vilas, principalmente nos grandes centros, em que já se fazem tradicionais os barulhentos eventos, para impedir a tranquilidade e o sono dos que trabalharam em suas jornadas e desejariam apenas descansar. Transformar esse ambiente hostil é um desafio para o poder público, que não encontrou formas e fórmulas para equacionar o problema.



85490
Por Manoel Hygino - 2/2/2021 08:05:02
Bruta encrenca

Manoel Hygino

As organizações internacionais da área de Saúde confirmaram que o “tratamento precoce”, preconizado por Bolsonaro e seus adeptos no Brasil, não existia de fato e que os medicamentos que compunham uma fórmula salvadora contra a Covid-19 é ineficaz. Não deu certo, a despeito da insistência dos defensores desse tipo de medicamentos.
O problema caiu no colo do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que é um general da ativa do Exército Nacional. Este, diante das câmeras de televisão, confessou que o presidente dava ordens e ele cumpria.
O Tribunal de Contas da União deu cinco dias para que o Ministério da Saúde informasse sobre o uso de dinheiro público federal para distribuição de cloroquina pelo SUS, contra a enfermidade. Apesar da ausência de validação científica, o presidente e seu ministro apostaram no medicamento como estratégia de tratamento precoce. Um erro lamentável.
O TCU argumenta que o remédio só poderia ser fornecido pelo SUS para tratar a doença se houvesse autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de organizações sanitárias estrangeiras credenciadas. Não foi o caso. Acusado de orientar o uso da cloroquina, em nova viagem a Manaus, ainda em colapso, Pazuello se viu em apuros, porque teria ou terá de referir-se a uma orientação presidencial, suficientemente provada por televisões e rádios.
Uma brutal encrenca, que não é a única no caso. Aí me deu de escrever sobre a palavra:
Encrenca – “Negócio intrincado, caso difícil, assunto que compromete; posição crítica, aperto, entalação, conflito” (gíria). Raul Pederneiras diz que essa palavra é oriunda da gíria dos ladrões. Segundo Antenor Nascentes, “o vocábulo se popularizou pela Guerra de 1914”.
Houve quem visse aí o elemento krank, “doente”, difundido pelos teuto-brasileiros de Santa Catarina. Outros acham que encrenca provém do Rio Grande do Sul, em contacto com o espanhol platino, de enclenque, “enfermiço, falta de saúde”. Há quem veja no verbo encrencar (e daí encrenca) cruzamento alemão ant. lenka, “defeituoso”, e daí a ideia de “difícil, desfavorável”, com o latino clinare, “inclinar”. Encrenca mesmo.


85487
Por Manoel Hygino - 1/2/2021 08:07:33

Os bons votos: `Gosto de ouvir as pessoas de bem`

Manoel Hygino

Gosto de ouvir as pessoas de bem, porque vêm nos indicar os caminhos da vida. Assim, com satisfação, registro às observações do Dr. Isaías Caldeira, juiz de Direito da comarca de Montes Claros, minha cidade natal. Dando ciência dos votos natalinos que lhe enviara, respondeu:
“O último dia do ano não é o último dia dos tempos, outros dias virão... Só desejo-lhe coragem, que não se confunde com valentia, que é o medo em seu estado bruto. Coragem para se reconhecer frágil, mas capaz de arrostar os perigos, reais e imaginários, que se escondem nos caminhos de todos e são causas de todos os sofrimentos. Se a tragédia é companheira dos homens, é preciso deixá-la seguir ao lado, mas sem aumentar seu portento - nunca de mãos dadas. Nas perdas que mancham o calendário, colocando luto nos seus dias, manter presente a Sabedoria, que manda tirar o seu manto após um mês, pois breve será sua vez.
Pessoas morrerão, mas outras tantas virão, nesta engrenagem chamada vida, de modo que a obra Divina jamais seja privada de louvores e encantamentos, neste mistério que guarda as coisas mínimas e as infinitas, tão diferentes em suas manifestações, mas da mesma substância atômica. Lembre-se de que nos apaixonamos pelas escolhas e muitas vezes elas são equivocadas. Então, tente vencer, sempre que possível, o desejo das querelas inúteis, porque a verdade brotará independente de suas convicções, mesmo quando escondida sob os mais profundos argumentos, porque a retórica também afirma razões dos sofistas.
Recordo que as pessoas não são ruins, excetos os sociopatas, e em geral apenas escolhem de forma errada o caminho, que, uma vez escolhido, torna- se difícil mudar - poucos terão uma estrada de Damasco em suas vidas. Ame sua família e seus amigos. São seu real patrimônio e a gente tem o vezo de esquecer as coisas óbvias. De vez em quando, faça algo diferente, como por exemplo, doar uma feira para uma família carente, sem avisar e de preferência sem se nominar. A certeza da alegria de quem precisa e recebe renovará sua alma e você se sentirá à semelhança de Deus, que mesmo aos que não o conhecem, distribui graças todos os dias, desde o inicio dos tempos.
Na doença, firmeza, sempre na esperança de saúde. Mas não se desespere com medo do amanhã. A ansiedade paralisa os homens, deixando a imaginação construir seus castelos de areia, onde o medo se faz inquilino, cobrando tributos ao senhorio. A cada dia, seu mal está escrito. Enfim, todas as coisas podem acontecer, pois o amanhã é mistério que só o Altíssimo conhece. O que importa é que você está vivo e um ano novo se inicia, com novas oportunidades e desafios. Desejo que você esteja sempre renovado na esperança, que nos alimenta a vida, e na fé, que nos afirma a eternidade”.


85475
Por Manoel Hygino - 27/1/2021 08:03:03
O aperto do ano

Manoel Hygino

Estamos desembarcando atropeladamente no segundo mês do penúltimo ano do quatriênio de Jair Messias Bolsonaro. Quando chegarmos ao ocaso de 2021, apenas registraremos o fim do trágico período da pandemia do coronavírus, que terá consumido milhares de vidas mais, além das quase 220 mil até aqui computadas. Quantas serão?
Em termos de reformas, o Brasil contabilizou até aqui a da Previdência, porque as demais poderão vir – ou não – a partir das confusas articulações políticas que ora se fazem e que compreendem já a eleição para as mesas do Senado e da Câmara dos Deputados.
O fim da pandemia, em tempo incerto, não será o término de todas as mazelas que carregou consigo. Verdadeiramente, será a partir deste ano que mais se sofrerão as danosas consequências da maior e mais grave de quantas a antecederam na história. A humanidade, que tanto já padeceu e se afligiu em 2020, muito ainda sentirá as repercussões dramáticas que o vírus legou. É momento de muita dor e sacrifício, que repercutirá em todas as atividades humanas. Os erros administrativos e políticos cometidos no Brasil até aqui poderão atingir seu limite máximo.
Enfim, quando ocorrerá a reforma administrativa? E a tributária, sem a qual nada se conseguirá de mais duradouro na vida brasileira? Como se comportará a nação em termos de relações internacionais, após a saída de Trump da Casa Branca e da submissão do Planalto a suas posições? Como comportará o Brasil em face da China, há uma década nosso principal parceiro comercial? E as privatizações quedarão apenas em promessas? Não por menos, o presidente da Eletrobrás pediu o boné e se foi.
Onde, como e quanto, a nação irá conseguir vagas de trabalho para 15 milhões de brasileiros ora disputando restos de comidas ou vivendo graças a instituições religiosas e a ajuda, em cestas básicas, de empresas e pessoas? Haverá um novo auxílio emergencial, que tanto amparou pessoas durante a perda de alimentos pela pandemia? Onde levantar fundos para cobrir a elevada despesa, que beneficiou mais de setenta milhões de domicílios?
O presidente se explicou: “O Brasil está quebrado. Não posso fazer nada”. Mas a nação, que comemorará seu segundo centenário de Independência no ano vindouro, precisa de alento de seu povo, do discernimento de seus dirigentes para alcançar pelo menos com tranquilidade efetiva os dois séculos de autonomia oficial. Resta muito a fazer.


85474
Por Manoel Hygino - 26/1/2021 10:39:52

Paulo Narciso: Não conheci o Tião Camurça, mas rendo minha tardia homenagem a quem trabalhou, nas madrugadas frias ou quentes, para imprimir "O Jornal de Montes Claros". Solitário e silenciosamente, ele contribuiu para que a voz da cidade, em alegria ou pranto, fosse sentida. Era um desses que merecem o reconhecimento e a saudade, como sinto neste momento em que leio a notícia de seu passamento.
Ele morreu, seguiu o caminho do jornal a que devotou grande parte de sua vida. Que tenha a paz que merece.


85473
Por Manoel Hygino - 26/1/2021 07:47:27
Transplante de medula

Manoel Hygino

O dia era 13, uma quarta-feira, mas, muito próprio para um belo ato. Refiro-me à inauguração do Instituto de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular, uma nova unidade da Santa Casa de Belo Horizonte, que possibilitará a realização de mais procedimentos e oferecerá mais segurança aos pacientes.
A filantrópica, que foi o primeiro hospital a aqui se instalar, criada em 1899, já é um dos maiores hospitais transplantadores de órgãos, tecidos e células, no Brasil. Nos últimos anos, vem ocupando lugar de destaque em transplantes de rim, fígado, coração, córnea, medula óssea e ossos, atendendo todas as regiões do Brasil. Agora, dá mais um importante passo para oferecer tratamento de excelência para centenas de pessoas, com o Instituto de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular.
O Instituto de Transplante conta com nove leitos equipados com High Efficiency Particulate Air (HEPA), um filtro de tecnologia avançada, que garante a eliminação de, praticamente, 100% das impurezas do ar, o que é extremamente importante aos pacientes em tratamento. O empreendimento foi financiado com recursos da própria instituição e do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon).
Não se há de pensar só em Covid, que está demorando sair de nossas preocupações permanentes, após um ano de inquietação, não só aqui, mas em todo o mundo. Quando eliminado o vírus fatal, que causa tanto mal e provoca tantas lágrimas nas famílias, outras enfermidades restarão e merecerão cuidados e estudos dos profissionais da medicina e entidades representativas. Isso não pode ser esquecido.
Maior transplantador hospitalar de Minas, inclusive para cirurgia de transplante cardíaco pediátrico, atendendo a todo o país, no ano passado deu assistência cirúrgica a clientes de 13 estados, além daqueles procedentes de mais 79 municípios, de todas as regiões mineiras.
Agora, outro projeto em execução é o do Instituto de Oncologia, que nos remete a uma referência ao Instituto do Câncer, inaugurado em 7 de setembro de 1922. Para sua construção, contribuíram os médicos notáveis da capital à época, a começar por Eduardo Borges da Costa, cuja vida vale um filme; ele, que entrou para a Santa Casa, em 1906, como cirurgião, sob condição de não ser remunerado, por exigência dele. Em 1919, o problema do câncer já preocupava os médicos. Estes, então, se reuniam na casa de Ezequiel Dias para discutir soluções.
Participavam dos encontros: Álvaro de Barros e Marques Lisboa, além de vários outros de prestígio. Em junho de 1920, Borges com8unica a fundação do Instituto do Câncer e Radium, com apoio do presidente do Estado, Artur Bernardes. Teve repercussão internacional. Em 1926, Mme Curie, Nobel duas vezes, veio pessoalmente conhece-lo. Estava em pleno funcionamento.


85470
Por Manoel Hygino - 25/1/2021 08:04:28
Lição de solidariedade

Manoel Hygino

Foi necessário o sacrifício da saúde e da vida de inúmeros brasileiros para o governo crer que aqui existia não uma gripezinha, mas uma enfermidade de enorme agressividade e causadora de inédita letalidade. Praticamente 8,5 milhões de brasileiros contaminados pelo coronavírus e 209 mil perdendo a vida, altas autoridades se convenceram efetivamente que se enfrentava a maior pandemia da história e que não seria alimentando divergências políticas (?), que se venceria essa guerra.
Foram imprescindíveis mais dores e sofrimento. A falta de oxigênio para os enfermos de Manaus levantou a cortina da impostura e se sentiu, em todo o mundo, a tragédia dos que morriam no Brasil por falta de insumo essencial. O desespero dos doentes, e o dos profissionais de saúde ao assistirem de perto a aflição alheia, despertou a noção para o que acontecia no maior país do hemisfério Sul das Américas. Em verdade, percebeu-se que a situação era gravíssima e que a chegada da vacina da Índia e de insumos às áreas de consumo retardava em decorrência de disparatadas e até conflitantes providências iniciativas e posições oficiais.
Em todas as nações do planeta, viu-se pelas televisões, ouviu-se pelas rádios e leu-se na Imprensa escrita, a sucessão de lágrimas e lamentações de familiares que não encontravam leitos para seus doentes ou sobre falta de oxigênio, que atingia também nascituros. Milhões se associaram a essas expressões de aflição, diante daquilo que se dizia uma tragédia anunciada.
Em Belo Horizonte, os números davam um alerta máximo. Na sexta-feira, dia 15, os jornais anunciavam 2.061 mortos pela Covid. Cresciam os três principais indicadores de gravidade. A ocupação dos leitos de CTI estava em 86,3% e os da enfermaria alcançavam 77%. O número médico de transmissão por infectado atingiu 1,08. Na Santa Casa, o maior hospital SUS de Minas Gerais. Os leitos intensivos disponíveis somavam 97%, ninguém descansava.
A liberação das vacinas da Sinovac/Butantan, como aprovado pela Anvisa, no domingo passado é uma esperança. Mas não resolverá o problema. A pandemia vai continuar e a missão dos que se dedicam a seu combate seguirá difícil. A população precisa conscientizar-se da politicagem acabar.


85462
Por Manoel Hygino - 20/1/2021 08:05:28
Despede-se um Andrada

Manoel Hygino

Em 7 de outubro de 2020, Bonifácio Andrada, membro da Academia Mineira de Letras, em que ocupou a Cadeira nº 15, encaminhou aos confrades o volume 75 – Perfil Parlamentar, da Câmara dos Deputados, sob título de “José Bonifácio Líder Parlamentar da Revolução de 1930 e Embaixador do Brasil”, de autoria de Ligia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria, cuja obra aqui já aqui se comentou.
Dois meses decorridos, o presidente Rogério Faria Tavares, da AML, cumpria “o doloroso dever de informar o falecimento”, em 5 de janeiro de 2021, do acadêmico Bonifácio Andrada, titular da cadeira cujo patrono é Bernardo Guimarães.
Observa Faria Tavares: “Eleito para a AML em 2001, na sucessão do desembargador Hélio Armond Werneck Côrtes, o saudoso Andradinha foi homem público notável, culto e experiente, professor de talento e competente dirigente universitário, sempre comprometido com as causas da Educação e da Cultura. Integrante de uma das famílias mais importantes da sociedade brasileira, exerceu mandatos parlamentares ao longo de 60 anos, sempre com correção e espírito público. Fará muita falta e deixará lacuna perene na Casa de Alphonsus de Guimaraens”.
Andradinha foi um trabalhador incansável. Nascido em Barbacena, há 90 anos, foi deputado estadual por quatro mandatos, além de atuar em dez legislaturas na Câmara Federal, somando ali 40 anos, pois, de labor parlamentar. Professor e advogado, exerceu a vereança em sua cidade natal. Reitor da Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), mestre de Direito em universidades, como a de Brasília e na PUC-MG, integrou a Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas e o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
De Andradinha, poder-se-ia dizer o que outro presidente da Academia Mineira de Letras, Murilo Badaró, afirmara do embaixador José Bonifácio, no seu centenário de nascimento, em 1971. Enfatizou que o confrade que recém partiu “herdou dos ancestrais as virtudes cívicas que mais enobrecem o homem”.
A têmpera dos Andrada moldou-lhe o espírito, mas o seu espírito irrequieto, não se contendo dentro da tradição genealógica, já de si gloriosa, conquistou, por esforço próprio, altitudes que só os grandes conseguem.
Advogado militante, sempre fez do Direito a fortaleza contra a opressão: professor, iluminou, com sua cultura de bondade, os jovens de sua terra; vereador, jamais descurou dos problemas municipais de sua Barbacena; só divulgou o bem e a verdade; deputado federal, destacou-se na luta em prol dos interesses nacionais.


85459
Por Manoel Hygino - 19/1/2021 08:07:12
Pior que a Covid

Manoel Hygino

Aparentemente, a Revolução de 1964 já queda muito longe, mas os fatos que a marcaram, que a geraram, ainda estão próximos. Daqui a pouco, chegaremos apenas aos seus 57 anos, o que dá ideia de quão perto nos encontramos e há, inclusive, aqueles que defendem seus méritos e pregam, o seu ideário. Há prosélitos para tudo, enfim.
Armando Falcão, uma das figuras centrais da política brasileira à época, quando teve ensejo se manifestou, contando casos e causos da revolução que eclodiu na noite de 31 de março de 1964 para 1º de abril, no brasileiríssimo Dia da Mentira.
Falcão, deputado federal durante várias legislaturas, ministro da Justiça de dois presidentes tão diferentes como Juscelino e o general Geisel, tinha o hábito, depois de reuniões com os chefes da nação e outras nos altos escalões, de dizer à imprensa: “Nada a declarar”.
Após uma temporada de silêncio e de deixar a vida política, resolveu “abrir o bico”. E o fez pelo livro “Tudo a declarar”, da Nova Fronteira, uma boa fonte de consultas para quem interessar-se em saber mais sobre época importante da vida brasileira.
O conteúdo se revela muito útil a que melhor se sinta o que foram os governos militares. Armando Falcão conta, por exemplo, que – nos primeiros meses da Revolução – foi criada uma Comissão Geral de Investigações (CGI), com jurisdição em todo o território nacional, obedecendo a um rito sumário.
O órgão, formado por representantes da Marinha e do Exército, teve como primeiro presidente o marechal Estêvão Taurino de Resende, muito cioso de suas responsabilidades naquela fase difícil da vida nacional.
A sede da CGI foi sempre no Rio de Janeiro e, segundo Falcão, entre os processos examinados pela Comissão, havia alguns que tinham como personagens centrais cidadãos conhecidos e prestigiados na vida pública ou empresarial brasileira, homens probos.
O general muito objetivamente afirmou, depois de iniciados os trabalhos da CGI, sem temor e sem pestanejar: “O problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”.
Ninguém contestou.
Quem se der ao trabalho de percorrer as páginas do livro, certamente poderá espantar-se ou se assustar. Homens de caráter ilibado, ou como tal considerados, estão relacionados, e o autor se refere aos fatos de que acusados, como procedeu a CGI, resultaram nas investigações. Muitos, evidentemente, já faleceram, mas suas peripécias na política ou na gestão de cargos públicos são descritos com as minúcias possíveis.


85454
Por Manoel Hygino - 16/1/2021 07:30:53
Época de incertezas

Manoel Hygino

Com a Covid-19, à medida que o tempo passava, de maneira iniludível, com números e outros dados de conceituadas instituições, consolidava-se a previsão de tratar-se da mais longa e letal pandemia jamais enfrentada pela humanidade. E os meios de combatê-la, após praticamente um ano de seu surgimento, só se tornavam conhecidos e confirmados no cotidiano de enfermarias, CTIs, laboratórios e, por que não dizê-lo, dos necrotérios e cemitérios.
Apanho, a guisa de informar-me, noticiário da mídia: em Barbacena, menina de 4 anos morre depois de internada 15 dias, com causa atribuída ao coronavírus; em Ipatinga, moça de 15 anos falece, no Hospital Municipal, quando já madrugada; naquele dia, os casos registrados no país totalizaram 7.504.833; sim, mas de 7 milhões e meio de pessoas.
No Norte de Minas, em Montes Claros, após sete dias em CTI, faleceu o ex-vereador Nelson Pinheiro, aos 88 anos, de Feira da Mata, BA, a 388 km - 77 registros de casos positivos, com pacientes masculinos e femininos, entre 0 a 89 anos, na cidade-polo da região.
A danada não dá folga às equipes médicas de todas as nações, já desfalcadas interminavelmente de componentes. A última esperança residia na vacina, demorando a chegar ao Brasil, enquanto se identificam mutações no vírus em exames no Reino Unido.
Na França, pesquisa publicada pelo “The Lancet Respiratory Medicine” com doentes hospitalizados com a Covid ou gripe, demonstrou-se, no maior estudo realizado para comparar as duas doenças, que a Covid é muito mais letal do que a gripe. A taxa de mortalidade desta é três vezes maior do que a gripe sazonal, sendo a situação a pior dos cinco anos na França, numericamente.
Os pacientes da Covid exigiam mais tratamento intensivo do que os gripados. A despeito de tudo isso, ainda há aqueles que não se sensibilizam com a gravidade do problema, que é mundial, terrível para todos os povos e risco para todas as pessoas neste princípio de século. Já anotei aqui: o pior cego é aquele que não quer ver. Nos incrédulos, além de cegos, são também surdos.
O jornalista e professor Aylê-Salassié F. Quintão comentou sobre o final do ano pretérito e o que o segue. Para ele, 2021 nada oferece senão incertezas, à semelhança daquelas prognosticadas, no ocaso do século passado, pelo economista John Kenneth Galbraith, ao avaliar o avanço da globalização, o aparecimento de megas corporações, a queda dos regimes comunistas e a difusão ampla de novas tecnologias.
“O cérebro humano não acompanha tantas mudanças, diz o médico psicanalista Montserrat Martins. O homem não consegue assimilar o fato de que somos uma espécie com milhares de anos de evolução (Noah Harari: Sapiens) , com um sistema nervoso programado para reações de “luta e fuga” que lhe assegura a sobrevivência. As incertezas desnudam no cidadão uma crescente perda de autonomia e confiança. Ele precisa a aprender a conviver com as incertezas, e não esperar angustiado que o Governo, resolva problemas pessoais.


85446
Por Manoel Hygino - 13/1/2021 08:20:19
Fuzuê no Capitólio

Manoel Hygino

Os acontecimentos da quarta-feira, 6 de janeiro de 2021, em Washington, poderiam ter sido registrados em qualquer nação do mundo, menos nos Estados Unidos da América, considerados paradigma em termos democráticos. Os heróis da Independência, os que sonharam a pátria do entendimento, paz e liberdade, terão revolvido seus corpos sob a terra em sinal de surpresa e indignação.
O que ocorreu na capital americana, com a invasão programada do Capitólio, foi algo que apanhou de surpresa o mundo ocidental principalmente, que sempre viu na pátria de Lincoln e George Washington exemplo para todas as nações do planeta, quanto à prática do jogo democrático.
Pareceu mais do que nunca que a grande nação do Norte se transformara em uma das repúblicas de bananas do hemisfério Sul do novo mundo, em que presidentes se julgam no direito de exercer a chefia do Executivo por mais de um mandato, sem consulta ao eleitorado. De um instante para outro, Trump, cujo mandato se esgota, fez o papel, ridículo – diria eu, de um dos ditadorzinhos fabricados entre povos do Sul do continente.
Lembrar-se-ia, agora, aquele samba que foi sucesso na música popular, em que se cantava: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Com a vantagem de que, na capital dos EUA, os invasores entraram devidamente fantasiados carnavalescamente e ingressaram nas nobres dependências do Capitólio armados com vários instrumentos de força como se fossem a uma batalha campal. O que até certo o foi, resultando em mortos e feridos.
Num passe mágico, Washington se transformara em Caracas, enquanto o presidente americano se igualava a Nicolás Maduro e se afirmara novamente eleito presidente da República, como aquele tem feito desde a morte de Hugo Chávez.
Mas a sempre criticada imprensa já levara a todos os recantos da Terra, as declarações insanas do ainda atual ocupante da Casa Branca de que as eleições de novembro tinham sido fraudulentas. Mas a afirmativa, reiteradamente utilizada por Trump, via mídia e redes sociais, não espelhou o pensamento do povo americano, a não ser daqueles decisivamente atrelados à posição presidencial.
James Naylor Green, historiador político Brown University (em Rhode Island), culpou Trump pela insurreição. “Ele instou as pessoas a atacarem o Congresso na tentativa de interromper o processo de reconhecimento de Biden como presidente legitimamente eleito. Os esforços para realizar um golpe de Estado mostram o desespero do presidente e seu controle sobre a base da extrema-direita”, completou o raciocínio.


85444
Por Manoel Hygino - 12/1/2021 08:29:49
Números da letalidade

Manoel Hygino

O “Newsweek” publicou uma frase curta e clara: “Aterrorizante... As lições de 1918 não poderiam ser mais atuais”. Esse foi o ano em que a humanidade testemunhou o fim da 1ª Guerra Mundial, mas uma ameaça invisível começava a espalhar-se pelo planeta.
Governos, pesquisadores e médicos se mobilizaram para dar uma resposta rápida àquela que entraria para as páginas da história como “a pandemia da gripe espanhola”, que sempre cito com as iniciais maiúsculas GE, dado o alto grau de letalidade da moléstia. Conto o início: um determinado tipo de vírus influenza, até então restrito às aves, sofreu mutações que permitiram sua transmissão aos humanos.
Consequência: em apenas um ano, segundo versões dignas de crédito, até 100 milhões de pessoas teriam perecido na Terra pela doença. Isto quer dizer que, em apenas dois anos, a GE fez mais vítimas do que a Aids em 24 anos no mundo todo e matou mais que a peste bubônica ao longo de um século.
Em um livro, agora famoso, o escritor e pesquisador John M. Barry narra a história do surto que começou em uma unidade militar do Kansas, EUA percorreu a Europa transportado pelas tropas americanas, para enfim transformar-se em epidemia global – uma pandemia.
Em mais de 600 páginas, Barry conta o que foi e como foi a pandemia mais mortal de todos os tempos, (até então), anunciou a editora. Mas, agora, tudo muda mais uma vez. Estamos enfrentando a Covid-19, que já mandou à sepultura mais de 200 mil somente de brasileiros. Milhões dos quais, todavia, não assimilaram ainda a terrível extensão da enfermidade. Assim, ela segue desafiando especialistas de todo o planeta, as equipes médicas, as organizações mundiais e regionais da área de saúde, e os governos, de nações pobres e ricas.
O termo científico Covid-19, acrônimo inglês para “doença do coronavírus 2019”, já é falado com desenvoltura. Expressões novas se inseriram no vocabulário popular como “distanciamento social”, “isolamento” e “achatar a curva”.
Ainda estrangeirismos cada vez mais presentes as “lives” e o temido “lockdown” são exemplos. O “testou positivo”. “Esse verbo é transitivo na língua deles”, explica o professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto, completando que “não dá para dizer que é errado, porque o uso legitima a expressão”.
O que, todavia, não foi aprendido por muitos e muitos brasileiros é que, para evitar a doença e a morte, a da pessoa e de outros que possam ser contaminados, se torna imprescindível obedecer a certas normas sanitárias. Nos últimos meses de 2020, sobretudo na passagem de ano, milhares de pessoas se aglutinaram em clubes, bailes, pancadões, e em outros pontos de reuniões, para ostensivamente ignorar o que as autoridades públicas e médicos orientavam.
Agora, é aguardar as consequências.


85441
Por Manoel Hygino - 9/1/2021 07:35:39

Decoro parlamentar

Manoel Hygino

Há poucos meses, um senador do Norte foi colhido pela Polícia Federal em sua residência ao esconder vultosa importância em cédulas do Tesouro Nacional no bolso da cueca. Não constituía novidade. Em ano anterior, ilustre deputado federal fora igualmente apanhado em semelhante e vexaminosa situação.
Os fatos me despertam para o passado no episódio envolvendo Barreto Pinto, “tráfego parlamentar carioca”, como o classificou Rivadávia de Souza, jornalista gaúcho que serviu a Getúlio Vargas por muitos anos.
Barreto Pinto apareceu, nas páginas de “O Cruzeiro”, então a maior revista do Brasil, em uma reportagem de David Nasser e Jean Manzon, considerados os maiores da época. A matéria levava o título “Feliz como um peru” e nela se via o parlamentar envergando uma casaca, mas de cuecas.
O deputado, um tanto debilóide, enfrentava ensejos para escândalo desde que elas lhe correspondessem em divulgação, uma obsessão. Durante o trabalho da revista, posou entre piadas e risos, antecipando a repercussão. Conta-se que, quando inscrito para falar na Câmara, ocultava-se detrás de uma cortina, de onde só saía quando o presidente lhe anunciava a palavra. Então deixava seu esconderijo, carregando uma pilha de livros sob as axilas, atravessando gloriosamente o plenário.
Tudo lhe servia de ocasião para exibir-se. Diante de seu vocabulário à vezes ofensivo ou desordenado, chegou a ser advertido. De certa feita, o senador Isman Góis Moneiro lhe deu uns pontapés na região adequada. Barreto não fez por menos: ingressou no plenário aos gritos, como um possesso alegando ter sido agredido por Góis. Dias depois, o general, irmão do senador, entrou em cena, armado de pesada bengala para dar-lhe uma surra, obrigando-o a sair correndo, por motivos óbvios.
No entanto, a reportagem de “O Cruzeiro” rendeu mais. A Mesa da Câmara e Senado, em reunião conjunta, em pleno decorrer da discussão da Assembleia Constituinte de 1946, decidiu agir, inclusive com a possibilidade de cassação do infeliz entrevistado, o que, afinal, foi aprovado.
Naquela oportunidade, o senador Luis Carlos Prestes, líder da bancada do Partido Comunista, contestou a necessidade de uma reunião extraordinária para examinar a proposta. O assunto já era de pleno conhecimento de todos, mas o senador da esquerda não se contentou com as explicações do presidente, e indagou:
"Mas o que o Poder Legislativo tem a ver com as cuecas do sr. Barreto Pinto?"
Enquanto os ricos eclodiam no plenário, Prestes retirou seus liderados do cenário, cujos integrantes que concluíram ter sido a entrevista um atentado ao decoro parlamentar.
No caso específico do senador deste nosso tempo, porém, a Comissão de Ética da Casa Alta, não se reuniu para examinar o caso, porque suas sessões estavam suspensas temporariamente. Causa: pandemia. Não foi suficiente que a moléstia deixasse no país até o final do ano quase 200 mil mortes, além de mais de 7 milhões, 700 mil casos confirmados. Até que este ano termine, muito mais aparecerá. É triste, mas verdadeiro.


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Por Manoel Hygino - 7/1/2021 08:12:59
A Carta de 1937

Manoel Hygino

Comentário aqui publicado propiciou-me oportunidade de conversar com o jornalista e advogado Paulo Narciso sobre a Constituição de 1934. Volto ao tema, quando já se fala em uma nova Carta, sucedendo à de 1988. Novas constituições nacionais por serem o que são não podem ser permanentemente cogitadas por um povo, a não ser por contingências especiais. Deste modo, reporto-me à de 1937, também no governo de Getúlio Vargas, que gerou uma ditadura ou a ela serviu.
Luiz Vergara, gaúcho, advogado, jornalista, colaborador de Vargas durante 28 anos até a presidência da República, registrou que Getúlio “não teve qualquer interferência nos trabalhos da Constituinte de 1933”, limitando-se “a entregar para seu exame o anteprojeto que mandara elaborar por uma comissão de homens eminentes”.
Não é o caso da de 1937. Vergara conta (em “Fui secretário de Getúlio Vargas” – que o confrade Danilo Gomes na Academia Mineira de Letras descobriu no Sebinho, em Brasília e me enviou) que o presidente chamou, à época, e lhe disse que o país se encontrava em véspera de acontecimentos importantes e que se “preparava para fazer uma modificação radical na orientação política do Governo. Ia pôr em vigor uma nova Constituição”.
O projeto fora elaborado pelo ministro da Justiça, Francisco Campos, e nele colaborara – ele, Vargas, apenas através de estrutura do novo regime. Comentara: “Quero instituir um governo de autoridade e liberto das peias da chamada democracia liberal, que inspirou a Constituição de 1934”.
Continuou a explicação: “Dei apenas algumas indicações quanto à distribuição dos poderes e das atribuições específicas. O mais ficou a cargo do Campos, homem de cabeça bem aparelhada, cheia de ideias, nem sempre muito claras, mas inspiradas por uma extensa e sólida cultura”.
Vergana se debruçou sobre o documento e se manifestou: “Como trabalho de pensamento político e de coordenação de direito público, tinha certamente um evidente valimento que não se poderia deixar de reconhecer e admirar”. Se o objetivo era a concentração dos poderes executivos, a estrutura poderia ser muito mais simplificada, seguindo os princípios do presidencialismo, já uma tradição na vida política brasileira.
O secretário levou suas observações a Vargas. “Respondeu-me que meus reparos lhe pareciam também fundados e que a Constituição elaborada por Campos representava um ensaio, uma experiência. Os acontecimentos estavam exigindo ação rápida e não havia tempo para uma revisão completa do trabalho feito. Tínhamos de por em execução essa mesma. Haveria, depois, oportunidade para as reformas se fizessem necessárias”. Assim se procedeu.


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Por Manoel Hygino - 5/1/2021 07:54:07
Perspectivas 2021

Manoel Hygino

Não compreendo ainda como possa existir otimismo com relação a 2021. Em primeiro lugar, temos de estar atentos à pandemia, que não somente não terminou como dá sinais de resistência aos multiplicados esforços de cientistas, médicos, técnicos em vários campos do conhecimento e dos governos. Em sã consciência, não se sabe sequer aproximadamente quando esta ceifadora de vidas e causadora de moléstias e mazelas encerrará sua fatídica ação.
Até lá, são despesas e mais despesas, investimentos e mais investimentos no combate à doença, enquanto a população persistirá insatisfeita, revoltada e intolerante, aumentando as dificuldades para a sobrevivência.
O governo já comunicou que haverá um déficit de até R$ 247 bilhões no resultado primário para o novo exercício, R$ 20 bilhões dos quais para imunizar a população, que não se sabe sequer quando terá início.
Só o rombo do INSS em 2021 deve alcançar R$ 291 bilhões. O auxílio emergencial está fora das perspectivas da alta administração, por motivos sabidos e consabidos. Resta aguardar como os segmentos mais sofridos reagirão quando os efeitos mais perversos dessa providência chegarem aos atuais beneficiários, cujo número vem crescendo expressivamente.
Ademais, a questão envolve disposições constitucionais. A Carta de 1988 consagrou direitos sociais, agora considerados essenciais, como: educação, saúde, trabalho, lazer e segurança, Previdência Social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desempregados.
Além disso, emendas à Carta incluíram no artigo 6º, o direito à moradia, à alimentação e ao transporte. Como se haverá o governo a partir do ano que vem, quero dizer, da semana vindoura?
O jurista Sacha Calmon diz entristecer-se com o silêncio da CNBB, a apatia das ruas, a conformidade triste do povo sofredor, nesta hora. A mim, porém, causa inquietação quando (e se) explodir a inconformidade que se vai mantendo em banho-maria por motivos diversos, inclusive o próprio temor de algum acontecimento de grande expressão que faça o bom-senso ir pelo espaço. É muito grave o que ora ocorre em nosso país, nem se culpará a imprensa pelos insucessos sucessivos em muitas iniciativas tornadas públicas. O pior cego é o que não quer ver, como ensinavam nossos avós – mais desconfiados do que as novas gerações.
Há poucos dias, o ex-ministro Delfim Neto, na altura de seus 92 anos e com uma longa experiência no trato da coisa pública, observava que economistas não fazem milagres.


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Por Manoel Hygino - 2/1/2021 07:34:20
Pleito norte-mineiro

Manoel Hygino

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi ao Norte de Minas e, no município-polo da região, Montes Claros, recebeu um pleito, que envolve a solução de problema fundamental. Em resumo, trata-se da revisão e adaptação de uma Resolução do Conama, de janeiro de 1986, que enquadrou a Mata Seca do Norte de Minas como integrante do Bioma Mata Atlântica.
Para José Avelino Pereira Neto, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, é medida urgente, inadiável, mesmo depois de muito tempo decorrido de sua vigência. Declarou ele: “Esse decreto paralisou a nossa região. Estamos há mais de uma década tentando reverter a situação que causa mais prejuízos socioeconômicos a cada dia. Temos o apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) nessa causa e reforçamos com o Ministro a necessidade de resolver este sério problema”.
José Luiz compartilha da opinião e afirma que essa legislação reprimiu o desenvolvimento do Norte de Minas: “Levamos ao ministro, que foi receptivo e nos indicou a forma de como resolver, depois de dez anos. Ainda temos uma longa caminhada, vamos agora mobilizar os Ministérios da Agricultura, e posteriormente, da Economia, que gere o IBGE. Depois a questão voltará à mesa de discussão junto ao Meio Ambiente”, acrescentou o presidente da Rural.
Outro ponto de pauta foi o licenciamento ambiental. “A demora e a burocracia na obtenção têm impedido diversos empreendimentos. Essa morosidade que chega a até dois anos para se obter uma simples outorga de água e quatro anos para se analisar um EIA/RIMA é inadmissível. O produtor rural precisa muito mais de incentivos e orientações do que de fiscalização, multas e punições”, comentou José Luiz.
As entidades capitaneadas pela Rural e Sindicato sugerem uma simplificação dos processos, a modificação da legislação ambiental obsoleta e burocrática. Os presidentes entregaram novamente um documento com as solicitações norte-mineiras para formalizar os pedidos.
O ministro Ricardo Salles orientou que a classe inicie um movimento para gerar apoio à causa. “Fizemos a nossa parte, no Ministério do Meio Ambiente, para chamar a atenção da necessidade de aplicação do Código Florestal na Mata Atlântica, e o segundo passo é a delimitação desse mapa do IBGE na região, que é o que precisa ser reexaminado. Há um necessário trabalho do Instituto. É ele que deve fazer a análise criteriosa deste bioma, uma versão técnica, com regramento específico”, disse.
De acordo com ele, a causa recebeu o respaldo do Meio Ambiente, mas precisa ter do Ministério da Economia, que é responsável pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
De todo modo, o fundamental é que a economia norte-mineira não pode ficar esperando indefinidamente esse encaminhamento, e o ministro precisa agir no caso, inclusive insistindo junto ao ministro Paulo Guedes, que tem vínculos com a região.


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Por Manoel Hygino - 30/12/2020 07:56:22
O Natal que passou

Manoel Hygino

Manhã fria no dia comemorativo do nascimento de Jesus, que lições numerosas deixou para a humanidade. O silêncio das ruas no feriado parece demonstrar que algo não está bem; que não estamos bem. O Natal numa sexta-feira lembra que, também nesse dia, o pregador da boa nova foi executado numa cruz no Gólgota há mais de dois mil anos. Restaram as lições.
Deixei para redigir, neste tempo de tanta simbologia, um comentário sobre o livro “Mosaico”, que Mara Yanmar Narciso da Cruz publicou em 2020 pela Millenium.
Médica e mãe de filho único, que já passou da idade de Cristo, não se circunscreve a autora, às profissões escolhidas. Tanto que integra a Academia Feminina de Letras de Montes Claros, Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e a Academia Montes-clarense de Letras, ocupando ali diretorias.
Karla Celene Campos, confreira, sugeriu-lhe que as crônicas à Imprensa deveriam se transformar em um volume, o que se deferiu, e foi cumprido. Uma das anteriores publicações em jornais aparece: “Ando exausta de tanta solidão”, um título e tema bem adequados ao pretérito Natal triste de 2020.
Além de aplaudir o IHGMC pela iniciativa de criar um consórcio, que contribui para difusão do livro, como justifica plenamente o presidente Dário Teixeira Cotrim, tem-se a clara segurança do feliz desfecho do projeto com publicações em análise, que enfim confirma a vocação da autora para as letras. Não suficientemente satisfeita com sua produção, estimula-se a novos textos, ou para os periódicos ou para livros que lhe enriquecem a bibliografia.
O Natal conduz a uma constatação: “Tradicionalmente é a festa da família, ocasião em que se deve apaziguar os ânimos, virar a página, zerar os acontecimentos, praticar o perdão, largar as diferenças, abandonar a mesquinharia, deixar para lá as desavenças, especialmente as financeiras”. E indaga: “Brigar por causa de dinheiro?”
Como imensamente se escreveu neste período do calendário, preponderantemente sobre a pandemia, que muito ainda marca pessoas e famílias em todo o planeta, pode-se também admitir que estes dias de 2020 serão recordados futuramente pelas lágrimas derramadas e pelos muitos milhares de pessoas que partiram e deixaram saudade. O Natal, a Navidad, como escrevem e falam os hispânicos, não foi de venturas como em outras épocas. Aprendamos a viver os infortúnios, porque o ano que se aproxima ou está começando não se me apresenta dos mais dadivosos. Quem viver conferirá. Em todo caso, há mosaicos que nos amenizam a carga de dor e de pungentes sentimentos.


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Por Manoel Hygino - 29/12/2020 07:59:48
Papel do Estado

Manoel Hygino

Não se pense que a Covid terminou seu maléfico desempenho, simplesmente porque o ano está terminando, ou porque a vacina começou a ser aplicada em vários países. Não é assim. Entidades científicas e chefes de Estado e de governo, todos os que se dedicam ao setor de Saúde, já deixam claro que muito terá de ser feito para salvar vidas, função e obrigação de Estado.
José Anchieta da Silva, prestigioso advogado de Belo Horizonte, inclusive presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas, chamou a atenção para o fato, que é indiscutível e irreversível. Disse ele, de maneira límpida:
“Trata-se de algo antes nunca visto (a pandemia), na medida em que o similar mais próximo data de um século atrás, quando sequer avião existia. É fato que não se discute. Trata-se, portanto, de uma realidade, um enfrentamento grave, uma questão de saúde que nesta dimensão deve ser tratada. Fazer leitura política desse fato é desprezar a vida”.
Na presente hora, não está encerrado o papel do Estado. Milhões de cidadãos dependem dele e podem perder a vida, se ele não levar a cabo, com lucidez e pertinácia, sua missão até o final.
José Anchieta da Silva, em 7 de abril deste ano, quando a pandemia praticamente começava, observava ainda: “Se o Estado não corresponder aos anseios de seus cidadãos (pessoas e empresas) deixará de cumprir a sua função. Não justificaria a sua existência. As pessoas e as empresas, reclusas, precisam, nesta hora, de recursos, de dinheiro para que suas vidas (e a vida do próprio Estado) possam caminhar”.
Adiante: “É preciso priorizar a vida; é preciso justificar a existência humana e seus instrumentos como Humanidade e, portanto, é preciso dar sentido à figura do Estado”.
Em outro trecho: “A lição, em discurso de estadista, veio na palavra do presidente de Portugal, professor Marcelo Rebelo de Sousa ao dizer que para salvar vidas é preciso salvar as empresas”. O essencial dever do Estado, nesta grave hora, é garantir a paz social, assegurando a todas as pessoas a certeza de que terão meios materiais de sobrevivência, entre as quais evidentemente saber negociar com todos os setores da sociedade, para conduzir a nação, a seus objetivos maiores.
Vacinar é somente um capítulo da longa e sofrida história da humanidade, que apenas registrará daqui a pouco a mudança no calendário. Não devemos interpretar ou sentir o fato como uma oportunidade para acirrar ânimos e provocar desentendimentos.


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Por Manoel Hygino - 26/12/2020 11:31:54
Falatório desmedido

Manoel Hygino

Não surpreende mais, mas causa espanto. Refiro-me ao discurso pronunciado pelo chefe da nação, semana passada, na formatura de 485 novos soldados da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O presidente da República, em atitude que jamais vi de qualquer outro de igual nível em uma nação e em qualquer ocasião, simplesmente fez as mais graves acusações a uma atividade e instrumento tida como instituição e até como quarto poder.
Não consigo entender em que ganha o Brasil com pronunciamento nesse nível. Não se restringiu o primeiro mandatário a ofender a imprensa, pois ainda estimulou os novos cadetes a não acreditarem no que aparece na mídia. Disse: “Não esperemos da imprensa a verdade. As mídias sociais, essas sim, trazem a verdade, e não a fábrica de fake news que é a imprensa brasileira”. E recebeu aplausos de pessoas presentes, que certamente era o que esperava.
Dando sequência, declarou: “Pensem nisso na hora de agir.” Como se a imprensa fosse useira e vezeira na pratica de absurdos, anula méritos e culpa os bons e justos. “Se preparem cada vez mais, simulem as operações que podem aparecer, porque em uma fração de segundo está em risco sua vida, do cidadão de bem ou de um canalha defendido pela imprensa brasileira”. Completou à frente: “Não se esqueça disso, essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês, pensem dessa forma para poderem agir”.
Na hora dificílima que a nação atravessa, e não somente a pandemia a torna dramática, imprescindível que todos os homens de bem, soldados ou não, do poder civil ou militar, analisem cuidadosamente as afirmações do presidente, no uso pleno de seu direito de falar.
Sem se referir ao episódio mencionado, o veterano homem de imprensa de Minas, competente e isento, Fábio P. Doyle, em suas manifestações, afirmou: “Fala demais, fala o que deve e o que não deve, briga com repórteres, que, cumprindo ordens dos seus diretores, lhe fazem perguntas inconvenientes e agressivas”. Ele mesmo diz: “Não levo desaforo para casa”.
"Falastrão, boquirroto, todos os dias aparece nas telas das TVs”. Dias após comentar que a Covid “está no seu finalzinho”, afirmou em discurso que “eu não tomarei a vacina”, provocando mais insegurança entre os que pretendiam vacinar-se. A decisão de não tomar era dele, pessoal, íntima. “Deveria ser guardada a sete ou 10 chaves, afinal, trata-se do chefe da nação, para não influenciar ou até atemorizar os que precisam e devem ser imunizados”.
Doyle conclui: Repito: “uma pena o boquirrotismo impulsivo e desastroso de um político com tantas qualidades. Um defeito lamentável e, em alguns casos, imperdoável”.


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Por Manoel Hygino - 23/12/2020 08:03:51
A Carta de 1934

Manoel Hygino

A Constituição do Brasil de 1934 é das mais pouco lidas e conhecidas, como tenho observado. O jornalista e professor Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, com longa experiência na Imprensa fora de Minas, tem-se interessado especialmente por ela e comentou, há poucos dias comigo, através de e-mail. Para ele, a Carta de 1934 misturou princípios liberais, autoritários, estatizantes, idealistas, utópicos e corporativistas. Refletia o cenário daquele momento. Expandiu os direitos sociais e elevou os custos das empresas e as despesas do governo.
Diz mais: “Considerada progressista para a época, a nova Constituição instituiu: o voto secreto; o voto feminino, o voto obrigatório, a criação da Justiça Eleitoral, da Justiça do Trabalho, nacionalizou o subsolo, previu a nacionalização dos bancos, as empresas estrangeiras deviam ter pelo menos 2 /3 dos empregados brasileiros (Lembrar a Light, as empresas ferroviárias, mineradoras e outras), proibia o trabalho infantil e estabelecia, jornada de oito horas, indenização para os demitidos, férias, assistência médica, exclusiva para as trabalhadoras grávidas, proibia diferenças salariais que se tratasse da mesma atividade, previa uma lei para regular as relações no meio rural (pré-reforma agrária). Omitia o cargo de vice-Presidente e fortalecia o federalismo : autoritário, na outorgada de 1937”.
Mais adiante, acrescenta Aylê-Salassié sobre a Constituição: “Previa, no artigo 138, que o Estado tinha obrigação de ”socorrer as famílias de prole numerosa”. Era a maioria das famílias brasileiras naquele momento. Critica-se ainda o fato de que, liberal em excesso, não permitia adequado combate à subversão (anarquistas, comunistas, integralistas et alli). Em discurso comemorativo dos dez anos da revolução, em 1940, Getúlio fez uma crítica contundente à Constituição de 1934:
- Uma constitucionalização apressada, fora de tempo, apresentada como panaceia de todos os males, traduziu-se numa organização política feita ao sabor de influências pessoais e partidarismo faccioso, divorciada das realidades existentes. Repetia os erros da Constituição de 1891 e agravava-os com dispositivos de pura invenção jurídica, alguns retrógrados e outros acenando a ideologias exóticas. Os acontecimentos incumbiram-se de atestar-lhe a precoce inadaptação!
Luiz Vergana, advogado e jornalista, que acompanhou Vargas desde 1926, em livro, diz que Getúlio não teve qualquer interferência nos trabalhos da Constituição de 1933, que gerara a Carta do ano seguinte. “Limitou-se a entregar para seu exame, a título de simples contribuição, o anteprojeto que fizera elaborar por uma comissão de homens eminentes”. “Referindo ao texto, acentuava que se tratava de um trabalho valioso, útil como base de discussão”.


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Por Manoel Hygino - 22/12/2020 08:17:17
A vacinação: solução e problema

Manoel Hygino

No dia 3 de dezembro, neste interminável 2020, o mundo estava como nos demais dias: em atenção para a possibilidade de, finalmente, ser aprovada uma vacina contra a Covid-19. Jamais se pronunciou tanto o nome da doença, que surgira numa cidade chinesa, há cerca de um ano.
As organizações científicas, unindo o planeta, se esmeravam, mesmo em alta velocidade, em conseguir um imunizante, cujos perigos certa gente menosprezava: negacionistas. Não acredita sequer no número de óbitos e contaminados.
O Reino Unido anunciou que iria, na semana seguinte, permitir a aplicação da vacina Pfizer/Biontech, num primeiro grupo, como os idosos, seguidos de médicos, técnicos de saúde e outros. As possíveis vítimas já perdiam paciência com procrastinações, sobretudo as produzidas pela politicagem. Quantos mais perderiam a vida?
Em Londres, Cristina Toscano, professora da Federal de Goiás e única especialista brasileira e latino-americana no Corpo Conselheiro Estratégico em Imunização da Covid da OMS, desencantou e divulgou sobre o Brasil, pela BBC: " Se tudo der certo, as primeiras avaliações preliminares das vacinas vão começar. A Anvisa vai levar pelo menos um mês para analisar os pedidos de registro. Depois disso, você tem todo o controle de qualidade, que é feito obrigatoriamente em cada lote. Na sequência, há o processo de distribuição para as dezenas de milhares de postos de saúde do Brasil. Isso tudo não acontece do dia para a noite. Sendo realista, a vacinação não vai acontecer em dezembro ou janeiro".
A imunização, que deveria ser um alento e uma esperança, transformou-se num problema, causado pelas divisões políticas, pelo negativismo de setores do governo, a começar pelo Palácio do Planalto, que impôs um competente oficial do Exército para a pasta da Saúde, por entender de logística. É desalentador o que acontece presentemente, em decorrência do que, aliás, o país, na péssima situação diante da gripezinha que mata centenas de pessoas e contamina milhares diariamente, não acompanha a evolução dos acontecimentos e não chegará junto às nações na hora da imunização.
Vacinas estarão à disposição, não há dúvida, e de mais de duas procedências, enquanto as festas de fim de ano, como as de Natal, podem virar um Deus nos acuda com a proibição de aglomerações. O problema contribui para aquecer o forno dos desentendimentos em Brasília.
O IBGE libera mais uma Tábua de Mortalidade no Brasil. A expectativa de vida dos brasileiros ao nascer aumentou três meses de 2018 para 2019. Claro que não fez a previsão dos que perderão a vida por Covid, que perambula por todos os locais do país com sua foice ceifadora.
Eufórico, o presidente Bolsonaro declarou: "Vacina, uma vez certificada pela Anvisa, nós compraremos para que a população possa, de forma voluntária e gratuita, receber a aplicação". Não seria como a do tempo polêmico de Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz. Veremos.


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Por Manoel Hygino - 16/12/2020 08:38:13
Dez anos do Icam

Manoel Hygino

Inaugurada em 7 de dezembro, em 2010, a nova sede do Instituto Cultural Amilcar Martins, Icam, comemora seu décimo aniversário de atividades, período durante o qual tem prestado os melhores serviços à causa para a qual foi criado. Funciona na rua Ceará, esquina com Contorno, junto a uma aprazível pracinha do bairro Funcionários.
A ideia se concretizou a partir de 2001, quando os irmãos Amilcar Viana Martins Filho e Roberto Borges Martins decidiram fundar uma entidade para preservar e divulgar a história de Minas em todas as áreas do saber e do conhecimento. E sem contar com adjutório do poder público, como sói acontecer comumente no Brasil, vencendo a insensibilidade e, às vezes, as dificuldades financeiras para esse mister, conseguiu implantar o projeto.
Embora o brasileiro tenha interesse presentemente por outras formas de aprender e a que dedicar seu tempo, nada melhor do que um centro de pesquisa como o Icam, graças ao empenho e sincera disposição de servir à cultura e à história de Amilcar e Roberto. Nos três lustros transcorridos, muito já se fez e muito mais se fará, sobretudo se houver real propósito de contribuir por parte do Estado ou empresariado.
Imagino as dificuldades que devem ter enfrentando os fundadores. Mas, inspirando-me em Victor Hugo, posso reiterar que mais felicidade têm os que transferem a terceiros esse tipo de bens, antes que retê-los.
O prédio que conserva o material precioso tem uma grande placa à entrada, de modo que não será difícil identificá-lo. Lá dentro estão mais de 11 mil volumes, além de opúsculos e jornais sobre a cultura de Minas. O fim originalmente previsto está sendo plenamente atendido: o Instituto é essencialmente um centro de apoio à pesquisa, a que todos podem recorrer, como o fiz algumas vezes, com êxito.
Simultaneamente, o Icam pôs-se em campo para editar livros inéditos sobre a temática proposta ou obras raras, que precisam ser facilitadas ao pesquisador. Além disso, já lançou o “Dicionário Biográfico de Minas”, primeiro volume, que se deve ter ao lado, com seus dois mil verbetes sobre mineiros que se destacaram em várias áreas do saber e do fazer. Algo magnífico, que contribui para valorização de nossa cultura.
Amilcar declarou em determinado momento: “Estamos trabalhando junto ao mercado internacional, com livreiros de todo o Brasil e com particularidades, para conseguir o maior número possível de Minas”. Eis uma bela oportunidade de se encaminharem livros antigos, raros e preciosos para o arquivo, sempre se enriquecerá.


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Por Manoel Hygino - 15/12/2020 08:11:47
Ainda a gripezinha

Manoel Hygino

Acontece desde o começo da disseminação da pandemia da Covid-19. Como os Estados Unidos menosprezaram a letalidade da moléstia, o Brasil fez o mesmo. O presidente daqui segue o de lá, de maneira quase incrível. Para ambos, a doença era uma gripezinha que logo estaria eliminada. O livro recente do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta é esclarecedor.
Bolsonaro fez mais de um pronunciamento pela televisão, minimizando a importância da doença e do seu vírus, que “chegou e brevemente passará”. O ex-ministro observou: “Foi espantoso. Bolsonaro falou tudo aquilo em rede nacional sem ter sido assessorado por nenhum de seus ministros... Nenhum técnico... Apenas baseado nas opiniões dos filhos e de seu entorno”.
Em determinada altura, apareceu o nome do deputado federal Osmar Terra, médico, sempre alinhado à posição do presidente, inclusive contra a quarentena, no uso de medicamentos considerados ineficazes pela comunidade técnica e pela OMS, ele candidato ao Ministério da Saúde. A bula de orientações do presidente era utilizada plenamente por Osmar Terra.
Assim, ele foi diagnosticado positivo pelo coronavírus, há dias, indo para CTI. Os jornais de todo o país publicaram: “O ex-ministro da Cidadania e atual deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) foi internado no domingo, 22, no Hospital São Lucas, da PUC do Rio Grande do Sul, (HSL-PUCRS), em Porto Alegre. Terra é negacionista e sempre minimizou a gravidade da pandemia e as consequências positivas do isolamento social. Nas redes sociais, o deputado disse que faria exames de avaliação e fisioterapia complementar no tratamento da Covid”.
O objetivo da internação, segundo ele, era “acelerar a volta ao trabalho o mais breve possível”. Nove dias antes, Terra havia anunciado a infecção por coronavírus, afirmando que tomara hidroxicloroquina e ivermectina, medicamentos sem eficácia comprovada, mas indicados pelo governo. Boletim hospitalar informou que Terra continua internado.
Mas a doencinha renitente não ficou só com o representante do Rio Grande do Sul no Congresso. Quatorze outros ministros do atual governo testaram positivamente com a Covid-19. Um deles, o general Eduardo Pazuello, titular da Saúde, continua perrengue, em tratamento faz um mês, embora tenha voltado à atividade, mesmo precariamente.


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Por Manoel Hygino - 9/12/2020 08:10:05
O pesar das ruas

Manoel Hygino

Quando a multidão compactamente em clima de profunda emoção, aproximou-se da Casa Rosada, e das avenidas em torno, temi o pior. A massa não pode perder o controle. Por cerca de dez horas, Diego Armando Maradona foi homenageado pelos compatriotas, então e pela última vez, na sede do governo argentino.
Explosões de aplausos e gritos, lágrimas até que, para evitar talvez o pior, a urna fúnebre dali saiu para receber novas homenagens ao longo do percurso até San Miguel, na periferia, para que o futebolista pudesse, enfim, gozar da paz a que os mortos têm direito.
Lembrei os fatos de 24 de agosto de 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Foi um tumulto pelas ruas do Rio de Janeiro, capital da República. Fernando Morais conta que se ouviam-se palavras de ordem em passeatas de sindicalistas e estudantes, que pediam “morte a Lacerda e a Chataubriand”, enquanto carros de distribuição dos jornais de oposição eram apedrejados, virados de rodas para cima e incendiados pela turba. Os fatos se repetiam em todas as grandes capitais, em que as redações foram invadidas e destruídas pelos manifestantes, que chegaram a incendiar prédios.
Em Buenos Aires, as explosões da população não chegaram a esse nível. Os jornais do Velho Capitão, como decidiria apelidar-se, publicaram textos de Chatô: “Getúlio trocou a vida pela morte. Assim agindo, pode não ter andado certo, no conceito deste ou daquele, mas foi heroico, foi civicamente altivo, foi esteticamente belo e moralmente generoso, pelo menos com os que o procuraram para dividir com ele o patrimônio de sangue que carregavam. Os inertes, os afônicos, os mudos, os surdos, os que não trouxeram nenhuma mensagem a este planeta, podem morrer na cama. Mas esta abjeção não aconteceria com Vargas...”.
Em agosto como Vargas, Juscelino perdeu a vida, no dia 22 de 1976, na rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. Um desastre, sobre cujas causas ainda se levantam dúvidas. O corpo foi levado para a nova capital que ele inventara e Vera Brant, conterrânea de Nonô e sua amiga, relatou. “O seu corpo chegou à sua Brasília, todo coberto com a bandeira do Brasil. O aeroporto estava lotado. Os táxis carregavam as pessoas de graça, todos com um pano preto, significando luto”.
A catedral estava inteiramente ocupada. Palmas quando o corpo chegou. Um homem escuro queria saber se Juscelino seria sepultado no cemitério comum.
Quando recebeu a resposta afirmativa, sorriu e observou: “Que bom, agora a gente vai até querer morrer para ficar perto dele”. Às 6 horas, do Ângelus, ouviu-se um cântico fúnebre. Chorava-se e cantava-se, como acontecera pelas avenidas de sua Brasília, enquanto o carro as percorria.


85329
Por Manoel Hygino - 2/12/2020 08:00:16

UnB INVADIDA

Manoel Hygino

Darcy Ribeiro, o Brasil conhece. Nascido em Montes Claros, em 1922, em família ilustre. Antropólogo, educador e escritor, ocupou a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras. Dedicou-se ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia. Fundou o Museu do Índio, a Universidade Estadual do Norte Fluminense, pensando em fazê-la Universidade do Terceiro Milênio, constituiu o Sambódromo, no Rio de Janeiro, implantou a Casa França Brasil e a Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro; em São Paulo, construiu o Memorial da América Latina: como senador, elaborou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação; criou a Universidade de Brasília, sendo primeiro reitor, ministro da Educação e ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República; fundou o Parque Indígena do Xingu e, com a UnB, nasceu a Editora Universidade de Brasília, a que se deve a publicação de obras preciosas durante décadas.
Dispensaria dizer que as obras de Darcy, nos campos a que se devotou, estão consagradas, posso dizer, entre as quais os “Estudos de Antropologia da Civilização”, em cinco volumes, além de “O dilema da América Latina, inspirando-se para a ficção literária em suas andanças Brasil afora.
O segundo personagem sobre o qual quero fazer anotações é Márcio Moreira Alves, da família Alves, também de Montes Claros, de que o país ouve pelo menos falar por causa de Dona Tiburtina, de notória atuação às vésperas da Revolução de 1930. Uma mulher sertaneja, com o mais alto valor e altivez que valeria um filme ou uma novela para televisão.
Márcio Moreira Alves se elegeu deputado federal durante o período duro do regime militar. Quando as forças de segurança invadiram a Universidade de Brasília, em dezembro de 1968, o parlamentar tomou a iniciativa de fazer um discurso duro na Câmara dos Deputados. Foram mexer logo com a UnB, fundada por Darcy Ribeiro, anos antes.
No dia 13 do último mês daquele ano, o governo baixou o famigerado AI-5, considerado o “golpe dentro do golpe”; obrigando Márcio Moreira Alves, o Marcito, a tomar caminho para o exterior. Os três ministérios militares exigiam do Congresso a negada licença para processar o orador atrevido.
Marcito conta: “Na noite da véspera, 30 de dezembro antecipando as comemorações do Ano Novo, divulgara-se a primeira lista de cassações: dos treze nomes, doze eram de deputados, encabeçados por mim. O décimo-terceiro era o de Carlos Lacerda. Terminava, com essa lista, o ano político de 1968”. Acrescentou “A história desses tempos, com o seu heroísmo e as suas objeções, está ainda para ser contada. É preciso que seja, porque a História serve, sobretudo, para evitar que os erros se repitam”.


85326
Por Manoel Hygino - 1/12/2020 07:56:09
Diante do Rei

Manoel Hygino

Excelentes serviços prestam ao país as academias literárias ao promoverem a publicação de revistas, como a da Academia de Letras do Brasil, sediada em Brasília e presidida por Flávio R. Kothe, responsável por sua editoria, tendo no seu Conselho Editorial Danilo Gomes, Edmilson Caminha, Kori Bolivia e Napoleão Valadares.
O próprio Kothe, na apresentação do número mais recente, explica e justifica: “Temos aqui textos oriundos de vários recintos do país, como Rio, São Paulo, Ceará, Acre, Brasília, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, numa conjunção republicana e federativa, em que cada um dá um presente a todos: uma preservação do pretérito, um presente para o presente, um legado para o futuro. Esta revista faz parte de um esforço de preservar a natureza, a liberdade criativa, o espaço para o pensamento”.
Abrigando contos, crônicas, ensaios, poesias, resenhas e traduções, elaborados por autores de notório prestígio e já reconhecidos no país, a revista tem o dom de apresentar na seus leitores um panorama vívido do nosso país, nestes dias de pandemia e de outros desastres, inclusive os que se encontram descritos diariamente nos demais meios de comunicação, sabe Deus a serviço de quem ou de que objetivos.
Cá de nossa brava terra, encontro colaborações primorosas, como as de Danilo Gomes (que é da Academia Mineira de Letras), de Napoleão Valadares, e Aylê-Salassiê F. Quintão, além de traduções de Ánderson Braga Horta ( e José Jeronimo Rivera), além de José Maria Leitão, Clauder Arcanjo, Edmilson Caminha, Márcio Catunda, Vera Lúcia de Oliveira, Antônio Carlos Secchin, Cláudio Feldman, Diego Mendes Sousa, João Carlos Taveira, Marcos Freitas, Salomão Sousa e Sânzio Azevedo, gente do mais reconhecido mérito, nascidos e procedentes de outras plagas pátrias.
A plêiade de escritores que comparecem às páginas da revista têm nome definitivamente firmado no cenário de nossas letras, merecendo respeito pela qualidade de seu labor. Não estão a serviço de favores ou de causas não gratas, aos brasileiros, pois.
Aliás, o primeiro conto da edição se refere a um rei, diante de quem todas as pessoas deviam se ajoelhar. Um dia, ele passou pelos súditos, todos inclinaram a cabeça, muitos dobraram o joelho. O olhar do rei cruzou com o de um dos cavalheiros, e percebeu uma secreta e indizível resistência em um deles. O súdito raciocinou:
“O rei só promovia a quem ajudasse promovê-lo. Ele estava acima da lei, ele era a lei. Fingia ser modesto, como se as honrarias não fossem para ele e sim para o que ele representava, como se estivesse compelido a exercer um cargo que o destino lhe impusera, não algo que almejasse, que ele tudo fizesse para manter, seja para o bem, seja para o mal”.
Enquanto distribuía cargos, postos e comendas perseguiam os que não dobrassem a cerviz diante dele. “Ele não era como um rei de jogos de cartas, em que a parte de baixo é igual à de cima. Ele tinha outro lado, oposto ao que aparecia. Mostrava o que convinha mostrar, escondia o que lhe fosse conveniente”.
Tais soberanos existem ainda, com coroa ou sem coroa, como num velho samba cantado por Francisco Alves, por sinal apodado de “O rei da voz”.


85325
Por Manoel Hygino - 30/11/2020 16:20:35
O Dia da Independência

Manoel Hygino

Parece distante, mas não é. Estamos no final de 2020, podendo-se contar nos dedos os dias faltantes para o Natal e início do novo ano. Verdadeiramente, este exercício está agonizando. Falta praticamente apenas dezembro para o adeus, entrando-se, logo, no início da segunda metade da gestão Bolsonaro.

Daí, constatar-se que falta um ano e pouco para o 7 de setembro de 2022, quando a nação comemorará 200 anos de independência. No próximo calendário se marcará o começo da nova campanha à presidência da República, mas também o bicentenário da emancipação política brasileira, e não ouvi sequer referência a uma programação para registrar a efeméride.

No primeiro centenário, o deputado José Bonifácio, o Embaixador, com muito tempo disponível, em 9 de dezembro de 1916, alertava para o fato. Descendente do Patriarca da Independência, parlamentar e político de marcante influência ao longo da Primeira República, depois embaixador do Brasil, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto, relativo às festas comemorativas do primeiro centenário, em 7 de setembro de 1922.

Argumentava: “Certamente fá-lo-emos entre vivas expansões de alegria patriótica, em devotados movimentos de civismo, recordando grandes conquistas realizadas no decurso de cem anos. Muito devotadamente brasileiros, muito sinceramente amigos do meu país, tinham viva ufania em rever todo o nosso passado, e de sincero entusiasmo se enche a minha alma quando posso proclamar que é incontestável o progresso do Brasil em todos os ramos da atividade humana” (está nos Anais da Câmara de 1916).

Quem andará pensando nisto a esta altura dos muitos meses da pandemia de Covid, a mais letal e terrível para a humanidade, em todos os tempos? Quem meditaria sobre a evolução brasileira durante dois séculos, quando persiste, às vezes sem maior disfarce, a praga do racismo? Quem julgaria oportuna a consideração sobre as diferenças entre os que muito ganham e os que padecem fome e falta de teto, milhões de brasileiros, sofrendo a insensibilidade dos governos diante da miséria?

Com 21 artigos, que pormenorizavam a ação do governo, José Bonifácio estendeu nas justificativas de seu projeto, as realizações do país nos planos social, do ensino, econômico, político e jurídico, apresentando dados sobre o desenvolvimento nacional.

Seria uma prestação de contas, em 1922, como se deverá pretender para 2022, daqui ano e meio praticamente de agora.

As atuais gerações exigem prestação de contas das que nos antecederam, mas as próximas muito reclamarão dos que ora exercem elevados cargos e funções públicas.

Chega a hora de pormos os pingos nos i, de explicarmos em que falhamos e quais as razões, tentar pelo menos justificar porque ainda não alcançamos os níveis de igualdade e de humanidade com os quais sonharam os arautos da independência.

Eis a hora da confissão e do mea culpa.


85308
Por Manoel Hygino - 24/11/2020 08:01:16
Pandemia vira conto

Manoel Hygino

Impossibilitada de realizar suas costumeiras e concorridas reuniões como de praxe, em virtude da Covid – que nos impede de viver o cotidiano como desejado –, a Academia Mineira de Letras não se deu por vencida, como sua resistência histórica, pois o sodalício já passou de 115 anos de fundação.
Para dizer presente e não faltar aos seus princípios, a Academia decidiu, neste período da terra em transe, convidar os escritores das Minas para elaborar contos que focalizassem a pandemia, formando uma antologia a ser lançada ainda neste 2020. Organizada pelo seu presidente, Rogério Faria Tavares, e com selo da editora Autêntica, o volume será lançado no dia 28 deste novembro, num sábado, entre 10h e 14h, na sede da entidade, na rua da Bahia, obedecidas as normas sanitárias para eventos do gênero.
Participam da iniciativa vinte autores mineiros, que registram suas percepções sobre a pandemia no gênero conto, descrevendo os sentimentos nestes meses já decorridos, as perspectivas à frente (porque a praga não se vai tão cedo), os sentimentos dos escritores, suas vivências e peculiaridades do momento, que já se tornou uma página dramática de nossa História e em proporções altíssimas. Basta conhecer os números divulgados diariamente.
Para Rogério Faria Tavares, transformar em palavras o que o mundo inteiro viveu nos últimos meses foi a tarefa aceita pelos vinte escritores, condenados ao isolamento como mandam os médicos, as autoridades e os técnicos. Quem não o fez pode ter-se dado ou está mais propensos a sê-lo, porque o mal não foi superado.
Entre os escritores que se dispuseram à tarefa estão Ana Elisa Ribeiro, Carla Madeira, Carlos de Brito e Mello, Carlos Herculano Lopes, Cristina Agostinho, Cidinha da Silva, Cris Guerra, Eliana Cardoso, Francisco de Morais Mendes, Frei Betto, Ivan Ângelo, Jacyntho Lins Brandão, Jacques Fux, Luis Giffoni, Olavo Romano, Laura Cohen, Paula Pimenta e Stela Maris Rezende, gente que sabe o que dizer e, certamente, muito disse em seus contos.
Para o organizador, “a seleção dos nomes consagrou o princípio da diversidade, em toda a sua extensão. O time reunido é absolutamente heterogêneo, abrigando representantes de gerações, origens, trajetórias e estilos bem distintos, providência capaz de dotar a coletânea de caráter abrangente, inclusivo e, por isso, democrático”. A orelha é assinada pelo jornalista e escritor José Eduardo Gonçalves e dedicada à memória de dois dos maiores contistas brasileiros, ambos falecidos em 2020: Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna.
Os escritores da publicação da Academia Mineira de Letras terão pensado, talvez, como Juvenal Caldeira Durães, da entidade de Montes Claros: “Acredito que este momento de crise não surgiu por acaso. Surgiu da necessidade de darmos um tempo a nós mesmos, à correria sem sentido, às coisas sem valor e supérfluas que agora mais do que nunca não têm a mínima importância”.


85303
Por Manoel Hygino - 21/11/2020 07:48:28
Biden e 2022

Manoel Hygino

As imensas reportagens da televisão sobre as eleições nos Estados Unidos me transportam à Filadélfia de décadas atrás. Depois do almoço, o bom clima da cidade, uma das maiores desde que nasceu. Avenidas largas e pessoas apressadas, à medida que a noite chegava.
A mais de 100 quilômetros de Nova York e 211 de Washington, ostenta formosos parques que somam mais de 16 quilômetros. São números que consegui guardar. Seu fundador, William Penn, idealizara construir uma cidade rural verde.
Buscava eu conhecer o que ouvira. O edifício da Câmara foi erguido no centro e a Casa da Independência é um belo edifício histórico, que de longe se distingue, onde se proclamou a independência. Recordei Ouro Preto. No velho prédio, que nos evoca 1776, quando a nação passou a existir de fato, liberta enfim, há o museu de recordações da guerra que então se travou.
O porto é importantíssimo, desde que Penn comprou a terra dos índios, ali redigindo um projeto da Constituição, discutido em 1787. Preparava para que a cidade sediasse o governo federal, como aconteceu de 1790 a 1800.
Com comércio e indústria importantes, acolhe entidades científicas de alto prestígio, inclusive, internacional. Filadélfia inspira e exalta o sucesso da grande nação do Norte, o povo consciente e alegre, ignorando as desventuras pessoais do fundador, que dá o nome ao estado.
As cenas atuais, acompanhadas nas telas das salas em todo o mundo, marcam um tempo novo ou o surgimento dele. Muito de agora será logo passado, as pessoas, as maneiras de agir na política, a intolerância; o tempo de Trump, classificado de misógino, homofóbico e chauvinista, passou, como escreveu um jornalista atento.
A transição lá no Norte já começou. No domingo, o vencedor Joe Biden visitou os túmulos dos filhos mortos e da primeira esposa, foi à missa. Suas palavras são de confraternização e paz. De família católica, como John Kennedy, Biden também o é, num país de protestantes. Aos 77 anos, que se completam no dia 20, não encontrou apoio do presidente brasileiro em qualquer momento. Medo de perder o voto dos evangélicos em 2022?


85290
Por Manoel Hygino - 18/11/2020 07:57:32
Um tempo reencontrado

Manoel Hygino

Se o leitor quiser conhecer um pouco mais da história que não está nos livros de História ou residindo em Belo Horizonte, deve ir à tradicional Livraria Amadeu, da rua Tamoios, cujo fundador, Amadeu Rossi Coco, é um dos personagens. Ele foi amigo de todos os escritores de seu tempo, que é também o meu e de milhões de pessoas que sobrevivem às dificuldades e desafios de viver em nossa querida pátria, salve, salve.
Refiro-me a “Sob o Céu de Belo Horizonte”, de Pedro Rogério Couto Moreira, meu confrade na Academia Mineira de Letras, livro não lançado antes por impedimento da pandemia, que mudou tanto os planos dos autores do Brasil, mas também de todos os artistas, dos que fazem cultura e, ainda, dos que se dedicam à indústria e ao comércio. Em verdade, a Covid-19 nos atormentou, e continua forte, neste 2020, desde que apareceu no mundo.
Mas desejo simplesmente aconselhar a quem interessar possa: vale a pena adquirir um exemplar do livro. O escritor, que já foi correspondente da Globo na Amazônia, resgatou mais de vinte anos de sua existência em Belo Horizonte, período em que viveu intensamente a adolescência, no princípio da carreira na imprensa, no relacionamento com gente que virou notícia, muitas das quais, lamentavelmente, viraram defuntos. Dói dizê-lo, mas é verdade verdadeira.
Os políticos mais importantes das últimas décadas, os que se devotaram ao cinema e ao teatro, os que jogaram futebol, os que eram do comércio e da indústria, as bailarinas do Montanhês, os que tinham hora e local para os goles em lugares conhecidos na cidade, os que assumiam compromissos e não pagavam as contas, os desmazelados no ser e vestir, os que traíam as esposas por aí, enfim tudo que se sabia – ou se ignorava – é contado nesse livro, que é uma delícia a leitura.
O autor relata os fatos, registrados nas delegacias de polícia ou nas gafieiras, com minúcia dando nomes aos bois. O interessado se encontrará com cidadãos conspícuos ou os malandros nestas páginas que são um relicário e um reencontro com Belo Horizonte, que não feneceu.


85284
Por Manoel Hygino - 17/11/2020 07:52:53
Desde o princípio

Manoel Hygino

Em 3 de dezembro de 1870, um dia após o aniversário de D. Pedro II, circulou pela primeira vez o jornal “A República”, trazendo um manifesto francamente republicano, como se havia de esperar, sob a direção de Saldanha Marinho. Evidentemente, no Rio de Janeiro, a capital nacional.
Os homens do governo viram na folha um elemento perturbador da ordem. De fato, houve reação. Em 27 de fevereiro de 1872, por exemplo, reuniam-se na redação vários republicanos, na rua do Ouvidor, 152, sobrado, quando um grupo de desordeiros e desocupados, postados em atitude hostil, gritava vivas à monarquia, ao Ministério Rio Branco e ao imperador.
Uma pedra é atirada contra a vidraça de uma das janelas; em seguida, outra; e, depois, muitas mais. Um indivíduo mais exaltado sobe as grades da janela e passa tinta preta sobre a tabuleta do jornal.
A polícia foi chamada, mas quando chegou tudo se consumara. Segundo constou e percorreu a cidade a boca pequena, os bagunceiros eram assalariados da própria polícia e nada sofreram. O caso repercutiu na Câmara dos Deputados e o veemente parlamentar Ferreira Viana afirmou que o assalto tivera permissão das autoridades, tendo a polícia mandado enfeitar a frente do prédio.
O jornal durou pouco. Em 28 de fevereiro de 1872 saiu a última edição, mas deixou claro que fora um dos mais árduos adversários do Ministério Rio Branco, principalmente depois do ataque sofrido. Nenhum de seus colaboradores, contudo, foi perseguido.

O manifesto do Partido Republicano completa 150 anos, em 3 de dezembro que vem aí. Nele, denunciavam-se a imprevidência, as contradições, os erros e as usurpações governamentais, influindo sobre os negócios externos e internos, criando “uma situação deplorável, em que as inteligências e os caracteres pareciam fatalmente obliterados por um funesto eclipse”.
No documento, afirmava-se que “o mecanismo social e político, sem o eixo sobre o qual devia girar, isto é, a vontade do povo, ficou girando em torno de outro eixo, à vontade de um homem”. A crítica permanece válida, porque se o sistema de governo mudou, se os governantes são outros, em outra época, o vício se mantém sólido.


85265
Por Manoel Hygino - 11/11/2020 08:10:29
Desde o princípio

Manoel Hygino

Em 3 de dezembro de 1870, um dia após o aniversário de dom Pedro II, circulou pela primeira vez o jornal “A República”, trazendo um manifesto francamente republicano, como se havia de esperar, sob a direção de Saldanha Marinho. Evidentemente no Rio de Janeiro, a capital nacional.
Os homens do governo viram na folha um elemento perturbador da ordem. De fato, houve reação.
Em 27 de fevereiro de 1972, por exemplo, reuniam-se na redação vários republicanos, na rua do Ouvidor, 152, sobrado, quando um grupo de desordeiros e desocupados, postados em atitude hostil, gritava vivas à monarquia, ao Ministério Rio Branco e ao imperador.
Uma pedra é atirada contra a vidraça de uma das janelas; em seguida, outra; e, depois, muitas mais. Um indivíduo mais exaltado, sobe as grades da janela e passa tinta preta sobre a tabuleta do jornal. A Polícia foi chamada, mas quando chegou tudo se consumara.
Segundo constou e percorreu a cidade a boca pequena, os bagunceiros eram assalariados da própria Polícia e nada sofreram. O caso repercutiu na Câmara dos Deputados e o veemente parlamentar Ferreira Viana afirmou que o assalto tivera permissão das autoridades, tendo a Polícia mandado enfeitar a frente do prédio.
O jornal durou pouco. Em 28 de fevereiro de 1872, saiu a última edição, mas deixou claro que fora um dos mais árduos adversários do ministério Rio Branco, principalmente depois do ataque sofrido. Nenhum de seus colaboradores, contudo, foi perseguido.
O manifesto do Partido Republicano completa 150 anos, em 3 de dezembro que vem aí. Nele, denunciavam-se a imprevidência, as contradições, os erros e as usurpações governamentais, influindo sobre os negócios externos e internos, criando “uma situação deplorável, em que as inteligências e os caracteres pareciam fatalmente obliterados por um funesto eclipse”.
No documento, afirmava-se que “o mecanismo social e político, sem o eixo sobre que devia girar, isto é, a vontade do povo, ficou girando em torno de outro eixo, à vontade de um homem”. A crítica permanece válida, porque se o sistema de governo mudou, se os governantes são outros, em outra época, o vício se mantém sólido.


85268
Por Manoel Hygino - 11/11/2020 08:08:43
Efeitos da Covid

Manoel Hygino

Se contado, muitos duvidariam, certamente. Mas, é fato. A Academia Montes-Clarense de Letras, por proposta do acadêmico Édson Ferreira Andrade, abriu um concurso de poesias neste ano, para quem desejasse ver sua criação em uma antologia, tendo como mote a pandemia do coronavírus. Poder-se-ia pensar que se tratasse de promoção sem maior repercussão.
Não foi, contudo. Segundo a presidente da AML, Maria da Glória Caxito Mameluque, chegaram-lhe 977 colaborações, procedentes de distantes cidades e regiões. A comissão julgadora, composta – além dos mencionados – pelas acadêmicas Karla Celene Campos e Ivana Ferrante Rebello, se surpreendeu:
O primeiro texto recebido era de uma brasileira residente em Wevey, na Suíça, bela cidade às margens do Lago Geneve, onde nasceu a Nestlé, em 1867. Lá viveu Charles Chaplin, durante 25 anos, até a morte, repousando seus restos no cemitério local, sua casa transformada em museu. Não era só. Outro poema chegara do Japão, da brasileira Edweine Loureiro, nascida em Manaus e residente na capital nipônica.
A Antologia Nacional de Poesias, assim, superou as expectativas, evidenciando prestígio do sodalício que a organizou e, além disso, demonstrando a importância de Montes Claros, uma cidade do sertão mineiro, no cenário literário do país. Se fosse necessário mais do que a presença de dois de seus escritores na Casa de Machado de Assis: Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos.
Outros há que poderiam lá estar. Digno de nota é revelar o que Montes Claros significa nesta nação de mais de 200 milhões de habitantes. Além do mais, a sua Academia, chegando aos 54 anos, ganha fôlego jovial, ousa desafiadores voos, e conquista novos espaços, como salienta Karla Celene Campos, e reafirmando que “a vida, matéria-prima do poeta, manifestou-se, pois o chamado da poesia singrou espaços, destruiu barreiras, marcadas pelo isolamento social, impostas pela quarentena”, como registrou a professora Ivana Ferrante Rebello.
Em verdade, o norte-mineiro não para, não se cala, revela-se a cada dia e hora. Bastaria conhecer mais de perto a produção de suas entidades no campo das letras e das artes.



85249
Por Manoel Hygino - 7/11/2020 07:49:10
Mandetta x Guedes: nunca se entenderam bem

Manoel Hygino

O ambiente em Brasília se mantém em alta temperatura. Basta constatar pelos meios de comunicação. Tenho certa antipatia a redes sociais, usadas grandemente para disseminar maldades e malícias, acusações descabidas, posto o instrumento à disposição de quem não demonstra, como se constata repetidas vezes, interesse maior no exame e discussão dos problemas nacionais.
Jornais publicaram recente declaração de Paulo Guedes: “O ex-ministro da Saúde vem dizer que não demos muita atenção à crise. É um animador de televisão, um inconsequente de falar algo como isso”. Mas, os ministros Luiz Henrique Mandetta e Paulo Guedes nunca se entenderam bem, como o livro do ex-titular da Saúde – “Um paciente chamado Brasil: os bastidores da luta contra o coronavírus” o revela.
No livro, Mandetta conta sobre reunião ministerial de 31 de março, em que ele e Guedes se atritaram quanto a reajuste de remédios, que o colega queria liberar em plena pandemia: “Todo o problema aconteceu porque o Guedes não havia se inteirado sobre as regras de preços no setor farmacêutico. Esta é uma das poucas áreas que, desde época do governo Fernando Henrique Cardoso, continua com preços tabelados, definidos pelo governo”.
Assim, uma vez por ano, os dois ministros se reúnem para decidir de remédios. Guedes já era, por iniciativa pessoal, pelo aumento de 3,4%, mas Mandetta não concordava. Está no livro. Ministro da Saúde: “Poxa, no meio de uma pandemia, com pessoas sem dinheiro, uma multidão de desempregados, e o governo vai anunciar aumento de remédio? Não é hora de dar esse reajuste”.
O titular da economia, que até então parecia alheio a tudo, saiu do transe em que parecia estar e falou: “Negativo, eu não admito tabelamento”. Mas ele sequer sabia que o preço do medicamento já era, fazia tempo, tabelado. O aumento podia aguardar momento mais favorável, opina Mandetta.
Foi uma discussão feia durante a reunião, Guedes acusando Mandetta de tentar interferir em matéria do Ministério da Economia. As vozes ganharam volume. O ex-titular da saúde confessou: “Ele falou mais alto, eu falei mais alto”. “Ele tentou me interromper. Eu não deixei. Você fica quieto, porque eu fiquei quieto quando você falava”.
Bolsonaro calado, olhos arregalados. Mourão deu um tapa na mesa e gritou: “Vamos parar com isso”. E a discussão brava terminou.


85239
Por Manoel Hygino - 4/11/2020 07:57:16
Dia de Regozijo

Manoel Hygino

Sete de novembro é uma data a ser comemorada, neste país em que o bom e útil nem sempre se festeja. Trata-se de um sábado e não haverá agrupamento de pessoas, o que contrariaria as orientações sanitárias para este tempo desagradável de pandemia. Mas prevenir é melhor. Cem anos atrás, na primeira semana do mês, nada havia digno de relevo a registrar na capital com menos de 24 mil habitantes.
Neste vigésimo ano do século 21, no dia em questão, lembra-se a criação – com direito à presença do presidente da República – do CEM, sigla do Centro de Especialidades Médicas, que a Santa Casa, primeira instituição de saúde da nova sede do governo estadual, instalou para atender à demanda de mais de dois milhões de pessoas.
Não se pensava, então, em uma pandemia como a ora enfrentada por uma população, que esperava apenas chuva.
O CEM foi instalado onde antes existia o Sanatório Imaculada, com 100 leitos destinados a tuberculosos, também criado e mantido pela instituição.
Não mais havia necessidade do estabelecimento, inaugurado em 1934, porque entrara em declínio a patologia, a ciência avançara, os médicos idem. Com a desativação do Imaculada, se construiria um complexo para tratamento avançado de casos cardiológicos. O terreno foi desapropriado à Santa Casa e se começou o empreendimento.
Faltou dinheiro, houve acusações múltiplas, o projeto se frustrou, e a estrutura em cimento concreto ali ficou com um esqueleto de priscas eras. O provedor da SCMBH, Saulo Levindo Coelho, desenvolveu pertinazmente as vias para atender a instituição, a Prefeitura e o Estado, maiores interessados. Problemas complexos.
Parte do legado coube à Santa Casa, que lá instalou o CEM, que ora completa 13 anos, atendendo 32 especialidades médicas em 70 consultórios, 10 salas de procedimentos, bloco cirúrgico e 22 salas de exames. Coisa séria e do maior interesse social e humano.
De 2007 até agosto de 2020, foram 7.178.637 atendimentos com assistência de qualidade, como observa a superintendente, médica Maria Nunes.


85236
Por Manoel Hygino - 3/11/2020 07:50:04
Em época de Covid

Manoel Hygino

Nada melhor, em tempo de crise como a de Covid, agora, que ler. Vejamos: Longe, aqui, eis o título do novo livro de Maria Esther Maciel, lançado em 2019. Na capa se avisa: Poesia incompleta: 1998-2019, para alegria do leitor, que espera muito no futuro. Aliás, Edmilson de Almeida Pereira, no verão de 2020, observa (é o que leio na orelha): “a edição reitera e reconfigura o conceito de obra reunida, pois no reencontro dos temas marcantes de sua poética”. E há também fragmentos preciosos de sua prosa, que compreende a produção anterior de O livro das sutilezas, O livro de Zenóbia e Triz. Em resumo, trata-se de “um conjunto incompleto, que traz um pouco (ou um tanto) do que escrevi, sob a denominação instável de poesia”.
Nascida em Patos de Minas, Maria Esther Maciel reside em Belo Horizonte, é escritora, professora de literatura e crítica literária, recebeu altas distinções nos maiores concursos literários do Brasil e mesmo no exterior, é colaboradora da Folha de São Paulo, de textos país afora e uma das editoras da revista “Olympio”.
No livro mais recente, em cada página uma surpresa. Boa e bela. Assim, “Zenóbia conheceu na rua uma mulher que vendia palavras. Eram todas inventadas. Encantou-se com lágrimas”.
Ela ama o pai: “um chapéu de palha sem contorno certo/ botinas de couro cru com fivelas soltas / um rádio a pilhas ligado na sala muito cedo / uma camisa de listras finas com dois bolsos / uma bicicleta com cadeirinha dianteira / um balaio de vime cheio de ovos e couves”... Enfim, uma autora que mexe com o coração e o espírito.
Flávia de Queiroz – O costume era os escritores daqui, aqueles que começavam na carreira literária, tomarem o rumo do Rio de Janeiro e São Paulo. As duas metrópoles ofereciam condições de êxito, para os que se decidiam enveredar pelas letras.
Flávia de Queiroz Lima fez o roteiro em direção contrária. Nasceu no Rio de Janeiro, estudou piano no Conservatório Brasileiro, formou-se na Escola de Sociologia e Política da PUC-RJ, participou de movimentos de MPB e festivais da canção, compondo sozinha ou em parcerias, escrevendo coluna em diário carioca. Enfim, transferiu-se para Belo Horizonte, onde exerce os deveres profissionais como socióloga e em consultoria, mas sem deixar a poesia e a música. Daí, produzir o primeiro livro de poemas – “Círculo de Gis, e. em seguida, “Arrumar as Gavetas”, sugestivo título para agradável seleção de poemas, apresentada com gravação musical de composições suas e de André Galastro, também produtor, e José Miguel Wisnik e Edgberto Gismonti.
No livro, “música e poesia nos brindam momentos de enlevo espiritual e artístico, com ilustrações de Pedro Miranda, autor também da capa”. Flávia nos oferece o bom e o bem da poesia – “Minha rua era a beira da praia”.


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Por Manoel Hygino - 31/10/2020 07:38:53
Peso do Judiciário

Manoel Hygino

A última semana de outubro terminou deixando no ar, dentre outros problemas magnos que a nação ora enfrenta, a obrigatoriedade ou não de aplicação da vacina contra a Covid-19. Talvez seja o único país no planeta que se veja em tal contingência, não exatamente por dúvidas quanto à importância do procedimento sanitário, mas por notórias e claras manifestações sobre o problema, a começar pela Presidência da República.
Quatro ações foram impetradas no Supremo Tribunal Federal, mas o ministro Ricardo Lewandowski abriu mão de uma decisão monocrática, encaminhando a matéria, objeto de intolerância entre as partes, para exame e definição do colegiado, em data ainda não marcada até o momento desta redação. Para o ministro, a medida se fez indicada diante da “importância da matéria e da emergência de saúde pública decorrente do surto do coronavírus”.
Três ações defendem a vacinação mais ampla ou obrigatória e uma mantém a tese de proibição à compulsoriedade. Mas, o que chama a atenção, é que – mais uma vez – o Judiciário é requisitado a debater e expressar-se, em caráter decisório e final, sobre uma medida que deveria restringir-se aos dois outros poderes.
De fato, o Executivo e o Legislativo, por múltiplas razões, não têm conseguido chegar a um modus vivendi e operandi em numerosos temas. Deste modo, as matérias são submetidas à mais alta corte de Justiça para dirimir questões e propor a solução decisiva. Não se trata, pois, como comumente se considera, de uma interferência do Judiciário, mas de sua convocação em última instância.
A situação presente não seria a indicada e propícia, segundo o ministro-presidente Luiz Fux. Aliás, ele próprio declarou: “Meu sonho é fazer com que o Supremo volte ao respeito da época de Victor Nunes Leal e dos grandes juristas, como Sepúlveda Pertence. Quero o STF respeitado e, para isso, nós criamos várias frentes de atuação no Supremo e no Conselho Nacional de Justiça”.
Não se trata, portanto, de intromissão indevida do PJ nas atribuições do Executivo e do Legislativo, mas de suprir com soluções, diante da falta de habilidade de estes se entenderem, o que é profundamente lamentável. O Brasil ainda não aprendeu a conviver, em termos políticos. Dom Walmor, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, disse, a propósito, há poucos dias: “tamanho do descrédito com a política é impactante, principalmente, quando se considera a política partidária, incapaz de contribuir na construção de entendimentos que promovam o bem comum, a partir do respeito à sociedade civil na sua insubstituível importância. Reconhecer a importância da sociedade”.



85219
Por Manoel Hygino - 28/10/2020 08:03:40
A tragédia inesquecida

Manoel Hygino

Está chegando o podcast “Praia dos Ossos”, resgatando o trágico fim de Ângela Diniz, uma das mulheres lindas deste Estado, assassinada em Búzios, na passagem do ano de 1977. É um relato sobre a Belo Horizonte daquele tempo, dos costumes na alta sociedade, da maneira de ser das mulheres da época, das mães e filhas. É – ou deve ser – a reconstrução de uma época e de personagens inesquecíveis.
Ângela era incontestavelmente uma linda mulher e Fernando Gabeira, hoje analista político na Globo, tem um bom livro sobre ela. Encantei-me, vendo-a jovem em plenitude, no julgamento do assassinato de Maria de Lourdes Calmon, em Ouro Preto, em março de 1964. Ela irradiava beleza, mas o advogado famoso que defendeu o homicida Doca Street, o celebrado Evandro Lins e Silva, foi duramente criticado pelas feministas. O causídico declarou: “Mas elas (as feministas) não tinham razão, porque evidentemente eu não estava defendendo nada contra as mulheres. Minha mulher era viva, tenho minhas filhas. Seria uma tolice imaginar que eu estivesse ali desempenhando uma atividade contrária às mulheres. Era um episódio individual, de um casal que se desajustou e que chegou até à desgraça de um crime”.
Mais adiante, acrescenta o tribuno: “Mostrei exatamente isso: que essa deformação de sentimento do amor, que leva até ao crime de morte, evidentemente depende dos indivíduos, dos personagens, dos protagonistas do crime. Uma criatura vive com a outra e leva-a ao desespero, insulta, ofende, cria um ambiente de insuportabilidade na vida dos dois.
O passional, quando percebe a possibilidade da perda daquilo que é o objeto do seu amor – porque ele tem uma ideia fixa, tudo é aquela mulher –, deixa de dormir direito, não se alimenta, vai criando um estado d’alma de tal natureza que, chega um dia, quando sente que a ofensa foi maior ou que vai perder aquela mulher, em que, transtornando, não idêntico a si mesmo, pratica uma violência.
Ele nunca praticou uma violência, mas pratica naquele instante. Eu então dizia que os livros todos, sem exceção, mostram que o amor perturba, que o amor leva muitas vezes a gestos de grandeza, mas também a gestos de violência. Há exemplos disso na literatura, em todos os livros, romances, em tudo que é canto. Auguste Comte dizia que a briga doméstica é o grau mais íntimo da guerra civil. Quando os cônjuges brigam, não têm quartel e as brigas se transformam muitas vezes em ódios, em incompreensões, em intolerâncias.


85215
Por Manoel Hygino - 27/10/2020 07:59:55
Mazelas de 2021

Manoel Hygino

Na madrugada do dia 2 de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi diagnosticado com Covid-19, moléstia também identificada na esposa, Melania. Ele foi levado, na manhã seguinte, para o Centro Médico Militar Walter Reed, ali tratado com vitamina D, Zinco, Ramotidina, Metatonina e Aspirina. Até ali, tomava Cloroquina, preventivamente. Passou a usar medicamento experimental da farmacêutica Regeneron, com resultados preliminares positivos de tratamento, reduzindo a carga viral. A primeira-dama sofreu apenas tosse leve e dor de cabeça. A Casa Branca esclareceu que eram apenas de medidas de precaução. Mas, e no resto do mundo, com muitos milhões de gente pobre, mal alimentada, doente e sem a assistência que só as altas autoridades usufruem?
Quem visita diariamente a Imprensa terá lido as declarações de Mariângela Simão, brasileira vice-diretora da área de medicamentos, vacinas e produtos da OMS. Ela revela que nenhuma vacina em desenvolvimento no mundo terminará a fase 3 antes de dezembro próximo. Conclui: “Para chegar ao mercado vai ser em meados do ano que vem”.
Pior ainda é que 30% dos que sobreviveram à Covid-19 apresentam sequelas que, em 2021, deverão ser tratadas pelo SUS, com bom desempenho presentemente, mas terá de enfrentar logo as novas levas dos sequelados. Haja recurso! O governo já pensou nisso? Se não, que trate de fazê-lo, porque 2021 será terrivelmente desgastante.
Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute e professora da Sais/John Hopkins University, é muito objetiva também. Adverte sobre o que nos aguarda no novo ano, para que o governo e a população não sejam apanhados de surpresa. Quanto será necessário investir na Saúde, especificamente no SUS, em razão das sequelas da Covid-19, nas pessoas que se recuperarem da doença?
Chama-se a atenção para o fato de que a população segue envelhecendo e, assim, a moléstia também agrava o quadro por falta de tratamento. As doenças associadas à idade – como diabetes, câncer, cardiopatias – somam-se àquelas consideradas endêmicas, como a tuberculose, a dengue, a hanseníase, a malária e a Aids, que já pressionavam o sistema, e mais o farão a partir de janeiro. Não é brincadeira.
De fato, a vacina somente chegará ao mercado na metade do ano que vem. Depois dela, muito mais virá para afetar o campo da saúde e da vida, mas também o Tesouro. Tudo tem de ser pensado agora, porque a gripezinha não terminará rapidamente sua carreira de malefícios.
E a saúde, como ficará? A mesma pergunta pode ser dirigida desde já ao governo brasileiro. Não podemos afirmar que, em 2021, seremos apanhados de surpresa, como neste ano.



85207
Por Manoel Hygino - 25/10/2020 18:30:03
Mais falcatruas: o correto é apurar e punir os autores

Manoel Hygino

As roupas íntimas dos membros da Casa Alta do Congresso Nacional incomodam além do ministro Luis Roberto Barroso, que decidiu mandar suspender por 180 dias a atividade do parlamentar. Fui conferir. Segundo a enciclopédia portuguesa, cueca é uma espécie de ceroula curta, sendo a palavra usada mais no plural (pelo menos na terrinha ibérica), como o ez Camilo Castelo Branco em “As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado”. Pode o vocábulo ser também empregado para calcinha de mulher.

Pesquiso mais: Ceroulas, em Portugal, também usado no plural, é a peça do vestuário, atualmente utilizada só pelos homens, de tecido liso, de linho ou algodão e que cobre as pernas ou pelo menos as coxas e o ventre, e se transpõe abaixo das calças. Na Idade Média, ambos os sexos as usavam, mulheres com a peça esbanjando cuidados, pois inclusive continham bordados.

Quando surgiram os botões, houve estrepitosa repulsa, segundo Ivan Lins, ex da AML e da Brasileira. Até o século XII e a primeira metade do XIII, as roupas eram costuradas no corpo ou presas com laços, nunca abotoadas, pois botões inexistiam. Cada vez que um homem ou uma mulher precisava despir-se, a roupa tinha de ser descosida, e novamente costurada ao vestir-se outra vez.

Nas caçadas e excursões campestres, as senhoras levavam consigo os apetrechos de costura, a fim de se descoserem e coserem novamente as partes de seu vestuário. Prestavam ainda o mesmo serviço aos cidadãos graves, que não se submetiam à falta de compostura do andar com roupas providas de botões.

A questão reside em que, na época, julgava-se incômodo tirar as calças e vesti-las de novo, e com que intenção, os botões. Ernst Robert Curtius comentava que “nas controvérsias do século XII, representam as calças um papel penoso”. São Bento declarou supérflua essa peça e só a permitia em viagem. Parece que em Cluny, na segunda metade do século X, já se abandonara essa regra, o que, já no século XI, se prestava a remoques fradescos.

Desde o século XII, surge assunto na polêmica entre cistercienses e cluniacenses. Estes acusavam aqueles de não usarem calças, para mais facilmente se entregarem à impudicícia: é o que se vê num duelo poético de dois frades patuscos, que acabaram brigando. O tema foi versado com frequência e leva a um capítulo importante e vasto da literatura medieval, a crítica da cúria, do clero e do monarquismo, que tão grande espaço ocupa na poesia dos séculos XII e XIII.

Mudando para nossa era, vemos que a situação não é meramente religiosa. A cueca poderia servir para transportar disfarçadamente dinheiro público. É o que se vislumbra com o episódio de Boa Vista.

O assunto não está encerrado. O processo de transportar importâncias altas, de propriedade do poder público, por vias tão extravagantes, não é novidade. Um outro parlamentar, irmão de prestigioso líder de esquerda, já o fizera. O correto é apurar e punir os autores das falcatruas.


85196
Por Manoel Hygino - 21/10/2020 08:05:39
A carga tributária

Manoel Hygino

Dois ministros do presidente Bolsonaro não se entenderam e como seria de bom alvitre, contribuindo para mudar para melhor o quadro difícil que a nação atravessa. Os desencontros e a troca de farpas entre Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, foram classificados como “fogo amigo”. Mas não tão amigos como se desejaria, porque na troca de bordoadas verbais, não se encontraram sinais de evolução dos problemas em discussão.
Ambos procuram oferecer uma proposta segura ao presidente, em sua ansiedade de viabilizar o programa Bolsa Cidadã, que precisaria aquinhoar mais o eleitorado pobre do país. Aliás, um eleitorado sofrido que vem atravessando séculos sem conseguir sucesso em suas demandas. Alguma coisa se fez, incontestavelmente, mas o que conquistou mais repercussão foi a do presidente do Nordeste. Lula acabou investigado, julgado, condenado e preso, mas a miséria no país persiste, dramaticamente.
O programa da ajuda emergencial posta em prática por Guedes, as instâncias de Jair Messias, deu certo. Tanto que logo se viu o governo na contingência de ampliá-lo. Há muito mais gente passando necessidade do que se pensa. E gente continua nascendo. O pior é que as burras do tesouro não se abastecem na mesma proporção do incremento da população pobre. E as carências persistem dolorosamente.
Então, fazer o quê? O presidente ficou profundamente satisfeito com a gratidão do povo brasileiro, com os 600 reais e, depois, os trezentos, que foram parar no bolso dos desprotegidos da sorte. Mas a mina logo secou e houve necessidade de buscar novas fontes abastecedoras. Onde? Como? Quando? O nativo deste país, apenado por ser pobre e não ter trabalho, para suprir suas necessidades mínimas (as do estômago, em primeiro lugar) quer mais, precisa de mais, e tem urgência.
Aí reside o cruciante problema. Onde arranjar recursos? O pagador de impostos não é um pagador de promessas. Seu poder também é limitado e não é especificamente dever do contribuinte doar dinheiro para o conterrâneo “na pior”.
E o candidato à reeleição em 2022 tem urgência na adoção de providência para resolver a questão. Tem de aproveitar a simpatia despertada pelos 600 ou 300 reais, para que o eleitor não perca a esperança. Now ou never?
Em Brasília, a palavra “imposto” foi cortada do dicionário dos senadores e deputados. Não querem ver seu nome aliado à perspectiva de crescimento da pesada carga tributária.
Hora das mais graves dificuldades, porque os que devem sugerir algo proveitoso a Bolsonaro não têm resposta salvadora. Desde 2014, o Brasil acumula déficits orçamentários a cada ano.
Não tem como ofertar trabalho aos que receberem do Programa Social Renda Cidadã. Se se agregar o resultado da dívida pública, o nosso país jamais conheceu superávit, eis a verdade.
Hora de milagres?


85191
Por Manoel Hygino - 20/10/2020 08:09:01
Desce o serro

Manoel Hygino

Embora programada para assinalar os três séculos da comarca do Serro, a revista Magiscultura não se limitou ao inicialmente estabelecido, apesar das restrições impostas pela pandemia da Covid-19. O presidente da Amagis, Alberto Diniz Junior, em editorial, comenta o fato e o conteúdo da publicação - riquíssima, aliás. O ensaio do desembargador Gutemberg da Mota e Silva sobre o Brasil, local de exílio de escritores celebrados e que tiveram de fugir da Europa conflagrada, é um dos pontos altos da edição, que se situa em bela altitude com preciosas colaborações.
Crônica do magistrado Roberto Vasconcelos, as considerações filosóficas de Armando Barreto Marra, os artigos de Armando Freire e Rogério Medeiros Garcia de Lima, a poesia de Llewellyn Medina, Elson de Paula Silva e de Fernando Armando Ribeiro (que oferece ainda o conto “Gratidão”), e João Quintino Silva, os contos de Renato César Jardim e Wander Marotta completam o número da Revista.
Dos tempos decorridos se há de extrair exemplos e experiências. O desembargador Rogério Medeiros observa que, tão logo se iniciou o declínio do ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste, descobriram-se por aqui os primeiros veios de ouro. Era a vez da região, numa que muito exigiria dos corajosos aventureiros, aqui instalados nas áreas antes habitadas pelos índios botocudos. As feras concorriam, procurando dominar a região supostamente inexpugnável.
“Tudo era feroz e contrário à penetração humana nessas terras misteriosas e sinistras”, comentou Augusto de Lima Junior. Onde hoje está o Serro, em Ivituruí, “terra dos ventos frios”, chegaram os bandeirantes Antônio Soares Ferreira e João Soares, pai e filho, e fundaram dois arraiais conjuntos, que se transformariam, dada a sua rápida expansão e o adensamento da população, em povoado; depois, em 1714, a Vila do Príncipe e, finalmente, Serro.
O advento do município do Serro, por Lei Provincial, ocorreu em 6 de março de 1838. Em 8 de abril de 1938, a cidade é tombada pelo Patrimônio Histórico, e Artístico Nacional. Para os mineiros continua simplesmente a Terra do Queijo, com toda sua fama de sabor.
Em 1709, criara-se a capitania de São Paulo e Minas, já não mais integrando a do Rio de Janeiro, no reinado de D. João V, sendo governador da capitania D. Braz Baltasar da Silveira, erigindo-se em vilas as povoações de Caeté, do Príncipe ou Serro e a de Pitangui. Logo após, surgiram no enorme território das Minas Gerais as comarcas de Vila Rica, Rio das Mortes e Rio das Velhas. A de Serro Frio, com sede na Vila do Príncipe, atual Serro, se deu em 1720.
O importante, ou mais importante, é enfatizar que o Serro, “simboliza a convergência dos valores históricos, culturais e cívicos de Minas Gerais”. No entanto, a região (e a cidade) é berço de gente ilustre da província, do estado e do país. Lá nasceu, por exemplo, Teófilo Ottoni, o liberal por excelência, o revolucionário.



85184
Por Manoel Hygino - 17/10/2020 07:56:54
O traficante escapa

Manoel Hygino

O horizonte não é belo nesta semana. Com certeza, o ambiente sombrio dos últimos dias será sequência que sobreveio do Dia da Senhora Aparecida e do Dia da Criança.
Há conflito no Supremo Tribunal Federal entre o agora decano Marco Aurélio Melo e o recém-empossado presidente Luiz Fux. Motivo: libertação do megatraficante André de Oliveira Macedo, o conhecido André do Rap, que já comeu espaço abundante em todos os veículos de comunicação. Mas o caso não está encerrado. Neste período suficientemente quente de antagonismos, será mantido o mesmo clima.
O assunto, que pareceria um mero desencontro de opiniões entre dois integrantes da Alta Corte, desencadeou uma onda de embates políticos, muito inconveniente nesta hora da propaganda eleitoral. O desentendimento não se limitou à interpretação da Lei 13.864, a do Pacote Anticrime, pois envolve mudanças na interpretação no artigo 316, do Código de Processo Penal.
Acontece que o Pacote fora encaminhado ao Legislativo no tempo de Sérgio Moro como ministro da Justiça, razão pela qual a reação se estendeu a outros núcleos. O ex-juiz, por sinal, já se sentiu no dever de esclarecer que o instituto da prisão de 90 dias foi inserido no projeto original quando em tramitação, não se lhe podendo atribuir qualquer responsabilidade na redação resultante. Pelo contrário, a modificação deveria ter sido oportunamente vetada pelo presidente, o que não aconteceu. Daí, o imbróglio.
Agora todos gritam, todos têm razões (algumas tardiamente suscitadas) e procuram defender-se. De qualquer modo, o mal está feito e precisa ser remediado, o mais rapidamente possível. Aparentemente, o texto final visava proteger políticos com contas a pagar na Justiça. No entanto, pelo que se vê, não é apenas isso, e o caso do criminoso que se livrou da cadeia depois de longa procura em vários cantos do mundo, é apenas um.
A situação deixou mal membros da mais elevada corte de Justiça do país, obrigados a criticar o colega para se resguardar, mas a razão maior da procela está muito distante. Marco Aurélio promete “levantar questão”, levando-a para análise em Plenário. Ele afirma querer “saber se o presidente do tribunal se tornou censor de seus pares”. “Isso tem de ser elucidado”, afirmou.
Evidentemente, o affair é muito mais grave. Seria adequado que se apurasse no seio do Congresso que motivo teria conduzido a questão por ínvia tramitação, que desembarcou na situação presente, constrangedora sob muitos aspectos e pondo em dúvida magistrados que merecem respeito.
Aliás, ainda com relação ao STF, ainda há a sabatina para exame do nome do sucessor de Celso de Mello. O problema assume feição de caráter religioso, como se se ignorasse que o Brasil é um país laico. Chega de confusões.
Enquanto isso, o criminoso se esconde, talvez, no exterior.


85174
Por Manoel Hygino - 14/10/2020 07:52:35
Sempre Neruda

Manoel Hygino

Pablo Neruda, o grande poeta chileno, recordava com enlevo que o tempo no continente latino-americano é um mês amplo e florido, também cheio de bandeiras. No início do século 19, em 1810, e em setembro, despontaram ou se consolidaram as insurreições contra o domínio espanhol em numerosos territórios da América do Sul. E não só nos domínios espanhóis, podemos dizer, porque foi no nono mês, num dia 7, que se declarou a independência do Brasil, às plácidas margens do Ipiranga, em 1822. Quem não aprendeu? Foi muito importante para o mundo a cadeia cíclica de movimentos que brotaram nas novas terras, como observou Neruda.
Mas, em 2020, assim que passou aquele mês e a primavera, também os jornais noticiaram a venda do arquivo do poeta, conservado na Espanha, em que ele atuou em guerra e nas letras.
A coleção seria leiloada, em 8 de outubro, dividida em 238 lotes, variando os preços de 50 a 80 mil euros.
Cancelado em março, devido à pandemia, o leilão do arquivo com mais de 600 peças. A coleção, que inclui manuscritos, objetos pessoais, primeiras edições e livros dedicados ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez e ao ex-presidente chileno Salvador Allende, deveria ser leiloada em um único lote, em 19 de março, na Galeria La Suite, em Barcelona. Porém, o evento foi suspenso devido ao distanciamento entre as pessoas, resultante de medidas sanitárias.
Antes, houvera interesse do Chile, cujo governo esclareceu que não dispõe de recursos para o investimento total – 850 mil euros, por causa da pandemia. Também os Estados Unidos não quiseram assumir. Segundo o colecionador espanhol Santiago Vivanco, viticultor e apaixonado por Neruda, ele não poderia manter a coleção consigo, pelo seu alto valor. Em parcelas, pode ser que algum ricaço ou alguns ricaços se interessem.
A esta altura, o poeta diria, como o fez em um de seus livros: “Estas memórias, ou lembranças, são intermitentes, por momentos, me escapam, porque a vida é exatamente assim. A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho. Muitas de minhas lembranças se toldaram ao evocá-las, viraram pó, como um cristal irremediavelmente ferido.
...”Do que deixei escrito se desprenderão sempre como nas árvores de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado. Minha vida é uma vida feita de todas as vidas; as vidas do poeta”. Neruda faleceu no Chile, em 1973, dois anos após receber o Prêmio Nobel de Literatura.


85171
Por Manoel Hygino - 13/10/2020 08:00:39
Na visita soberana

Manoel Hygino

Foi-se o tempo dos reis, que não mais vêm a Belo Horizonte, como aconteceu em outubro de 1920. Cem anos decorridos, mais lembrada é a Gripe Espanhola, que deixou mortos e feridos aos milhares, na jovem capital dos mineiros. Uma metrópole com somente 21 anos.
Engalanou-se a cidade para dar boas-vindas e abrigar o rei Alberto, de 45 anos, e a rainha Elizabeth, de 43, que desembarcaram na estação, acompanhados de sua corte, evidentemente, mas também do presidente da República, Epitácio Pessoa. Na comitiva, o capelão Abade Nol, e o médico da corte, dr. Pierre Nolf. E, como companhia do presidente brasileiro, o ministro da Marinha Raul Soares, um civil; Pires do Rio, titular da Viação; e o general Tasso Fragoso.
Claro que não havia avião naquela época. Apelava-se para o transporte ferroviário. Os soberanos belgas desceram na estação, pela manhã, procedentes do Rio, em composição especial da Central do Brasil. Os carros tinham sido fabricados nas oficinas de São Paulo, especificamente para a finalidade.
Afonso Vaz de Melo, prefeito de BH, saudou os ilustres visitantes, tomando em seguida o automóvel Daumont, que encabeçava o nobre cortejo até o Palácio da Liberdade. No primeiro carro, o soberano, o presidente do Estado, Artur Bernardes, o major Tilkens e o cel. Vieira Cristão, do nosso Exército. No segundo carro, a rainha, a sra. Epitácio Pessoa, o prefeito e o secretário do rei, major Dujardin. Em seguida, uma dúzia de carros com ilustres personagens.
Foi festa como raramente se viu no velho Curral del-Rei. Segundo Octávio Penna, posteriormente prefeito, a cidade se engalanou como nunca. Os edifícios públicos da avenida João Pinheiro e da praça da Liberdade foram iluminados com gambiarras assim como os contornos do logradouro. Os canteiros ficaram lindos, também à chegada da noite: Milhares de pessoas tinham vindo de toda Minas para as festas e homenagens aos soberanos belgas. Ninguém recordava os dias amargos da Espanhola.
Naquela noite, o presidente Artur Bernardes se viu despejado do Palácio, porque seus aposentos foram destinados aos imperiais hóspedes. O mandatário de Viçosa se viu na honrosa contingência de deslocar-se para o Palacete Dantas, ali perto, aliás. A praça foi entregue às comemorações, enquanto o jantar se oferecia do outro lado, na Secretaria do Interior. Os monarcas se encantaram com o mobiliário palaciano, especialmente adquirido para que pudessem sentir o gáudio e o orgulho da terra mineira, em que deixariam marcas do poder econômico da nação belga.


85162
Por Manoel Hygino - 10/10/2020 07:05:25
Escolha para o STF

Manoel Hygino

O ministro Celso de Mello está dando adeus ao Supremo Tribunal Federal (STF), a que serviu por 31 anos. Hora, pois, de o atual presidente da República indicar sucessor, como já o fez. Uma ocasião sempre delicada, quando se acendem os faróis dos interesses, sobretudo políticos, com o pormenor de aguardar-se agora um evangélico para o alto posto, próprio chefe do Executivo. Aguardemos.
Já vai longe a época de Evandro Lins e Silva, que fora procurador-geral da República, chefe do Gabinete Civil, da Previdência e Ministro do Exterior de Jango. Em 1963, empossou-se como ministro do Supremo, quando se acumulavam pedidos de habeas-corpus em favor de presos políticos. Em 1969, por força ao AI-5 famoso, foi aposentado, juntamente com Hermes Lima e Victor Nunes Leal.
Conviveu, ao longo do tempo, com as figuras mais destacadas da vida pública do país, em todas as condições e das mais variadas ideias. Manifestou-se sobre a harmonia entre os poderes, tema tão presente nesta hora.
Lins e Silva escreveu: “Pela Constituição, a supremacia do Supremo em relação aos outros poderes é indiscutível. É ele que julga a inconstitucionalidade das leis, portanto, julga o Legislativo, é ele que julga o atos e os crimes do Poder Executivo, portanto julga os dois poderes.
Evidentemente, ele deve ter o entendimento de que a sua independência não vai ao ponto de poder ferir o outro princípio, de harmonia dos poderes. Tenho sustentado isso em muitas oportunidades, lembro que, num discurso que fiz, quando tomou posse na presidência o ministro Xavier de Albuquerque, desenvolvi esse tema longamente. Sempre dou como grande exemplo a história da Corte Suprema dos Estados Unidos da América, de que a solução adotada foi um sofisma, para evitar o confronto de poderes.
É preciso que haja exatamente essa compreensão dos juízes da Corte, para evitar o confronto. É evidente que, quando uma lei fere a Constituição, não é questão de confronto de poderes, é questão do poder que a Constituição dá ao Supremo de decidir sobre a inconstitucionalidade da lei. Posso até admitir que o Supremo não tenha razão, mas a presunção é que ele defenda com todo o vigor, com toda a garra, a Constituição da República. É este o seu dever. Acho que, se ao Supremo incumbe julgar os atos dos outros poderes, ele fica com uma inegável supremacia. Mas não pode e não deve criar conflitos desnecessários. Daí ser muito importante a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal”.


85150
Por Manoel Hygino - 7/10/2020 07:59:12
Sobre índios

Manoel Hygino

Apanho o jornal. Nas últimas 24 horas, o Brasil sofrera 831 mortes por Covid-19, pelo cômputo oficial, embora com diagnósticos referentes a óbitos anteriores. Gosto de “pegar” com as mãos as notícias, em papel impresso. Somavam, então, 4.465.702 casos oficiais, segundo o Ministério da Saúde. A causa fora apenas aquela gripezinha.
O presidente da República assinou, naquele dia, duas medidas provisórias, uma das quais aprovando a “adesão ao Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19”, conforme programa da Organização Mundial de Saúde, significando R$ 2,5 bilhões para bancar os custos do projeto assegurando-se 2 bilhões de doses para distribuição aos países membros. E Bolsonaro, como o presidente dos EUA, tudo fizera para menosprezar a OMS. O tempo deu a resposta. Donald Trump, de volta à Casa Branca, após uma rápida internação em hospital militar, conta que aprendeu agora o que é a Covid.
Em Roque Gonzales, na heroica região das Missões, Rio Grande do Sul, Nelson Hoffmann, intelectual, escritor, identificado com as melhores causas do Brasil, a partir do chão missioneiro, e povoadores, comentou o instante histórico que atravessamos. “Essa pandemia já virou pandemônio. Ninguém mais se entende. De um lado é uma gripezinha, sequer faz cócegas; de outro lado, é mortal, os números estão aí. De um lado, isso é normal, é destino das pessoas morrer; de outro lado isso é anormal, é destino das pessoas viver. De um lado importa a economia forte; de outro lado, importa a comunidade sadia. De um lado é problema político; de outro lado é problema científico. De um lado, é imprensa comunista; de outro lado, é mídia nazifascista. De um lado...; de outro lado... E, nessa barafunda toda, aqui embaixo, ao léu, rastejamos nós, pobres humanos esquecidos, procurando um porto seguro. Luz”!
Em solo gaúcho, usando o jornal “Nheçú”, o advogado Júlio Ribeiro, também professor, lembrou conversa de dia passado. Comentara com algumas pessoas sobre o belo trabalho artesanal de uma índia, que expunha seu trabalho, em frente ao Santander, em Osório. Ouviu a resposta: “Também, um bando de vagabundos que não fazem nada, têm os melhores telefones e andam de carro bom”. O ilustre causídico virou as costas e foi embora.
“Falar sobre índio no Brasil está cada vez mais difícil, assim como em todos os temas, há aqueles que amam e aqueles que odeiam. Não estou aqui para dizer como deveriam ser tratados os índios ou como suas terras deveriam ser demarcadas, senão, teria que ocupar umas três páginas para dizer o que penso e umas 10 páginas para dizer o que pensam nossos políticos sobre o assunto. Disse tudo isto para concluir o que escrevi lá no início: como está difícil falar sobre a situação dos indígenas no Brasil. Sempre tem aquele que sabe tudo sem nunca ter lido nada; tem aquele que não sabe nada, mas tem opinião “bem” formada; tem aquele que imagina que sabe; aquele que sabe, mas não acredita, enfim, temos vários pensadores sobre o assunto”.


85147
Por Manoel Hygino - 6/10/2020 08:03:18
Retrato do sertão

Manoel Hygino

Enquanto o Brasil arde em chamas que inquietam até a comunidade internacional, leio o escrito sobre uma grande região de Minas. Diz-se ali do risco que estamos padecendo por antecipação. O autor é Virgílio Vianna, um especialista. Engenheiro florestal pela Esalq, Ph.D. pela Universidade de Harvard, ex-secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas e superintendente geral da Fundação Amazonas Sustentável.
Obrigo-me a repetir o texto inicial, ipsis litteris: “O Norte de Minas Gerais vive, hoje, um momento crítico na sua história. Está em curso um processo de aumento de aridez que se agrava rapidamente, criando uma nova realidade tanto para as populações urbanas quanto rurais. Cidades grandes, como Montes Claros, estão próximas do colapso do abastecimento de água. O mesmo cenário afeta cidades pequenas, muitas com seus reservatórios quase totalmente vazios. No mundo rural, córregos e rios que antes nunca secavam agora secam todos os anos”.
Conhecemos a realidade daquele extenso trecho do sertão mineiro, porque ele já é sertão. Ao longo do tempo, sofre a inclemência do clima, as longas estiagens, a diminuição de água de rios, a exaustão dos riachos a que falta água, o emagrecimento do gado, a agonia das reses, o drama do homem do campo que vê fenecer a sua plantação, a minguada comida nossa de todos os dias. Se pouco, multidões descem da Bahia e estados mais ao Norte, porque lá a seca é pior e acumula dores e até a morte, e buscam abrigo e comida em território mineiro.
As autoridades, distantes das desditas de uma população só lembrada nos dias de eleições, ignoravam – ou faziam de conta – que tudo andava bem nas entranhas da terra descoberta por Cabral.
Ademais, havia e há problemas preferenciais, e mais importantes a serem resolvidos, como construção de estádios esportivos, áreas de lazer e divertimento nas capitais, por exemplo. E as necessidades do cotidiano podiam ficar para depois... e iam ficando.
O norte-mineiro viveu às suas próprias custas e maneiras. Tentou-se até a emancipação, mas não deu certo. As razões políticas não permitiram, nem permitirão. Ali há muito voto, a terra é bela e rica. Mas logo voltará a escassez de água nas torneiras das cidades maiores. E então?


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Por Manoel Hygino - 3/10/2020 07:48:33
No tempo do coronel

Manoel Hygino

Em época de pandemia, com a agressividade e extensão da que ora enfrentamos, muita coisa é esquecida ou relegada. É o caso da morte, em maio, do Coronel Pedro Ferreira dos Santos, conhecido apenas como “Cel Pedro”. Ele foi uma espécie de herói em grandes regiões do Estado, nos anos cinquenta. Tendo ingressado na Polícia Militar de Minas aos 16 anos, demonstrou coragem e disposição para enfrentar os jagunços e crimes de pistolagem.
Nascido em Brasópolis, no Sul de Minas, em 24 de dezembro de 1914, entrou para a corporação como soldado, em plena revolução de 1930. Em 1943, com a escalada do banditismo, sobretudo nos vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce. Comprovada sua eficiência, foi designado para arriscadas missões.
A palavra medo não constava de seu dicionário. Em 1950, decidiu que tinha de estabelecer-se na maior cidade da região Leste. Juntou a família e montou residência em Valadares, a antiga Figueira do Rio Doce. Ali, montou seu quartel general, de onde comandava a repressão aos pistoleiros e seus grupos.
Passou à reserva, dentro do prazo. No entanto, em 1961, já supostamente destinado ao sossego, viu-se reconvocado para o serviço ativo, para exercer o cargo de delegado supervisor de capturas no Estado. Assim, por mais de três décadas, cumpriu missão à frente de suas equipes. Mais do que isso, foi convidado a desvendar crimes os mais variados, em outras unidades da Federação, sempre com êxito e sacrifício.
Mas, chegou o dia de sua paz. No ano de 2000, por volta de 1h da madrugada, no Hospital Militar da PM, em Belo Horizonte, deu-se por encerrada a missão, velado o corpo no 6º Batalhão da Polícia Militar, sepultado com honras militares, em Valadares. Com 85 anos, na cidade onde recebeu, em 22 de junho de 1952, a primeira equipe do 6º Batalhão, chegado da capital, ora descansa.
De lá para cá, cresceu enormemente a bandidagem no interior de Minas, bem como do Brasil. O novo cangaço, como popularmente conhecido, adquiriu novas e mais modernas formas e métodos. Outros coronéis, como o de Brasópolis, são necessários nesta hora, em que tantos brasileiros são vilmente assassinados e bens públicos e privados saqueados.
Estatísticas mostram suficientemente o que acontece; o que formamos e o que somos. É até em honra aos que deram tanto de si pela comunidade que se deve evocar a figura do Coronel Pedro, um exemplo dentro da corporação a que serviu Tiradentes.


85129
Por Manoel Hygino - 30/9/2020 08:02:39
Política externa

Manoel Hygino

O Brasil sempre quis levar uma política externa independente, sem se inclinar à Casa Branca. Lauro Muller, nosso chanceler, declarou que nosso país devia estar “com os Estados Unidos, mas não a reboque”. Vasco Leitão da Cunha, diplomata de carreira, defendia não ser necessário subserviência para ser aliado.
Um dos nossos embaixadores em Washington lembrava, há alguns dias, que entre países não há amigos, há interesses, condição que obriga os chefes de governo e de Estado a se comportar dentro desses parâmetros.
Recentemente, o presidente de nossa República presidiu a solenidade de abertura de um alto forno da Usiminas, em Ipatinga. Os discursos de praxe, o Brasil retomaria o caminho da atividade econômica, e dias melhores viriam. Logo, o presidente da grande nação amiga ao Norte baixava instruções para sobretaxa ao aço exportado daqui. Muy amigos! Entre nós, aliás, há a lição: amigos – amigos, negócios à parte.
É também recente. Após a Casa Branca anunciar a suspensão de restrições a voos oriundos do Brasil, a embaixada norte-americana esclareceu que se mantêm as exigências anteriores para quem deseja entrar no país. Difícil entender.
Paulo Delgado evocou o embaixador Rubem Barbosa, então a serviço em Washington, quando se editou a doutrina de segurança nacional de George W. Bush, pela qual os do Norte passariam a reagir a qualquer ato que afetasse seus interesses. Afirmou Barbosa: “Em decorrência dessa visão, hoje o establishment americano considerou a China um adversário que fere os seus interesses concretos nas áreas comercial, tecnológica, militar e estratégica”.
O próprio Barbosa, de alto conceito no Itamaraty, observa que medidas negativas contra o Brasil foram adotadas, inclusive, a importação de 80% de nosso aço. Tio Sam renegou o candidato brasileiro à presidência do BID, pressionado sobre o etanol brasileiro para eliminar tarifas. Outro credenciado diplomata verde-amarelo, Marcos Azambuja, comentou: “O Brasil abandonou a visão de si mesmo como uma potência multinacional, multirracial, multi-ideológica, multirreligiosa, para ser um país sectário, correspondendo apenas a uma visão limitada do seu interesse imediato”.


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Por Manoel Hygino - 29/9/2020 08:09:39
Política danosa

Manoel Hygino

A crise no Brasil por força do problema ambiental se generalizou. Aqui entre nós, parecia uma questão de determinados grupos de pessoas e entidades que se batiam pela preservação de nossas reservas florestais. Transformou-se num imenso desafio, com envolvimento internacional, principalmente diante da intolerância da União. Esta, incrível, julga que nossa política para o setor é exemplar.
O elevado número de incêndios em todo o território nacional, por força de prolongada seca, não exime Brasília de responsabilidade nos casos mais específicos da Floresta Amazônica e do Pantanal. Pelo contrário, adverte para o período político que atravessamos e para a necessidade de adoção de medidas, drásticas e urgentes, capazes de dar fim à amplamente anunciada.
É sabido que uma das causas da hora difícil que nossa economia atravessa decorre da política ambiental praticada, considerada desastrosa. E por que não mudá-la? Quais os motivos que o impedem? Não há confiança nas propostas até aqui emanadas do Planalto, que esboroam naturalmente, uma vez discutidas entre os técnicos e os parlamentares.
O pedido de afastamento do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, formulado pelo Ministério Público Federal, dança nas altas esferas da Justiça. Ele - dos mais ligados ao presidente da República - é acusado de cometer improbidade administrativa, em atos e omissões, demonstradores da dolosa política ambiental de sua pasta.
Até quando vamos bailar de lá para cá, de cá para lá, com os ingentes problemas da nação - e, se é dela, é do povo?
Economias europeias não têm mais interesse em investir no país e podem cortar de vez ajuda na proteção de nossa riqueza vegetal. Sobre o fato, o ex-ministro Rubens Ricupero deu longa entrevista à TV Assembleia, na noite do último domingo. Ele confirma a posição equívoca do governo Bolsonaro quanto à questão ambiental. Prevê ainda dificuldades no levantamento de meios financeiros para preservar o meio ambiente, se se mantiver a atual política do Planalto. Enquanto isso, o ministro, altamente prestigiado, percorre o país sem se explicar convenientemente. Para ele, o silêncio é de ouro, para as demais partes interessadas, dá-se o contrário. Vamos levando, enquanto a boiada passa, como ele declarou na malfadada reunião ministerial de 22 de abril.
O assunto é dos três poderes da República. Disse o ministro Luís Roberto Barroso, do STF: “Uma das nossas premissas importantes é a de que a proteção ambiental não é uma escolha política – é um dever constitucional”.


85121
Por Manoel Hygino - 26/9/2020 08:01:22
Fascinação das asas

Manoel Hygino

Começa assim: ao sair para seu passeio em manhã de primavera, Aurélio não imaginava a imensa jornada que teria. As caminhadas de sábado eram o tempo que considerava verdadeiramente seu e, pelas trilhas da floresta, entregava-se à contemplação das aves, sentindo-se maior e mais vivo, não simplesmente um consumidor de utilidades, um número em meio à multidão.
Refiro-me ao livro “A fascinação das asas”, uma ficção, que Fernando Armando Ribeiro lançou no segundo semestre do ano passado e que, somente agora, em plena pandemia, tenho o prazer de ler, em sossego. Trata-se do primeiro que, no gênero, publica, e valeu a pena. Porque, se para o protagonista da novela é um mero passeio entre árvores e bichos, para o leitor constitui espaço para meditação útil, fundamental ao homem que pensa.
O passeio se transformará numa aventura, em que Aurélio se encontra com um grupo de pessoas, suficientemente preparadas e em ação contra o governo totalitário instalado. Nasce um amor profundo com uma das revolucionárias, por assim dizer, e é levado a seu convívio. Durará pouco. Logo é aprisionado pelos agentes da ditadura e cumpre um longo período com personagens diversas, inclusive com um velho, preso há anos, e que, no fundo, é um sábio, que lhe transmite experiências e aconselhamento.
A narração evolui para o fim da rebelião, as coisas retornam lentamente a seu normal, entram em cena os novos donos do poder, com o protagonista buscando posicionar-se, enfrentando dificuldades que retroagem à infância, mas sem conseguir localizar a jovem da floresta.
Em cada capítulo, uma surpresa, uma revelação, uma lição. Mantém contatos com próceres do novo governo, levando consigo, contudo, a percepção de que a primeira lei abolida no imaginário de ditadores é a da finitude humana. “Falavam e agiam como se fossem gozar de poder eterno”.
Mas havia, enquanto se esforçava por encontrar o amor perdido, a lembrança da jardineira cega que dizia ouvir as flores e a ativa reminiscência do velho prisioneiro, para quem “as revoluções que tolheram as asas serão sempre vazias e perigosas”.
Para terminar, informo: Fernando Armando Ribeiro nasceu em Belo Horizonte, tem excelente biografia, e é professor na PUC Minas.


85108
Por Manoel Hygino - 23/9/2020 08:15:06
O papel do SUS

Manoel Hygino

Ruy Nedel é polivalente. Basta conferir sua biografia no Rio Grande do Sul, onde nasceu e vive, hoje, em Cerro Largo. É desses gaúchos que não dobram a cerviz diante dos desafios. Médico, político, escritor, professor universitário, foi assessor social do reitor da Universidade Federal de Brasília, integrou a Cirurgia Geral da então Faculdade Católica de Medicina da Santa Casa de Porto Alegre, hoje UFCSPA, membro da Comissão de Ordem Social da Assembleia Nacional Constituinte, que produziu o Capítulo do Índio e o SUS, em 1988.
Em seu “História – Estado – Povo”, livro que bem resume suas ideias, Nedel conta, muito resumidamente, sua atuação na Constituinte. Para ele, a Assembleia Nacional “promoveu e aclarou algumas funções de Estado e de governo”. O cidadão foi lembrado em inúmeros direitos. Não poderia seguir-se sonegando o direito previdenciário do trabalhador rural.
Criou-se um sistema de saúde universal – o SUS – Um sistema único, com três níveis de gestão: União, estados e municípios: Diretrizes nacionais para que o sistema fosse único: Assistência a cargo do município, com auxílio técnico e financeiro dos estados e principalmente da União.
Os objetivos são nítidos e definidos: A regionalização e hierarquização em uma aldeia devem gozar dos mesmos direitos à alta complexidade que o das metrópoles. Isto é, um controle social com poder deliberativo. E trouxe os resultados esperados, embora as naturais dificuldades e resistências.
Como Nedel observa, o SUS trouxe à prática cotidiana a “questão da alta complexidade das variadas especializações da medicina, que – em muitas regiões – acabará funcionando melhor nas pequenas cidades em relação às grandes, devido às facilidades de acesso à assistência e encaminhamentos médico-terapêuticos”.
Agora, já se pode avaliar como foi importante a criação do Sistema Único de Saúde, embora o muito que ainda resta fazer para que alcance seu mais alto nível para servir à sociedade e ao homem. As próprias autoridades já lhe reconhecem a elevada valia, a despeito dos ainda parcos recursos com que a União beneficia o sistema, em termos financeiros. Se não fosse o SUS, a pandemia da Covid-19 teria sido uma tragédia ainda maior. É uma constatação e um aviso.


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Por Manoel Hygino - 22/9/2020 08:28:24
O drama das cidades

Manoel Hygino

Conversando com o médico Jackson Machado Pinto, secretário municipal de Saúde de Belo Horizonte, logo no princípio da atual gestão, eu lhe disse da coragem de que tinha de armar-se para enfrentar os problemas de uma capital como a nossa. Ele contestou, informando que o prefeito Kalil e ele estavam conscientes e prontos para o desafio.
O quatriênio, contudo, veio com o acréscimo cruel da Covid, que há seis meses inquieta e atormenta. Na realidade, os futuros chefes do Executivo que se elegerão daqui a dois meses, devem preparar-se para o imenso repto de administrar. As cidades projetadas para sedes de capital não sofreram menos.
Adalberto Lassance, coordenador de implantação do Sistema Cartográfico do Distrito Federal e membro do IHGDF, comentou na Revista do instituto, há pouco: “Não bastassem as cidades satélites diferentes de Brasília, por questões socioeconômicas e outras, o problema migratório e o mercado fácil da especulação imobiliária provocaram a discriminação desordenada de loteamentos na periferia”.
Em verdade, ponderáveis parcelas dos brasileiros do interior julgam que basta ir para a cidade maior e mais importante, que resolverão o seu problema fundamental: ter onde morar com a família. Longe disso.
Milhares e milhares pensam o mesmo e seguem esse caminho, que não resolve o seu projeto de vida e provoca novos reptos aos administradores. Como registra Lassance, da situação “decorre violenta pressão sobre os equipamentos urbanos e comunitários, particularmente em áreas de saúde, transportes e segurança pública: “que se tem constituído num pesadíssimo ônus para o governo local, como se já não fossem suficientes os problemas com os seus próprios habitantes oriundos de outras regiões do país”.
Assim é, de fato, com Brasília e Belo Horizonte em especial, mas, por extensão, com todas as cidades, com cada lote doado ou comprado das imobiliárias, tem-se um reflexo extenso: mais gentes que desejam ir para grupamento maior e com supostamente mais bons serviços à população. Esta demanda é permanente e as prefeituras têm de se virar para bem atender.


85090
Por Manoel Hygino - 19/9/2020 07:45:49
Ibrahim Imortal

Manoel Hygino

No último dia de agosto deste ano, fez-se eleição para a vaga de Aluízio Pimenta na cadeira nº 17 da Academia Mineira de Letras. Ex-ministro, será substituído por Ibrahim Abi-Ackel, ex-ministro da Justiça, comprometido com a abertura democrática, após o hiato do período militar instalado em 1964.
Amigo de Aluízio, de que fui aluno de Física no Colégio Santo Agostinho, lembro que, ainda rapazola, ele me fizera ler o discurso de formatura na Escola de Farmácia da UFMG, escolhido orador da turma. Nossos laços de família vinham desde quase a adolescência, poderia dizer. Depois, eis-nos confrades na Casa de Alphonsus e de Vivaldi Moreira.
De seu sucessor, poderia evocar muito. Chefe de gabinete do Prefeito de Belo Horizonte, mandei fazer a ligação telefônica para Manhumirim, terra de nascimento e onde exercia funções de advogado, até ser convidado para ocupar a Procuradoria Geral da PBH. Agora é mais um mineiro da Zona da Mata, que vem assentar-se no lugar que lhe coube no sodalício fundado em Juiz de Fora, em 1915.
Na Prefeitura da capital, o agora novo imortal teve atuação brilhante em casos memoráveis, como o do Iate Golfe Clube, de grande repercussão à época. Aliás, em todas as causas em que atuou, o fez com profundo conhecimento e eficiência.
Orador notável, demonstrou seu talento oratório nas ocasiões e temas, ao ponto de, colaborando eu com o governador Israel Pinheiro, este comentava que, nas datas cívicas, sempre se propunham os nomes dele ou do professor Melo Cançado, para fazer a solenidade maior.
Colaborador da revista “A Cigarra”, dos Diários Associados, em tempos já bem distantes, recordava com saudade a época; depois, três vezes eleito deputado estadual à Assembleia de Minas, relator geral da Constituição do Estado, e também do primeiro estatuto do Magistério Público.
Na Câmara federal, entre outras elevadas incumbências, foi relator da CPI do Sistema Penitenciário, que gerou a publicação “Novas Dimensões da Pena”, tida como o melhor trabalho sobre o tema produzido no país.
No Ministério, coube-lhe atuar em casos relativos à lei da Anistia e promoveu modificações na Lei da Segurança Nacional, dando-lhe o caráter de Lei de Segurança do Estado Democrático de Direito. Promoveu a substituição da Parte Geral do Código Penal, fazendo-o altamente avançado e dando nova fisionomia à codificação ao sistema entre nós. Chegou a vez da AML.


85078
Por Manoel Hygino - 16/9/2020 07:51:03
O momento presente

Manoel Hygino

A questão não reside somente em abrir o comércio a todas as atividades que lhe são pertinentes, mas possibilitar que sua clientela esteja habilitada, fiduciariamente, a pagar as compras. Os que vivem no litoral não devem simplesmente reclamar e protestar contra medidas determinadas pelas autoridades sanitárias

Aproxima-se a primavera e, logo, ingressaremos no último trimestre de 2020. Um ano inclemente com todas as nações do planeta, especialmente com o Brasil, com muitos milhares de mortos pela Covid-19, e de pacientes infectados, embora a pandemia não esteja vencida.

A Covid feriu extremamente todas as atividades produtivas brasileiras. A economia foi abalada profundamente e avultados recursos públicos, ou não, se aplicaram para conter a expansão da enfermidade, agressiva e veloz.

Enquanto aumentaram significamente os preços de alimentos nos supermercados, cresceu assustadoramente o número de pessoas sem trabalho e, mais do que isso, sem perspectivas de a ele voltar. O contingente de desempregados é assustador, o que faz ampliar a profundidade da insatisfação das ruas. O governo federal, já pensando em manter o Executivo em suas mãos, iniciou a campanha para a sucessão presidencial de 2022, enquanto as bases já se põem a campo visando ao pleito municipal de novembro.

As copiosas lágrimas do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ao empossar-se, há poucos dias, devem servir para aguçar o interesse pelo futuro da nação, que nos serviu de berço e que nos abriga.

Não se há de meditar apenas nas lágrimas derramadas pelo alto magistrado, cujos ascendentes foram vítimas da crueldade nazista, décadas atrás. Há de se pensar nas lágrimas, que também poderão atingir-nos, se não encontrarmos saídas e soluções para os problemas que nos afligem – não poucos, nem de fácil solução.

A questão não reside somente em abrir o comércio a todas as atividades que lhe são pertinentes, mas possibilitar que sua clientela esteja habilitada, fiduciariamente, a pagar as compras. Os que vivem no litoral não devem simplesmente reclamar e protestar contra medidas determinadas pelas autoridades sanitárias.

Há muito de perigos à frente e as páginas da história presente ainda não estão viradas. Disso carecem de se conscientizar os gestores da nação, agora, muitos deles aparentemente, alheios à realidade e a seus propósitos.


85069
Por Manoel Hygino - 12/9/2020 07:47:40
Brasil sem um ícone

Manoel Hygino

O e-mail do presidente da Associação Nacional dos Escritores, o conspícuo Fábio de Sousa Coutinho, diz o necessário: “Comunico, muito triste e pesaroso, o falecimento, no final da tarde de ontem, terça-feira, 1º de setembro de 2020, aos 89 anos de idade, de Lina Tâmega Peixoto, professora pioneira de Brasília, tendo aqui chegado em 1960, e uma das fundadoras da ANE, em 1963. Lina foi poeta de recursos extraordinários, com meia dúzia de livros publicados, de superlativa qualidade literária. Sua presença nas atividades da ANE era uma constante que a todos enchia de satisfação e alegria. A partida de Lina Tâmega Peixoto significa perda irreparável para a literatura e a cultura de sua amada Cataguases, de Minas Gerais, de Brasília e do Brasil. Ela deixa o filho Marcelo e a neta Mônica, e, em suas dezenas de amigos e admiradores, um forte sentimento de saudade, admiração e gratidão pelo privilégio de convívio tão enriquecedor, ao longo de tantas décadas”.
Em 2010, quando lançou seu “Prefácio de vida”, Lina me enviou um exemplar, com a dedicatória amável, bem típica de seu comportamento e sentimento. Na última orelha do volume, confirmo-o com o texto: “Professora, poeta e crítica de literatura, exerceu o magistério na Fundação Educacional do Distrito Federal e na Universidade de Brasília. Reside na capital do país, mas mora em muitos lugares, onde o sonho da vida habita o imaginário poético”.
Era assim Lina, que nos deixou este mês, mas legando como disse Drumond – uma herança, que é a sua poesia – que “alcança a maturidade poética, não há ternura ou indecisão de traço, tudo é firme, quando necessário, sutil e sempre lúcido e ardendo de uma chama interior”.
Grande amiga de Cecília Meireles, Lina lhe fez uma visita, quando hospitalizada e escreveu: “A última vez que te encontrei, tua vida ia sendo levada pelos deuses... Pediste-me que te levasse para tua casa. Eu respondi que sim. Que a subida seria fácil até teu quarto, pois cada degrau seria como um verso que, juntas, recitaremos”.


85060
Por Manoel Hygino - 9/9/2020 10:38:11
Em tempo de guerra

Manoel Hygino

Os chefes de Estado e de Governo, assim como suas esposas, participavam diretamente dos esforços gerais durante guerras e tragédias outras. Poderia lembrar algumas delas.... E deles.... No front ou ao lado dos soldados. Robert K. Massie, por exemplo, autor de um livro que se popularizou, virou filme e se tornou sucesso no cinema, relata a participação da rainha Alexandra nos últimos anos da monarquia russa, assumindo espontaneamente liderança de um grupo de pessoas da família na assistência aos soldados feridos durante a 1ª Grande Guerra.
Na velha Rússia, durante o grande conflito, a imperatriz chegava às 9h pontualmente, vestindo o uniforme cinzento do serviço de saúde, acompanhada das filhas mais velhas, Olga e Tatiana, e da amiga Anna Vyrobova, para o curso de Enfermagem. Passavam ao atendimento dos soldados, que chegavam feridos e moribundos. Para Alexandra, aquilo era a Rússia, sangrando e gemendo. Cabia-lhe dar assistência. Um espetáculo sombrio, que não a desanimava.
Semelhante esforço desenvolveu no Brasil o presidente da República, Wenceslau Braz, nos últimos tempos de Governo, quando da calamidade causada pela gripe Espanhola. A doença, trazida pelos navios da Europa, pegou a população de surpresa e se alastrou facilmente.
O chefe da nação, mineiro de Itajubá, enfrentou tudo com disposição. Além de todos os misteres do cargo naquela hora, ainda encontrava tempo para visitar, diariamente, com a esposa, hospitais e cemitérios, no Rio de Janeiro, capital da República, para oferecer o conforto às famílias. Expunha-se ao contágio, firme no propósito de determinar providências que pudessem amenizar as dimensões da hecatombe. Os cariocas se emocionavam com seu senso de solidariedade e desvelo.
O velho e solidário costume parece que se vai perdendo no âmbito das lembranças e nas descrições da História.
Os dirigentes nacionais e suas esposas se dedicam mais a outros afazeres, que sempre os há para quem quer servir à pátria e seus cidadãos. Oportunidades não faltam, mas é imprescindível uma disposição de espírito, o que, parece, vai-se escasseando no período turbulento politicamente que atravessamos.





85055
Por Manoel Hygino - 8/9/2020 08:21:47
Letras MG, 300 anos

Manoel Hygino

Publicado já foi e muito bem editado. Refiro-me a “Literatura Mineira: trezentos anos”, com 445 páginas, o que dá ideia da dimensão da obra, cuja organização se deve a Jacyntho Lins Brandão, da Academia Mineira de Letras, em edição do BDMG Cultural. A presidente, Gabriela Moulin, faz a apresentação, dizendo que “o leitor encontrará muito mais do que a história das diversas literaturas de Minas”.
O idealizador é Rogério Faria Tavares, jornalista e presidente da Academia, e que, como ex-presidente do BMDG Cultural, programara o livro, considerando-o “produto de interesse público, para habitar as salas de aula, as bibliotecas, os centros comunitários, os clubes de leitura de todos os cantos do Brasil” de todo o país, dedicado a Estudos Temáticos.
Na primeira parte, os artigos e ensaios são de Ângelo Oswaldo, Constância Lima Duarte/Maria do Rosário A. Pereira, Eduardo Assis Duarte, Eliana da Conceição Tolentino, Emílio Maciel, Eneida Maria de Souza, Fabrício Marques, Ivete Lara Camargos Walty, João Antônio de Paula, Leda Martins, Lucia Castello Branco, Maria Inês de Almeida, Nabil Araújo, Paulo Fonseca Andrade, Raquel Beatriz Junqueira Guimarães e Sérgio Alcides.
A segunda parte, comparecem Aline Alves Arruda, Andréia de Paula Xavier Vilela, Andréia Sirihal Werkema, Anelito de Oliveira, Antônio Sérgio Bueno, Audemaro Taranto Goulart, Cláudia Campos Soares, Daniela Magalhães da Silveira, Kelen Benfenatti Paiva, Márcia Marques de Morais, Marcos Rogério Cordeiro, Maria Alex Rosa, Telma Borges e Wesley Thales de Almeida Rocha.
São, como se vê, nomes de grande expressão no cenário das letras em Minas e que comparecem com colaborações bem apropriadas à efeméride dos 300 anos de nossa literatura. Pode-se dizer, sem medo, que a leitura corresponde a um verdadeiro curso sobre temas que dão dimensão do que fomos, somos e fizemos durante estes três decênios da História.
Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, a propósito, se manifestou na orelha: “Este livro é um marco que contribui, não apenas para um mais aprofundado conhecimento da cultura de Minas, mas, também, para melhor compreensão da própria literatura brasileira, na medida em que é impossível falar da criação literária no Brasil sem levar em conta o papel fundador e fecundador de escritores mineiros”.


85050
Por Manoel Hygino - 5/9/2020 08:03:30
Saúde é para todos

Manoel Hygino

Falando-se na pandemia, retrocede-se à primeira década do século passado, quando chegou ao Brasil e, consequentemente, a Belo Horizonte, a gripe espanhola, hoje uma reminiscência sombria. Muitos morreram, inúmeros viram alguém da família falecer. Um período triste iniciado no fim de 1918 e que se estendeu até 1920.
Na cidade ainda menina, com 20 anos, muito existia de incipiente, nem poderia ser de outro jeito. A Faculdade de Medicina assistira ao encerramento do curso de seus primeiros profissionais.
A pioneira entidade no âmbito da saúde na jovem capital era a Santa Casa, cujas clínicas funcionavam na área doada pela prefeitura, instaladas à medida que as doenças apareciam. Uma sucessão de construções modestas na Praça XV de Novembro, hoje a Hugo Werneck.
Tudo se fazia dentro das limitações financeiras, porque a instituição era e sempre foi particular, para atender às necessidades da população crescente e de recursos limitados. Muita dificuldade.
Eis que desembarca na estação da Central uma doença desconhecida e que avultou com inesperada velocidade. Era a Espanhola, trazida da Europa até o porto do Rio de Janeiro, capital da República, já invadida pela intrusa patologia.
Em Belo Horizonte, grande problema, o maior deles: não havia leitos suficientes para receber os doentes. A Santa Casa sozinha não dava conta e havia o risco da comorbidade. A Faculdade cedeu suas instalações para acudir.
Foi pensando nisso que o provedor da Santa Casa, o médico Hugo Werneck, sentiu a necessidade de um novo hospital para atender não somente os indigentes, cuja manutenção já era um desafio. Então fez construir o São Lucas, que se mantém até hoje como padrão de atendimento, para receber quem pudesse pagar. Por lá, passaram os maiores médicos de Minas e pacientes importantes, como José Maria Alkmim, a mãe do poeta Drumond, o pintor Guignard, o escritor Eduardo Frieiro.
A Espanhola se foi, no século XXI chegou a Pandemia da Covid, na segunda década. A Santa Casa identificou a hora de implantar, como já o fez, a Clínica São Lucas Para Todos, na rua dos Otoni, junto ao edifício original para atendimento especializado em procedimentos e cirurgias, em condições apreciáveis de pagamento, nos moldes das clínicas populares. É algo de novo e bom.



85041
Por Manoel Hygino - 2/9/2020 09:15:12
Pelo Velho Chico

Manoel Hygino

O Rio São Francisco, considerado da unidade nacional, está permanentemente nas páginas dos jornais e nas imagens de televisão. E também na literatura e nos livros de História, sempre.
Lembrado por escritores como Petrônio Braz, autor do maior conceito, com obras já prestigiadas por leitores de todo o país, recentemente reeditado pela Chiado, de Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde. Por sinal, ele evoca em “Caleidoscópio” que uma comissão instituída pelo Visconde de Sinimbu, nos últimos anos de monarquia, estudou os melhoramentos necessários à navegação interior dos grandes rios da costa oriental brasileira.
Pois, há poucos dias, rompeu-se uma barragem no Ceará, que represava água para uso das populações da região. O desastre obrigou a remoção de milhares de pessoas, diante dos riscos que corriam e de ficarem ao desabrigo. Donde se constata, que não é suficiente represar a riqueza líquida que ali chega, a partir do manancial da serra da Canastra, em Minas Gerais, e dos afluentes.
O São Francisco exige proteção, mediante revitalização, antes que se transforme num monumento à incúria. Que dele se cuide e antes que seja golpeado de morte pela degradação de seus afluentes, e pela poluição incontrolada, como sublinha o próprio Petrônio, nascido em São Francisco.
A propósito, o jornalista Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, residente em Brasília há anos, mas que de sua Minas Gerais não esquece, lembrou em livro que o Conselheiro profetizou aos gritos que o sertão viraria mar, e acrescentou que o povo saiu correndo, em gritos, para evitar afogamento.
Mas a água chegou, de fato, após a transposição, um velho sonho do Nordeste. Era um projeto antigo. No Ministério das Minas e Energia, havia o DNAEE (Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica), que fazia medições em todos os lugares, sendo que os militares lhe deram atenção especial.
O bispo da barra, Dom Luís Capio fez greve de fome contra o seu uso indiscriminado e leviano, por parte dos grupos políticos. Previu: “Muitas dessas obras iniciadas nunca serão concluídas”. As águas, que singrei algumas vezes, continuam reclamando atenção, carinho e proteção.


85036
Por Manoel Hygino - 1/9/2020 09:11:46
A hora de votar

Manoel Hygino

Este ano é de eleições. Desta vez as municipais, em 15 de novembro, data da proclamação da República no já distante 1889. Tempo de grande movimentação de populações no interior, onde a presença de autoridades é mais marcante. Outrora, oportunidade para tiros de espingarda e de garruchas 320 ou 380, ou para foguetórios antes, durante ou depois das votações. Tempo perigoso, sim senhor.
Geraldo Tito Silveira, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e das Academias Montes-Clarense de Letras e João Guimarães Rosa, lembra a sua época de menino em Brejo das Almas, nome que inspirou o título de um de seus livros.
Quando o Brejo era distrito de Montes Claros, hoje é cidade e se chama Francisco Sá, tomava jeito de grande centro. Logo de manhã, começavam a chegar os grupos de eleitores, montados a cavalo e vindos de lugares distantes.

Que se vissem os bravos mineiros do sertão. Muitos calçavam pela primeira vez um par de botinas ringideiras, e andavam pisando em ovos. Quando apertavam demais, comprimindo os dedos causando formigação, eles as tiravam dos pés, amarravam uma na outra, as punham no ombro. E desfilavam cuidadosamente para não se machucarem mais. Mas, não se descuidavam, engravatados, e com os pés no chão. Um espetáculo inesquecível.
O autor recorda que o eleitor votava às claras, evidentemente no candidato do chefe ou patrão. Lá, no velho Brejo, os dois líderes – o coronel Jacintho de um lado da urna e o coronel Olímpio, do outro lado. O conterrâneo entra em cena, recebe a cédula nas mãos do chefe e coloca lá na urna. Todo mundo via.
Uma vez, o cidadão João Magalhães ganhara um cavalo de presente em troca do voto. Na hora da votação, ele entrou em cena, mas um coronel advertiu: “Este é meu eleitor, compadre. O senhor deve estar confundindo com outro”. O munícipe colocou o voto na urna, mas quando saiu da seção, viu que seu cavalo sumira. Para sempre.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2020 08:18:49
Pandemia ontológica

Manoel Hygino

Uma oportunidade rara: elaborar uma antologia sobre a pandemia que ora enfrentamos sem segurança de quando terminará. A história conta sobre inúmeras pestes e epidemias, que marcaram homens, povos e épocas.
Ivan Lins, filho de Edmundo Lins, (presidente do Supremo Tribunal Federal) integrou com brilho seu período de produção literária na Academia Brasileira de Letras, e descreveu o pior dos flagelos medievais, pela extensão e efeitos, eram as epidemias, porquanto nem a higiene, nem a profilaxia, ainda menos a medicina, principalmente nos períodos de guerra e depressão econômica, eram capazes de deter-lhes as devastações, em sua tríplice: forma bubônica, pulmonar e intestinal. A todas, juntas, dava-se a denominação de peste.
Para explica-la, invocava-se a conjunção dos astros e a má reputação de Marte, enquanto remédios preconizados eram contraindicados como o arejamento das casas e quartos. As habitações, a sua vez eram infestadas de ratos e pulgas, enquanto suínos e outros animais defecavam pelas ruas. Assim, ultrapassamos a Idade Média e chegamos ao século XXI.
Sou, agora, surpreendido. Com “A Escrita em Tempo de Pandemia”, uma antologia de vários escritores em minha homenagem. Além de sentir-me grato, comovi-me porque se trata de uma espontânea manifestação de apreço dos autores da maior cidade do Norte de Minas, que já me haviam honrado com eleição a membro-honorário do sodalício.
São dezesseis os autores: Amelina Chaves, Dário Teixeira Cotrim, Dorislene Alves Araújo, Edson Ferreira Andrade, Felicidade Patrocínio, José Jarbas Oliveira Silva, Juvenal Caldeira Durães, Karla Celene Campos, Mara Yanmar Narciso, Maria Luiza Silveira Teles, Maria Ruth G. V. Pinto, Miriam Carvalho, Wanderlino Arruda (presidente de honra da entidade), e Zoraide Guerra Davi, todos acadêmicos, além da prof. Ivana Ferrante Rebello, que assina um artigo e o posfácio, e Maria da Glória Caxito Mameluque, empossada na presidência do sodalício, em fevereiro, que fez a apresentação e redigiu um artigo.
A capa da edição é excelente, em cores, da artista plástica Ssara Dinizz. Através de artigos, contos, crônicas e poesia, tem-se um panorama muito vívido e sincero de como estamos convivendo com a pandemia.
Muito oportuna a iniciativa de Maria da Glória e de seus confrades e confreiras. Algo que merece ser lido.


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Por Manoel Hygino - 22/8/2020 20:11:39
Um Nobel do Brasil

Manoel Hygino

Conto a história: Manoel Firmato de Almeida, médico, ex-chefe da Cirurgia Pediátrica da Santa Casa de Belo Horizonte, após um curso, nos Estados Unidos, nascido em Itambacuri, no vale do Mucuri, MG, é claro, volta ao Brasil. Nova Iorque, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, enfim um avião para Governador Valadares, já com o pai.

No percurso final, o encontro com o distinto cavalheiro com o qual trava uma longa conversa a bordo, em inglês. O jovem soube, então que o distinto viajante conhecia um professor na Pediatria exatamente em Minneapolis, onde Manoel Firmato estudava. O professor Robert Good era seu amigo e a ele enviou um cartão de saudações, através do passageiro.

De regresso aos EUA, ao receber o bilhete, Good comentou: “Então está feliz em ter conhecido um Prêmio Nobel, pessoalmente”? Só aí o jovem médico mineiro soube que o interlocutor a bordo era o professor Peter Medawar, Nobel de Medicina de 1960, cuja experiência em imunologia dos tecidos após retirada de timo em roedores fora bem sucedido e seria tema de um próximo trabalho do pediatra mineiro.

Segundo Ronaldo Vieira de Aguiar, na Revista da Arcádia de Minas Gerais, novembro de 2010, Peter Brian Medawar nascera em 28 de fevereiro de 1915, em Petrópolis, no Sanatório São José, depois Hospital Santa Tereza. Lá, era apenas o “Pedro”. Em seguida, transferiu-se à Inglaterra, para estudos universitários, onde residiam os pais a irmã Pamela, que se casaria com o secretário particular de Churchill.

Com o pai emigrado do Líbano em 1913, Peter venceu notáveis prêmios, mas se sentiu em aperturas para avançar no campo da ciência, porque não prestara serviço militar, sendo obrigado a naturalizar-se inglês, em 1960. Naquele ano a maior distinção científica foi concedida à dupla Frank Burnet - Peter Medawar, aquele um cientista australiano. O tema era sobre enxerto de tecidos, fundamental a transplante de órgãos e, por sua descoberta, de tolerância imunológica.

A rainha Elizabeth o nomeou cavaleiro do Reino Unido, embora haja um dossiê sobre Pedro, o brasileiro, de ascendência libanesa, ganhador do Nobel, para definir sua nacionalidade.


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Por Manoel Hygino - 18/8/2020 10:39:50
Os fura-teto

Manoel Hygino

A administração da nação virou um rolo, se me permitem a linguagem um tanto chula, mas perfeitamente compreendida. As divergências da Procuradoria Geral da República – ou nela, por força do affair com a Lava Jato chegaram a tal ponto que não se sabe quando terminará e se a conclusão será a que mais interessa ao país e a tão importante área de governo.
A questão da famosa “rachadinha”, que envolve um filho do presidente da República, incomoda até os apreciadores de novelas televisivas, com capítulos diários que revelam que os protagonistas não sabem como se safar das acusações ou suspeitas. Até as defesas se comprometem à procura do difícil equacionamento e todo o distinto público sabe porque.
O novelo é rico em pormenores e passeiam por tribunais dali e de acolá. Assume as manchetes agora o tema focalizado pelo ministro da Economia e pelo presidente da Câmara dos Deputados, que afirmam não aceitarem pressões para aumentar as despesas da União nesta quadra de duras incertezas e horizontes ainda sombrios, por mais que tentem mudar o cenário.
Paulo Guedes é claro: “Os conselheiros do presidente que estão aconselhando a pular a cerca e furar teto vão levar o presidente para uma zona de incerteza, uma zona de impeachment por responsabilidade fiscal”. Rodrigo Maia é também cáustico: “Não tem jeitinho, não tem esperteza. O que tem é uma realidade, uma carga tributária de mais de 33% do PIB somado ao déficit primário”.
Trata-se de uma reação aos “fura-teto” de gastos públicos, em período doloroso para os pacientes da Covid-19 e também para o coitado do contribuinte. Mara Narciso, que é médica e jornalista, comenta: “Tempo bom foi aquele em que havia uma só verdade, a realidade dos fatos que a ciência e os livros podiam confirmar não como hoje em que há muitas verdades e incontáveis mentiras, atreladas a autoverdade e a pós-verdade, confundindo os incautos com opiniões travestidas de notícias e desejos disfarçados de ciência. A internet é um excelente meio em si, mas os maus internautas se valem da aparente terra de ninguém, para manipulações e distorções, em que os ingênuos acreditam, especialmente nesse período de mentes frágeis pela pandemia”.
Em todo caso, a entrevista de Guedes, Maia e Alcolumbre lançou um pouco de luz quanto à situação fiscal. Enfim, chegada a hora de aprovar o orçamento de 2021.


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Por Manoel Hygino - 17/8/2020 16:20:36
A vacina e a bomba

Manoel Hygino

A apresentação da vacina contra o coronavírus por Putin, há poucos dias, deu uma demonstração de que a Rússia não se omitira enquanto as outras nações e a indústria farmacêutica faziam pertinazes esforços e investimentos, chamando a atenção para o fim da II Grande Guerra. Claro que as circunstâncias são outras e os objetivos, praticamente inversos - naquela época se trabalhava para produzir uma bomba atômica.

Na metade do século passado, Estados Unidos e Inglaterra e União Soviética lutavam para destruir o Terceiro Reich, da Alemanha e de Hitler. Mas a perspectiva de chegar-se à bomba aumentava a desconfiança mútua entre soviéticos e americanos. Estes e os britânicos já tinham criado secretamente a arma para se protegerem e a empregarem contra a Alemanha. Não aconteceu como previsto, porque os nazistas se renderam antes que ela estivesse pronta.

John Lewis Gaddis, em “História da Guerra Fria”, de 2005, registra que o segredo do Projeto Manhattan não se mantivera o suficiente para impedir que o serviço de informações soviéticas, por meio de espionagem, descobrisse bastante a respeito. Houve pelo menos três tentativas soviéticas bem sucedidas para tirar a segurança de Los Alamos, onde a bomba era fabricada.

O autor mencionado observa que o fato de Stálin ter montado uma importante operação para espionar seus aliados em meio a uma guerra que tratavam lado a lado, é outra forte indicação da falta de confiança entre eles – embora se deva reconhecer que os próprios anglo-americanos preferissem informar Stálin só depois do artefato testado com sucesso no Novo México.

Desse modo, na Conferência dos três grandes em Potsdam – Stálin não se mostrou muito surpreso, quando o presidente Truman, sucessor de Roosevelt, lhe comunicou o êxito da experiência. Stálin só reagiu fortemente quando os EUA usaram a bomba contra os japoneses três semanas depois. Um teste no deserto era uma coisa, muito diferente era empregar um armamento atômico contra uma população.


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Por Manoel Hygino - 12/8/2020 09:46:40
O complô fatídico

Manoel Hygino

Finalmente, esclareceu-se, ou parece, o caso de um documento misterioso elaborado no âmbito do Ministério da Justiça, que nada menos de 579 servidores daquela pasta foram citados e teriam assinado. A maioria deles era da área de segurança e de crítica ao governo federal, principalmente ligada a um movimento antifascista.
O ministro André Mendonça, da Justiça, declarou que tomara conhecimento do relatório depois de tornado público pela Imprensa, quando buscou informações. Ele trocou a chefia da área respectiva, assegurando ainda que ela não exerce qualquer atividade de perseguição os opositores do governo.
De todo modo, as providências ministeriais foram extraídas, embora a fórceps, depois de ecoar muito nos meios de comunicação. O fato faz lembrar o célebre “Protocolo dos Sábios do Sião”. É o seguinte – O escritor francês Maurice Joly, em 1864, publicou “O Diálogo no Inferno de Maquiavel e Montesquieu”, em Paris e, 35 anos depois, o folhetim chegou a Mathieu Golovinski, exilado russo na França e prestador de serviços à polícia secreta de Nicolau II, último czar, a famosa “Ochrana”.
Para provar ao imperador que havia um complô contra ele, o exilado russo plagiou a obra do autor francês, apresentando a versão de que um grupo de judeus influentes pretendia acabar com o império russo mediante um plano de dominação mundial.
O livreto, transformado em “Protocolo”, foi traduzido a várias línguas e percorreu o mundo, estimulando o crescimento do anti-semitismo, que causaram “pogroms”, assassinatos em massa de judeus, que teriam, inclusive, sugerido o holocausto de Hitler. Um ardil montado por Golovinski que gerou milhões de mortos e a II Grande Guerra.
Eis um tema atraente, mas complicado. Em 1931, um desencantado monarquista confessou ter forjado os Protocolos simplesmente porque um judeu, gerente de banco, lhe recusara um empréstimo e resolveu reagir incriminando todos os semitas, copiando as ideias centrais do livro de Joly.
E o manifesto ou “dossier” de agora no Brasil?


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Por Manoel Hygino - 11/8/2020 15:00:59
O encantador de pássaros

Manoel Hygino

Isaías era menino nascido na roça, que pegou um pássaro com as mãos e cujo pai propalou dele poderes sobrenaturais. Mudando para a cidade a fim de estudar, lá chegara a fama, mas ele não encantava os animaizinhos voadores, achando então que não passava de um pobre mágico-mirim, sem cartola nem truques. Juiz de direito em sua comarca, sem veleidades, “despido da vaidade, pássaro de penas douradas, esforça-se para dar conta de uma tarefa infinda, levando aos ombros a balança da justiça dos homens em que deve medir os seus atos, sob o prisma das construções jurídicas previamente estabelecidas e codificadas”.

Já se supondo caminhando para a velhice, o juiz Isaías Caldeira tem “a sensação de inutilidade, de fracasso pessoal e das instituições, por não atender minimamente aos anseios de um povo acuado e desprotegido, em permanente risco de morte em meio a uma guerra civil não declarada”.

Confessa: Atuando na área criminal há muitos anos, sei que perdemos a batalha contra a criminalidade. Explica-se: “Cadeias superlotadas, algumas já interditadas, centenas de novos inquéritos chegando mensalmente às varas criminais, estruturas precárias em todos os setores responsáveis pela aplicação da lei e combate aos crimes, esta é a realidade vivenciada. Não há mais vagas no sistema prisional para maiores e menores. Para se prender alguém, coloca-se em liberdade outro, revezando-se nas celas dos presídios e centros de recuperação para menores. Acabado o expediente forense, após várias audiências, despachos e sentenças, retornando para casa, imagino o país daqui a alguns anos, se continuar neste ritmo, e temo caminharmos para o impasse, para o confronto social, onde o descrédito nas instituições nos conduzirá à luta fratricida, no desespero das vítimas dessa guerra civil em curso, que mata mais que em países oficialmente em litígios bélicos.

Mas talvez exista algum pássaro na cartola das autoridades responsáveis, e que façam a mágica de apresentarem ao público uma solução para o impasse, devolvendo a paz hoje perdida, embora desde menino saiba que não é tão fácil pegar pássaros de verdade sem o uso de métodos convencionais, no caso, leis mais duras, com penas que desestimulem os criminosos e efetividade no seu cumprimento.

Parece simples, mas é preciso coragem para se fazer o óbvio, deixando de lado malabarismos jurídicos e retóricos. Afinal, a ave da injustiça já se assenta nos umbrais das portas e não é preciso mágica para tocá-la com as mãos”.


84970
Por Manoel Hygino - 8/8/2020 19:35:02
O embate na PGR

Manoel Hygino

A Lava-Jato foi a maior operação de combate à corrupção em todo o mundo. As notícias do trabalho desenvolvido pelos promotores e demais, que se dedicaram ao projeto, nascido silenciosamente, satisfaziam aos seus autores e orgulhavam o Brasil. A nossa má fama como gestores de dinheiros públicos perdia força.

A Lava Jato passou a ser referência na hora de decisões de interesse nacional. Quando Temer teve de escolher o núcleo palaciano, constatou que cinco dos pretendentes a relevantes cargos eram objeto de investigações da operação.

A corrupção se generalizara. O empresário Marcelo Odebrecht, em determinada ocasião, declarou que a sua empresa era o próprio Estado e que “os irmãos da JBS financiaram 1.850 políticos, elegendo prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidentes da República”, como lembrou alhures o jornalista Aylê Salassié Filgueiras Quintão.

O brasileiro tomou conhecimento pela imprensa, tão criticada e vilipendiada, do festival de dinheiro público, ou seja, dos cidadãos, angariado fraudulentamente e utilizado em campanhas, e mesmo no exercício de cargos de relevo. A palavra “propina” deixou de ser apenas usada para as gorjetas nos restaurantes.

Um instituto de avaliação dos gastos de governo constatou que, em 20 anos, R$ 2 trilhões de recursos públicos foram desviados. A Lava Jato tentou vencer contrários, mas se atirou em um mercado de interesses políticos e de ciumeira governamental.

Eis o momento em que nos encontramos, quando o espaço nos meios de comunicação são tomados pelo noticiário, com muita razão, sobre a pandemia. O procurador-geral da República de hoje descobriu que os agentes de Curitiba, principalmente, teriam excedido no exercício de seus misteres, ou no cumprimento de diligências. O titular da PGR acha que é “hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure”.

Acha S.Exa. que é chegada a hora de centralizar as ações da Procuradoria em Brasília, depois de ação enérgica e bem sucedida da Lava Jato. Mas há em meio a tudo possíveis outros motivos, que precisam ser analisados. Um retrocesso, como parece possível, seria altamente prejudicial para a nação e para a própria PGR.


84953
Por Manoel Hygino - 1/8/2020 06:42:02
O coração do menino

Manoel Hygino

Quando o coronavírus se expandia por todo o mundo, a Santa Casa de Belo Horizonte, integrada ao grande esforço de amparar os contaminados pela insidiosa moléstia, deixou claro que não deixaria de atender aos pacientes das 35 especialidades a que já servia. É que a instituição mantém o maior hospital 100% do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo referência em média e alta complexidade, como transplantes, cirurgias neurológicas e tantas outras.

O provedor Saulo Levindo Coelho já vinha envidando esforços para levantar recursos visando a ampliar seu CTI Infantil, o primeiro no Estado, para suprir em casos complexos de cirurgias cardíacas pediátricas, pois de médicos competentes já dispunha. Foi desse modo que, em plena guerra contra a Covid, a instituição pôde atender o segundo caso de transplante de coração em criança.

O beneficiário foi Renan Pereira dos Santos, de dez anos, que ganhou um novo coração, em julho. O menino é de Brasília de Minas, no Norte do Estado, e - em estado grave – aguardava um transplante no CTI pediátrico, esperando doação.

Uma situação delicadíssima, porque a criança se debilitava, e o tempo parecia não passar. Necessitou-se, para manter a esperança, adquirir um cateter fora do padrão, de alta tecnologia, enquanto se aguardava doador. Que, enfim, apareceu e a equipe de cirurgia cardíaco- pediátrica e demais profissionais, sob a liderança do médico Marcelo Frederique, entrou em ação. E o fez muito bem, para a felicidade geral, com os demais cirurgiões Vinícius Loureiro, Célia de Oliveira e Felipe Magalhães.

Foram sete horas de trabalho operatório. O essencial é que tudo correu no melhor dos mundos, como diria Pangloss, sintetizando o otimismo de Leibnitz, assimilado pelos diretores da centenária instituição, o médico Guilherme Riccio e Gonçalo de Abreu Barbosa.

Os profissionais da Medicina que acompanharam o caso seguiram o pensamento da pediatra Filomena Camilo do Vale, do CTI Infantil. Ela, que acompanhara o paciente de perto, emocionou-se: “Espetacular, talvez, não expressasse todo o sentimento do que vivemos nas últimas 24 horas. O transplante cardíaco do Renan, a angústia que sofremos, e, hoje, ei-lo extubado, conversando, com evolução surpreendente”.


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Por Manoel Hygino - 28/7/2020 08:18:27
Rui, aqui e sempre

Manoel Hygino

Há cem anos, Rui Barbosa, tão pouco lembrado no Brasil presentemente, pronunciou um discurso que se tornou antológico. Foi em 1920, como paraninfo dos formandos daquele ano, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, berço de algumas das maiores vozes das ciências jurídicas do Brasil.
Com 71 anos, já com saúde debilitada, o notável advogado que brilhara em Haia teve o texto lido pelo prof. Reinaldo Porchat. Em Belo Horizonte, a Del Rey o publicou, por iniciativa de Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza, ex-confrade na Academia Mineira de Letras.
Confessa sua satisfação em dirigir-se a jovens, cujo coração “ainda está incontaminado; e Deus assim o preserve”. Rui dá uma aula àqueles que concluíam o curso jurídico. O orador declara que, “se não soube imitar nas artes medrançosas de político fértil em meios e manhas, em compensação tudo envidei por mostrar ao povo os costumes de liberdade e à República as leis do bom governo, que prosperam os Estados, moralizam as sociedades, e honram as nações”.
Acrescentou: “Preguei, demonstrei, honrei a verdade eleitoral, a verdade constitucional, a verdade republicana atendendo clientelas entre nós, sem armas, nem ouro, nem considerações mal achavam, em uma nacionalidade empobrecida e indiferente, nos títulos retos do seu direito”, que habilitavam “o mísero advogado a sustentar-lhes com alma, com dignidade, com sobraçaria, as desprezadas reivindicações”.
Em outro momento, adverte: “Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vós ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as que mandam, e desmandam, em tudo a saber, num país onde, verdadeiramente, não há lei, não há moral, política ou juridicamente falando”.
Acrescenta: “Mas, no Brasil, a lei se deslegitima, anula e torna inexistente, não só pela bastardia da origem, senão ainda pelos horrores da aplicação. Ora, dizia São Paulo que boa é a lei, onde se escuta legitimamente: Bona est lex, si qui ea legitime utatur. Quer dizer: Boa é a lei quando executada com retidão. Isto é: boa será, em havendo no executor a virtude, que no legislador não havia. Porque só a moderação, a inteireza e a equidade, no aplicar das más leis, as poderiam, em certa medida, escoimar da impureza, dureza e maldade, que encerrarem. Ou, mais lisa e claramente, se bem o entendo, pretenderia significar o apóstolo das gentes que mais vale a lei má, quando inexecutada, ou mal executada (para o bem), que a boa lei sofismada e não observada”.
Conclui o pensamento: “De nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as ampare contra os abusos, e o amparo sobre todos essencial é o de uma justiça tão alta no seu poder, quanto na sua missão”.
Naquela faculdade em que paraninfaria em 1920, Rui Barbosa colara grau cinquenta anos antes. Até o fim, em 10 de março de 1923, em Petrópolis, defendeu a tese: “Com a Lei, pela Lei e dentro da Lei, porque fora da Lei não há salvação”.


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Por Manoel Hygino - 25/7/2020 08:02:24
O trem da história

Manoel Hygino

Primeiro, houve a reunião com representantes de fundos estrangeiros que aplicam recursos na defesa da Amazônia. Depois, uma com os grupos brasileiros que ali atuam ou defendem medidas urgentes para evitar o desmatamento da maior reserva florestal do planeta. Ambas dirigidas pelo vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, que é o coordenador do Conselho da Amazônia.
O problema é grave, grande, complexo e envolve inúmeros interesses, inclusive, políticos, antigos, e para os quais não se encontram ainda as vias adequadas de solução. Depois de tudo, Mourão – que é muito objetivo em suas posições – comentou com a Imprensa: “Os europeus, assim como a maioria dos brasileiros, desconhecem o que é a Amazônia. Basta dizer que tem quase o mesmo tamanho da União Europeia, que tem 4,4 milhões de metros quadrados, a outra, 4,2 milhões. Não é brincadeira”.
Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) o revelam, à suficiência. Eles mostram que o desmatamento continua se acelerando no país, e isso soma quatorze meses consecutivos. Observe-se que o corte de mata nativa de junho deste ano era superior ao de 2019, que já era recorde, isto é, com crescimento de 10,7%.
O general Mourão reafirmou que o governo precisa encontrar soluções permanentes para a fiscalização na Amazônia legal, além da garantia da lei e da ordem, e que valerá até novembro. Aliás, o próprio coordenador admite que a operação deveria ter começado em dezembro do ano passado, se se quisesse alcançar resultados positivos contra os desmatadores, que pouco interesse têm pela Amazônia, pelo Brasil. A Guerra do Paraguai teria sido ganha em seis anos, se o Brasil tivesse, ao menos, cartas geográficas rudimentares da região.
Rondon cumpriu o seu histórico papel, percorrendo 35 mil quilômetros de trem, navio, canoa, cavalo, a pé e a nado. Seus estudos modificaram a geografia do Brasil. Agora, é obrigação das novas gerações.
O trem da história não passa duas vezes.


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Por Manoel Hygino - 21/7/2020 08:02:56
Duas pandemias

Manoel Hygino

A espanhola mais conhecida no Brasil é uma gripe. Dela se guardam dolorosas lembranças, embora não existam sobreviventes. Enfim, são passados cem anos, um pouco mais. Ela desembarcou aqui em outubro de 1918, por um militar que servia no Rio de Janeiro e, transferindo-se para cá, começou a contaminar a cidade.
Belo Horizonte tinha, pois, 21 anos, era a prendada filha da República, uma capital construída para sede do governo de Minas, sucedendo Ouro Preto, julgada já inapta para abrigar a administração pública. No lugar de Curral Del-Rei, exigia-se uma metrópole na verdadeira acepção da palavra. Sonhava-se uma urbe moderna, bonita, limpa, arejada, e o nome dizia muito – Belo Horizonte. Mas se pretendia mais: que ela oferecesse a seus habitantes condições efetivas de salubridade, para que vivessem bem e sãos. Tudo se fizera para que assim fosse.
Até que, naquela segunda década do século XX, a perigosa moléstia, que ligava seu nome à nação ibérica, por aqui desembarcou num vagão para passageiros, na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, tão intimamente entranhada na história do lugar que também fora denominado Cidade de Minas – coisas e fatos pretéritos, que não devem ser esquecidas. A doença entrou pela porta da frente, isso é, pela praça que se batizou com o nome de Rui Barbosa, o herói da campanha civilista à Presidência da República e que fez questão de vir conhecê-la.
Aí, então, apareceu a ibérica, que depois se demonstraria que não era da península europeia. Foi um Deus nos acuda em todos os setores da vida cotidiana, como comentam os escritores da época e, agora, focalizam novos autores atuantes no campo das letras e da medicina.
O médico Pedro Salles, colega de Juscelino na Faculdade de Medicina, discorre a respeito. Mario Lara, jornalista, faz o mesmo em espaço próprio de sua ampla biografia de Cícero Pereira, um dos paladinos pela saúde e a vida por aqui. A professora Anny Jackeline Torres Silveira, mestre em História pela UFMG e doutora pela UEMG, envereda pelo tema e nele se aprofunda em “A Influenza Espanhola e a cidade planejada”, apresentando-nos como foi e como a cidade enfrentou seus problemas.
Quando a moléstia aqui chegou, no século passado, a única instituição hospitalar era a Santa Casa de Belo Horizonte, fundada em 1899, que construía paulatinamente suas unidades de atendimento. Tudo dificílimo, mas a gente necessitada foi atendida, como o fez a Faculdade de Medicina, que interrompeu aulas para oferecer assistência em suas salas. Para atender à demanda, o número de leitos do Hospital Central cresceu para 1.220 leitos, dos quais, 692 para o Hospital Universitário.


84905
Por Manoel Hygino - 20/7/2020 08:13:05
No mês de julho

Manoel Hygino

Dezesseis de julho é data para não se esquecer. Porque é data da fundação de Mariana, primeira vila, primeira cidade, primeira comarca e primeira capital de Minas, além de primeiro bispado. Pelo visto, não é pouco e por tudo se rejubilam os ali nascidos, gente dos mais altos predicados de que tanto se orgulham a velha província e, depois, o estado.
O escritor Danilo Gomes, de querida família da antiga Vila do Carmo ou do Ribeirão do Carmo, inicialmente Vila de Albuquerque, em homenagem ao então governador do Carmo, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, foi criada em 8 de maio de 1711. Confirmada em 16 de julho de 1712, compreendia sua jurisdição todo território a Sudeste da capitania.
Antônio de Albuquerque era governador do Rio de Janeiro, quando foi, por carta régia de 9 de novembro de 1709, nomeado governador da recém-criada capitania de São Paulo e Minas de Ouro. O governador pacificou as Minas e convocou a junta de 10 de novembro, em Sabará, com a presença inclusive de Borba Gato e representantes da nobreza da terra, do clero e do povo, quando anunciou a organização de municipalidades. Os povos teriam governo próprio, de caráter democrático, para aplicação da justiça e solução de seus problemas.
Pois o Dia de Minas se atribui a fundação da cidade de Mariana, reverenciado por iniciativa de Roque José de Oliveira Camêllo, cuja vida e exemplo foram citados pelo Dr. Aristides Junqueira Alvarenga, ex-procurador geral da República.
Por lei sancionada em 19 de outubro de 1979 pelo governador Francelino Pereira, tornou-se realidade o propósito de criação do “Dia de Minas Gerais”, confirmado pela Emenda nº 22 da Constituição de Minas Gerais, o governo de Minas continuasse a se transferir para Mariana no dia 16 de julho de cada ano.
Eis o 16 de julho de 2020, em meio ao torvelinho político e o morticínio que causa a Covid-19. Para o ex-procurador da República, nem tudo se esvai com a existência de um amigo. Disse ele: “a fulgurante vida do meu colega de infância não se apagou em 18 de março de 2017, aos seus anos de idade. Brilhará sempre”.


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Por Manoel Hygino - 15/7/2020 08:20:56
O briguento Putin

Manoel Hygino

A natural predominância do noticiário sobre a pandemia no Brasil, simultaneamente com o conturbado momento político que a nação atravessa, não me permitiu conhecer o resultado do plebiscito em torno da sucessão do poder na Rússia. A União Soviética já terminara há bem tempo, mas os métodos empregados para se definir quem governaria a grande nação não variam suficientemente. A própria ascensão de Vladimir Putin ao comando em 1999/2000, primeiramente como premier, e, em seguida, como presidente, ainda está envolta em detalhes misteriosos que somente o tempo conseguirá, talvez, revelar. Para se melhor conhecer os desvãos dos fatos, há de se estudar muito, ler muito, conversar, estudar.
Foi o que fez Macha Gessen (e o nome coaduna com o significado em língua portuguesa – macha) jornalista russa, autora de mais de vinte livros, editora da revista Snob, testemunha de parte da história mais recente de sua pátria, ao publicar “A face oculta do novo Czar”, o título português.
Para se sentir as raízes mais distantes do problema, há de se reportar à segunda grande guerra. Gessen evoca: “A cidade soviética de Leningrado, onde Vladimir Putin nasceu, no ano de 1952, foi, para aqueles que ali viviam, um lugar de fome, pobreza, destruição, violência e morte, Tinham-se passado apenas oito anos desde o fim do célebre cerco à cidade. Tudo começou, em 8 de setembro de 1941, quando as tropas alemãs conseguiram cercar Leningrado, deixando-a incomunicável, e só terminou 872 dias depois. Morreram mais de um milhão de civis, vitimados pela fome ou pelos bombardeios que aconteciam sem trégua enquanto durou o bloqueio. Quase metade dessas pessoas morreram tentando fugir de lá”.
No pós-guerra cresceu a criança, já com fama de briguento. Rapazinho, sonhava tornar-se agente da KGB, assumir os destinos do país e dominar o mundo. A evolução da personalidade do jovem e sua pertinácia na busca de concretização de seus anseios são descritas em minúcias, enquanto a nova Rússia procurava assumir seu papel histórico. Os pais do futuro presidente eram um inválido e uma mulher que quase morreu de fome, mãe de dois filhos também falecidos; um bebê e outro na infância.
Putin viveu, vamos dizer, no fundo de um quintal, num pátio coberto de lixo e cheio de marginais. “Aquele pátio era uma coisa”, disse um dos biógrafos, um ex-colega de Putin e seu amigo de infância, Viktor Borienko. “Um bando de marginais. Uns sujeitos sujos, com a barba por fazer, com cigarros e garrafas de vinho vagabundo nas mãos. Sempre bebendo, xingando, arranjando brigas. E Putin ficava no meio disso tudo...”. E, assim, chegou à escola, com modos de brigão.
Putin foi excluído do grupo dos jovens pioneiros, um castigo raro, exótico, geralmente reservado aos alunos que, por perder anos, viviam repetindo as matérias, sendo considerados casos perdidos. Não trazia no pescoço o lenço vermelho, símbolo da organização comunista para crianças de dez a quatorze anos. Para Putin, a credencial de delinquente era sinal de status. No entanto, soube vencer as adversidades, entrou para a KGB, aprendeu sambo, a autodefesa sem armas. Com ela, passou de jovem brigão a adolescente aplicado, e com metas bem definidas.


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Por Manoel Hygino - 14/7/2020 09:06:37
Lava Jato no limbo

Manoel Hygino

Acabrunhado pela coercitiva e parcial inatividade, e condenado pela inclemência do novo coronavírus, o brasileiro se põe a meditar sobre a situação do país, neste segundo decênio do século. Além das praticamente indesviáveis consequências de uma doença sobre a qual a ciência sabia tão pouco, o cidadão deste país inventado por Cabral há mais de quinhentos anos pensa: o tempo político não é muito propício.
Aylê-Salassié Filgueiras Quintão, jornalista de nome raríssimo, domiciliado em Brasília e natural do extremo da Zona da Mata Mineira, está entre aqueles que se dão ao sacrifício de meditar. Para ele, como para outros milhões, o futuro se tornou uma angústia. O indivíduo transformado em consumidor está irritadamente exposto e aborrecido, principalmente pelo que lê nos jornais ou ouviu e, ainda, pelo que conhecerá pelo noticiário das televisões. Não é difícil adivinhar.
Além das dificuldades para a sobrevivência diária acrescentadas de inúmeros revezes, o brasileiro se torna pessimista, pois, sem perspectivas, diante dos fatos que se sucedem no âmbito da política e da administração pública. Salassiê, por exemplo, lembra que nem a Lava Jato, nem o Supremo Tribunal Federal, mandando um punhado de cleptocratas para a cadeia, conseguiram conter a capacidade resiliente dos personagens do patrimonialismo político no Brasil. “Um delinquente era preso em um dia e solto no dia seguinte”, talvez para rodízio nos estabelecimentos penais, talvez para fazer de conta que a lei tinha primado e não esquecida.
Mas, de um momento para outro, eclode aquilo que se mantinha em processo de decantação. A Lava Jato passou a receber críticas e reservas, sobretudo a partir do momento em que o ex-juiz Sérgio Moro caiu no rol de inimizades do atual ocupante do Palácio do Planalto. Curioso é que a chapa vencedora da mais recente eleição presidencial contara exatamente com a simpatia, o apoio e a graça do magistrado de Curitiba para levantar votos.
A Procuradoria Geral da República aparece agora para afirmar que pretende unir as três frentes da Lava Jato num organismo único. Eles são somente integrantes de um órgão de Estado, movidos para operações especiais.
Seja o que for, a iniciativa cheirou mal, depois dos reconhecidos e notórios serviços prestados à nação na luta contra a corrupção. Os resultados têm nos sido revelados pela Imprensa, mas o mais relevante possivelmente seja sua força sobre a consciência dos brasileiros que esperavam sempre uma ação poderosa contra a corrupção.
A confiança pública, possivelmente, ampliaria as atividades da operação e de seus objetivos. Não foi assim. Moro perdeu o cargo em Curitiba e criou inimizades na cúpula política federal, embora o brasileiro queira que a ação contra a corrupção e os corruptos não sofra solução de continuidade. Repetindo Luiz Carlos Azedo, “a Lava Jato constitui o maior expurgo já promovido na política brasileira num ambiente democrático, desde a proclamação da República. É excelente oportunidade para testar o que se conseguiu evoluir em termos de enfrentamento da corrupção e de como e quanto a operação resultou ferida agora em seus propósitos e programas”.


84887
Por Manoel Hygino - 11/7/2020 09:10:46
Sem Atheniense

Manoel Hygino

Ao percorrermos as páginas dos jornais do passado 4 de julho, independência dos Estados Unidos, tomamos conhecimento do falecimento, no dia anterior, de um cidadão das mais altas virtudes.

Aristóteles Dutra de Araújo Atheniense. Ele soube preservar e honrar em seus 84 anos, como advogado, respeitado entre seus pares, mesmo entre aqueles com os quais teve como contendores no exercício da profissão. Aristóteles se impôs como uma das maiores expressões do Direito, entre nós.

Com biografia exemplar e com currículo dos mais ricos, exerceu cargos importantes no seio das entidades de classe, inclusive, como presidente da OAB-MG, diretor da OAB nacional, membro da Federação Interamericana dos Advogados, dentre outros. A extensão de sua cultura e seu interesse por ela o levaram a eleger-se ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, de que é patrono Lincoln Prates, e a presidente da Academia Mineira de Letras Jurídicas, além de professor na PUC-MG.

Afável e amável, participava das solenidades em que sua presença fosse necessária, a que comparecia com simpatia e com simplicidade, qualidade considerada por Gibran Calil o mais alto grau da cidadania.

Em resumo, perdemos um brasileiro dotado das mais belas qualidades e de que sentiremos falta, além de seus artigos na imprensa. Ele recordou, por exemplo, o 13 de dezembro de 1988, quando tomou posse como presidente do Supremo Tribunal Federal o mineiro de Curvelo Antônio Gonçalves de Oliveira. Presentes as mais representativas lideranças de Minas, inclusive, o então governador Israel Pinheiro. Saudou o empossado e seu vice, Oswaldo Trigueiro, o Dr. Sobral Pinto, cuja primeira parte da oração constou de uma exaltação do Direito e da Democracia, além de um apelo à preservação da independência dos Poderes da República.

Durante a fala, um cidadão cuja identidade não foi conhecida aproximou-se do orador e deixou um papel, lido por Sobral, que interrompeu o discurso para informar que, naquela data, a Câmara dos Deputados, por 246 votos a 141, negara licença para cassação do mandato do deputado Márcio Moreira Alves.

Aristóteles Atheniense lembra que, no dia seguinte, o valoroso Sobral estava no Hotel Umuarama, em Goiânia, preparando-se para paraninfar a formatura da Faculdade de Direito, quando recebeu a informação de um auxiliar do governo Borges de que seria preso, mas havia um avião para levá-lo a qualquer parte do país ou do exterior. Sobral se negou a aceitar o convite. Em seguida, foi preso e levado para uma guarnição do Exército.

Aristóteles evoca o passado e relaciona a ação destruidora do ato e declara: “Convivi com o Ato Institucional nº 5, desde a sua edição (1968) até a revogação (1970) operada pela EC nº 11 no governo Geisel, cessando os Atos Institucionais completamente, com o restabelecimento do “habeas corpus” em crimes políticos”. Conclui Aristóteles que entregar agora o autoritarismo que inspirou o malsinado AI-5 equivale a coonestar todas as arbitrariedades praticadas na sua vigência.


84879
Por Manoel Hygino - 9/7/2020 06:57:03
Voz de um Andrada

Manoel Hygino

Meus amigos não me deixam sem documentos importantes sobre a história. É o caso de Danilo Gomes, grande cronista e poeta, nascido em Mariana, que, há exatamente onze anos, me enviou precioso volume, “Fui secretário de Getulio Vargas”. O autor é Luiz Vergara, de ótima redação, contendo depoimento do tempo em que colaborou com o conterrâneo no velho Rio de Janeiro.
Fico assim sabendo que Antônio Carlos, o Andrada, que teve papel fundamental na Revolução de 1930 e que exerceu a Presidência da República, “ocasional mas integralmente as altas funções de presidente” em agosto de 1934 (outro agosto na vida de Vargas), quando Getulio fez viagem oficial à Argentina e Uruguai. Faço minhas suposições: em Montevidéu deve ter participado da inauguração da bela avenida Agraciada, que tantas vezes cruzei outrora.
Não havendo vice, o substituto eventual era o presidente da Câmara dos Deputados, no caso, o mineiro Antônio Carlos, que a nação já bem conhecia como um cidadão ilustre do clã Andrada, descendente dos que ajudaram na independência. Vargas morava no Palácio Guanabara, o substituto se instalou no Catete com a família, levando para a Casa Militar o general Newton Cavalcanti e o secretário Otto Prazeres, procedentes da Câmara. O substituído dera instruções para deixar Antônio Carlos à vontade. Assim se fez. O Andrada não era madrugador, deitava-se e acordava tarde. Passava o dia recebendo visitas numerosas e austero salão de despachos, aberto para o parque, se transformava num ruidoso salão de palestras, com Antonio Carlos, pontificando à vontade, com ares senhoriais, distribuindo perdulariamente às suas frases sutil e cáustica malícia”.
Quando todos saíam, Vergara e Simões Lopes despachavam ou faziam de conta. O presidente dizia: “Não quero saber de papelório. Guardem para Getúlio”.

Desdobrava comentários, contava anedotas, ria e fazia rir, ficando ali até que viessem avisá-lo de que a família o esperava para o jantar. Comentava que o cozinheiro talvez não soubesse preparar bons churrascos, mas os pratos mineiros e baianos eram de um verdadeiro mestre na arte culinária.
Na véspera do retorno de Vargas, Antônio Carlos pegou os dois auxiliares e convidou-os para um passeio pelos jardins, quando monologou, dirigindo-se a ambos: “Agora que estamos sós, quero fazer-lhes uma confidência. Vocês devem ter achado um tanto surpreendente a minha maneira de exercer as minhas funções de presidente da República. Viram-me instalar neste Palácio das Águias, tão famoso desde os tempos nada saudosos do meu amigo Bernardes”. Continuava: “Talvez lhes pareça tudo isso despropositado e algo ridículo, não meninos? Mas eu me explico. Este velho Andrada já havia escalado todos os degraus de uma carreira aparentemente brilhante. Fora deputado, senador, presidente de Minas, presidente de uma Assembleia Constituinte, mas faltava atingir o último, o mais alto na hierarquia republicana, a Presidência da República.
Começava a perorar: “Não posso esconder que era a minha maior aspiração. Encerraria a minha vida pública no topo da cúpula do regime. Uma ambição justa. Por certo, que não me envergonho de proclamar, comparando-a num topo muito gasto de literato provinciano, ao “último canto do cisne” da minha movimentada carreira política.
Mas, me digam: “Quem pode dizer agora que este Andrada não foi presidente da República”?


84878
Por Manoel Hygino - 9/7/2020 06:55:37
A mortandade

Manoel Hygino

Há de se tomar conhecimento dos fatos, embora desagradáveis. Vive o Brasil um período de sua história já estigmatizado por dores e sofrimentos de múltipla causa.
Pelo Montesclaros.com, recebo diariamente a síntese do que ocorre no Norte de Minas, uma extensa região vincada por problemas, às vezes, não rigorosamente seus, com as das secas do Nordeste. Milhares e milhares de pessoas a pé, a cavalo, em caminhões, desciam no mapa em busca de melhores condições de sobrevivência. Um espetáculo tristíssimo a que assistimos sem muito ou nada podermos fazer para amenizar o padecimento dos retirantes – homens, mulheres, velhos e crianças, maltratados, pela vida, famintos ou enfermiços.
Faziam pequenos serviços em suas paradas, tentando amealhar alguns trocados até tomar o trem de ferro, pois ali era o final dos trilhos da Central do Brasil, inaugurada no remoto 1926. O Eldorado ficava mais ao Sul, São Paulo, talvez Paraná, que passara a constar dos sonhos dos fugidos da longa estiagem e da pré-miséria.
Extremamente longos os percursos, extremamente penosa a adaptação aos novos locais de trabalho, outras pessoas, os costumes. Mas viver é preciso, aqui ou ali, perto do lugar do nascimento, onde se estabeleceram famílias há décadas e décadas.
Mas, no ano da graça de 2020 de nosso Senhor Jesus Cristo, eis que aparece uma nova desgraça, esse tal de coronavírus, muito maior e destruidor de esperanças que outras pestes e pragas de eras passadas. Muita dor, que proíbe até as pessoas saírem de casa, no sertão remoto ou mesmo no Sudeste ou Sul, que representavam esperança.
As pessoas ficam doentes, não mais de gripezinhas ou dor de barriga, de irritação na pele ou febre. Mais do que isso, a doença nova é ameaçadora e perigosa, mata milhares, muitos milhares, como dizem os jornais, televisões e as rádios. E mais: atinge todos, de qualquer idade, sem dó. As estatísticas são reveladoras. Muitos milhares sob acompanhamento médico rigoroso, novos casos, muitos óbitos confirmados, um número enorme de pessoas em observação.
No norte-mineiro, Salinas prorroga o isolamento total por mais muitos dias, depois que o número de casos duplicou em uma semana. Comércio fechado, supermercados, padarias e sacolões impedidos de sistema de entrega em domicílio e a circulação de pessoas nas ruas proibida, salvo por força maior. E é a terra de uma das melhores cachaças do Brasil, só consumidas quase às escondidas.
Bocaiúva, terra de José Maria Alkmin, do caricaturista Henfil, dos Dumont, do deputado Patrus Ananias, também professor universitário, volta atrás. As medidas de liberação das atividades gerais também sofrem novo hiato, depois da “flexibilização” – a palavra é, pelo menos, elegante. Suspendem-se as reuniões, atividades públicas e as cerimônias religiosas. A Covid não tem preferência por este ou aquele credo.
Vejo que Montes Claros e Janaúba se incluem entre as cidades de Minas com “situação complicada”. Complicada? Só MOC tem quase 500 mil habitantes... No momento em que redijo o texto, a capital da região chegava a 113 mortes e, Janaúba, a 120, superadas de longe por Uberaba, Uberlândia, Teófilo Otoni, Muriaé, Juiz de Fora e Itabira. Desolador.


84865
Por Manoel Hygino - 27/6/2020 08:04:07
Urgente mudar

Manoel Hygino

No final de semana, arrefeceram-se os exaltados ânimos, que marcaram os dias anteriores na política. Embora acostumados às cálidas (se o adjetivo não for suficientemente forte) manifestações dos autores em cena, tivemos período de efetiva crise, não fosse a atuação dos mais prudentes.
Verdadeiramente, a nação não está nem se sente em paz, tão necessária ela para superarmos os terríveis efeitos de uma pandemia jamais vista tão trágica e cruel para todos os povos. A amplitude e gravidade dos problemas de que o povo teve notícia através de todos os veículos de comunicação, permitem deduzir que novas discussões estarão em debate a partir de agora e com uma veemência e uma agressividade não compatíveis com as circunstâncias da hora.
A polarização não conduzirá à melhor solução, mas se percebe que ela não se restringe mais aos círculos debatedores, estes já rompidos pelo conhecimento de todos os setores da sociedade. O descontentamento e a desconfiança, há bem tempo, ultrapassaram as rampas do Palácio do Planalto ou da Alvorada. Eles estão nas ruas, já sofridas sobremaneira pela perversidade múltipla causada pela pandemia que atinge uma população já cercada pela dificuldade de ir e vir, de adquirir medicamentos, de viajar, de alimentar-se, de usufruir as folganças do esporte e do lazer, de os filhos frequentarem as escolas.
Estamos em face de uma poderosa enrascada, da qual precisamos sair com a possível rapidez, antes que se agrave a situação, que se mostra das mais ameaçadoras, por motivos que a sociedade conhece. Se não escaparmos, agora, estaremos condenados irremediavelmente a provas e consequências mais dolorosas e frustrantes.
Os casos envolvendo Fabrício Queiroz e Abraham Weintraub são apenas a face de um imbróglio muito maior. Os embates entre os poderes constituídos, contrariando o explícito na Santa Magna, têm de cessar. Já Luiz Carlos Azedo aponta: “Uma parte do conflito de Bolsonaro com o Legislativo e o Judiciário é fruto de sua personalidade; a outra, mais preocupante, decorre de uma concepção de Estado descentralizado e vertical ainda arraigada, apesar de ultrapassada, compartilhada por alguns generais que o cercam”.
Imprescindível o fim das bravatas. E, como disse o jurista Sacha Calmon: “É hora de iniciar um novo ciclo de nossa história, sem arreganhos autoritários e planos factíveis de desenvolvimento econômico”.

Urge.


84857
Por Manoel Hygino - 24/6/2020 09:16:37
Aconteceu em agosto

Manoel Hygino

Por muito menos, talvez, houve o suicídio de Getulio em 24 de agosto de 1954. Um inquérito policial-militar, instalado no Galeão, no Rio de Janeiro, queria identificar o mandante do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, na rua Toneleros, dias antes. Ele denunciava abertamente desvios do governo. Gregório, o guarda-costas e chefe da guarda pessoal do presidente, com QG no próprio Catete, homem de confiança de Vargas e família, “se recusou obstinadamente a reconhecer que tinha havido alguém acima dele que deu a ordem” de eliminar o jornalista. O próprio Lacerda afirmou: “Ele se atribuiu quase tudo e já então passou a admitir, dizendo: A ideia foi minha”. O propósito era executar Lacerda.
Benjamim Vargas, o Bejo, foi intimado a depor no Inquérito, porque tinha ascendência sobre Gregório. “Pela presente, fica o sr. Benjamim Vargas intimado a comparecer ao quartel, assinado, coronel Adil de Oliveira. Benjamim, que deveria revelar o fato ao mano, no Palácio, entrou no quarto do presidente e disse: ”Getulio, estou intimado a comparecer ao Galeão para depor”. Getulio teria dito: É o fim”.
O presidente se sentiu pessoalmente atingido, como contou Lacerda. “Traído, enganado pela família; o irmão envolvido no assunto, não mais apenas o chefe da Guarda Pessoal”. Alzira, a filha predileta e sempre ouvida, confirmaria os fatos. “Bejo chegou ao quarto do irmão dizendo: “Estou aqui com um mandado de intimação para depor”, e Getulio respondeu: É o fim”, e, em seguida, deu um tiro no coração”.
O atentado contra Lacerda se deu em 5 de agosto, em Copacabana, na rua Toneleros, onde residia o jornalista. Este, após cumprir naquela noite um programa de palestra em um educandário, acompanhado pelo major Rubem Florentino Vaz, da Aeronáutica (havia em torno dele sempre um oficial daquela força para protegê-lo), desceu do carro, já passara da meia-noite, demorou para achar a chave do apartamento, vislumbrando um vulto a uns três metros de distância do automóvel.
Imediatamente, ele abriu o paletó, sacou uma arma e começou a atirar. O indivíduo, contratado para executar Lacerda, acertara o oficial. Desarmado, Vaz avançou sobre o assassino. Nada feito. Era tarde demais.
A sucessão de depoimentos na República do Galeão, como se apelidou a central das investigações, não surpreendeu Vargas, embora a nação se achasse em ebulição. “Na solidão do poder em ruínas”, Getulio não se dá por vencido, mesmo supondo que possa ser convocado a depor sobre o assassinato do major.
Na inauguração da Mannesmann, em 12 de agosto, pronuncia um discurso arrasador: “As injúrias que me lançam, as pedras que me atiram, a objurgatória, a mentira e a calúnia não conseguiram abater o meu ânimo, perturbar a minha serenidade, nem me afastar dos princípios de amor e humildade cristã por que norteio a minha vida e que me fazem esquecer os agravos e perdoar as injustiças. Por outro lado, não terei condescendência para aqueles que se fazem agentes do crime ou instrumentos de corrupção”. Adiante: “Saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbação da paz e da tranquilidade pública”.
Depois, seria 24 de agosto. Pela manhã, no Catete, Vargas se mata com um tiro de revólver calibre 32, cabo de madrepérola. O coração para.


84854
Por Manoel Hygino - 23/6/2020 08:09:35
As prescrições perigosas

Manoel Hygino

Interesses, muitas vezes, escusos levam pessoas a adotar determinada posição em torno de algum acontecimento ou episódio, de uma autoridade ou de alguma coisa. O que se tem visto, repetidamente, nestes dias de dúvidas, dores e angústias com a Pandemia do coronavírus, de alto desemprego, de precipitadas atitudes políticas. Quando o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta anunciou uma série de medidas para combater o mal ainda tão mal conhecido, foi um Deus nos acuda.
Permanecer em casa enquanto é tão bom ir às ruas, e às festas, andar de bicicleta, passear, adquirir um bronzeado na praia ou na piscina, assemelha-se a uma séria ofensa ao cidadão moderno e saudável. Sobretudo entre nós, que gostamos de esportes, de praticá-los, de ir ao futebol, pareceria um ultraje à orientação oficial. No entanto, vemos que agiram os gestores de Saúde como deviam, evitando males maiores. Mas, há gentes – uso plural – que persistem em suas decisões, contrariando o que a autoridade competente propõe. São aqueles que assim agem para aparecer, em grande parte, para se promover, como no caso famoso do uso da cloroquina proposto para combater a Covid-19. Como o infalível presidente dos Estados Unidos afirmara que o produto era indicado e eficaz, outros chefes de governo o seguiram, e não é preciso acrescentar que o Brasil foi atrás, a despeito de pareceres contrários de organizações credenciadas e profissionais de notório saber. Aconteceu com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cuja posição científica séria foi criticada por Trump.
O atual ocupante da Casa Branca deu o exemplo: já estava tomando a cloroquina, embora todas as advertências. Até que chegou a público conhecimento o julgamento da Food and Drugs Administration, a poderosa agência que expressa a palavra final e oficial sobre assuntos dessa natureza.
O respectivo documento é claro e objetivo: “Estudos recentes apontam que não há diferença e eficiência no uso do medicamento contra o Sars-CoV-2; a agência diz acreditar que as dosagens para hidroxicloroquina não têm efeito antiviral; diretrizes médicas dos EUA não recomendam o tratamento com as substâncias e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos Unidos (NIH) não defende o uso fora de pesquisas.
Desmente-se, assim, o ditado popular de que “aonde vai a vaca, o boi vai atrás”. Principalmente, quando se trata de saúde e vida do ser humano. Ainda bem que não houve, ao que se sabe, até agora, consequências mais perversas, de que também padeceria Trump. Se bem que ele mesmo declarou que, com o uso do medicamento, não se sente melhor, tampouco pior.
Mas fiquemos atentos: “Já foram reportados à OMS mais de 7,8 milhões de casos da Covid-19, com mais de 430 mil mortes atribuídas a ela. Levou mais de dois meses para os primeiros 100 mil casos serem reportados. Nas últimas duas semanas, mais de 100 mil casos foram reportados quase todo dia”.



84851
Por Manoel Hygino - 22/6/2020 08:36:12
Os reis magos

Manoel Hygino

O Rio Grande do Norte, que atravessa um dos períodos mais dramáticos de sua história com a Covid-19, pela falta de adequadas condições para atender a sua população, me vem à cabeça, porque – pelo Natal de 2018 – o escritor Franklin Jorge me enviou uma joia. Trata-se de “Actas Diurnas”, bela edição do Novo Jornal em parceria com Ludovicus Instituto Câmara Cascudo, contendo crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Pois a terceira crônica do memorialista potiguar chama especialmente a atenção dos brasileiros, até há algum tempo muito interessados nas lições da religião que os lusitanos para cá trouxeram. Informa que, dos quatro evangelistas, apenas Mateus toca no assunto (II, 1-12), enquanto Lucas, Marcos e João silenciam.
E registrou parcamente, no capítulo II, versículo I: Ecce Magi ab Oriente Venerunt Jerosolyman – isso é, “uns magos vieram do Oriente a Jerusalém”. Não acrescenta quem eram os visitantes, quais os nomes, o que foram ali fazer. Tudo o que mais se sabe foi obra do folclore, da cultura popular; até os visitantes procedentes do Oriente adquiriram feições próprias, nomes, o que eram, frutos da devoção do mundo católico.
A visita de personagens reais ao Messias fora profetizada nos Salmos de Davi e Salomão e em Isaías. Mas os cristãos simpatizaram com aqueles senhores que tinham vindo de tão longe procurando o Rei dos Judeus, guiados por uma estrela milagrosa. Nunca mais foram vistos na vida de Jesus. Consta que São Tomé ainda os encontrou velhinhos, em algum lugar não sabido, e os teria abençoado. Quem disse, onde, quando? Mortos, seus corpos ficaram na Pérsia, e Helena, mãe do Imperador Constantino, levou-os para Constantinopla, por ele fundada.
Emest Hello, em “Physionomies dos Saints”, informa que “Sainte Helenne les fit deposer avec magnificence dans la Brasilique de Sainte Sophie”. Mas a comparação das datas revela incongruências. Santa Helena faleceu em Roma, no ano 327, enquanto a Basílica foi construída em torno de 531 e inaugurada em 537, no reinado de Justiniano. Desse modo, o templo não existia na época da santa.
Consta, ainda, que o bispo Eustaquilo teria levado as relíquias para Milão, séculos depois. Em 1162, o imperador Frederico Barbaroxa destruiu a cidade e os três magos foram transportados para Colônia, na Alemanha, onde devem permanecer.
Cascudo observa que a palavra “mago” quer dizer sábio, doutor, sabedor. Assim os três magos eram tidos, Maggi, como os considerou Mateus, uns sábios. Mas existe na igreja de São Vital, em Ravena, Itália, um mosaico dos Reis Magos, com coroa real e nomes. Data do século VII, constando a sigla SCS, Santos. O Rei Negro é o último, que fica perto do Deus Menino.


84834
Por Manoel Hygino - 17/6/2020 08:13:12
Racismo, zero

Manoel Hygino

O Brasil está atento aos acontecimentos nos Estados Unidos, após o sepultamento do ex-segurança negro, morto por um policial branco em Minneapolis, há meio mês. O ignóbil assassinato não encerra o processo e o problema, que sensibilizou todas as nações e impôs manifestações condenatórias de suas maiores lideranças. O episódio de agora, e os protestos que desencadeou nas grandes cidades dos EUA, renovou as lembranças da morte de Martin Luther King, em 1968, o mais simbólico dos defensores dos direitos dos negros no país.
Mas deve-se meditar sobre a observação de Angela Merkel, chefe do governo alemão: “O racismo sempre existiu. É, infelizmente, também o caso aqui”, referindo-se à sua pátria. Na realidade, o problema tem muito maior amplitude e alcança também o Brasil, habitado grandemente por afrodescendentes, conterrâneos que deram essencial contribuição à construção nacional.
Os nossos meios de comunicação divulgaram, à suficiência, os episódios alusivos à morte de Floyd e as tevês destinaram-lhe espaço específico. Mas não se pode ficar apenas nisso. É imprescindível mudar a mentalidade das pessoas, que tem raízes no próprio processo de colonização. Há, sim, racismo entre nós, com preconceitos que se revelam em muitas ocasiões, às vezes, com ampla repercussão e registros policiais.
É coisa que vem de longe, como aponta Darcy Ribeiro, lembrando que o Brasil e as demais nações latino-americanas enriqueceram secularmente as metrópoles, mediante extração de bens, que representaram “o desgaste de milhões de escravos”. Os episódios registrados na mais poderosa nação do mundo demonstraram, à suficiência, que não basta riqueza. Para viver bem, as populações têm de fazer parte de uma comunidade, efetivamente, de uma nacionalidade. Não somos governados e governantes, pois o povo não se sente um mero pagador de tributos e responsável somente por deveres.
Os regimes políticos passam, transformam-se, as instituições sociais desaparecem, e outras surgem substituindo-as, mas a nação permanece, um aparelho social cuidadosamente constituído, perfeitamente delimitado, meticulosamente regulado. Está à frente do Estado um povo que quer fazer sentir e prevalecer seus anseios e mais caros ideais. O povo, dono do poder, não é formado só por brancos, porque todos somos parte da nacionalidade. Não há espaço para racismo. Isso já era. A raça é a humana.


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Por Manoel Hygino - 16/6/2020 08:30:24
Além do vírus

Manoel Hygino

Neste nosso tempo, algo invisível assusta o mundo, produzindo uma pandemia, enquanto cientistas buscam identificar exatamente o que é e como eliminar a “coisa” que ora infecta e mata muitos milhares de pessoas. Assim, não traria novidade o romance “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector. A obra da escritora ucraniana que viveu no Brasil até partir é consentânea com esta hora e suas circunstâncias.
A psicóloga e escritora, que reside em Brasília, Vera Lúcia de Oliveira, de reconhecido prestígio e notório saber, fez palestra na Associação Nacional dos Escritores e marcou uma noite na capital da República. O romance conta o caso de uma mulher, escultora, sem marido e filhos, que vive em apartamento de cobertura no Rio de Janeiro. Sua empregada se demite e ela se sente à vontade para percorrer aquilo que lhe pertence.
Visitando o ex-quarto de Janair, verifica que tudo está em ordem, limpo, mas se espanta com um desenho a carvão de um homem, uma mulher e um cão. As figuras fazem pensar em múmias que vêm de outro tempo. Percebe que há energia no desenho e um sentimento de ódio, “uma espécie de ódio isento, o pior ódio”, de alguém socialmente invisível, “mas que seria o da antiga empregada”.
Aquela negra-rainha africana parecia estar ali para julgá-la. “O quarto divergia tanto do resto do apartamento. Para entrar nele era como se antes tivesse saído de minha casa e batido a porta, “oposto do que eu criara em minha casa, o oposto da suave beleza que resultara de meu talento de arrumar, de meu talento de viver, o oposto de minha ironia serena, de minha doce e isenta ironia.
G. H., a protagonista, sente uma cólera inexplicável e resolve lavar o quarto, jogando baldes e baldes de água para afogá-lo; “eu queria matar alguma coisa ali”. Entrei no quarto-caverna, onde o único ruído residia na “ressonância do silêncio roçando o silêncio”, “um silêncio acumulado de séculos”, “silêncio que é a respiração contínua que ouvimos do mundo”. G. H. sente os primeiros sinais do desabamento nela de “cavernas subterrâneas que ruíam” sob o peso de camadas arqueológicas estratificadas.
Percebeu precisar de alguém que entendesse o que acontecia. Quedou-se na análise do desenho e, ao abrir a porta do guarda-roupa, sofre um susto enorme ao defrontar-se com uma barata – grande e supostamente velha. Horrorizada, já que tanto temia baratas, regressa ao tempo imemorável da formação da vida na Terra, quando todos os seres ganhavam sua primeira forma.
Sente no mais íntimo de si mesma: “Uma barata tão velha que era imemorial”. (...) elas já estavam na Terra, e iguais à de hoje, antes mesmo que tivessem aparecido o primeiro dos dinossauros; saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e vivas, saber que elas testemunharam a formação das grandes jazidas de petróleo e carvão no mundo, e lá estavam durante o grande avanço, e depois durante o grande recuo das geleiras ‘há trezentos e cinquenta milhões de anos se repetiam sem se transformarem”. E era só uma barata!


84823
Por Manoel Hygino - 13/6/2020 08:03:13
Sob o céu de BH

Manoel Hygino

Como presente de aniversário, recebi o exemplar de “Sob o céu de Belo Horizonte”, em cujas quase 250 páginas, Pedro Rogério Couto Moreira conta fragmentos da vida da capital, principalmente nos anos 40, 50 e 60 do século que ficou para trás.
Trata-se de obra cuja leitura não se deve nem se pode adiar, por muitos e justificáveis motivos. Editada pela Thesaurus (que sabe prestigiar os bons autores), aguarda o término desta terrível pandemia de coronavírus em 2020 para lançamento oficial.
Estou certo de que o adiamento será precioso incentivo no interesse do leitor pelo conteúdo, e pelo especial sabor que imprime Pedro Rogério a seus escritos. Liminarmente, diria tratar-se de uma descrição bem-humorada dos seus 21 anos de vida na amorável casa do pai, saudoso escritor Vivaldi Moreira, no número 600 da rua Professor Morais, antiga Paraibuna, a do Canal, no Funcionários. A residência não existe mais, nem nenhuma outra no trecho, pois cederam lugar a luxuoso hotel. Mas ficaram, felizmente, as lembranças daquela época, do local, da vizinhança e tantos outros etcéteras. São eles exatamente que dão calor ao livro, acrescentando recordações e informações.
Filho de sábio escritor e incomparável leitor, o confrade acadêmico na AML alimentou-se certamente na farta biblioteca do pai. Teve muita sorte. Assim, leu, além de muitas preciosidades outras, “A Capital”, de Avelino Fóscolo (emprestei meu exemplar, não devolvido); “O Cabo das Tormentas”, de Eduardo Frieiro; “João Ternura”, de Aníbal Machado; “Meu Fabulário Infantil”, de Euryalo Cannabrava; “Baú de Ossos”, de Pedro Nava; “Serra do Curral”, de Sylvio Miraglia; “Memórias de um Chauffer de Praça”, de Moacyr Andrade; além dos mais recentes, como “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino; “Hilda Furacão”, de Roberto Drumond; “Prisioneiro do Círculo”, de Ricardo Gontijo; e “Juventude, Juventude”, de Odin Andrade, além de recorrer a suas próprias reminiscências e muitos mais bons autores.
Mas não se pode deixar de realçar a importância que Pedro Rogério dá a “O amanuense Elmiro”, de Cyro dos Anjos, nascido em Montes Claros, e colaborador precioso de Benedito Valadares, governador. Mas o tom de “Sob o céu” é o da capital desde o seu primórdio, dos bons autores mencionados, que souberam amar Belo Horizonte e em Belo Horizonte. Porque o verbo é conjugado em todos os modos e tempos.
A numerosa gente que veio para cá para construir a cidade merece carinho, como a de procedência italiana, a comunidade católica, os adeptos do futebol, os fundadores dos clubes sociais, os empresários, como o judeu que instalou a Casa Arthur Haas, onde se encontra até hoje, ou a Salles, de Armas, na São Paulo com Caetés. Mas se recorda o Cine Grátis, o Maria das Tranças, o restaurante térreo do Automóvel Clube com Pedro Aleixo e Milton Campos na chegada da noite, a Pampulha e a gafieira Elite, o Cine Glória, enfim, a cidade inteira – dos céus e da terra, com fatos e acontecimentos. Juscelino, Milton, Djalma Andrade, festas e suicídios, as reuniões dos rapazes na Mansão Vivacqua, a que compareciam Drumond, o de Itabira, Milton Campos, e toda a flor das artes, das letras e do pensamento. Pedro conhece as coisas e sabe contá-las.


84817
Por Manoel Hygino - 10/6/2020 11:31:27
NOITE DE CRISTAL

Manoel Hygino

Os recentes acontecimentos no Brasil, em especial na capital federal, no âmbito político-jurídico-militar, trouxeram à tona a famigerada Noite de Cristal, na Alemanha de Hitler. Havia uma perigosa onda de anti-semitismo com o país varrido por perseguições aos judeus. Registrou-se a destruição de sinagogas em Munique, Nuremberg e Dortmund. Em Berlim, proliferavam insultos e dísticos injuriosos. Tudo partia de um grupo organizado – os homens do SA, que expunham em todos os lugares desenhos de judeus degolados, torturados, feridos, juntamente com inscrições obscenas. Ademais, janelas quebradas e restos da pilhagem das lojas de judeus nas ruas e sarjetas. Popularizou-se o protesto das vítimas: “ser judeu não constitui crime”.
De quem partira a ordem? De Goebbels, tudo levava a crer. Ou teria partido do próprio Hitler? Himmler, dirigindo-se aos generais do SS, atacara violentamente os judeus. Os judeus estavam decididos a destruir a Alemanha e deveriam ser expulsos do país, “com uma impiedade sem exemplo”. “Se a Alemanha não triunfasse nesse combate de morte, não haverá um só teto sob o qual um teuto encontre abrigo; todos perecerão de fome ou serão massacrados”.
A Alemanha se preparava para a segunda grande guerra e não encontraria mais apoio de outras nações. A Noite de Cristal, quando grupos de população impelidos pelas liderança do Reiche, com conhecimento de Hitler, arruinaram os bens de propriedade dos judeus, incrementou o sentimento de o conflito ser irremediável.
O historiador John Toland considera que as lideranças, a começar de Hitler, admitiam aquelas manifestações e tudo que resultou na Noite de Cristal, procurando que a comunidade internacional conhecesse os fatos. O auxiliar mais importante de Himmler, Heydrich enviou mensagens urgentes a todos os quartéis e postos do SD-Serviço de Segurança e da Polícia, concitando-os a cooperar com os líderes do Partido e da SS, “para organizar manifestações”. Judeus, principalmente os ricos, deveriam ser presos, quanto fosse possível alojar nas cadeias existentes, para depois serem encaminhados a campos de concentração.
O historiador comentou: “Foi uma noite terrível, uma noite de desespero que os judeus conheceram na Alemanha, enquanto a Polícia testemunhava, de braços cruzados, a destruição e as violências físicas impostas às pessoas”.
Segundo dados oficiais, foram arruinadas 814 lojas, 171 residências particulares, 191 sinagogas incendiadas, 39 homens assassinados e outros 36 gravemente feridos. O próprio Heydrich, contudo, admitiu que os números reais dos acidentes, mortes e incêndios “deveriam ter sido consideravelmente superiores”. O nome Noite de Cristal lembrava o grande número de vidraças partidas. Em todo mundo, a Alemanha foi classificada como país de bárbaros. Contra aquele estado de coisas, temendo que chegasse ao Brasil, manifestou-se o decano do STF, Celso de Mello, em mensagem reservada, já de conhecimento geral.


84811
Por Manoel Hygino - 8/6/2020 16:16:03
O JUDICIÁRIO EXISTE

Manoel Hygino

Quando os políticos e determinadas autoridades debatem e se enfrentam sem chegarem a uma conclusão necessária aos interesses da sociedade, costumam atribuir os maus resultados de seus projetos à Imprensa. Imprensa que existe para publicar informações, obedecida a legislação pertinente e consentânea com os princípios éticos da atividade e do exercício da profissão de jornalista.
É, assim.
Vê-se que, no entanto, para serem bem sucedidos em propósitos e projetos, pessoas invadem reiteradamente áreas a que não estão habilitadas e nelas passam a atuar, apelando para novas ferramentas de comunicação, como ora acontece, prejudicando abusivamente a verdadeira Imprensa. O que se poderia considerar estratégia marxista de prostituir o vocabulário, de deformar a realidade e mentir, como antes se observava nas ações do MST e na violência black bloc, parece mudar de mãos. E o povo do Brasil, que quer pelo menos tranquilidade para sobreviver e produzir, queda indeciso sobre aprovação a este ou aquele candidato ou autoridade, enquanto os problemas, ora avultados com a crise sanitária de dimensões jamais sofridas, permanecem e ganham vulto.
Os fatos do último final de semana se repetiram nas capitais do país, sobretudo na Federal, que sequer pudera comemorar este ano o seu sexagésimo aniversário. Mutatis mutandis, poder-se-ia repetir aqui o que Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra e membro do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, afirmara em 2014: “E nós, jornalistas, corremos o risco de sucumbir a esse gingado e à instrumentalização semântica”.
Indivíduos, por motivos sabidos ou ainda não identificados, obstruem as vias públicas em manifestações, formam-se em frente a prédios públicos, atacam indefesos integrantes de equipes de saúde, agridem jornalistas (fatos já de amplo conhecimento), passando-se por “ativistas” e “militantes”.
Di Fraco resumiu: “Nosso papel é informar. Nossa missão é rasgar a embalagem e mostrar a realidade”. Todos os deslizes e abusos precisam ser esclarecidos, principalmente se já considerados crimes. E há numerosos que precisam ser investigados e, concluídas as investigações, se houver culpados, levados à barra dos tribunais.
Porque o que a Imprensa, os jornalistas em sua predominância pretendem é que se cumpra a Constituição, porque o decrépito direito divino dos reis foi substituído pela soberania popular. Convém ainda lembrar: “O Poder Judiciário, no desempenho da jurisdição, exerce agora uma parcela do poder político, conforme o magistrado francês Antonie Garapon, o controle crescente da Justiça sobre a vida coletiva é um dos maiores fatos políticos contemporâneos”. “A judicialização na vida social no Brasil tomou ritmo assustador. Tornou-se o poder público incapaz de resolver, sem recorrer ao Poder Judiciário, conflitos de múltipla natureza”. Merece, pois, como a Imprensa, ser respeitado, para que se deixe o brasileiro viver em paz.


84789
Por Manoel Hygino - 30/5/2020 08:06:39
Vinte anos de esforços

Manoel Hygino

No ano findo, a Santa Casa de Belo Horizonte, em maio, comemorou os seus 120 anos de fundação, correspondente também aos 450 da Santa Casa de Macau, incrustada hoje em território da China, nosso maior parceiro comercial, dirão os entendidos. Neste mês, além de registrar mais um aniversário da benemérita instituição mineira, criada em 21 de maio de 1899, considerei justo lembrar o fato.

É que, em 30 deste quinto mês de 2020, completam-se os vinte anos de posse de Saulo Levindo Coelho como provedor, o mais alto cargo da entidade. É época que, pelas circunstâncias impostas pela calamidade do coronavírus que se abate sobre a comunidade mundial, não é própria para festa. Há milhões sofrendo e morrendo nesta hora. Precisamos ser humanos e solidários.

Mas não se poderia deixar que passasse em branco a data, e esta é uma razão para o registro. Estar à frente de uma instituição, cujas raízes remontam acima de quinhentos anos, é uma honra, sim, mas de extrema responsabilidade, e a palavra “misericórdia” explica o suficiente.

Vivemos num país continental, como se proclama orgulhosamente, mas com extensas parcelas da população em pobreza, em todas as regiões, nas áreas rurais ou nos grandes centros. Gente humilde, sem formação educativa ou profissional, sem ter onde morar, como e onde trabalhar para viver dignamente, como merecem todas as pessoas de boa vontade e honestas.

Esta gente historicamente não encontrou onde tratar da saúde, daí a fundação da Santa Casa aqui, como em Portugal. O Sistema Único de Saúde, criado no Brasil há 30 anos, veio preencher um vazio, e já presta significativa colaboração/dever do poder público. É um esforço meritório, em que as filantrópicas colaboram eficientemente. São responsáveis por oferecer à saúde mais de 50 % do número total de leitos da rede pública. Não é pouca coisa, pois.

Saulo, o provedor, em duas décadas, disse a que veio, numa gestão que lembraria ilustres provedores, como José Maria de Alkmin, que ficou mais de 30 anos à frente da instituição. Outros deram também esplêndida ajuda, escondidos os nomes talvez na grandeza construída neste mais de século. Agora, além de tudo o que se vê e se sabe, há um centro de transplantes que é líder hospitalar na atividade, o Ensino e Pesquisa-Instituto, o Centro de Especialidades Médicas e, mais recentemente, a Faculdade Santa Casa. Ampliou o seu pioneiro CTI Infantil para atender a cirurgias cardíacas pediátricas demandadas no país, segue um intenso programa de obras e de dinamização e otimização de serviços, prevendo-se para logo a inauguração do Instituto de Oncologia. Se perguntarem ao provedor pelos vinte anos de luta, talvez ele diga, como em soneto de Camões: “Mais servira, se não fosse para tão nobre causa , tão curta a vida”.



84779
Por Manoel Hygino - 27/5/2020 07:59:56
Devagar com o andor

Manoel Hygino

A liberação de gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril despertou mais do que curiosidade ou simples interesse: em verdade, uma ansiosa expectativa. O que seria natural, diante da polêmica e celeuma estabelecidas em torno das declarações do ex-ministro Sérgio Moro sobre a pretendida intervenção, ou não, do presidente da República na Polícia Federal.

Muito ainda resultará do conteúdo da reunião e de sua divulgação, que envolve interesses políticos múltiplos. Mas, chamará a atenção de toda a nação o baixo nível de intervenções de participantes do encontro, considerando o seu nível e representatividade. O brasileiro perguntará: é assim em tão alto escalão da República? Viu-se baixar, na sede do governo nacional, em momento de especial cuidado, o que se poderia até classificar de torpe linguajar dos segmentos baixos da sociedade. É fenômeno social e ético, que fere o decoro e o respeito que as pessoas se devem. No entanto, de nada vale asseio de forma sem limpeza de fundo, como ensinava um velho professor da língua.

Torna-se, a cada dia, mais difícil entender a maneira como sobrevive o país, com manchas e contra-manchas, afirmações e desmentidos, encontros e desencontros que, evidentemente, repercutem na sociedade. Esta atravessa período conturbado, e mais será quando desabarem as consequências da tragédia que atinge o mundo, de maior repercussão em nosso país. Ele não é o que se quer, porque estamos inchados de novos e graves problemas.

O xingatório e troca de acusações na reunião do dia 22, em Brasília, em nada contribuirá para amenizar os desafios à frente. Antes pelo contrário. O problema, por sua extensão e complexidade, pelo número de pessoas envolvidas, é extremamente perigoso para muitos. Moro, que entrou no caso por ser então ministro da Justiça, é apenas um personagem.

Atente-se que, somente há bem pouco, o empresário Antônio Marinho, que emprestava sua residência para encontro e local de gravação na campanha eleitoral está sendo inserido na questão. Certamente, terá muito a esclarecer. Não é sem razão que grande parte das investigações se concentram no Estado do Rio, domicílio eleitoral do ex-concorrente à presidência. E há os casos da vereadora executada Marielle Franco, até hoje sem solução; dos pretensos mandantes do crime, um dos quais residente no mesmo condomínio na Barra da Tijuca; o episódio da rachadinha, envolvendo salários de deputados à Alerj; o affair do miliciano homenageado pela Assembleia carioca e assassinado na Bahia. Juntando todas as peças dessas investigações, sem falar nas fake news, que aparentemente estacionaram no tempo e no espaço, haverá trabalho robusto para quem investigar e julgar.

Há muito caminho a percorrer para cumprir tão complicado itinerário. O chefe da nação tem carradas de motivos para perder as estribeiras como o fez, grosseiramente, no dia 22, que está entrando para a história. Se bem que nada justificam querelas com o Legislativo e os ataques ao Supremo Tribunal Federal.

Nem se justificam as expressões de simpatia a ditaduras, nas quais tanto já sofreram os brasileiros. Chega!


84760
Por Manoel Hygino - 21/5/2020 07:19:28
Ferindo a ordem

Manoel Hygino

Aparentemente, o chefe da nação carece de especial defesa, a julgar quantas áreas se obrigam a esse mister. Em âmbito formal, oficial, há o segmento que zela pelo presidente e seus familiares, comandado pelo general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete Institucional. É cidadão próximo a Bolsonaro, dão-se bem, convivem.

Mas, no imbróglio da substituição do diretor da Polícia Federal, que gerou o entrevero jurídico-político que se desenrola, ouviu-se que o presidente desejava pessoa mais afinada com ele, também visando coleta rica de informações e mais segurança para seus familiares e amigos. Tudo tem sido esmiuçado nos mínimos detalhes, até pela imprensa. Não é só isso que existe, contudo. As sucessivas manifestações na capital federal, mas também em São Paulo e Belo Horizonte, em que se discursa contra o Legislativo e o Judiciário, fazem pensar. Afinal, o que pretende aquela gente? Quem a sustenta? Quem paga sua locomoção e ação nos estados? Por que insistem em se reunir diante de instalações do Exército, inclusive uma em frente ao Quartel General em Brasília?

Em São Paulo, assoberbado por sua posição como maior centro de infecções e óbitos pela Covid-19, cerca de 15 indivíduos fizeram manifestação à frente do apartamento em que reside o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Protestavam contra a anulação da nomeação de Alexandre Ramagem para direção da Polícia Federal.

A reação veio através do Ministério Público de São Paulo, que denunciou dois manifestantes – Jurandir Alencar e o engenheiro Antônio Carlos Bronzeri, da Frente Brasileira Conservadora, por difamação, injúria, perturbação do sossego e ameaça à “vítima no local”. O juiz Márcio Lúcio Falavigna Sauandag, da 22ª Vara Criminal de São Paulo, aceitou a denúncia do Ministério Público e colocou ambos no banco dos réus.

Por outro lado, o Ministério Público do Distrito Federal ingressou com uma ação civil pública contra os integrantes do movimento 300 do Brasil, pró-Bolsonaro, que vem atuando em Brasília há um mês.

A ação, assinada pelos promotores Flávio Augusto Milhomem e Nísio Tostes Ribeiro Filho, pede o fim do acampamento do grupo na capital federal, a busca e apreensão e também a revista pessoal em seus integrantes, para encontrar armas de fogo em situação irregular ou cujos donos não possuam autorização legal. A líder do movimento, Sara Winter, ex-feminista convertida ao conservadorismo, reconheceu que alguns integrantes do 300 do Brasil possuíam armas de fogo. Sara, no entanto, ressaltou que as armas eram usadas apenas para a defesa dos próprios membros do acampamento, e não nas atividades de militância.

Os promotores descrevem o grupo como milícia armada e firmam que sua presença na capital federal “representa inequívoco dano à ordem e segurança públicas”. A ação também coloca Sara Winter na posição de ré.


84756
Por Manoel Hygino - 20/5/2020 08:45:58
Desde Catilina

Manoel Hygino

“Quousque tandem abutere patientia nostra? A pergunta foi feita por Cícero a Catilina, seu poderoso inimigo na velha Roma. “Até quando abusarás de nossa paciência”? Mas, sabia, certamente, o célebre orador que tinha diante de si um adversário perigoso e corajoso, embora ele próprio lembraria Carlos Lacerda, do século XX no Brasil, capaz de desafiar Getulio Vargas.

Catilina, partidário de Sila, já demonstrava sua crueldade com os que não estavam ao seu lado. Cícero fora informado de que o inimigo mandara matá-lo em sua própria casa, mas que o plano fracassara. Acusado Catilina, no Senado, pelo antagonista, tentou fugir para junto de seu Exército, escapando à Espanha. Com sucessivas decepções, resistiu perto de Pistóia com três mil homens, mas caiu com eles, após encarniçada resistência.

No Brasil de hoje, assistimos à não dissimulada guerra entre grupos poderosos, além da que já deixou mais de 120 mil combatentes, brasileiros de muitos rincões, contra o coronavírus. As batalhas que aqui se tratam envolvem riscos, muitos e reais, envolvendo litigantes que não se afinam.

A Imprensa do país entrou em meio às batalhas, como sempre acontece aqui e alhures, em todos os tempos. Através dela, a sociedade conhece (?) a evolução dos fatos, com versões diversas, de acordo com os interesses dos grupos, esquecida reiteradamente a verdade.

E o coronavírus segue sua marcha inexorável eliminando vidas ou deixando-as trancadas. Num cerco ainda mais cruel, agrava-se a situação econômico-financeira nacional, reduzem-se duramente as atividades produtivas, fecham-se portas da indústria e do comércio, avulta o número de desempregados, enquanto a fome e as enfermidades (se pouco maligna a pandemia) ganham terreno em todas as regiões. Para onde estamos indo? Até quando suportará a população a angústia? O prestigiado jornalista Luiz Carlos Azedo se manifesta: “Aqui no Brasil, diante da maior crise sanitária que o país enfrenta, desde a epidemia de gripe espanhola de 1918, e de uma recessão que cavalga a pandemia, nossas instituições estão funcionando”.

No entanto, os resultados práticos são pouco proveitosos. E os jornalistas tentam descobrir mistérios, guardados a sete chaves, sem conseguirem desvendá-los. Por que? Há algo de espúrio, ilegal ou podre? O ministro do STF, seu decano, quase às vésperas de deixar o alto cargo, Celso de Mello, expõe seu ponto de vista. “Na realidade, os estatutos do poder, numa República fundada em bases democráticas, não podem privilegiar o mistério, porque a supressão do regime visível de governo – que tem na transparência a condição de legitimidade de seus próprios atos – sempre coincide com os tempos sombrios em que declinam as liberdades e transgridem-se os direitos dos cidadãos”. Quem é ou são os Catilinas nesta hora tão delicada da história brasileira?


84753
Por Manoel Hygino - 19/5/2020 08:13:29
Uma hora preocupante

Manoel Hygino

O presidente da República declarou, há dias, que é Messias (parte de seu nome), mas não faz milagres. Não demorou senão mais dias para classificar seu ex-ministro da Justiça de “Judas”.

E daí?

O Judas, da história religiosa, era um dos apóstolos de Cristo – e não o único com esse nome –, traiu o Mestre e entregou-o ao Sinédrio, que não pôde executá-lo, porque a atribuição lhe fora subtraída pelos romanos. Houve aquilo que já se sabe, está também no Novo Testamento. O ritual de condenação passeia entre romanos e judeus, bem como nos meandros da Justiça brasileira. A Justiça tem de ser cuidadosa para não cometer injustiça. Pedro Rogério Moreira, confrade na Academia Mineira de Letras, em livro atraente e útil sobre as curiosidades da Bíblia, evoca os fatos. Executando Jesus no Gólgota, Judas sentiu-se arrependido e envergonhado e, na mesma madrugada, dirigiu-se ao Templo para devolver o dinheiro. Os sacerdotes, porém, considerando o dinheiro espúrio, não quiseram recebê-lo. Judas, mais uma vez, humilhado, apanhou as trinta moedas de prata e atirou-as no altar.

Por aqui, o Messias não consegue livrar-se de imputações que lhe fazem e o Sinédrio de cá (que não é religioso) manda abrir sindicância para esclarecer investigações sobre faltas que teria cometido e tornadas públicas. Momento de crise aqui, como o foi há mais de 2.000 anos no outro lado do mapa.

O dinheiro não recebido no Templo, em Jerusalém, segundo algumas versões, foi usado para comprar o terreno do Campo do Oleiro, a fim de lá se instalar um cemitério para estrangeiros. A área passou depois a ser chamada de Campo de Sangue, conforme os “Atos dos Apóstolos”, por um desses motivos: pela procedência maldita do dinheiro utilizado para adquiri-lo, ou por ter ocorrido nele a morte de Judas, o que pode ser objeto de próximo comentário.

Não resta dúvida, contudo, de que – tanto para o atual Messias ou para o acoimado Judas – resta um longo caminho a percorrer, com indesviáveis aborrecimentos, seguidos passo a passo pela Imprensa; que não dá folga ou se atrasa, visando cumprir sua missão. Simultaneamente, todo o aparato político estará atento, porque interesses múltiplos existem, desde os mais importantes para a vida e os destinos nacionais, mas também os mais mesquinhos.

Enquanto isso acontece, a população suporta o distanciamento social, porque sabe que ele é fundamental para enfrentar o invisível e ardiloso novo coronavírus, personagem central dos noticiários de televisão, rádios e jornais, enquanto as autoridades da área de Saúde se esforçam para vencer o adversário perigosíssimo.

As vias públicas, urbanas ou as rodovias sentem a redução de veículos, o comércio e a indústria reclamam; a dispensa de empregados no trabalho cresce e inquieta. E o pior, há gente, muita gente, vivendo miseravelmente. Esperando milagre, talvez.

E daí?


84738
Por Manoel Hygino - 13/5/2020 16:14:30
Wenceslau e a outra crise

Manoel Hygino

Em declarações a jornal da capital, o promotor de Justiça e reconhecido pesquisador Marcos Paulo de Souza Miranda, lembra que “Minas Gerais”, em seus mais de 300 anos, enfrentou situações tão ou mais difíceis que a do coronavírus. Superou todas, mesmo em época de incipientes conhecimentos epidemiológicos.
Presidente da República na segunda década do século passado, o mineiro Wenceslau Braz, nascido em Itajubá, teve de enfrentar os problemas decorrentes da primeira guerra mundial, não apenas no campo das finanças públicas, combalidas, e que repercutiram em toda a administração.
Darcy Bessone, em livro memorável em 1968, pela Imprensa Oficial, exaltou o trabalho de Wenceslau, que recolheu o espólio da massa falida que recebeu para, através de uma política financeira sensata, ver seus esforços recompensados quando a Casa Rotschild atestou que nunca as finanças do Brasil estiveram tão florescentes.
Pois, no próprio livro, o reconhecido membro da magistratura (em início de carreira como juiz de Direito em Montes Claros) demonstra a importância de Wenceslau para o Brasil, fazendo-o para governar Minas.
Bessone evoca: “Nos últimos dias de governo, o presidente se viu em face de uma calamidade. A influenza, trazida pelos primeiros navios chegados após o término da guerra, apanhou de surpresa tanto as autoridades como a população carioca, podendo alastrar-se, assim, veloz e facilmente. Não havia meios nem tempo para debelá-la antes que produzisse os terríveis efeitos que suscito”.
Paciente como todo bom pescador, Wenceslau Braz não se intimidou: “O presidente fez quanto pôde: substituiu o diretor da Saúde Pública, suspendeu o expediente nas repartições e escolas, improvisou hospitais, enfermarias e postos de assistência, providenciou socorros e alimentos”.
Mutatis mutandis, não é o que ora se faz? “Adotando as únicas medidas possíveis, então, ainda encontrou tempo para visitar, diariamente, com a esposa, hospitais e cemitérios, expondo-se altruisticamente no contágio, sempre no propósito de identificar e promover as providências que porventura pudessem reduzir as dimensões da hecatombe. Emocionou-se a gente carioca com o desvelo de um chefe de Estado que, mesmo nos últimos momentos de seu mandato, revelava tão apurado senso de responsabilidade, tão generosa sensibilidade humana”.
O jornal “O Imparcial”, que circulava na capital federal, comentou: “O Sr. Dr. Wenceslau Braz não ignora que o povo do Rio de Janeiro é incapaz de dissimulações. A sua opinião sobre os homens do governo é manifestada francamente, desassombradamente, quaisquer que sejam as providências tomadas para evitá-la. Se o povo o tem saudado carinhosamente, sempre que o encontra, isso quer dizer, de modo positivo, que está satisfeito com a direção dos negócios públicos e que sua honestidade, a sua lisura, a sua ponderação têm tocado de perto o coração popular”.


84711
Por Manoel Hygino - 5/5/2020 08:05:04
O essencial do "não"

Manoel Hygino

Passados oitenta anos do início da II Grande Guerra, ainda restam perguntas a fazer e considerações a tecer. Em última análise, transcorrido todo este tempo, o conflito ainda influencia este século XXI, começado há 20 anos.
Não sem razão a rendição do marechal Petain é objeto de discussão, assim como a inesperada atitude de De Gaulle, que fugiu de sua pátria para, em outro país, organizar a resistência para retomar à França ocupada. Oito décadas depois, ambos são julgados pela História, não simplesmente pela opinião e posição de seus compatriotas.
Entrou no julgamento um tertius, que – do outro lado do canal da Mancha – teria a incumbência perigosa de decidir de que lado estaria a Inglaterra na sangrenta luta que começaria. Refiro-me a Churchill, evocado pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, ao receber o diploma profissional em maio de 2011, pela Universidade de Brasília.
Já amplamente reconhecido pela sua atuação na Imprensa, Luiz Cláudio afirmou que o “foco preferencial do jornalismo são as pessoas que dizem “não”, as pessoas que têm a coragem de dizer “não”, a coragem de enfrentar desafios, de contrariar interesses, de rebater dogmas, de fazer as perguntas mais impertinentes, mais absurdas e desnecessárias. A Winston Churchill, que faleceria 25 anos após, coube a missão de dizer não em hora essencial à vida da humanidade.
O homenageado, em seu discurso, afirmou: “Conservador, reacionário, imperialista, rabugento, desbocado, teimoso, beberrão e fumante compulsivo, Winston Churchill foi grandioso nas atitudes inspiradoras, insuperável na elegância da melhor prosa inglesa, imbatível na fina ironia e invencível na determinação de enfrentar a mais assustadora ameaça do século 20: Hitler e sua ideologia totalitária.
Seu granítico “não” salvou a humanidade da submissão ao nazismo. Em cinco dias decisivos de maio de 1940, entre a sexta-feira, 24, e a terça-feira, 28, a Grã-Bretanha estava assombrada pela rendição inesperada da França e o virtual esmagamento das tropas inglesas em Dunquerque. Churchill estava virtualmente só, inclusive, dentro do gabinete, procurava uma saída para o armistício com o III Reich.
Opondo-se a Lorde Halifax, o ministro das Relações Exteriores que apoiava a política do apaziguamento com Hitler desde Munich, o primeiro-ministro mudou a história ao dizer ‘não” à paz em separado. Se tivesse cedido, a Inglaterra teria saído da guerra e o nazismo triunfaria para sempre, com seus aliados da Itália e Japão.”
Embora estejamos em democracia plena, em estado democrático de Direito, boa parte dos cidadãos que podem e devem manifestar-se sobre determinado assunto ou pessoa não têm a necessária disposição ou coragem de exprimir-se. Predominam as conversas de bastidores, as críticas veladas, que não contribuem para solução conveniente e eficaz. Há medo, o que é terrível numa hora como a que vivemos, em que o mundo vislumbra economia difícil em meio ao sofrimento maior para ponderáveis segmentos da humanidade.
Em resumo, não é só o novo coronavírus que nos atenta.


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Por Manoel Hygino - 2/5/2020 10:47:14
A ajuda emergencial

Manoel Hygino

Preocupava-me assistir pelas televisões as imagens diárias dos candidatos ao recebimento do Auxílio Emergencial do governo, apertando-se, as pessoas se empurrando à porta dos estabelecimentos oficiais de crédito. Não se importavam os candidatos à ajuda com as distâncias mínimas previstas pelo projeto de distanciamento social estabelecido pelas autoridades, a fim de evitar a disseminação do novo vírus, introduzido nos costumes de quase todas as nações neste princípio de século.
Homens e mulheres de todas as idades, geralmente com roupas surradas, resultado do longo uso por falta de substituição, desalinhados, inquietos, desgrenhados, na maioria das vezes, manifestavam seu descontentamento pela longa, e ainda incompleta espera, para encerrar a negociação anunciada por Brasília com tanta ênfase.
Sabe essa gente humilde, como a classificou Chico Buarque, que a liberação do dinheiro não se faria com a velocidade e presteza aguardadas pelos gestores dos recursos públicos da nação. Nada é fácil, num país sempre difícil, e quando o Banco Mundial prevê uma redução superior a 5% no PIB de 2020.
Em cada brasileiro na ilusória fila, muitas pessoas que se ergueram da cama nas primeiras horas do dia, para chegar mais cedo à porta das agências bancárias, a despeito do aviso prévio de existir uma nova ordem a ser obedecida, novos critérios para, finalmente, ter as cédulas do Tesouro à mão.
Mas esses patrícios, de muitos estados e numerosos municípios, foram demitidos, mas seus salários já eram destinados a cobrir despesas escolares, despesas domésticas impostergáveis, - o aluguel, a lista de armazém, medicamentos, tributos, a conta de luz e água, e que mais?
Disse uma: “Com meu trabalho, estava conseguindo pagar minhas contas, pagar o aluguel. Desde quando fui deligada da empresa, as coisas ficaram bem apertadas. Moro com uma amiga e com esse dinheiro eu vou conseguir ajudar a pagar o aluguel, vou conseguir colocar comida dentro de casa e pagar algumas contas que não são tão caras, mas, como estamos ficando em casa, devem aumentar”, explica Stéfane, que conta ter conseguido negociar o valor do aluguel, que passou de R$ 875 para R$ 600, com a proprietária do imóvel”.
Milhões de brasileiros já receberam o quinhão de R$ 600, que tanto representou em assunto para a mídia. Ainda muitos não puseram o dinheiro no bolso, que pouco equivale em bens. Daqui a pouco, ele se terá esgotado e, do jeito que a coisa anda, isto é, sem perspectivas de conseguir um novo local de trabalho, tudo se desvanecerá. A situação é muito triste, e muitas lágrimas de dor e de revolta serão vistas nos olhos dos de baixa ou nenhuma renda. Ter-se-á de quitar as elevadas dívidas, incalculáveis, com a pertinácia do vírus – que aniquila vidas e esperanças.
Leio no jornal de hoje:
“Vou comprar arroz e feijão para a minha casa e pagar meu aluguel. Vou comprar comida porque já está acabando. Lá em casa a gente está na última lata de óleo, e se essa quarentena continuar, vai só piorar a minha situação”.


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Por Manoel Hygino - 28/4/2020 16:36:21
Abril sem festas

Manoel Hygino

Quarto mês do ano 2020, quase meados. Em que pesem os problemas decorrentes da indesejada pandemia, há muito civicamente a registrar no tempo que ainda temos. São fatos importantes de nossa história que cumpre lembrar e reverenciar.
O primeiro deles, o 21 de abril, em que a nação homenageia Joaquim José da Silva Xavier, que deu sua vida, em 1789, à razão maior: a conquista da Independência, abrindo caminhos indesviáveis e decisivos para o 7 de setembro de 1822.
É ainda a data de falecimento de Tancredo Neves, um episódio doloroso, que marcou seu nome definitivamente aos destinos do Brasil, pelo que ele representou para a República, em seus 131 anos de proclamação e de lutas pela consecução dos mais ardentes sonhos e justas reivindicações de seu povo.
É, ainda mais especificamente, o sexagésimo aniversário de inauguração da capital que um outro mineiro de cidade histórica fez construir no âmago do solo brasileiro, tornando realidade um projeto consignado na Carta Magna.
Brasília se fez, assim, síntese e símbolo de roda a história de um povo, posto à prova até estes dias, para se erguer a grande nação do hemisfério sul do planeta, uma nova Roma, uma civilização, mestiça e tropical, forjada com a inesgotável contribuição também de negros e indígenas. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Arnaldo Perrotti, se advertiu para a elevada destinação histórica de Brasília, que identifica como centro americano de novos tempos de paz e de concórdia, sem qualquer pretensão hegemônica, lastreada na igualdade fraternal entre os povos latinos da América.
Com a inauguração de Brasília há sessenta anos, agora revitalizados em livros memorialísticos de Adirson Vasconcelos, que ali desceu com Juscelino, naquele tempo, o grande construtor da obra grandiosa, quer-se dar ênfase ao acontecimento, como o querem todos os que ali ajudam a erguer uma nação mais equitativa e feliz neste pedaço do mundo.
Embora as perspectivas para as festividades sejam remotas neste ano que estigmatiza a vida do povo brasileiro, em virtude da pandemia de um terrível vírus, o tempo demonstrará que a memória dos que ilustraram e honraram a pátria não se apagou. É o que o futuro confirmará.



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Por Manoel Hygino - 25/4/2020 08:57:58
Perdemos um notável

Manoel Hygino

Na segunda-feira, 6 de abril, em meio ao torvelinho causado pelas providências que se tomavam para enfrentar os malefícios terríveis da pandemia do coronavírus novo, faleceu uma das mais queridas e admiráveis personalidades do cenário literário do Brasil. Mais do que homem de letras, Ângelo Machado foi um pesquisador singular no campo da arte e da ciência, nosso confrade na Academia Mineira de Letras.
Na Casa de Alphonsus de Guimaraens e de Vivaldi Moreira, deixa um vazio imenso, porque ninguém como ele tinha qualidades, simpatia e conhecimento para ganhar espaço em torno de si. Já o demonstrara em suas aulas na universidade e em palestras pelo Brasil afora, que percorrera denodadamente, vencendo as próprias dificuldades e prováveis incompreensões do meio.

Muito fanhoso, parecia impossível que pudesse dedicar-se ao magistério, mas exerceu a profissão em nível universitário durante 55 anos, após se formar doutor pela UFMG, onde se diplomara em 1957. Aposentado como titular de Neuroanatomia, concorreu a vaga para lecionar no Instituto de Ciências Biológicas da universidade, criando o Centro de Microscopia Eletrônica e o Laboratório de Neurobiologia do IC, tornando-se professor emérito da Federal.

Nascido em família privilegiada, em que conquistaram prestígio notável Aníbal e Maria Clara Machado, que pontificara na cena teatral do Rio de Janeiro, da escritora Lúcia Machado de Almeida (cada um vale uma biografia inteira), deixou mais de quarenta livros publicados para crianças, sobre meio ambiente e peças de teatro, todos de grande popularidade e aplaudidas.

Transcrevo algumas notas, em seguida, sem perder o ensejo para lamentar seu passamento, pois tinha menos de noventa aninhos bem vividos e felizes. Merecia mais, e nós também.

Natural de Belo Horizonte, Ângelo Machado era cientista, ambientalista e escritor. Suas obras literárias já receberam vários prêmios, destacando-se: o Jabuti, Adolfo Aizen e o Selo de Altamente Recomendável da FNLIJ. Pela peça de teatro O Casamento da Ararinha-Azul, recebeu também o prêmio Sesc-Sated de melhor texto de teatro infantil de 1996. Foi professor do Departamento de Zoologia da UFMG, onde fez pesquisas principalmente sobre libélulas. Membro da Academia Brasileira de Ciências, tem numerosos trabalhos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Participou de organizações ambientalistas como a Conservação Internacional do Brasil, da qual era presidente, e Fundação Biodiversistas. Há 25 anos desenvolveu atividades visando a proteção do meio ambiente, destacando-se aquelas voltadas para a educação ambiental para crianças e jovens. Entre seus livros há infantis e juvenis e um de humor para adultos. Pela Editora Lê, além de O Menino e o Rio (novela), hoje com 19 reimpressões, publicou: A barba-do-velho-da-barba, A viagem de Tamar e O Casamento da Ararinha Azul, nas versões novela e teatro, O Boto e seus amigos, além da versão teatral de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo-Guará e O Menino e o Rio. Sua obra literária tem como tema dominante as questões ambientais e caracteriza-se por um fino senso de humor.


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Por Manoel Hygino - 21/4/2020 11:06:01
A dor continua

Manoel Hygino

Um dia singular na história da Igreja, a sexta-feira que marca o término da passagem de Cristo pela Terra. Jesus fora preso na véspera da Páscoa, comemorada pelos judeus, anualmente, sempre num sábado. Pedro Rogério Moreira, meu confrade na Academia Mineira de Letras, interessado no tema e nas dúvidas que o transcorrer do tempo não apagou, pergunta: “E o dia e o mês?”

O calendário judaico era móvel, dificultoso para os estudiosos e, mais ainda, para os simples que decidiram acompanhar Jesus em suas lições. A hipótese mais aceitável é de nisan, mês que começava no meio do que hoje é março e terminava em meados de nosso abril. “Astrônomos e historiadores fixam em 7 de abril, bem próximo à data em 2020, que ocorreu no dia 10. Não convém entrar em detalhes, que nada acrescentam ao objetivo deste texto.

Enquanto as nações do planeta se esforçavam por todos os meios possíveis para enfrentar a terrível pandemia que já destruíra milhares de vidas humanas, e a muitos mais ameaçava, o sucessor de Pedro na condução da Igreja de Cristo em Roma sentia-se impedido pela ameaça da terrível doença a sair até das dependências do Vaticano para falar às multidões na grande praça. Esta permaneceu vazia e em silêncio, como a gravidade da crise exigia.

Às vésperas da Semana Santa, pelos modernos meios de comunicação, o pontífice expressou seu afeto e solidariedade por todos os que, em todo o mundo, padeciam os males da cruel enfermidade.

“Se permitirem, gostaria de conversar com vocês por alguns instantes, neste período de dificuldades e de sofrimento. Eu os imagino em suas famílias, enquanto vivem uma vida incomum para evitar o contágio”, afirmou. Francisco ressaltou que este “é um momento difícil para todos” e se lembrou, por exemplo, dos doentes, dos que temem os impactos econômicos, dos idosos e dos que vivem só. Francisco confessou sentir-se como todos os homens e mulheres, distribuídos pelos quatro cantos do mundo, sofrendo estes dias de dor e angústia, elogiando os médicos, os profissionais de saúde, que não largam de seus deveres, “heróis” do cotidiano, de todos os dias e de todas as horas.

Acrescentou:
“É um momento difícil para todos. Para muitos, dificílimo. O papa sabe e, com estas palavras, quero expressar a todos a minha proximidade e o meu afeto”.

Para Jorge Bergoglio, há de se confiar e pedir a Deus, porque a esperança não decepciona. Ao recomendar que as pessoas ajudem por algum meio os que se encontram em quarentena, explicando que, “mesmo isolados, o pensamento e o espírito podem ir longe com a criatividade do amor”.

Como devem estar pensando todos os cristãos, o papa observou que, neste ano, a Semana Santa está sendo celebrada de modo não habitual. Talvez lembrando sua infância e adolescência na Argentina, declarou que, no silêncio de nossas cidades, ressoará o Evangelho da Páscoa, em Jesus ressuscitado, a vida que venceu a morte. “Esta fé pascal nutre a nossa esperança. Gostaria de compartilhá-la com vocês esta noite. É a esperança de um tempo melhor, para sermos melhores, finalmente libertados do mal e desta pandemia”.


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Por Manoel Hygino - 9/4/2020 11:08:26
Ele Ressuscitou

Manoel Hygino

Quaresma é o período que se estende da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Páscoa. São quarenta dias, em que os cristãos cumprem deveres especiais, quando realmente se devotam ao cristianismo e ao catolicismo, no caso do Brasil, que se mantém como maior país do mundo seguindo Roma, sob este aspecto. A Sexta-feira Santa em 2020 será em 10 de abril. Na Quaresma de 2017, registrou-se um fato pouco focalizado pela mídia, aqui e lá fora, o que tem razões e explicações. No tempo vertiginoso que atravessamos, de tantos compromissos e não menos divertimentos, há coisas que se relegam a plano secundário, deixa-se para depois ou simplesmente não despertam interesse.

Após nove meses da restauração, foi aberto, então, em Jerusalém, o túmulo de Jesus. A solenidade se deu na quarta-feira, dia 22 de março, na igreja do Santo Sepulcro, local de obrigatória visitação dos cristãos que se deslocam à histórica cidade.

A Basílica do Santo Sepulcro se acha no centro do bairro Cristão da Cidade Velha de Jerusalém e é mantida pelos católicos romanos, greco-ortodoxos e armênios. No centro de sua área se encontra a Colina do Gólgota (ou Calvário) e a rotunda, que abriga o Sepulcro. Ali, Jesus foi crucificado, enterrado e ressuscitou. Na 12ª Estação, indica-se o local exato onde estivera a cruz, assim como pontos negros mantendo a posição das cruzes dos dois ladrões.Perto, está a estátua de madeira da Mater Dolorosa, doada pela rainha de Portugal, em 1778, lembrando a aflição de Maria com a morte do filho.

Na 13ª Estação, um altar se construiu para apontar exatamente onde Maria recebeu o corpo de Jesus, após a crucificação. Em seguida, o corpo foi colocado sobre a Pedra da Unção e umedecido com mistura de mirra, aloé e óleos aromáticos. Os cristãos convictos sentem justamente esses acontecimentos, principalmente na Semana Santa.

Na 14ª Estação, eis a tumba de Jesus, local sagrado do cristianismo, no centro do Santo Sepulcro. A rocha sagrada estava coberta por uma pedra de mármore, desde 1555, e sobre ela vários quadros representam a ressurreição.

Documentou-se oficialmente a reabertura em uma cerimônia com a presença de líderes religiosos de diferentes confissões. Naquele ano, o santuário voltara à cor original, porque o monumento estava antes completamente escuro em decorrência da fumaça das velas dos peregrinos, segundo a chefe da equipe de restauração, Antonia Moropoulou.

O patriarca greco-ortodoxo, Teophilos III, de Jerusalém, saudou os presentes ao ato, declarando que a restauração e reabertura eram uma doação à humanidade. E, felizmente, tem resistido ao passado sem maior interesse de certas instituições religiosas, e políticas. Para o mundo cristão, tratava-se de acontecimento magno, porque se chegara às paredes originais de calcário da tumba. O homem se aproxima mais de Cristo, mesmo que o corpo de Jesus lá não estivesse, como há séculos. Ressurrexit, non est hic.

Ali, no primeiro fim de semana após a morte no Calvário, Maria Madalena e outras mulheres foram visitá-lo, mas a pedra sobre o túmulo, muito grande e pesada, fora revolvida. O túmulo vazio constituiu para os primeiros cristãos um sinal essencial, não desaparecido sequer na metade do século II, quando o imperador Adriano arrasou Jerusalém. Bom para se meditar nesta tumultuada quarentena de 2020. Enfim, o medo não pode predominar no cenário tenebroso de coronavírus.


84651
Por Manoel Hygino - 9/4/2020 11:03:55
Os perigos do vírus

Manoel Hygino

A Previdência será o maior problema nacional. Durante anos a questão foi debatida em todos os âmbitos. Evidentemente, a grande maioria dos brasileiros cuidava de assegurar-se com remunerações quando o período legal de prestação de serviços se esgotasse. Ponderável parcela de funcionários públicos se esforçava, por todos os meios possíveis, para ter a velhice suficientemente provida de recursos no ocaso da vida. Os que mais percebiam durante os muitos anos de atividade não queriam passar necessidades, chegado o tempo de sombra e água fresca.

Acontece que o erário não é uma fábrica de dinheiro. A arrecadação começou a ficar curta para cobrir o sistema, comprometendo sua solidez. O país trabalhava para pagar aposentadoria e mais benefícios. Durante exercícios e mais exercícios, lutou-se para reduzir déficit do sistema, mas os esforços eram infrutíferos.

Até que, enfim, se chegou à conclusão de que ou se resolvia o problema da Previdência ou ela afundava toda a estrutura do Estado. O primeiro ano do atual quatriênio presidencial foi consumido neste projeto, que conseguiu sucesso. Parabéns para o governo, parabéns para os contribuintes. Novas iniciativas, porém, já estavam relacionadas. Agora, seria a vez das reformas Tributária e Administrativa.

Não para mais tempo. O coronavírus, o novo, já no segundo mês de 2020, mostrava sua cara perversa aos brasileiros, como o fazia em todas as nações do planeta, neste século, e o fizera, de outros modos, em épocas e lugares muitos da História.

Vírus, sabe-se, é o germe patogênico que causa doenças no homem, nos animais e nas plantas, provocando a formação de anticorpos específicos com 8 a 250 milionésimos de milímetro. Tem incomum faculdade de multiplicar-se, sofrer mutações, adaptar-se ao meio ambiente, um ser vivo parasita, do tipo mais simples. E, assim sendo, distribui males diversos pelo mundo, enquanto cientistas, médicos, técnicos de saúde, procuram curar enfermidades que ferem e matam.

Esse bicho, que não se sabe rigorosamente o que é, baixou ao mundo, na vez presente, chegando ao Brasil com força total, apoquentando os técnicos e estudiosos, matando pessoas de todas as nacionalidades e sexo, e de faixas etárias, exigindo esforços jamais vistos por aqui até hoje. As ruas foram esvaziadas, as pessoas coagidas a cumprimentar-se à distância, transformando a convivência social, os planos de governo, a economia, com restrição à alimentação e ao descaso noturno.

Até as posições políticas são postas à prova, porque o germe é capaz de modificar posições ideológicas e técnicas.


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Por Manoel Hygino - 4/4/2020 08:14:47
A árvore inesperada

Manoel Hygino

Pensei em redigir um texto lembrando o naturalista francês, que tanto ensinou os brasileiros a conhecer a sua pátria. Saint-Hilaire, decidido, percorreu a lombo de cavalo léguas e mais léguas de nossa terra, enfrentando toda espécie de dificuldades, oferecendo há dois séculos o resultado de suas observações. Uma delas se popularizou numa simples lição: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. É, mutatis mutandis, o que ora acontece com o coronavírus.

Mudei, todavia, o foco do escrito, ao receber como regalo “Meditando com Brian Weiss”, que já terá vendido duzentos mil exemplares por aqui. Ele, médico, especializado em Psicoterapia, relata inicialmente o caso de sua experiência com Catherine, que o procurara, em 1980, no consultório, para tratar seu caso – um quadro crônico de ansiedade, fobia e ataques de pânico e dificuldades de relacionamento.

Foi tratada durante dezoito meses pelos procedimentos habituais de psicoterapia, mas a paciente apresentou apenas melhoras modestas. O médico recorreu à hipnose e lhe pediu que retornasse ao “tempo em que seus sintomas começaram a se manifestar. “Tiro e queda”, como se afirmava antigamente.

Catherine se transportou a uma existência passada há 4 mil anos e outras vidas, onde se deram as tramas que originaram seus problemas. Vivenciou-os e curou-se. Weiss tirou conclusões: “Acredito que não somos somente humanos, nem mesmo seres que desfrutam eventualmente, mas seres espirituais, que têm experiências humanas”.

Há uma série de fatos, de episódios, que marcaram a vida do médico, que também influenciaram definitivamente o cliente. Chamou-me especial atenção o caso de uma das pacientes, que já se tinha tratado e recebido alta. Determinado dia, procurou-o no consultório, como se tivesse ganhado em uma loteria ou na sena. O médico se interessou muito especialmente pela cliente feliz e ela lhe revelou: “Acabei de descobrir uma árvore maravilhosa na porta da minha casa! O tronco é vigoroso, a copa é frondosa e as folhas têm os mais lindos tons de verde!”

O psicoterapeuta, que a conhecia e à localização de sua residência, estranhou. Como aparecera a árvore? Quem a plantara? Como não soubera antes? Como surgira assim de repente, como por encanto? A paciente explicou tudo com felicidade e alegria:

– Ela sempre esteve lá – a planta –, mas eu nunca tinha reparado. Saía e entrava em casa correndo, preocupada com as crianças, com as tarefas domésticas ou com o que me aguardava no trabalho.

O médico compreendeu, como compreenderão os brasileiros no caso da Covid 19, como esclareceu Luís Carlos Azedo. No Brasil, se a epidemia atingisse escala sobremodo elevada seria o caos no sistema de saúde, já pressionado por outros fatores: acidentes de trânsito, balas perdidas, acidentes domésticos, outras epidemias, tentativas de feminicídio.

Luiz Carlos Azedo explica, até certo ponto, o caso. Aconteceu como na Coreia do Sul, no que se refere à Covid. Os coreanos estavam atentos aos fatos e admitiram a possibilidade de uma epidemia. Cuidaram-se, prepararam-se para o futuro. Não ficaram simplesmente aguardando um “milagre”, como o que aconteceu com a cliente de Weiss.



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Por Manoel Hygino - 1/4/2020 12:02:23
A IDADE MÉDIA

Manoel Hygino

A pergunta pode parecer uma crítica à evolução do homem e da sociedade, diante do que enfrentam as atuais gerações. Mudou muito, mas precisaria acabar, o que está longe das perspectivas, a julgar pelo que os médicos, cientistas e técnicos do setor de saúde têm revelado, com o advento do novo Coronavírus, no século XXI.
O estudioso da Idade Média, Ivan Lins, se manifesta sobre o assunto, dizendo: “O pior dos flagelos medievais, por sua extensão e pelos seus efeitos, eram as epidemias, porquanto nem a higiene, nem a profilaxia, ainda menos a medicina, principalmente nos períodos de guerra e de recessão econômica, eram capazes de deter-lhe as devastações. Pela sua tríplice forma; bubônica, pulmonar e intestinal, a epidemia trazida do Oriente, em 1344, por navios genoveses, engloba todas as outras sob a denominação geral de peste.”
Especificamente sobre calamidades públicas, Michel Mollat se refere ao problema em “Difficultés Matérielles de L’Europe”, em 1955: “sem contar contágios locais, já havia a Europa tomado conhecimento de outras epidemias generalizadas, como, nas proximidades de 1315, a disenteria e diversas variedades de infecções nos países do Norte, desde a Suécia até o Loire. Depois da grande pandemia de 1348, os sobreviventes viram renovar-se o flagelo em 1358 e 1360, entre 1373 e 1375 e, de maneira mais difusa, entre 1380 e 1400.
Em 1389, em Paris, não se cuidava senão de enterros a cada instante, a ponto de se proibir o seu anúncio pelos pregoeiros públicos. Em 1414 e 1427, a coqueluche (tac, euquete e dando) abafava, nas cerimonias religiosas, a voz dos oficiantes. Em 1431, a peste fez milhares de vítimas entre os jovens, e voltou, generalizada, com a varíola em 1438.
Procurou-se explicar o fenômeno: invocava-se a conjunção dos astros e má reputação de Marte, enquanto os remédios preconizados eram os mais contraindicados, como o de evitar o arejamento de casas e quartos. Por outro lado, as habitações eram infestadas de ratos e pulgas, perambulando livremente pelas ruas suínos e outros animais, atirando-se os dejetos na via pública, sem o mínimo constrangimento. O primeiro esgoto subterrâneo em Paris só foi construído em 1356.
À época, os cemitérios funcionavam nas áreas dos mercados, mas já escrevi sobre isso. Em tempo de corona, alguma coisa do século 14 se mantém. Mas as autoridades de saúde e seus servidores têm demonstrado eficiente e decisiva disposição de vencer o monstro. É essencial. O mundo moderno tem ainda muito a fazer pelo homem.


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Por Manoel Hygino - 31/3/2020 08:13:56
Petrônio no Chiado

Manoel Hygino

Petrônio Braz enviou-me magnífico presente em 13 de março, por coincidência ou em comemoração ao aniversário do novo nonagenário, nascido no ano da revolução. Não foi um regalo comum.

O escritor de São Francisco esbanjou generosidade ao encaminhar pelos Correios quatro volumes, editados em 2020, contendo parte de sua extensa produção literária, jurídica, administrativa e no campo do Direito.

Trata-se de “Nas Asas do Tempo”, “Tempo de Seca”, “Caleidoscópio”, o já consagrado “A Saga de Antônio Dó” (que já chegou às telinhas), e “Léxico dos Gerais”, muito esperado e que lhe deve ter exigido anos de pesquisa e pertinácia. O Léxico compreende ainda a Biota das Gerais, expressões idiomáticas, provérbios e quadrinhos populares. E mais não há, por enquanto, para não chegar a 500 páginas. Os quatro compõem a Coletânea Escritos dos Gerais, que passa a indispensável nas bibliotecas. E com ótima apresentação gráfica, editados em Lisboa pela Chiado Books e impressos no Break Print Books.

Nos vários gêneros a que se tem devotado, o autor já publicou 27 trabalhos e, com a nova fornada (se me permitem a palavra), dois eram inéditos – “Tempo de Seca”, ficção sobre as viagens de vapor pelo rio São Francisco, e “Léxico dos Gerais”.

Diria eu, leitor ávido, que as quatros obras ajudam a entender e sentir o homem do sertão mineiro, em que nasceu e viveu a infância o autor, iniciou os estudos e abriu as perspectivas para chegar ao que hoje é, com todas as honras e justiça. Tornou-se cidadão de vários municípios, recebeu diploma na capital, exerceu cargos públicos na sua cidade, desde a vereança, chefiou o Executivo municipal, além de ser juiz de paz. Prestou e presta assessoria a agentes públicos e a professores de Direito Administrativo, no estudo, mas tomou seguramente o itinerário que lhe parecia mais adequado à vocação, sem se desligar das demais.

Personagens e fatos se completam ou se explicam nos volumes editados, que mereceram evidentemente o melhor interesse de quem tem sua vida plantada numa das regiões mais atraentes de grande região do Brasil. Em “Caleidoscópio”, com quase quatrocentas páginas, Petrônio Braz relaciona gente do Norte de Minas, que ingressou na História e se plantou em seu coração e em sua admiração.
É muito bonito ver isso, nesta época em que cedo se esquecem até os melhores amigos. Mas a obra que o escritor nos está legando é das que não se duvidam e, o que de mais importante, vida nos oferece. Entre elas, certamente, esses livros do menino de São Francisco que cultua e admira os livros, tanto quanto nos premia com o que produz. Eles dão sentido à própria existência.


84592
Por Manoel Hygino - 20/3/2020 06:29:26
O importuno, inoportuno e perigoso vírus incomodou muito e ainda segue sua nefanda trajetória. Até quando, não se poderá fixar. O término de sua agitação pelo mundo seguirá por tempo incerto e não sabido, inquietando e executando seres humanos.

No domingo, dia 15, no Rio de Janeiro, faleceu o acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco Filho, quinto sucessor da cadeira 29, na Academia Mineira de Letras (AML), cujo patrono é Aureliano Pimentel. Foi fundador Lindolph Gomes, mas ocupada ainda por Milton Campos, Pedro Aleixo, Gustavo Capanema e Murilo Badaró.

O corpo foi sepultado na segunda-feira, 16, no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista não há as cerimônias protocolares, para evitar elevado número de presenças.

Em 2018, Fábio de Sousa Coutinho, com sua capacidade de compartilhamento do espírito, publicou – com apoio da Thesaurus - Editora “Juristas na Academia Brasileira de Letras”, um volume extremamente útil e cujo conteúdo fazia falta àqueles que operam com as letras e o direito. Fez um bem imenso visando à “direção construtiva de um país melhor”.

O maligno vírus que desceu da China serviu apenas para impedir a Bienal Mineira do Livro, marcada para maio. É quando o presidente emérito da Academia Mineira de Letras, Olavo Romano, será homenageado e se realizarão duas mesas temáticas – sobre Alphonsus de Guimaraens, com o acadêmico Ângelo Oswaldo, e o Legado de Bartolomeu Campos de Queiroz, com os também acadêmicos Patrus Ananias e Márcio Sampaio.

Não se perde por esperar. Por fim, o corona terá fim, Deus queira que não demore. A pragazinha não vai destruir projeto tão bonito como a bienal. Muito especialmente me alegra a escolha, porque foi Olavo que me saudou na mansão Borges da Costa, quando ali tomei posse na cadeira 23 na Academia, em ano que se vai somando a outros. Era um mineiro nascido em Morro do Ferro, no distrito de Oliveira, recepcionando o modesto autor de Montes Claros, em pleno sertão, que imortalizou João Guimarães Rosa, mas também reconhecidos escritores.

Para Rogério Faria Tavares, presidente da Academia Mineira de Letras, “quando o homenageado da Bienal Mineira do Livro de 2020 é um presidente emérito da AML, a casa se sente honrada e orgulhosa”. Olavo, ao longo de sua carreira literária, dedicou a Minas Gerais o melhor da sua inteligência e de sua criatividade. Já publicou quase 20 livros, sendo 18 deles adotados em escolas de Minas e de outros estados, focalizando o jeito, a fala, a vida no interior mineiro.


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Por Manoel Hygino - 14/3/2020 08:22:04

O tempo e o vírus

Manoel Hygino

Março pela metade. Depois de chuvaradas pelo Sudeste, deixando mortos às dezenas em Minas Gerais, litoral de São Paulo, terras e serras do Espírito Santo, favelas do Estado do Rio, até da Bahia, a gente da extensa região brasileira quedou na ansiosa expectativa em torno dos próximos dias. Chover ou não chover? Em Belo Horizonte, o prefeito Kalil terá tempo de recompor o piso das vias públicas e demais danos causados por temporais.

As dúvidas se dão em face do Dia de São José, - popularmente o das enchentes das goiabas, que anunciam, segundo a gente da roça – o fim da temporada das águas no interior de Minas. Mas, como será 2020 já com tão desagradáveis surpresas nas atividades humanas? As hidrelétricas do Sudeste e Nordeste do Brasil, onde se localizam os principais reservatórios do Brasil, vão receber chuvas acima da média em março, contribuindo para recuperar o nível dos lagos, projetou o Operador Nacional do Sistema Elétrico em relatório. O Sudeste e o Nordeste deverão receber, respectivamente, precipitações equivalentes a 111% e 101% da média histórica para o mês - parte do chamado "período úmido" na região das usinas, que vai de novembro a abril. O volume esperado para o Sudeste, contudo, ficou abaixo da projeção de 117% divulgada no boletim da semana anterior. Para o Nordeste, o ONS elevou a projeção em 21 pontos percentuais.

Ninguém, no entanto, terá segurança para afirmar sobre o que o futuro nos reserva para 2020, além do que preconizam os meteorologistas. Chover ou não, é o que predominantemente menos inquieta esta metade de século. De fato, a declaração da Organização Mundial de Saúde com relação ao coronavírus confundiu o mundo e põe em sobressalto todos os países.

Uma coisa é certa: os povos começaram a perceber o que é exatamente uma pandemia. Impressionou uma informação da OMS de que a palavra se emprega quando uma doença espalha-se por grande área geográfica, não se restringindo a uma região ou povo. O planeta treme. Interrupção de grande parte das atividades do homem, a suspensão de viagens aéreas e cruzeiros marítimos, das aulas, do direito de ir e vir livremente, a frequência a práticas esportivas. E, como se fará para tratar um mal, que jamais nesta escala foi enfrentado pela humanidade? Quem paga a conta dos estragos cruéis do vírus? Como se comportarão as nações mais pobres de todos os continentes, se sabemos que os mais ricos e poderosos estão assustados ou em pré-pânico?

No Brasil, o ministro da Saúde opina que a contaminação pelo coronavírus se dará em progressão geométrica, a partir da semana que vem. Segundo ele, a situação é alarmante. Pediu recursos para o SUS, a fim de suportar a demanda. A ANS obrigará hospitais particulares a prestarem atendimento. Jornal de São Paulo revela que o Brasil poderá ter 4 mil casos em 15 dias. Para Mandetta, a letalidade do vírus é baixa, mas o principal impacto será a sobrecarga do sistema de saúde, que precisa de mais dinheiro público.

Onde buscá-lo?


(N. da Redação - Manoel Hygino, que ontem completou 90 anos no auge de suas atividades de escritor e jornalista, é também ouvidor da Santa Casa de BH, um dos maiores hospitais de Minas, onde está em contato diário com os maiores especialistas médicos de Minas)


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Por Manoel Hygino - 12/3/2020 15:23:43
O Dia da Mulher

No segundo dia de março, Montes Claros perdeu, com quase 89 anos, Zezé Colares, pioneira em iniciativas dignas de lembrança na cidade. Passou da crônica social, em que atuou por sessenta anos, para o mecenato, o amparo às artes e à cultura. Graças a seu devotamento, centenas de jovens viajaram pelo mundo para participar de congressos de folclore e levou a inúmeros países, o grupo Banzé, sua dança e sua música.

Domingo passado, por sinal, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, que deveria inspirar respeito, amor e admiração por aquela gerada para acompanhar o homem em sua vida terrena. No entanto, o que se viu pelos veículos de comunicação foi a sucessão de notícias de crimes, até bárbaros, cometidos contra aquelas que são nossas mães, esposas e filhas. Que século é este? Que milênio vivemos? O que aprendemos com as lições da história? Ou, como disse Fukuyama; a história acabou?

A mulher, vilmente tratada e assassinada, é a mesma que espontaneamente surgiu durante a Idade Média, como lembra o humanista Ivan Lins. Ele ensina que se mede o grau de civilização de um povo – na expressão de Robertson – pela maneira com que nele é tratada a mulher, primitivamente considerada um ser inferior.

É ainda Ivan Lins quem diz que a mulher, tal qual se nos apresenta e a consideramos hoje, “o eterno feminino” de Goethe, é o misto de ternura e pureza, uma lenta criação da humanidade, isto é, resulta da longa e tormentosa evolução da humanidade desde o pântano em que nos achávamos enchafurdados, até os dias em que já começamos a parecer homens.

Gibson registra que, entre os antigos, nada mais subalterno do que o papel das mulheres – meras máquinas de procriar, sem merecerem o menor apreço sob o ponto de vista intelectual, quer mesmo sob o aspecto afetivo, compreendidas no Direito romano na classe das coisas. Não lhes cabia o direito de tratar dos próprios negócios, nem serem assistidas por um tutor, legalmente instituído, do qual dependiam inteiramente. Mesmo as patrícias ficavam, sob o nome de tutela, numa espécie de escravidão permanente.

Haveria imensamente a considerar e escrever. Mas lembraria, por exemplo, que – durante a fase ascendente da atividade conquistadora dos romanos é que cresceu o apreço pela mulher. Provam-no os nomes de Vetúria, mãe de Coriolano, imortalizada por Shakespeare, e Cornélia, a mãe dos Gracos, que preferiu a viuvez ao leito de um soberano.

Eis um rico e belo desenvolver. O conceito de mulher é indispensável ao sentimento de grandeza de seu significado para a sociedade e para a humanidade. Há muito a fazer, muitíssimo, para que a mulher seja instalada, efetivamente no lugar a que está destinada, começando por estabelecê-la na categoria de providência moral da espécie, como apregoava Comte. E os homens serão mais do que bípedes: precisarão ser gente, educar-se, respeitar para que as almas masculinas não sejam punidas como quis Platão.


84566
Por Manoel Hygino - 10/3/2020 09:01:26
A vez do vírus

Manoel Hygino

O oftalmologista Li Wenlang, de 34 anos, chinês, que trabalhava em Wuhan, alertou no final de dezembro sobre o aparecimento de um vírus. Resultado: foi punido pelas autoridades e lhe sobreveio a morte, devido a uma infecção. Seus colegas protestaram: “é um herói que deu o alerta e pagou com a vida”. A mensagem, em rede social chinesa, foi censurada, pura e simplesmente, como convém aos governos totalitários. Mas o problema não cessou, exigindo uma investigação que revelou o significado macabro da advertência.

Ninguém segurou o coronavírus. Menos de três meses depois, todo o planeta estava com medo, com mais de 100 mil infectados, em 91 países e territórios, e 3,4 mil mortes. O Brasil também se assustava, apesar do pedido de serenidade formulado pelo ministro da Saúde.

O mundo entrou em plantão permanente, a despeito da empáfia inicial da Casa Branca, que esperava espantar o fantasma surgido na China simplesmente com um baú de dólares. O corona também chegara lá e deixara rastros fúnebres e temor generalizado.

As consequências finais, ou seja, numéricas, eram imprevisíveis e a Terra encerrou a primeira semana de março sob o signo do medo, inclusive, porque já pesava nos cálculos dos institutos de pesquisa com números alarmantes para a economia mundial. Antevia-se o agravamento da crise.

Na sexta-feira, Dia de São Leandro, alguns dos jornais publicaram as seguintes manchetes: “Se repetir a China, é administrável, disse o nosso ministro da Saúde”. “Diante da explosão de casos, Minas vai decretar emergência”.“Ministério da Saúde antecipa vacinação contra a gripe”. “Disparam no Brasil casos suspeitos de coronavírus”. “Coronavírus: chegam a 132 os casos suspeitos no país”.

O que se terá à frente, quanto ao coronavírus, é imprevisto, tudo dependendo da evolução da doença no mundo, sendo certo que ela avança todos os dias. Todas as áreas do fazer humano estão sendo afetadas. O movimento internacional de pessoas por terra, mar e ar já decresceu expressivamente. Tudo sofrerá modificações profundas e rápidas. É preciso salvar o possível, enquanto possível e com rapidez e eficiência. Jornal da capital opinou: “Democrático, o novo coronavírus prova que não tem ideologia nem preconceito. Ataca cinco continentes. Os estragos por ele causados se disseminam pelas economias globais e ameaçam uma quebradeira geral. Pobres e ricos estão com a espada de Dâmocles sobre a cabeça.”

Todo o sistema de saúde de Belo Horizonte se acha em ação permanente, com o secretário municipal, Jackson Machado Pinto, na liderança. A Prefeitura de Montes Claros, maior cidade do Norte do Estado, informou que não existem casos de coronavírus na cidade, mas apenas um paciente com suspeita do vírus. Está internado no Hospital Universitário Clemente de Faria, atendido dentro dos protocolos internacionais estabelecidos para a doença.

A Arquidiocese de BH orientou os fiéis a evitarem contato físico durante as missas. Dom Walmor deu a orientação de forma restrita à arquidiocese: “A Arquidiocese de Belo Horizonte, em comunhão com a Igreja em todo o mundo, está sempre comprometida com a defesa da vida, com o bem-estar de cada pessoa. A vida é dom de Deus, precioso, e por isso mesmo deve ser preservada e promovida, em todas as suas etapas, da fecundação ao declínio, com a morte natural. Por isso mesmo, a igreja une-se aos que hoje buscam combater a disseminação do coronavírus, uma ameaça à saúde, principalmente dos idosos e enfermos”.




84550
Por Manoel Hygino - 4/3/2020 15:20:52
O Ceará como é (ou foi)

Manoel Hygino

As lutas travadas no Ceará ao longo dos tempos vêm de longe e roubaram muitas e muitas vidas. Os tensos acontecimentos de agora já se tinham registrado, de algum modo, nos anais da história. O jornalista Lustosa da Costa, já falecido e com quem mantive correspondência, escreveu e se pode repetir sem medo de errar:
“O que é bom no Ceará dura pouco. O governo de Franco Rabelo, apoiado fervorosamente pela sociedade, é deposto pela contra-revolução do Cariri, que reuniu beatos e cangaceiros, abençoados pelo padre Cícero Romão Batista, o patriarca de Juazeiro, e liderado por José de Borba Vasconcelos e pelo médico Floro Bartolomeu. Gostosamente, o presidente Hermes da Fonseca, títere nas mãos de Pinheiro Machado, cuja candidatura ao Palácio Catete Rabelo se recusara apoiar, nomeia interventor do Estado, a 15 de fevereiro de 1912, o general Setembrino Carvalho”.
Os ódios acumulavam-se. Vicente Deodolindo Loyola, de O REBATE, para evitar agressões físicas, se refugia numa fazenda. Deodolindo, cidadão corajoso, fica em Sobral, disposto a tudo. Grupo de quarenta a cinquenta vai à sua casa a fim de puni-lo por suas ousadias. Deodolindo, que mantém seu jornal, está só e vai à porta, apertando um objeto volumoso às mãos. Grita: “O primeiro que entrar vira bagaço, porque estouro esta granada nos seus peitos”.
Os manifestantes, enfurecidos, saem em busca de atos menos arriscados, recordando atentados recentes, em Fortaleza, contra o general Thomaz Cavalcante e o deputado Gentil Falcão. Gentil Falcão? Que nome!
O Ceará é de gente brava. É o que se constata por fatos, sucessivos, inclusive os de 2020. Um deputado com motoniveladora tentando destruir barricadas de amotinados em quartel. Lustosa da Costa já contava:
Em 1922, vereador em Sobral, Chico Monte está de baixo, com o governo de Idelfonso Albano que sucedeu a Justiniano de Serpa, falecido no exercício do mandato e suscita o ódio dos “marretas”. Os correligionários lhe estimulam as estrepolias. A 7 de março, de manhã, numa roda no bar Itatiaia, os amigos lhe dão corda. Dizem-lhe que o novo chefe do destacamento policial, tenente Antônio Castello Branco, veio para Sobral só para lhe quebrar a castanha, por encomenda do chefe rabelista Dondon Pontes, em cujo hotel se encontrava hospedado. Para cúmulo do azar, entra no bar um democrata, Francisco de Freitas, a quem se atribuíam críticas a Chico Monte. Este o desacata. Freitas foge para o café da Maria Felismina, vizinho. Chico o segue, de arma na mão, atropelando mesas e cadeiras e lhe espeta a faca no traseiro.
Sangrando e humilhado, Freitas vai, disposto, ao Hotel do Norte reclamar providências do policial. Este tenta fazer corpo mole, sai, primeiro, à procura do delegado de Polícia, Júlio Aragão, na Praça do Menino Deus, que desparecera. Convenientemente, viajara para sua Fazenda Mato Grosso. Volta ao hotel. Dondon insiste em que prenda Chico Monte que se encontra em atitude de desafio, na esquina da Praça do mercado, diante da loja de Eloi Sabóia. Nada. Ele resiste. Por fim Maria Felismina lhe lança, no rosto, na presença de todos os hóspedes, o desafio mortal:
“Tenente, se o senhor não tem coragem, vista minha saia e me empreste sua farda que eu prendo o homem”.


84547
Por Manoel Hygino - 4/3/2020 07:49:59
Crimes sem castigo

Manoel Hygino

O brasileiro, responsável, assiste com profunda preocupação ao que acontece. Não mais se ouve sequer falar das manchas de petróleo que, de um instante para outro, começaram a aparecer no litoral do Nordeste para baixo até as praias fluminenses. O grande interesse em saber mais sua procedência desabou num silêncio inexplicável.

As fronteiras se transformaram em peneiras pelas quais passam, diariamente, contrabandos de toda espécie, de preferência drogas e armas de países vizinhos. Afinal são produtos de franco consumo e alto valor no mercado. A rede rodoviária nacional, a sua vez, facilita o transporte da carga perigosa, a despeito do policiamento. Inúmeros se enriqueceram com a venda da sórdida mercadoria. É o demorado motim policial no Ceará? E as atividades criminosas dos milicianos, sobretudo na Baixada Fluminense? E a inflexível devastação da floresta amazônica?

Brasileiros de vários recantos, que viajaram para os Estados Unidos na esperança de uma vida melhor e mais feliz, voltam às pencas, no longo e triste retorno. Os americanos do Norte não querem saber de estender as mãos aos que carecem de trabalho digno e salário justo, vindos de outros mundos. Um triste espetáculo, que já existia antes, do Rio Grande para baixo. Não se esperaria outra resposta do presidente americano.

Trump há certamente de argumentar que Tio Sam fez um grande papel, liberando a importação de carne bovina in natura do Brasil, suspensa há longo tempo, isto é, desde 2017. Uma notícia, contudo, chega simultaneamente com outra desfavorável: o rombo das contas externas brasileiras cresceu no início deste ano.

Segundo o Banco Central (BC), o déficit do setor externo foi de US$ 11,9 bilhões em janeiro. O resultado é o pior do mês nos últimos cinco anos e foi influenciado, sobretudo, pela queda das exportações brasileiras. O déficit em transações correntes (entradas e saída de dinheiro proveniente do comércio de bens e serviços, pagamento de transferências e as contas relativas a investimentos) de janeiro é cerca de 30% maior que o registro do mesmo mês do ano passado (US$9 bilhões). E é ainda maior que o rombo esperado pelo Baco Central (BC), que, no fim do ano passado, projetou resultado negativo de US$8,7 bilhões para resultado de janeiro passado.

E o motim dos policiais do Ceará? Custou resolver, não foi?



84525
Por Manoel Hygino - 23/2/2020 07:58:48
Pelos céus daqui e dali

Manoel Hygino

No Brasil, as coisas, mesmo as mais simples, se complicam. Assistimos ao imbróglio de radares nas rodovias federais; as idas e vindas foram tantas, que sequer os motoristas devem saber como tudo ficou. Uma das causas reside exatamente em não poucos quererem dar palpite em seara alheia, mesmo preparados ou principalmente não o estando.

Algo semelhante ocorreu com o pagamento do IPVA. Devia pagar-se ou não? Como seria a arrecadação? Para onde iria o dinheiro? O contribuinte, coitado, buscou informar-se melhor para manter em dia seus compromissos com os cofres públicos, municipais, estaduais ou federais. Em determinado momento, o brasileiro sequer sabia a quem recorrer, para conhecer o valor do tributo.

Como todos os anos, repetiu-se a façanha para definir o salário mínimo. Que troço complicado. Chegou-se a determinado valor, logo substituído por outro pretensamente de maior interesse da nação. É? Seria? Será? De todo modo, o capítulo está vencido.

O mesmo ocorre com o piso do seguro desemprego, que passou de R$ 1.039,00 para R$ 1.045,00. O que é um excelente prêmio.

Buscam-se, ou não, os brasileiros na China? Dúvida cruel. Pelo menos, uma atitude foi tomada e os conterrâneos estão de volta. O que mais se poderia fazer? Deixá-los morrer lá na China?

Maior número de conterrâneos percebe agora o salário mínimo. Espera-se que algo lhes sobre para as despesas do carnaval. Pelo menos isso.

No dia 17, suspendeu-se a vistoria, emplacamento e emissão de documentos, por causa das placas do Mercosul. E promete voltar. É sempre assim. Não funciona o esquema previsto e cada estado vive seus problemas. As novas placas estão sendo cogitadas desde 2016, se não me engano.

Algumas coisas e fatos estão claros e definidos. A arrecadação de tributos no país venceu o limite do exercício anterior antes do período, o brasileiro não está dando calote.

Segundo autoridades, o tráfico de drogas na cracolândia de São Paulo arrecada R$ 97 milhões por mês, o que é sintoma da pujança da economia nacional. Por esta e por outras, o mercado desse tipo de produto evolui muito no país. É um grande negócio, que as autoridades não conseguem eliminar, a despeito dos renovados esforços.

Centenas de brasileiros, que se tinham deslocado para os Estados Unidos, inclusive com a família, em busca da sorte grande e oportunidade de vida melhor, estão de volta, de mala e cuia, além de muita frustração. Não é como esperavam. Já é o quinto voo, mas se aguardavam mais.

Enquanto isso, os que por aqui permaneceram entraram na fila do Bolsa Família, já com 3,5 milhões de pessoas. Fazer o quê? No Brasil ou lá na terra de Trump, a situação para os herdeiros de Pedro Álvares Cabral não anda boa. Haja disposição de ânimos.


84512
Por Manoel Hygino - 11/2/2020 08:52:12
Uma voz do sertão

Manoel Hygino

Mesmo reconhecendo o indiscutível talento literário de autores de outras regiões, não posso fugir à situação privilegiada nesse labor pelo Norte de Minas, que apresenta um elenco excelente em nomes que conquistaram justa projeção no Estado e no país. Alguns chegaram à glória da Academia Brasileira de Letras, e razões existiram para subirem os degraus do Trianon.

Há de se considerar, entre outros fatores, que as dimensões geográficas de Minas, aliadas ao seu poder econômico, lhe permite os da terra permanecer entre as montanhas, contando com veículos próprios de comunicação e editoras que partiram para outros caminhos ou – ainda – preferiram ali viver e laborar.

No âmbito estadual, sem menosprezar outros centros e regiões, ganha especial destaque o Norte mineiro, terra dos nascidos em chão roseano e pelos que assentam praça nas cidades de maior expressão no vasto território. Ali, montaram o seu QG para alcançar os públicos mais próximos ou enveredar pelos da capital e de outros flancos da velha província, outrora a mais populosa do Brasil.

Itamaury Teles de Oliveira é um deles. Nascido em Porteirinha, começou o itinerário na cidade mais importante, que é Montes Claros, onde ingressou na imprensa aos 16 anos. Participou da Fundação da Academia Juvenil de Letras do Norte de Minas e de folhas estudantis, como me informo pela orelha de um de seus livros. Editou um “house organ” do Sesc, fundou e dirigiu “O Brejo”, de Francisco Sá.

Simultaneamente, fez Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e advocacia, além de mestrado em Administração pela Federal, defendendo tese, em 2004. Não ficou nisso. Exerceu cargos de assessoria superior em Brasília, ingressou no Banco do Brasil como principal gestor em agências do interior e da capital.

É muito título para pequeno espaço. Repito o que consta da segunda orelha de um dos seus livros: Foi agraciado com prêmio internacional pela elaboração do melhor Plano de Negócios (Outstanding Business Plan), no Moot Corp Latin American, competição realizada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, em março de 2003. Em 2004, participou de curso de verão sobre a economia da União Europeia, na Universidade de Schmalkalden, na Alemanha, onde proferiu palestra sobre o Mercosul. Como professor universitário e de cursos de pós-graduação, lecionou nas Universidades Estadual de Montes Claros, Federal de Minas Gerais, Federal de Juiz de Fora e na Católica do Leste Mineiro.

Edita a Revista da Academia Montes-clarense de Letras e o site noticioso e cultural “Minas Livre”. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, tendo participado da primeira diretoria da entidade. Ocupa a cadeira nº 4 da Academia Montes-clarense de Letras e é membro Honorário da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco (Aclecia).

Mas não deixou a imprensa escrita: autor de “Balangador de rede”, “Doce prejuízo”, “Noturno para o Sertão”, “Urubu de Gravata e outras crônicas”, no campo das Letras, utiliza exemplarmente o vernáculo e delicia com textos atraentes, reveladores do “elevado grau de domínio artístico do autor na manipulação de seu ponto de vista”, como se manifesta o historiador Petrônio Braz.

Já andou muito e muito caminho resta à frente. Não lhe faltam méritos e condições.



84510
Por Manoel Hygino - 10/2/2020 07:58:54
As enchentes de 1978

Manoel Hygino

1º de fevereiro, ainda bem que sábado, passadas as doze horas do dia, quando “uma nuvem que os ares escurece sobre nossas cabeças aparece”, como disse Camões na sua obra maior. Em seguida, na capital dos mineiros, a chuva forte, acompanhada de ventos intensos sopra pelos sopés da Serra do Curral e pelo amontoado sempre crescente de prédios ali construídos. E sobreveio o granizo em determinadas áreas, porque a natureza programara um temporal completo. Esperava-se que, pelo menos sem vítimas humanas, como nas anteriores chuvaradas no mês anterior.

Depois dos terríveis dias de calor de 2019, eis as tempestades de 2020, que mudam muito na vida brasileira, principalmente no Sudeste. Não constitui novidade, mas modifica planos administrativos, as perspectivas do Carnaval, o início das aulas escolares.

Recordo o governo de Minas sob Ozanam Coelho, quando se avizinhava uma séria recessão e o PIB estadual regredia: como se não bastassem essas condições adversas, o verão 78/79 marcado por chuvas torrenciais que provocaram enchentes devastadoras em todo o Estado, principalmente em Belo Horizonte e sua região metropolitana, obrigavam o governo a desviar os já escassos recursos para socorrer a população menos favorecida, a mais atingida. Mas era imprescindível a realização de obras emergenciais, sobretudo de barreiras e pontes, destruídas pelas enchentes.

Efetivamente, o agressivo período de chuvas de 78/79 marcou e castigou Belo Horizonte e atingiu o coração do governador, na expressão de um dos seus auxiliares mais íntimos... “Porque ele era um homem mais dedicado à pobreza, e os que sofreram com desabamentos foram os menos afortunados ele mandou construir, através do DER-MG, umas casinhas, para resolver o problema emergencial, lá nos Gorduras, que estão lá até hoje. Foram construídas para serem retiradas depois, era só para atender aquela emergência dos desabrigados, em vez de os colocar em um galpão. O DER-MG trabalhou dia e noite e construiu lá umas casinhas. Isso afetou demais a sensibilidade dele. Lembro-me até que ele foi dar uma entrevista na televisão e não conteve as lágrimas. Porque foi uma coisa que tocou mesmo, ele sentiu o problema isso marcou muito o seu governo, e as enchentes impediram que ele fizesse muita coisa que pretendia fazer”.

E o próprio Ozanam, na Associação Comercial de Juiz de Fora, disse:

“Tudo o que era possível fazer, foi feito. Mobilizamos e convocamos, atendemos e ajudamos na medida do possível, sobretudo na primeira hora, quando, justiça seja feita, a Cedec revelou-se um instrumento operacional e criativo de extrema importância e agilidade mas a ajuda do governo do eminente presidente Ernesto Geisel ao nosso Estado, desde a primeira hora, quando determinou a vinda de seu ministro do Interior, o ilustre engenheiro Maurício Rangel Reis, para ver de perto, em todas as partes em Minas e estados vizinhos, o alcance dos prejuízos – o que também fez o governador do Estado às vezes com risco de vida. Com esta ajuda aprovada pelo eminente presidente Ernesto Geisel, e mais os nossos recursos, embora escassos, reconstruiremos o que enchente levou, mas é lamentável lembrar as vidas perdidas – e não foram poucas”.




84509
Por Manoel Hygino - 8/2/2020 08:58:44

Fevereiro, 6, 1930

Manoel Hygino

A data passou ao calendário nacional, por força do tiroteio em Montes Claros, funcionando como grito propulsor da revolução que manchou de sangue a bandeira do Brasil e a de Minas. De um lado, o presidente Washington Luís, seu vice Melo Viana, que anteriormente governara Minas. Formaram-se dois blocos compactos e poderosos – a Concentração Conservadora, liderada por poderosos políticos, e, de outro, integrado por grupos dispersos, constituído por gente de escol, prestigiada por Antônio Carlos, presidente de Minas: a Aliança Liberal.

Uma grande comitiva de concentracionistas viajou de ferrovia a BH, descendo no sentido do centro da cidade. Conta Milene Antonieta Maurício, autora de um livro que se tornou famoso por sua importância histórica (Emboscada de Bugres). Os próceres visitantes argumentavam que participariam de uma reunião para debater o problema do algodão, que a região tanto produzia.

O “evento” foi antecipado por intensa propaganda, contribuindo para exaltação de ânimo numa cidade e região de tradição candente entre facções políticas. O propalado congresso do algodão ocorreria em 6 de fevereiro e os sintomas da própria divisão nacional em torno de Washington Luís, que lançara o nome de Júlio Prestes para sua sucessão, se mediria pelas manifestações de rua.

Era a primeira vez que um vice-presidente da nação, em campanha pelo Palácio da Liberdade, – no caso Melo Viana – se dispusera a entrar pelo sertão para expor ideias e lutar por votos. O trem-de-ferro parou e já começaram os inflamados discursos. Foguetório, vivas e morras. Aclamações e aplausos a Júlio Prestes, um hino aos candidatos oficiais do Catete. Formada uma passeata, esta mudou de rumo e se dirigiu à praça em que residia João Alves, médico e líder da Aliança Liberal, marido da celebrada mineira – dona Tiburtina. Ele se postara à porta de sua casa, vendo o povo passar. Relata a historiadora: “contam testemunhas presentes, que alguém teria gritado de dentro do cortejo: ‘morra a Aliança Liberal’, e que ele, sacando o lenço vermelho, muito sertanejamente teria respondido: ‘viva a Aliança Libera!’. Neste exato momento, uma bomba, atirada por João Cândido Dias, adversário político, explodiu a seus pés. E ele, que era hipertenso, sofreu uma hemorragia nasal com crise de tosse e sufocamento, dando a todos, que estavam na porta e na sala da casa, a impressão de que havia sido ferido de bala. Tombou, então, com um tiro na cabeça, o jovem Austílio (Fifi), que estava bem ao lado de João Alves, e que era comensal em sua casa. Existem controvérsias de onde partiram os primeiros tiros. A impressão geral é de que todas as armas estavam engatilhadas dos dois lados, no prenúncio do choque que já se desenhava no todo do acontecimento. Aceita-se a hipótese de que foi a bomba a desencadeadora de tão lutuoso episódio, e, ainda, que ela foi a mensagem equívoca que disparou a violência. A ocorrência foi dantesca. A multidão, apavorada, corria desordenada em busca de abrigo ou então se lançava, aflitamente, ao solo. Muitos atiravam dentro do escuro em tentativa de defesa. O tiroteio durou apenas minutos, a multidão fugiu. A banda de música silenciou. Os foguetes e as bombas não mais explodiam em desafio de festa, o pavor e a dor abraçaram o silêncio da noite, numa profundidade de censura, lástima e melancolia, pelo sangrento desenlace que feria a própria alma da cidade”.

Resultado final: sete mortos e dezenas de feridos, inclusive Melo Viana, com um tiro no pescoço.


84505
Por Manoel Hygino - 4/2/2020 09:38:22
Meia volta, volver

Manoel Hygino

Estas cidades, ou os meros povoados que sejam ainda, cercando Belo Horizonte e formando a região metropolitana, têm sua história, merecendo respeito e admiração; exigem que se as conheça, algumas já inseridas na crônica definitiva da metrópole.

Sobre Nova Lima preparei uma tosca matéria, que acaba de ser publicada na revista “Memória Cult”, dirigida por Eugênio Ferraz, um engenheiro de São Lourenço, ex-diretor da ex-Imprensa Oficial do Estado, detentor de altos e vários títulos.

Com Sabará, tão perto da capital e tão dentro de nosso coração, tive a oportunidade de contribuir com o projeto do governador Israel Pinheiro na integral restauração do seu belo teatro, em estilo elizabetano, que se encontrava destroçado. Um excelente trabalho em que se empenhou e a que se dedicou Israel, nascido ali bem perto, em Caeté, onde também se encontra sepultado. A responsabilidade técnica do projeto coube ao professor Luciano Amedee Peret, diretor da Escola de Arquitetura da UFMG, cujo filho hoje é coordenador do Cememor – Centro de Memória da Medicina, também da Universidade Federal.

As pessoas assistiram por televisão à situação a que foi reduzida Sabará, com as pesadas e destruidoras chuvas que lá caíram. Brava gente andou por aquelas paragens, procurando riquezas, a começar pelas ambicionadas esmeraldas que em nada resultaram para Fernão Dias, Borba Gato e o fidalgo Dom Rodrigo Castelo Branco, friamente assassinado em 1681, mas se beneficiou. Não se encontraram esmeraldas, mas ouro não faltava.

Esta uma linda história, envolvida em lendas, que João Oliveira Gomes publicou, despretensiosamente, com apoio do empresariado local, no livro que recebeu o nome de “Histórias do Alto Rio das Velhas”, que dá a entender muito do que aconteceu em Sabará e redondezas, através de séculos recentes.

Em 1823, um ano após a Independência, portanto, Dom Pedro concedeu a Vila o título de Fidelíssima, por não ter aderido aos movimentos de rebelião contra sua atuação. Em 1831, deu na telha do jovem imperador sair da sede da Coroa para transmitir pessoalmente seu reconhecimento àquele povo. Dom Pedro foi à Casa da Ópera, mas, ao invés de expressões de gratidão, deparou profunda frieza. Ouviu-se, em determinado instante uma voz, única e isolada: “Viva o Imperador”. Em meio ao silêncio frustrante, Pedro Gomes, fundador do jornal local, ergueu-se para gritar:

– Viva o senhor Dom Pedro I, enquanto constitucional!

Diante do espanto e do mal-estar generalizado, o jovem Pedro encerrou sua visita e retornou à corte. Cumpria o dever de agradecer o apoio da gente sabarense em momento que tanto precisava. Um historiador comentou: “ninguém lhe recusou a reverência devida ao monarca... Em todos os lugares as Câmaras recorreram aos setores municipais para as galas e o floreado das saudações votivas.

Mas não havia entusiasmo, efusão, cordialidade e isso o homem de nervos vibráteis que era Dom Pedro percebeu sem dúvida. Ele sabia que não conseguiria dirigir a nação sem Minas a seu lado. Era uma província fortemente tingida por ideais liberais e, além do mais, em que o liberalismo dominante encontra muito por onde florescer e progredir. Não se esquecerá que era também a província mais populosa do Império. Isso sentiu Pedro I em sua viagem, percorrendo ruas e casas, ora destroçados pela lama das enchentes.

Tenho certeza de que o meu bom amigo desembargador Hélio Costa, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, professor da Escola de Direito da Universidade Federal, daria uma aula sobre o assunto. Sabarense, ele amava o berço e estaria pranteando os prejuízos sofridos pela cidade natal neste primeiro mês de 2020.


84498
Por Manoel Hygino - 1/2/2020 09:21:58
Na pista da criminalidade

Manoel Hygino

Não mais causam espanto ou susto, porque as notícias estão inseridas no regular noticiário de todos os veículos de comunicação. São referentes à onda de violência que invadiu o Brasil e propagou pelos estados, pelas favelas – transformadas em comunidades, pelos conjuntos habitacionais, até as mansões e palacetes. Mata-se muito, contrariando a nossa pretensa tradição de gente pacífica e cordial. Transformamo-nos ou a eficiência da imprensa é maior do que antes e dissemina mais amplamente informações sobre as maldades cotidianas?

Há dezenas e dezenas de especialistas em criminalidade se manifestando sobre causas do fenômeno, suas consequências sociais e penais, o clima de temor que as pessoas têm na intimidade do lar ou na simples locomoção nas ruas, no cumprimento das jornadas de trabalho, em qualquer atividade e horário. O brasileiro mata e o brasileiro tem medo. Sua vida pode estar por um fio.

Pelo rádio do táxi, é ainda manhã, tomo conhecimento dos últimos episódios, os da madrugada, quando mais vidas foram ceifadas, mais sangue se derramou por motivos fúteis ou torpes, pelo extremo etílico dos autores (como costumam dizer os soldados da PM), pela fúria dos namorados ou maridos, diante muitas vezes de fuxicos ou pela canalhice dos que querem cobrar a bala os débitos contraídos por vítimas dos usuários de drogas.

Os dados são horripilantes. Pelo menos 38.436 pessoas foram assassinadas nos nove primeiros meses do ano passado no Brasil – o tempo normal para gestação de uma vida humana. A cifra, porém, é ainda maior. Maranhão e Paraná não divulgaram os dados referentes ao nono mês, embora o progressista Estado do Sudeste sequer divulgasse os dados de julho e agosto. No entanto, o cômputo contabiliza todos os homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidos de morte, que compõem os chamados crimes violentos letais e intencionais.

Embora muito se comente sobre a violência no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e do Norte, nas regiões fronteiriças de Roraima, Paraguai e Bolívia, a verdade é que nenhum rincão deste país (grande e bobo, como diz o escritor Eduardo Almeida Reis) escapa do quadro de letalidade. Márcia Alves, diretora de Prevenção Social ao Crime e à Violência da Secretaria Municipal de Segurança Pública da Prefeitura da capital, considera que o homicídio é “apenas a consequência final” de um contexto de desvantagens sociais. O problema é muito maior.

Enquanto isso, a despeito de esforços do poder público, continuamos matando e morrendo, mais do que no tempo das diligências no velho Oeste americano. O município quer expandir a rede de cuidados e proteção para adolescentes vítimas de agressão. É medida muito correta em consonância com nossa realidade. Mas alguma área deve também expandir a ação contra os jovens autores de agressão e de violência, de modo geral.



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Por Manoel Hygino - 31/1/2020 08:20:53
O sacrifício de Elza

Manoel Hygino

Realizou-se, em Belo Horizonte, em novembro, a 17ª edição do Festival Teatro em Movimento, apresentando no Brasil Vallourec, o musical “Elza”, que resgata os maiores sucessos em mais de seis décadas de carreira da cantora Elza Soares. Um espetáculo vívido, particularmente atraente para quem gosta de samba e acompanha a vida da popular intérprete.

A Elza, que ora me desperta da memória, contudo, é a Elza Fernandes, garota de 16 anos, família humilde, de quem se aproximou o baiano Antônio Maciel Bonfim, conhecido também por Américo ou Adalberto Fernandes, ou ainda Miranda, apelido que lhe davam os comunistas brasileiros, ou ainda Queiroz ou Keiro entre os camaradas soviéticos.

Era a segunda década do século XX, com o Brasil dividido entre comunistas e fascistas, até personalidades de governo. Logo veio a guerra, acrescentando ao quadro político internacional o Reino Unido, a França e, finalmente, os Estados Unidos. Os comunistas se achavam com a corda toda por aqui, erro que levou ao fracasso da chamada Intentona de 1935.

Miranda era bom de bico, como por aqui se diz, mesmo simpático, “de grande loquacidade”, como o definia William Waak. Falava francês, impressionava, mas não merecia integral confiança. Elza se chamava, de fato, Elvira Cupelo Colônio, sempre alegre, ria muito, contava casos, inclusive fazia visitas em nome de companheiros, ora para recados, ora para buscar dinheiro para o partido, conforme conta Maria Werneck, em “Sala 4”, um livrinho de lembranças.

Em depoimento à polícia, Miranda, ex-secretário do PCB, conta que conhecera Elza ainda menina, 13 para 14 anos, em Sorocaba, cuidando da casa da família, em meio a muitas privações. Os pais, napolitanos, já tinham morrido, deixaram filhos, e nove ainda viviam. Duas irmãs faleceram por tuberculose, os irmãos remanescentes não se prestavam a serviços domésticos.

Embora não comunista, Elvira ou Elza sofreu prisão por suas relações com Miranda e pelo relacionamento com os camaradas. Pelo seu envolvimento sentimental com Miranda, um dos chefões do PCB, por suas ligações com homens e mulheres, de vária formação, inclusive ideológica, Elza acabou por viver sob suspeita de trair os companheiros. Como disse Sérgio Rodrigues (nascido em Muriaé, atuante na imprensa paulistana e autor do romance “Elza, a garota”), a jovem se tornou alvo no meio revolucionário. Indefesa, de uma ingenuidade desconcertante, depois de ter sido “julgada” por comunistas, foi estrangulada covardemente com uma cordinha de varal, e o corpo enterrado no quintal de uma casa de subúrbio carioca, como relata Carlos Herculano Lopes.

O crime ganhou os jornais, alcançou rumos inesperados, envolvendo altas autoridades, peritos, gente de toda espécie. Nas tentativas de apuração sobre possível traição, Miranda também foi vítima de terríveis torturas pela polícia. Um certo Matoso, jornalista ligado ao partido, conta que “a Elza padeceu três dias de surras tremendas. Nua, os tiras torciam-lhe os seios. Não lhe arrancaram nem uma palavra. Grande bravura”.

A verdade verdadeira é que Elza perdeu a vida após tormentos e sevícia. Acusado de ter determinado sua morte, Prestes saiu pela tangente: “eu não mandei matar Elza. O que ocorreu foi que a polícia ligou a morte dela com a carta minha, escrita antes de ser preso, em que eu recomendava a punição para os traidores. Quem mandou matar Elza foi o partido”.


84492
Por Manoel Hygino - 30/1/2020 06:57:25
Pré-visão do caos

Água superabundante no Espírito Santo, em Minas Gerais, no Norte do Estado do Rio. Inúmeras moradias destruídas, os bens de seus proprietários – das geladeiras, aos sofás e televisões, tudo reduzido à zero pela força da enxurrada que entrava pelos quartos e caminhos sem pedir licença. Depois, restava “contabilizar” o prejuízo, como insistiam os repórteres de tevê e rádio. E buscar, no meio dos escombros e da lama os corpos dos parentes desaparecidos. E se teria de computar os feridos, os desalojados, os que não têm para onde ir ou apelar. No sertão mineiro, o técnico José Ponciano Neto, registrava, o sol insistia: “a chuva tá pirracenta”. Depois, chuviscos para abrir caminho à consumação das previsões da Meteorologia.

Desde o princípio da formação e Minas, muito antes de capitanias, era assim. O historiador João Camilo de Oliveira Torres lembra que os núcleos de povoações que constituíam as Minas Gerais e já existiam no século XVIII, cujos habitantes se dedicavam à mineração, nasceram no fundo dos vales, à beira das montanhas. Dizia mais, e é importante dizê-lo:

“Ora, o clima destes vales montanhosos é frio e úmido. As altas montanhas condensam as nuvens e as chuvas caem, provocando a desagregação dos terrenos”, tudo surgindo nos anos e séculos seguintes pela população que não tem recursos para adquirir terreno em lugar mais seguro para ali construir suas moradias.

O complicado relevo orográfico, com as mazelas decorrentes, com ruas e estradas transformadas em rios de lama, faz do mineiro um prisioneiro da montanha. Formados os núcleos habitacionais, é pelas encostas dos morros ou dos declives que acharam os mineiros onde habitar, mesmo com os riscos previsíveis.

Ao se escolher um local para construir uma nova capital, tudo assim ficou: dos morros de Vila Rica para as serras de Belo Horizonte, belas em determinadas épocas do ano, ameaçadoras quando as chuvas mais pesadas despencam dos céus.

Há o que temer, como há de se precaver. Mineiros sabem que a temporada anual de chuvas por aqui se estende até o terceiro mês do Dia de São José... Ou enchente das goiabas, em 19 de março. Até lá, muito pode ocorrer, mas o importante é acompanhar o boletim da Defesa Civil, alertando para os sinais que a natureza nos envia, ininterruptamente.

Os jornais advertem que não haverá trégua, nesta desmesurada estação das águas, quando se tem como certo grandes volumes de água na região metropolitana, bem como também em outros pedaços desse grande território das Minas Gerais. Os deslizamentos matam mais que chuvas propriamente. E a vida vale muito.

Na capital das Minas, contudo, a situação chega ao pré- caos, como divulgaram, à suficiência, os veículos de comunicação, na terça-feira, 28. Jamais Belo Horizonte assistiu a espetáculo tão desastroso e, seguramente, doloroso para muitas famílias.

E, ainda, para os integrantes de equipes que formam a raça em extinção que não falham em seu dever de informar, qualquer o tempo e as circunstâncias hostis.


84483
Por Manoel Hygino - 24/1/2020 08:35:43
O celibato clerical

Manoel Hygino

Embora emérito, Bento XVI (ou 16) envolve-se em um ruidoso escarcéu na cúpula da Igreja de Roma. No dia 14 de janeiro, em reportagem publicada com assinatura de Rafael Belincanta, informava-se da edição de um livro de Joseph Ratzinger, em coautoria com o cardeal Robert Sarah. No texto se dizia que este cardeal que é de Guiné – “guineense”, portanto –, e não ser confundido com guianense natural da Guiana.

É um assunto muito mais complicado, contudo. A obra, que teria sido redigida pelo cardeal e pelo ex-papa, prega o celibato sacerdotal como é hoje, enquanto o Sínodo da Amazônia defende a ordenação sacerdotal de homens casados para atuarem na extensa região da América.

O problema aqueceu Ratzinger, considerado um dos pontífices mais cultos da Igreja. Ele negou a coautoria do livro, mas o religioso africano fez publicar provas de sua colaboração. Pessoas próximas a Bento 16 contestam-na. De todo modo, a mídia está em cima e “Des profondeurs de nos coeurs”, deverá ser um sucesso. A editora é a Fayar, francesa, mas o papa emérito se exclui e não ver-se envolvido em participação, segundo uma fonte anônima.

O editor, Nicolas Dist, observa que o religioso alemão não aprovou o texto final nem a capa do livro, nem autorizou que se confirmasse ter autorizado a expressão “escrita a quatro mãos”.

Vê-se que problema de desencontro de informações e o jogo de interesses sempre existem, devendo-se ressaltar que Robert Sarah é nada menos que prefeito da Congregação para o Culto Divino, opositor severo de Francisco, segundo se informa. Nesta hora em que o Sínodo da Amazônia poderá ser posto em prática sob os olhos dos países com interesse naquele pedaço do mundo, o pior que poderia acontecer seria um duelo entre Francisco e Ratzinger.

O mais sensato entre todos os argumentadores é Andrea Tornielli, diretor editorial do “Vaticano News” – nada será mais que uma contribuição sobre o celibato sacerdotal em filial obediência ao papa. Ele afirma ainda que a posição de Francisco sobre o celibato é conhecida: “o celibato sacerdotal jamais foi um dogma. Trata-se de uma disciplina eclesiástica da igreja latina, que representa um dom precioso, definido deste modo por todos os últimos pontífices”.

O assunto, simplesmente por entrar em pauta, é sumamente interessante, mas de extrema delicadeza para a cristandade de um modo geral, em torno do qual há a ação de quantos nada têm a ver com religião. No seio da igreja, o celibato é a obrigação de perfeita castidade que ela impõe aos seus sacerdotes sob forma de voto perpétuo e solene, implícito na ordenação. Objetiva obter do clero o mais alto grau de santidade, a dignidade do serviço divino e a maior eficácia e condições de pleno cumprimento do ministério sacerdotal. A igreja latina impõe tal obrigação ao conferir o subdiaconato. Quem esteja já unido por matrimônio não pode receber ordens sem dispensa da Santa Sé e, se a obtém, deve viver em continência e separado da mulher.

Na Grécia antiga era considerado crime não só o celibato, mas também o casamento de má maneira, como de um jovem com uma velha ou de um velho com uma jovem.




84481
Por Manoel Hygino - 23/1/2020 08:44:39
Abrindo o livro

Manoel Hygino

Suponho que já tardamos na abertura do livro. É hora, ou já retardamos no reconhecimento de erros do passado, pelo menos para evitar repetição. Há um descrédito generalizado nos partidos e nos políticos, não poucos envolvidos em crimes contra os interesses da sociedade, em desvios de recursos públicos, na organização de quadrilhas, especializadas em tempos recentes, enfim na dilapidação do patrimônio nacional, nas respectivas áreas de atuação.

Seria necessário dizê-lo?

Cristovam Buarque, já ocupou cargos importantes, pronuncia palestras e escreve para os meios de comunicação, ex-ministro da Educação, e fez uma confissão: “nós (a esquerda brasileira), como bloco, toleramos a corrupção, o aparelhamento do Estado, convivemos com mordomias. Não acabamos com as mordomias, elas aumentaram. Temos que reconhecer que erramos e discutir quais foram os erros”.

Eis o mea culpa poderia estender-se a membros de outros partidos que existem no país e cujos integrantes são identificáveis até pela simples enunciação dos nomes. Inúmeros já tiveram suas mazelas e ações criminosas investigadas e esclarecidas.

O jurista Sacha Calmon, ex-professor titular da UFMG e UFRJ, escreveu, há algum tempo, sobre “Movimentos Sociais”, lembrando que o “Brasil enveredou pela social-democracia europeia e seu ideário, para impor ao estado objetivos sociais. Disse, então: “é errado supor que o constituinte não devesse fazê-lo. O problema é pragmático. Faltou um ‘sempre possível’ ou ‘na medida dos meios orçamentários’. Exemplo disso é o artigo 6º, a cuidar dos direitos sociais, assim escrito: ‘são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a Previdência Social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição’. Um sarcástico constitucionalista – não vem a pelo citá-lo – se perguntou se tudo isso cairia do céu, uma espécie de fubá (ou maná, como no mitológico deserto hebraico), ou deveria o Estado, da noite para o dia, realizar o voluntarismo desbragado dos constituintes. Ao que sei, nada daquilo posto no artigo 6º realizou-se a contento. Cá estamos já em 2015 metidos em severa crise. O governo da União falido e sem meios sequer para as coisas mais essenciais”.

E era 2015!

Mas se constata que a falência não circunscreve-se ao poder central. Lá de cima até na parte mais baixa da administração pública está em semelhante situação.

Basta verificar-se o que dizem os jornais impressos, televisivos e falados para constatar que a situação é dramática. Não há recursos para as escolas primárias, faltam merenda escolar, o transporte dos alunos é precário (onde existe); não há com que tapar os buracos nas rodovias, federais e municipais; as folhas por serviços prestados pelos funcionários se atrasa; há movimentos de insatisfação nas ruas e nas repartições públicas; os remédios que chegam à rede de assistência à saúde são insuficientes; o sistema de abastecimento de água e o de esgoto são extremamente exíguos, põem em risco as grandes cidades. E as pequenas, os distritos, os povoados? Chora-se em cada esquina por demandas não atendidas e se apela à revolta pela dor que não esmaece.



84478
Por Manoel Hygino - 21/1/2020 10:33:54
A droga e seu preço

Manoel Hygino

O problema da droga – ou das drogas – não é de nossa época. Mas, com o evoluir do tempo, ele tomou as dimensões catastróficas de agora. Todas as nações estão atentas e buscam solução, mas os males crescem avassaladoramente.

Para onde estamos indo? Qual o destino das futuras gerações? Como se combaterá esse mal ou ele não tem remédio? Muitos milhares de homens e mulheres, sobretudo de jovens, em todas as partes do planeta, estão envolvidos. Nas escolas, públicas ou particulares, à porta dos cursos primários, nos estabelecimentos de ensino médio, nos jogos esportivos, nas festas de aniversário ou de casamento, nos “pancadões” que reúnem para divertimentos centenas e centenas de pessoas da periferia, como acontece nas comunidades (a palavra favela foi banida do vocabulário) das capitais. Lembre-se o ainda recente “evento” em Paraisópolis, na maior cidade do país. Nove mortos!

Agora leio que um estudo no Brasil contesta o uso recreativo da maconha como estratégia de solução de danos em dependentes de crack e de cocaína, em reabilitação. Informações, em artigo publicado pela revista “Drug and Alcohol Dependence”, mostram que o consumo da erva (maconha) piorou o quadro clínico de pacientes, em vez de amenizar, como se esperava, a ansiedade pela droga, aspirada ou fumada em pedra, isto é, o crack.

Nada mais triste que ver nas grandes cidades brasileiras, até no âmago dos centros urbanos, as cracolândias, grupos de pessoas degradando-se no consumo destes produtos, já transformados em vício contra o qual praticamente todas as tentativas foram feitas, sem resultados práticos. O dependente de drogas é um subumano ser, que perdeu o caminho da vida social e não sabe retomá-lo. Lamentavelmente, esses núcleos crescem inapelavelmente, por maiores que sejam as tentativas das famílias bem formadas, de religiosos, de educadores, das autoridades do setor saúde, em redirecioná-los.

O pesquisador Hercílio Pereira de Oliveira Júnior adverte que a exposição precoce à maconha teria um prognóstico pior não só em relação à própria maconha, como a outras substâncias. Declarou: “O impacto negativo da maconha e da cocaína no processo de maturação cerebral é a caracterização de um pior prognóstico da doença”.

E tendo tudo custo muito caro. Por exemplo, o ex-boxeador Mike Tyson, de 53 anos, revelou que fuma o equivalente a R$ 158 mil em maconha por mês. Para ele, é pouco. A declaração foi dada no último episódio de seu programa de arquivo transmitido pela internet. Tyson possui um rancho em que cultiva a erva em parceria com outro ex-atleta.

Ele investiu R$ 1,9 milhão na produção de Cannabis. O ex-boxeador revela que está construindo um resort dedicado à erva. Essa é só uma das diversas polêmicas já enfrentadas por Tyson em sua trajetória.

Em uma das lutas mais épicas de todos os tempos, ele deu uma mordida na orelha de Evander Holyfield, em 1997, e foi desclassificado. Tyson também foi pego por uso de maconha após uma luta em 2000. Em 2005, foi preso no Brasil depois de agredir um cinegrafista em casa noturna.

Quais as vantagens que a droga pode trazer? Ou não há nenhuma? E toda a sociedade paga o alto custo do perverso vício. Os tratamentos são de elevado custo, assim como a manutenção de estabelecimentos próprios ao tratamento.



84473
Por Manoel Hygino - 18/1/2020 08:21:05
Antes dos aiatolás

Manoel Hygino

Ninguém urdira um plano de sabotagem ou terrorismo. Ninguém quereria, certamente, que o avião da Ucrânia caísse após levantar voo do maior aeroporto do Irã. Quarenta e cinco quilômetros de um voo para a morte. O comandante sequer anunciou emergência.

Eram 63 pessoas, das 176 que perderam a vida, pretendendo voltar ao Canadá, onde residiam, estudavam, após fugirem à Revolução Islâmica de 1979.

Nenhum míssil teria sido lançado contra a aeronave, informou-se. O Estreito de Ormuz, o lugar mais sensível para a guerra, em todo o mundo, nas circunstâncias de então, permaneceu intacto. O avião caíra sozinho (?).

Trump esbanjou felicidade: “nenhum americano foi atingido, não sofremos perdas, nossos soldados estão seguros”, afirmara o presidente após a execução do general Soleimani. Só o preço do petróleo bruto subiu 6% desde então, mas logo voltou ao patamar considerado normal.

Não fora um atentado, julgara-se inicialmente, nem um mero acidente aéreo. O presidente do Irã, Hassan Rouhani, dias depois, porém, viu-se na obrigação de confessar que o avião ucraniano fora derrubado acidentalmente por míssil do seu exército. “Os responsáveis serão castigados exemplarmente”, prometeu categoricamente.

Rouhani determinou a prisão de trinta envolvidos. Assegurou que nenhum novo caso do tipo acontecerá. Ninguém sobreviveu. O governo dos aiatolás tremeu nas bases. Manifestantes saíram às ruas de Teerã para protestar, principalmente jovens.

O último embaixador do Brasil no Irã, antes dos aiatolás, que lá até hoje se acham instalados, foi Pio Corrêa, ministro plenipotenciário. Ele fez depoimento precioso sobre aquele tempo. O Shah Reza Palhevi lhe confessou que não podia sequer visitar sua irmã, porque tinha de tomar precauções. Era vigiado: “não sei quais são, onde estão os meus inimigos; mas sei que sempre haverá algum à espreita”. Era 1958.

“E dizia a verdade. Em dois anos no Irã não conheci ninguém que tivesse tão profundo conhecimento dos problemas do país, nem tão apaixonado desejo de resolvê-los, quanto o próprio Shah. Ele tinha realmente a ambição de despertar o Irã de sua modorra secular, modernizá-lo, dinamizá-lo, transformá-lo em um Estado eficiente, próspero e poderoso – uma espécie de Japão do Médio Oriente. Queria o progresso e o bem-estar de seu povo – e isso custou-lhe o trono, custou a vida de dezenas de seus fiéis, e mergulhou o país nas trevas de um obscurantismo fanático que o fez retroceder de mil anos ao tempo das Cruzadas em que um chefe religioso intolerante e sanguinário, o ‘Velho da Montanha’, reinava pelo terror, fazia assassinar quem lhe desobedecia no menor detalhe, e chegou a causar temor ao próprio Sultão Saladino, o cavalheiresco adversário de Ricardo Coração-de-Leão, que no entanto não era homem que se impressionasse facilmente. O ‘Velho da Montanha’ encontrou a sua reencarnação no Ayatolá Khomeini, religioso de maus fígados. O Shah Mohamed Reza esqueceu-se de que no Oriente as estruturas sociais e políticas podem manter-se inalteradas durante séculos e até milênios ancoradas na imobilidade”.


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Por Manoel Hygino - 15/1/2020 09:09:43
O papa e o rebanho

Manoel Hygino

O papa Francisco não tem fugido ao desafio dos problemas da Igreja Católica em nosso tempo, até trazendo do passado distante aqueles que aparentemente já teriam sido assimilados ao longo da história. A missão a que se evoca o pontífice é das mais difíceis, nem se precisará perguntar porque.

Neste meado de janeiro de 2020, caiu nas mãos de Francisco um novo repto com lançamento pelo papa emérito Bento 16, um dos mais cultos da Igreja de hoje, o livro que ele escreveu, coadjuvado por um cardeal conservador, em que defende o celibato clerical.

Trechos de “Das profundezas dos nossos corações” foram publicados no domingo, dia 12, pelo jornal francês “Le Figaro”.

Na obra, Bento 16 diz que o celibato – que se tornou uma tradição estável na Igreja há mil anos – carrega “grande significado” porque permite que um sacerdote se concentre em sua missão. Ele diz “não parecer possível realizar as duas vocações (sacerdócio e casamento) simultaneamente”. No entanto, em outubro, o documento final do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia propôs que homens casados em áreas isoladas pudessem ser ordenados sacerdotes. O papa Francisco agora, analisará o tema em documento próprio, conhecido como Exortação Apostólica.

Lembro aqui, por oportuno, o que disse – há décadas – Ivan Lins, que integrou as academias Mineira e Brasileira de Letras. Filho do eminente jurista Edmundo Lins, ambos mineiros, observava Ivan que o celibato eclesiástico é instituição do maior alcance social e, entretanto, veementemente censurado ao catolicismo.

O Lins filho recorda que, até o advento do catolicismo, os principais cargos sacerdotais constituíam privilégios de determinadas famílias, apresentassem ou não os seus membros as aptidões exigidas pelas funções correspondentes.

O escritor acrescentou: “a esse regime teocrático de oligarquia sacerdotal fez o catolicismo, vencendo obstáculos, suceder o regime sociocrático do mérito, quanto a ascensão aos mais altos postos da hierarquia”.

À guisa de ilustração, evocar-se-ia o caso do carpinteiro Hildebrando, eleito Gregório VII, na opinião de Ivan Lins o maior pontífice de todos os tempos. Sem esquecer o guardador de porcos Nicolau Breakpeare, que alcançou o trono pontifício sob o nome de Adriano IV.

Tinhas sobejas razões, pois, o nosso Padre Antônio Vieira, no “Sermão do Primeiro Domingo da Quaresma”, preste-se atenção! – pregado em Roma. Defendera que “o fidalgo particular pode aspirar a conde; o conde a marques; o marques a duque; e aqui para o desejo, porque o ser rei está fora da esfera da ambição. Nesta corte (a papal) não é assim. Da sotaina podeis subir à murça, da murça ao mantelete, do mantelete à mitra, da mitra à púrpura e, da púrpura, à tiara”.

Isto é: do mais humilde mister chega-se à chefia da Igreja Apostólica Romana. É bom saber, não é verdade? Para muitas correntes de opinião, cuidar dos filhos, da família, pode causar dificuldade nos cuidados e assistência aos rebanhos.



84461
Por Manoel Hygino - 14/1/2020 10:15:48
Poesia e dor

Manoel Hygino

Após deixar a presidência da Academia Mineira de Letras, a primeira (e única) mulher a exercer o cargo ao longo da centenária existência do sodalício fundado em Juiz de Fora, a acadêmica Elizabeth Rennó cuidou de lançar o seu novo livro de poesias – “Quântico”. São 123 páginas, com que a Editora Aldrava Letras e Artes, de Mariana, oferece a oportunidade de se apreciar a poesia da autora, nascida em Carmo de Minas, no Sul do Estado.

É o Estado que ali se encontra, porque – no dizer de Elizabeth – “Quântico, alegre e triste, desesperançado mas confiante na Palavra Maior, a que dirige as nossas vidas”. Para Andreia Donadon Leal, em prefácio, no livro cada poema, antes publicado por outros meios e em outras épocas, vagava como uma trajetória inespecífica. A aglomeração dessas partículas em livro conduz o processamento semiótico a partir do conjunto, mesmo que o olhar esteja voltado para uma partícula de um poema ou para um poema específico”.

Há uma “Viagem da Memória”, como um retorno ao lugar de nascimento: “Volto à cidade primeira”, as mesmas casas de janelas azuis, as mesmas ruas estreitas todas ali permanecem. A estátua continua no centro do jardim envelhecida e desgastada, ao lado do coreto. A igreja centenária será ainda procurada no turbilhão de hoje? Tudo ficara engessado na corrida dos dias. No entanto eu já não era a mesma, mil ocorrências, anos tempestuosos eram passado perdido nas marcas profundas do amargor da saudade persistente de um tempo/que não volta mais”.

Há muito de doloroso nestas páginas. As de nosso dia a dia e lugar e as, lá longe, no Oriente, de que brotam as lições de tolerância e amor. Elizabeth evoca uma cidade sofrida nos embates de uma região que não encontra paz: Aleppo:

“Ruídos assustadores sobre a multidão sedenta, sem teto ou agasalho, com frio e com fome, reunida neste curral humano que a desespera. As bombas destruíram os reforços salvadores. Caminhões lotados voaram pelos ares, alimentos, remédios, água se fizeram carvão pulverizado junto a corpos sobrepostos no chão inóspito e hostil. Sem uma vírgula, não há pontuação. Assim se prova a desumanidade, a selvageria e o homem. Irmão do lobo acorrentado, o aniquilamento de uma raça morena na tragédia continuada de Auschwitz em que se esquece, mais uma vez, a palavra de Cristo”.

A morte não escolhe lugares e pessoas. Ela comparece indistintamente num pedaço do mundo, bem mais perto do que nós do lugar em que nasceu Jesus. Um grande avião ucraniano deixou 176 mortos naquele recanto do planeta que insiste e persiste, através de séculos, em fazer maldade.
Um avião ucraniano caiu na capital do Irã logo após decolar do aeroporto internacional de Teerã, em plena madrugada. Sem sobreviventes: 82 iranianos, 63 canadenses, 11 ucranianos, dez suecos, quatro afegãos, três alemães e três britânicos.

O Irã não entregará a caixa preta. O ouro dispara. Pouco interessa. Os que perecem nada reivindicam. Os demais países envolvidos nos interesses do Oriente trocam acusações. Defuntos não falam, não postulam. A poesia expressa dores e verte lágrimas. É da condição humana.
Este é o mundo, assim somos.


84457
Por Manoel Hygino - 13/1/2020 10:32:08
A vaca e o brejo

Manoel Hygino

Leio o noticiário do dia 6 quando me chegou às mãos. Um buraco de um metro de diâmetro na pista da rodovia 122 está causando danos e perigo a motoristas que trafegam pela região. O texto é suficientemente claro:

O caso foi notificado pela própria Polícia Rodoviária Estadual e, o mais grave, é que a cratera fica tomada pelas águas, impedindo a visibilidade dos motoristas. O mesmo problema foi registrado em 2010, quando a estrada ficou intransitável, com vários buracos. A pista do referido trecho foi construída em 1980 e, portanto, tem 40 anos. Passou apenas por reparos.

O relato partiu das próprias autoridades, o que demonstra a gravidade da situação, pois vítimas, algumas fatais, poderão resultar de um problema histórico, a que não se dá a devida atenção. E não é apenas lá. O sistema rodoviário nacional, como um todo, é extremamente precário, sem despertar o interesse do poder público e, se interessa, não faz a recuperação imprescindível.

Os rombos do orçamento são divulgados tão plenamente quanto possível, assim como as informações sobre aqueles outros que advêm dos desvios de recursos, de que a operação Lava-Jato oferece somente sintomas. Há muito mais dinheiro para fins e organizações criminosas!

Tudo, sem embargo, não impressiona num país em que o ministro da Educação escreve o verbo “impressionar”, usando “c” em comunicado ao chefe da nação.

As investigações sobre desencaminhamento de dinheiro dos brasileiros como um todo, não de apenas alguns, são inúmeras e intermináveis. Há pouco, a Greenfield denunciou 29 ex-executivos de fundos de pensões – Petrobras, Funcef e Valia por gestão temerária na aprovação de investimentos e participações. A força-tarefa respectiva pediu a condenação e a reparação de R$ 16 bilhões. Para o MP, entre 2011 e 2016, os responsáveis pelos fundos ignoraram os riscos dos investimentos, as diretrizes do mercado e os próprios regimentos internos, sem realizarem estudos sobre os aportes.

Mais uma vez, a vaca afundou no brejo e os brasileiros foram com ela.

Há algo pior. O novo chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais do Ministério da Economia, promovido há pouquíssimos dias, está inserido na lista de denunciados na operação, embora ele já se tenha defendido, explicando que suas atividades se cumpriram como membro do conselho do Funcef e em consonância com a lei. Mesmo assim, terá de provar que sua atuação foi rigorosamente legal. Em administração pública não basta ser honesto. É preciso prová-lo.

Ainda no final de dezembro, o ministro Dias Toffoli, presidente do STF, impediu que o governo de Minas Gerais sofresse um rombo de R$ 78 milhões em suas contas. Restrições teriam sido impostas a MG em razão do descumprimento do mínimo de 12% do orçamento em saúde em 2018, como fixado na Carta Magna.

São fatos e circunstâncias de que o público na maioria das vezes, sequer tem conhecimento.





84454
Por Manoel Hygino - 9/1/2020 08:26:23
Nos tempos do Coronel

Manoel Hygino

O Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, de que é presidente o escritor Ronaldo Poletti, lançou no final do ano que ficou para trás, mais uma edição – a nona – de sua Revista, de que é editor o padre José Carlos Brandi Aleixo. Presentes em suas páginas, como não poderia deixar de ser, mineiros que têm expressiva atuação nas atividades culturais em Brasília, inclusive o próprio Sacerdote, também membro da Academia Mineira de Letras, filho do grande brasileiro Pedro Aleixo, cuja biografia a nação bem conhece.

Comparece na edição outro mineiro: Ronaldo Costa Couto, que integra o sodalício, ocupando a cadeira número 128, patroneado por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Na Mineira de Letras, de que é também titular, a sua cadeira é a 16, cujo patrono é Paula Cândido e fundador Diogo de Vasconcelos.

Profundo conhecedor dos meandros da política e da administração pública, além de escritor de reconhecida competência, com ênfase da história, Ronaldo evoca em artigo o coronel Afonso Heliodoro, da PM de Minas, que esteve anos ao lado de Juscelino, seu conterrâneo e amigo desde os velhos tempos do Tijuco.

O articulista volta a 2010, no Lago Sul, Brasília, casa de Afonso Heliodoro, quando alguém perguntou quem era JK. O coronel respondeu: “Um extraterrestre que veio do futuro. Ele acordou, alegrou, mudou e modernizou o Brasil. Fez o brasileiro ter orgulho do país”.

As relações de JK com Afonso Heliodoro dos Santos, que viveu 102 anos e encerrou seu roteiro num condomínio junto à capital mineira, são também contadas na Revista do sodalício, de que o coronel foi presidente. Costa Couto relata: “amigo íntimo da família Kubitschek, viveu muitos momentos pitorescos, alguns hilários. Gostava de contar uma passagem da visita do presidente Getúlio Vargas a Belo Horizonte”. Eis o que se publica: “quando Sara Kubtischek soube que a primeira dama Darcy Vargas gostava de ouvir anedotas, chamou Afonso: “coronel, vou oferecer um chá às cinco horas lá no Palácio da Liberdade. Reunir senhoras da nata da sociedade em torno de dona Darcy. Quero muita alegria! Ela adora ouvir piadas. Você poderia trazer o Thales? O Juscelino me disse que ele é o melhor contador de piadas que temos”.

Afonso: “tudo bem, dona Sarah. Mas se ele tiver bebido, acho melhor pensarmos em outra pessoa”. Ela, incisiva: “que nada, Afonso! Traga ele de qualquer jeito”!”.

O tempo era curto. Foi direto à casa do amigo Thales da Rocha Viana, sujeito bom e espirituoso, divertido e irreverente. Amava uísque e livros. De JK: “um boêmio adorável”. Ele tinha tomado todas. Não queria ir. Só consentiu depois de muita insistência.

Comprido, magro, meio desajeitado, conseguiu equilibrar-se para vestir um surrado terno cinza amarfanhado, cheiro de naftalina, de mangas muito curtas, os punhos da camisa branca para fora. Só precisou de ajuda para botar uma velha gravata vermelha. Chegaram exatamente às cinco.

Muita gente, muitas luzes, muita cor e movimento, discrição. Clima de respeito e reverência à primeira dama do Brasil. Formou-se uma roda. Sarah: “dona Darcy, amigas, este é o Thales, nosso maior contador de anedotas”. E ele: “só de bunda sei 59”.


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Por Manoel Hygino - 8/1/2020 09:57:10
Um fantasma solto

Manoel Hygino

Ao fazer resenha da produção literária de Valdir de Aquino Ximenes, nascido em Fortaleza, formado em medicina e residente em Brasília, o escritor Anderson Braga Horta, em excelente artigo, pergunta: “médico romancista? Engenheiro poeta? – Ainda haverá quem estranhe. Pensar-se-á que o profissional de áreas de conhecimento embasadas antes em ciências ou tecnologias não se dá ao desfrute de escrever poemas ou histórias inventadas, ou não tem jeito para o negócio”.

Anderson lembra os engenheiros calculistas Joaquim Cardozo e Samuel Rawet, destaques nacionais na poesia e no conto. O primeiro conheci em Belo Horizonte, ele – o grande responsável pelos complicados cálculos das criações de Niemeyer, depois do trágico desabamento do Pavilhão de Exposições, na Gameleira, que deixou um saldo de dezenas de mortos e feridos.

A propósito, cabe registrar que Clauder Arcanjo, autor de “O Fantasma de Licânia”, nascido em Santana do Acaraú, Ceará, é graduado em Engenharia Civil pela Universidade daquele Estado, a quem se devem elogiados livros de poemas, contos e crônicas.

Um polivalente vitorioso, o Clauder, produtor e apresentador do programa Pedagogia de Gestão pela tevê a cabo de Mossoró, membro de um punhado de prestigiadas Academias de Letras e de pesquisas Brasil afora, vencedor do Prêmio Geir Campos, da União Brasileira de Escritores. Não se esquecerá de que é também diretor-executivo da Sarau de Letras, revista e editora, crescentemente ganhando espaço no país por sua qualidade.
Sânzio Azevedo, nome nacional, da Academia Cearense de Letras, na orelha do livro mais recente de Clauder, observa que Licânia, município do Estado, era calma até que apareceu por lá um fantasma, que passou a incomodar até o Padre Araqueto, o vigário.

Ítalo Gurgel, o prefaciador, do Instituto Cultural do Oeste Potiguar e da Academia Cearense de Língua Portuguesa, tece elogios ao livro, mas quanto ao seu desfecho, acha melhor que o leitor vá ao final, até porque o autor advertira já no início – Licânia tem um único e mísero fantasma. E o fantasma furtou ou abduziu a jumenta, que gerou todo o escarcéu.

A pequena cidade chegou praticamente a parar a sua atividade. Os apelos do vigário em nada resultaram, contratou-se um grande investigador, formou-se um batalhão de adolescentes para descobrir o ser que levava o desassossego às noites. O Sherlock Holmes e seus comandados em ação incessante. Nada de resultado positivo.

Esta a história (?) desenvolvida por Clauder Arcanjo que, como redator, introduzia-se no texto, explicava-se, dava palpites, assumia compromissos com o leitor.

O prefeito de Licânia confessa estar em ponto de decretar calamidade pública. Até os negócios nos botecos caíram a níveis nunca vistos e as meretrizes decidiram por férias coletivas. O investigador contratado argumentava ter aprendido com grandes mestres da investigação que o segredo e a discrição são a alma do negócio. A descrição das ações é feita em minúcias.

O romancista comparece: “o mundo dos fantasmas em Licânia se resumia a um único (e mísero) fantasma; e permanecerá enfiado nas brumas do mistério. Deixo para a posteridade este cadinho de enigma”.

Quem quiser participar deve recorrer ao romance.



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Por Manoel Hygino - 7/1/2020 09:50:47
Mundo, cruel mundo

Manoel Hygino

Graças a esforços sempre renovados de alguém, o mundo se vê possivelmente às vésperas de mais um novo e grande conflito. O presidente dos Estados Unidos tem sido coerente com suas ideias e insiste. Procurando, com denodo, adversários à altura de Tio Sam e de sua voracidade de poder.

Nestes anos transcorridos na Casa Branca, Trump se esmera em buscar contendores para sua desmesurada ambição. Não se satisfaz com desentendimentos com os países do Novo Mundo, porque frágeis e pobres. A fronteira de milhares de quilômetros com os mexicanos, pedindo ajuda ao outro lado, não o satisfaz. Quer ingressar nas páginas da História como um mandatário de alto nível, isto é, capaz de grandes façanhas.

Não se ilude com aventuras como as das Ilhas Falkland, as Malvinas, que pode servir ao Reino Unido, a Boris Johnson, talvez. Mas, para a mais poderosa nação do mundo, há necessidade de algo mais expressivo. Ninharias à parte.

Experimentou uma briga com a Coreia do Norte, mas não deu certo. Ficou-se em uma guerra de palavras, de troca de ameaças. Além do mais, o presidente do outro lado do mundo não parece bom da cabeça. Melhor esperar. Com a China, sabe-se, não é bom negócio, principalmente se conhecendo que lá se encontra a maior população de um país neste planeta. Devagar com a louça.

Procura adversários mais por perto. O Oriente Médio seria bom prato. Tem feito experiências para enfrentar o ocidente com relativo sucesso. Além do mais, mantém-se aceso o argumento do petróleo. Do lado de cá, a cena com a Venezuela está montada e o espetáculo bélico pode começar a qualquer instante, mas é algo extremamente perigoso. Um vespeiro.

Do lado Leste do Mediterrâneo, como sempre ao longo da História, serve para uma proeza, que poderá levar o presidente honroso ao registro por futuras gerações. Se serviu para resolver problemas que contribuíram para a Primeira e a Segunda Grande Guerras, pode novamente prestar-se a embrião e anfiteatro de conflitos outros.

A hora chegou: o assassinato do maior líder militar e da inteligência do Irã, o general Qassim Soleimani, proporcionaria a ocasião de definir quem é quem naquela região turbulenta do planeta.

O primeiro passo se deu. Uma ação militar comandada desde Washington, com equipamentos modernos como um fantástico drone de 11 milhões de dólares, deu o sinal da partida. Soleimani foi liquidado, mas apenas ele. O que virá em seguida parece não interessar ao titular da Casa Branca. Os Estados Unidos já se mobilizaram para o campo de batalha e enviaram reforço às tropas lá aquarteladas.

Para Huascar Terra do Vale, o homem é o animal mais cruel e sanguinário na superfície do planeta Terra. A História é uma sequência de invasões, chacinas, assassinatos, torturas, roubos, escravidão.

Certa vez, Calígula mandou prender a maior parte de seres supostos inimigos de Roma e furou-lhes os olhos. E fez mais. Nero. Em suas bacanais, amarrava cristãos a postes, besuntava-os com óleo e resina e punha fogo. Na tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, Maomé II, com 200 mil soldados, atacou a cidade, matando cerca de dez mil soldados, que foram trucidados.

Assim começou a Idade Moderna. O homem não evoluiu como se desejaria.




84443
Por Manoel Hygino - 4/1/2020 07:59:35
AL e as mudanças

Manoel Hygino

A América Latina em conflito. Mais uma vez. São séculos de revoltas e muitos milhares de mortos e prisioneiros. Há turbulências social, política e econômica. Como antes. Na Venezuela, rica em petróleo, luta-se contra a opressão do ditador Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, por não querer deixar o governo. Há fome, suor, lágrimas, sangue, faltam medicamentos.

Na Colômbia, repetem-se os panelaços em Medellín, ato batizado de “cacerolazo latino-americano”, contra a gestão do presidente Juan Duque. Na Bolívia, as ruas se enfrentam, mesmo depois da deposição de Evo Morales, acusado de fraudar o resultado das urnas, que o levaria ao quarto mandato. No Equador, sacudido por manifestações populares contra o preço dos combustíveis, milhares enfrentam a polícia.

No Chile, o presidente Piñera não consegue pacificar o país, mesmo após o anúncio de uma eleição presidencial ainda neste primeiro semestre. O poeta Pablo Neruda, que trabalhou para o Ministério do Exterior de sua pátria, inteiramente de esquerda, Prêmio Nobel, defensor do comunismo, senador, declarou certa vez:

“A América Latina gosta muito da palavra ‘esperança’. Agrada-nos que nos chamem ‘continente da esperança’. Os candidatos a deputados, a senadores, a presidentes se autoproclamam candidatos da esperança. Na realidade, esta esperança é algo assim como o céu prometido, uma promessa de recompensa cujo cumprimento se adia. Adia-se para o próximo período legislativo, para o próximo ano ou para o próximo século”.

O Palácio de La Moneda já foi chefiado pelo comunista Allende. Como o ditador Augusto Pinochet, deixou as marcas de sua ação. E o Chile segue esperando “Um dia mais. Um ano mais. Um lustro mais. Nossa esperança não foi decapitada. Nem será decapitada”, como proclamou Neruda, há muito não aparece mais nas páginas dos jornais e nos comícios. Simplesmente morreu.

O poeta confessava compreender naturalmente que as revoluções e, especialmente seus homens, caíam de vez em quando no erro e na injustiça. Dizia: ninguém pode escapar a equívocos. Reconhece os erros da esquerda, que cantava a Internacional em Santiago. E o vate surge dos escombros para advertir: “É preciso falar mais do espírito... Exaltar mais o mundo livre/ e para que serve Cristo?”.

Para terminar: “enquanto isso, sobem os homens pelo sistema solar... Deixam pegadas de sapatos na lua... Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas. A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... Teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito florescer a mudança... Caramba!... A primavera é inexorável!”.


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Por Manoel Hygino - 3/1/2020 08:43:03
O ano é novo

Manoel Hygino

O ano é novo, pelo menos no calendário. Estamos no 2020 da era cristã, que nos dá oportunidade de corrigir erros do passado e de trilhar o bom caminho. E este existe. Repito aqui trechos de um artigo do desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Rogério Medeiros Garcia de Lima, publicado no agonizante 2019:

“Há mais de duas décadas o Brasil foi transformado em um lodaçal, a corrupção alastrou-se na vida pública. Políticos, autoridades e servidores do Legislativo, Executivo e Judiciário, no âmbito da União, Estado e municípios, foram flagrados em práticas da improbidade administrativa”.

Não é novidade, sequer estigma que atinge apenas o Brasil. Os que aqui vivemos, sabemos e conhecemos onde estão os corruptos, quem são eles, os cargos que ocupam ou ocuparam, como atuaram. E a imprensa, tão criticada, até vilipendiada, exatamente por relatar publicamente os fatos, é acusada por fazê-lo.

A história aí se revela, não é estática, é dialética, e os tempos sombrios também passam. Mas voltam. O escritor, já falecido, Emanuel Medeiros Vieira, perguntava: “o que está por detrás disso? É o que em latim se chama “Auri Sacra Fames”, Fome de Dinheiro”.

Falta ética, um dos substantivos mais utilizados em nosso tempo, inclusive no Brasil. Medeiros evoca o saudoso político e jurista Franco Montoro, cidadão íntegro, que cheguei a conhecer pessoalmente. Ele se impressionava com o número de publicações sobre ética nos anos de 1990.

Tratava-se de ética na política, no direito, na indústria, no comércio, na administração, na Justiça, nos negócios, no esporte, na ciência, na economia e na comunicação. Simultaneamente se promoviam movimentos populares ou associativos, reivindicando ética na vida pública, na vida social e no comportamento pessoal. No entanto, tiveram resultado desalentador e, muitas vezes, trágico. Cumpre, pois, meditar sobre o tema, como repetidamente proclamo.

Aproxima-se o pleito municipal, uma nova oportunidade de mostrarmos o que somos e o que desejamos na política, sobretudo depois de sucessivos desencantos e até crimes. É uma nova ocasião para nos redimirmos e deixarmos um exemplo para as próximas gerações.

Comentando a fase ora vivida, o desembargador acrescentava, em artigo: muitos dos que xingam os corruptos são os mesmos que elegem políticos almejando benesses pessoais.

A cultura do descompromisso com o Brasil se acentuou deliberadamente nas últimas décadas. Mas, não seria esta a hora propícia para mudar? Afinal, é ano novo. E o que é novo geralmente nasce limpo e puro, ainda que a délivrance seja numa manjedoura, como aconteceu com Jesus, filho de Maria, em Belém de Judá, há dois mil anos. Aprender é bom e salutar.




84437
Por Manoel Hygino - 31/12/2019 08:38:56
Voltando no tempo

Manoel Hygino

O Natal 2019 passou, mas deixou registros inapagáveis em cada ser humano que o viveu, sobretudo entre os cristãos. Em sua tradicional homilia, além da bênção Urbi et Ortbis, no Vaticano, o papa Francisco enfatizou a importância do amor incondicional diante da lógica do mercado. Em missa na Basílica de São Pedro, o pontífice, argentino de nacionalidade, Jorge Bergloglio, apelou à paz entre as nações, pedindo especificamente pelos países latino-americanos, que passam “por um período de agitação social e política”.

A missa de Natal celebra o nascimento de Jesus, em Belém, segundo a tradição cristã. Embora nenhum texto do Novo Testamento indique o dia e a hora, sua comemoração se faz em 25 de dezembro, como escolhido no século 4, o que permitiu a circuncisão no dia 1º de janeiro. A comunidade cristã permanece assim no âmbito de acontecimentos milenares.

Geoffrey Blainey, autor de obras consagradas como “Uma breve História do Mundo” e “Uma breve História da Cristianismo”, brilhante estudioso e já consagrado, professor de Harvard, faz algumas observações, adequadas ao tempo de agora. Ele pergunta: Afinal, quem foi Jesus? Um mito ou um homem de infinita sabedoria? Qual a origem dos Evangelhos e o que se sabe a respeito daqueles que os teriam redigido? Que fatos levaram o cristianismo ao redor do mundo?

Recorda o autor, por exemplo, que Jesus em quase todos os seus ensinamentos usava uma língua semítica, o aramaico, ainda empregado presentemente em várias regiões do Oriente Médio. Ele falava um pouco de hebraico e um pouco de grego, mas o aramaico era o natural. Assim, a palavra “abba”, que significa “pai” e empregada por Jesus quando orava no Jardim de Getsêmani, é do aramaico, como aconteceu durante a crucificação, embora o idioma fosse pouco usado pelos grupos cristãos fundados nas primeiras décadas após sua morte. A maior parte das primeiras igrejas cristãs da Palestina se valia do hebraico, principal língua dos judeus. Mas os judeus cristãos que se reuniam fora dali utilizavam o grego, a principal na metade oriental do Império Romano. Os quatro Evangelhos, que compreendem a essência do Novo Testamento, foram escritos em grego.

Assim, Jesus e Bíblia são gregos, como o é “anjo”, significando mensageiro. Depois da morte de Cristo, os doze apóstolos receberam o nome, também grego, de “apóstolos”; bispo quer dizer “inspetor” e eucaristia “Ação de Graças”; “Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa”. Até hoje, ouve-se a oração “Senhor, tem piedade” na versão grega – “Kyrie eleison”.

Em Roma, a língua dos primeiros cristãos era o grego. Vitor, um norte-africano morto em 198, foi o primeiro papa a abandonar o grego e escrever em latim. Perpétua, morta no Norte da África, em 203, foi talvez a primeira cristã a escrever em latim, que acabou por ser o idioma dos cristãos ocidentais.

E há muito mais. O mais antigo registro feito por um dos primeiros cristãos é uma carta de poucas linhas, escrita por Paulo – a Primeira Epístola dos Tessalônicos, encontrada em torno de vinte anos depois da morte de Jesus.


84433
Por Manoel Hygino - 30/12/2019 08:06:39
Apagando as luzes

Manoel Hygino

Notícia boa para dezembro, que os jornais publicaram em manchete: mercado formal de trabalho criou, em novembro, mais de 99,2 mil vagas. É o melhor resultado em geração de empregos em nove anos. Agora restam pouco mais de 12 milhões sem trabalho....Gugu Liberato, o apresentador de tevê, recentemente falecido, doou os órgãos possíveis de seu corpo a expressivo número de pessoas. Rose, médica, a companheira de quase duas décadas, mãe dos três filhos do casal, não foi contemplada na herança. O inventário corre em segredo de Justiça, mas ela não foi casada oficialmente, nem lembrada em testamento de 2011. Não havendo relação estável...

Em 11 de novembro, o presidente da República editou Medida Provisória que extinguiu o Dpvat, seguro obrigatório sobre veículos, existente desde 1974. Em sessão virtual, o Supremo Tribunal Federal suspendeu a medida. Lewandovski, Gilmar e Celso de Melo não apoiaram o relatório de Edson Fachin.

O impostômetro da Associação Comercial de São Paulo chegou à marca de R$ 2,4 trilhões de impostos pagos pelos brasileiros (ou não) em 2019.

Considerado até o último dia de 2018, o valor pago agora chegou 13 dias antes do ano findo. No dia 17 de dezembro, o Congresso Nacional aprovou o Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões, visando às eleições municipais de 2020.

Ainda dezembro: Polícia Civil, Ministério Público e Polícia Militar fizeram operação nas sedes da Máfia Azul e Pavilhão Independente, torcidas do Cruzeiro. Apuraram-se crimes de tentativa de homicídio, associação criminosa, lesão corporal e provocação de tumulto. O trabalho se estendeu a Contagem, Betim, Vespasiano, Ribeirão das Neves, Barão de Cocais e Monlevade. Esporte?

Polícia do Rio de Janeiro às voltas com as investigações sobre atentado às instalações da produtora do Canal Porta dos Fundos, que se diz de humor. Terrorismo? A hipótese é amplamente negada. Contra o imóvel foram atirados coquetéis molotov por agentes mascarados que usaram moto e carro. A ação foi pela porta da frente ou dos fundos?

A Petrobras em ação. Aumentou o preço de gás doméstico ou industrial em 5% em outubro, 4% em novembro e mais 5% em dezembro. Aquecer a comidinha de fim de ano fica mais caro.

A advogada Janaina Paschoal, de destacada atuação no julgamento do impedimento da ex-presidente Dilma, agora deputada estadual em São Paulo, comenta: “já na campanha, identifiquei que o presidente é um líder do conflito. Ele só sabe liderar no conflito”.

O ano passou e a tese de encarceramento de réus após condenação em segunda instância ficou como antes. Por 6 a 5, o Supremo alterou o entendimento até então mantido de que a prisão poderia ocorrer antes do fim do processo. O ex-presidente do STF Carlos Velloso não aprovaria: porque a decisão do Tribunal nutre “a corrupção endêmica, esse conflito adúltero entre poder econômico corrompido e poder político corrompido”.

Fica para depois a criação do cargo de juízes para instrução. Bola na rede pelo lado de fora.


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Por Manoel Hygino - 27/12/2019 09:48:55

Aventura de viver

Manoel Hygino

O dia de Natal é muito especialmente significativo para o mundo, mesmo o não cristão. Vê-se que, em todas as nações praticamente, faz-se uma pausa para festejar a esperança de dias melhores, de mais amor e paz. Mas também serve para que se extraiam lembranças e meditações sobre os anos já vividos, nem só de alegria e êxitos.

Ao receber o livro de Palmyra Santos Oliveira (Montes Claros, Porteirinha e outros amores meus...) não esperava um reencontro tão caloroso com a cidade em que nasci e com meditação tão afetiva, como aconteceu. A autora, conterrânea, que passou um período tão longo já transcorrido nas duas cidades, estudou na maior delas, ali fez o curso normal e outros, foi professora e diretora de escola e se dá ao prazeroso luxo de recordar – que é viver de novo.

No entanto, o volume tem muito mais conteúdo do que se poderia pensar, além de fotografias, que diria históricas, embora despretensiosas. Até a do Cine Montes Claros, da minha infância. Lá por 1926, José Gomes de Oliveira, irmão da autora, quis assistir a um filme, é claro. O proprietário do estabelecimento não o permitiu, porque o pretenso espectador tinha apenas 10 anos. O pai da criança não titubeou: associou-se a Aristides Lucrécio, seu amigo, abriram uma firma, adquiriram o cinema e, logo, para a estreia, a meninada pôde ver uma “fita”, sem restrições; uma noite, houve distribuição de brindes, como caixas de pó de arroz, brincos e anéis. Cinema mudo, instrumentistas acompanhavam o enredo com músicas românticas, nos filmes de amor, e nas cenas de tiroteio, com melodias mais rápidas.

Pelo que se observa, atravessava-se época mais amável, embora haja registros de assassinatos nas ruas. Meros registros, porque o mais trágico ficou para descrição de outros escritores.

A dinâmica D. Palmyra foi-se adaptando aos novos dias e se inserindo em novas atividades na Academia Feminina de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, para gáudio dos confrades e confreiras. Na abertura de seu livro, ela o dedica “aos meus onze filhos, que criei com muito amor e, por causa dos trabalhos, não os acariciei tanto como queria”.

O marido tinha um caminhão que ele próprio fabricara, usando peças de dois anteriores, já imprestáveis. A família cumpria, como de costume, a romaria até à cidade a Bom Jesus da Lapa, já na Bahia. Uma aventura sem tamanho, e se considerar a estrada de terra, em más condições. Os romeiros iam na carroceria, com bancadas de madeira. “Para não tomar muito sol durante a viagem, as pessoas usavam chapéus de palha de aba larga. Parávamos para fazer o almoço e, à tarde, onde parávamos para fazer o jantar, já era no lugar da pousada para dormir. Carregávamos os utensílios de cozinha, comestíveis, paçoca de carne de sol, roupas de cama, colchões, esteiras, travesseiros etc. As vezes dormíamos duas noites na estrada. Uma das vezes chegamos à Lapa e meu marido, muito cansado, alugou uma casa com muitos quartos. Ficamos na sala e ele queria dormir, mas D. Etelvina em um quarto e o Sr. Zeferino Teixeira em outro não paravam de conversar, embora meu marido pedisse silêncio. Como eles não paravam a conversa, Iozinho levantou e disse: “eu não posso dormir, porque vocês não param de conversar. Vamos embora!”.

D. Palmyra completa 100 anos em 2 de abril de 2020. Será uma festa.


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Por Manoel Hygino - 23/12/2019 13:59:10

A fisionomia de Jesus

Manoel Hygino

O Natal é muito próprio para indagações de toda espécie sobre o protagonista maior do cristianismo. Pretendera eu rabiscar algumas informações sobre o nascimento de Jesus, o lugar em que começou a vida terrena, mas achei que o tema deveria servir a milhares de cronistas Brasil afora, sendo perfeitamente dispensável o que eu poderia produzir.
Decidi datilografar algumas linhas sobre a sua fisionomia, tão variada na imensa criação de pintores ocidentais. Todos certamente gostariam de conhecer como era o rosto de Jesus, já que em sua época não havia fotógrafos ou fotografia.
Recorri, mais uma vez, ao confrade na Academia Mineira de Letras, Pedro Rogério Moreira, que se propôs focalizar outros aspectos da vida do menino de Belém, além do que fizera sobre aquelas terras, pessoas e episódios, em “O livro de curiosidades da Bíblia”. Ele admite problemas, mas registrou:
“Fisionomia do mestre: Difícil de recompô-la. Os evangelistas que conheceram Jesus (Mateus, Marcos e João) não deixaram uma descrição das feições do Mestre. Tampouco São Pedro, que era o chefe dos apóstolos, nada mencionou em suas Epístolas”.
E houve históricos empecilhos: Como a Ortodoxia judaica proibia toda e qualquer representação de seres vivos, com receio de idolatria, nenhum de seus contemporâneos ousou o campo artístico para fixar a figura de Jesus.
Conta Pedro Rogério: “Os partidários da beleza fisionômica de Jesus se basearam na profecia atribuída a Salomão, que diz: Sois belo, o mais belo dos filhos dos homens (Salmos 44.3). Aqueles que diziam que Jesus era feio se fundamentaram em outra profecia: Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida/não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares/e seu aspecto não podia seduzir-nos (Isaías 53.2).
O tempo se encarregou de dar a aparência que atualmente dele se tem. Só a partir dos séculos II – III apareceram pinturas do rosto de Jesus, baseadas não em dados históricos, mas idealizadas por seus criadores (Vida de Cristo, de Raciotti, p.181 e seguintes). A iconografia consagra Jesus de cabelos compridos. Mas o apóstolo Paulo criticou assiduamente essa moda, o que pode levar o leitor a crer que Jesus usava cabelos curtos (I Coríntios 11.14).
O mais importante, o fundamental, é que cada cristão tenha do Mestre a impressão herdada de velhas gerações depois de sacrifício no Gólgota. Predomina o sentimento sobre suportar a dor e todo martírio, porque assim era a vontade de Deus. Contra ela não se rebelava ou se insurgia, porque consciente de que cumpria a vontade do Pai, mais alta e divina, viera para cumprir destinação elevada e sublime, que exigia sangue e suor, e da qual não poderia esquivar-se ou afastar-se.
De um modo geral, os gênios da pintura ocidental souberam captar este sentimento sublime de submissão à vontade superior.


84423
Por Manoel Hygino - 21/12/2019 09:56:51
O poeta maior

Manoel Hygino

Antes que 2019 desabasse no precipício do calendário, aconteceu o que não esperava este redator de temas múltiplos. Editou-se, em Brasília, “Camões”, uma antologia do maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, iniciativa da Thesaurus e de Victor Alegria, proprietário da empresa, para os que por aqui tenham amor à “última flor do Lácio”, como Bilac classificou a língua que falamos.

Anderson Braga Horta, organizador da Antologia, é mineiro de Carangola. Filho de pais poetas (o genitor fora ali juiz da comarca), enuncia na introdução simpáticos pormenores da vida do poeta. Grande amoroso e “gente de guerra”, teve Camões vida fantasticamente aventurosa. Lutou na África e Ásia: perdeu uma vista em batalha; esteve preso diversas vezes, constando que numa das celas por que passou compôs o seu poema.

Submetido às críticas, que não deixam em sossego mesmo os gênios, Camões passou a ser o que é e o que representa, apesar da omissão dos que preferem o entretenimento fácil e falaz. Mas se há de convir com Anderson: “releva assinalar que é considerado o fixador da língua portuguesa”, moldada em verso e prosa por sucessivas gerações; vencendo os séculos, o vate ajudou a consolidá-la, sendo o clássico por excelência, no dizer do próprio poeta carangolense, escritor de vasta cultura.

Em tempos não remotos, aprender Camões e apreciar a beleza e grandeza de sua obra era algo obrigatório, impostergável. Ai daquele que nos vestibulares se apresentasse às bancas examinadoras sem o imprescindível conhecimento! Ele era tão relevante quanto a sua obra, esta uma síntese da história de Portugal. Ainda bem que é assim, porque nos liga intimamente à gente que, na península ibérica, construíra sua pátria e a língua transmitida a demais continentes e que, mutatis mutandis, é a que falamos.

O escritor de Carangola observa, com muita propriedade: “a língua e a poesia de Camões constituem uma força de coesão, fonte prima a que subamos com frequência para nos protegermos das forças de dispersão – que são muitas, que são insidiosas, que são de algum modo naturais num mundo que explode em crescimento demográfico e tecnológico, em convergências e desarmonias”.

Mas Anderson adverte, e nós o seguimos integralmente: “hoje, o que nos preocupa são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir”.


84419
Por Manoel Hygino - 20/12/2019 08:56:13
Investigação sem fim

Manoel Hygino

Os fatos cotidianos dão o que pensar. Em meados deste mês, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, com apoio de policiais militares, cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão contra a maioria dos vereadores de uma das mais prósperas cidades mineiras. O presidente da Câmara era um dos investigados por suspeita de participação em um esquema que desviava recursos de verba indenizatória a que os vereadores têm direito para custear a atividade parlamentar. Também se investigava a possível ação fraudulenta na contratação de empresa para prestar serviço de vigilância à edilidade.

Ora, se o episódio se deu numa cidade das dimensões de Uberlândia, uma das maiores de Minas, com arrecadação expressiva no contexto dos municípios do Estado, imagine-se o que ocorreria com as menores, com reduzido poder de reação da população e de que, geralmente, não partem, por motivos compreensíveis, demandas ao Ministério Público.

O problema é que, ao contrário do que imagina o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, não foi a “Lava Jato” que destruiu empresas no país, como a Odebrecht. Em verdade, não são os organismos investigadores que arruínam os que abusam da corrupção nos negócios com a administração pública, porque aqueles já se tinham estigmatizado por origem.

Corrupção não é privilégio brasileiro, cabendo-nos estirpá-la de nossos costumes, mesmo admitindo com Cícero que “consuetudo est quasi altera natura”.

Não é hora de blasfemar por ações da Lava Jato, operação que ainda não terminou e que, pelo contrário, deveria ser estimulada a permanente atuação para expurgar a corrupção de nosso meio. Ainda esta semana, a força-tarefa do Paraná apontou para um novo rombo. Agora é o caso de pagamento de pelo menos US$ 3.402 milhões em propinas, em contratos celebrados entre a Petrobras e a Maersk para locação de navios.

As informações são de que a empresa dinamarquesa foi um – prestem atenção – dos alvos da setuagésima etapa desencadeada pela Lava Jato. Setuagésima, repito. E, como de vezes anteriores, visando apurar casos de organização criminosa e lavagem de dinheiro, vinculadas a fretamento de embarcações.

Nada escapou à voracidade dos criminosos durante longo tempo. A operação de agora, como divulgado, é de número setenta e, evidentemente, há muitíssimo mais a investigar. Ninguém tem dúvida a respeito. Inúmeros dilapidadores do dinheiro e dos bens públicos ainda têm de prestar contas de seus atos, a despeito do interesse de muitos maus brasileiros, que prefeririam ver sepultados os projetos e planos da Lava Jato. Terão de esperar.

O mexicano Jorge Castañeda, já bem conhecido, critica as esquerdas do continente por crises econômicas, promessas não cumpridas e graves casos de corrupção, achando que quanto ao último item era questão para as elites latino-americanas. Conclui: “Não é verdade. Corrupção é algo tão enraizado no continente que somos todos vulneráveis”.


84414
Por Manoel Hygino - 17/12/2019 09:00:31
Perguntas sem respostas

Manoel Hygino

Este é o momento de as pessoas, as famílias, os detentores de algum tipo de poder, os ocupantes dos pequenos cargos e as autoridades mais altas nas diversas esferas da administração pública fazerem o balanço do que fizeram no ano que finda e programar o que falta para o que chega. É a ocasião de balanço – sincero, isento, íntimo. Será que fizemos tudo o que podíamos e devíamos? Omitimo-nos, perdemo-nos no caminho e fomos levados a desvios? E o que nos permitiu em êxitos? É uma prestação de contas, um exame de consciência.

Em torno de nós – os fatos, como são: duros, cruéis às vezes, mas fundamentais aos julgamentos, auxiliando na tomada de posições e definições para o ano que logo terá início. Não é bom alvitre tentar enganar os outros e a si mesmo. Pecado imperdoável!

Em primeiro lugar, porque se sabe perfeitamente que mais ficamos devendo do que conseguimos concretizar. E o ser humano nunca se satisfaz; quer e, seguidamente, precisa de mais e, ainda, mais crescem suas expectativas.

Nosso time foi mal no campeonato, as crianças não tiveram bons resultados na escola – seja no primário, seja na universidade, os débitos bancários se elevaram, não pagamos como desejado os compromissos... e ainda há gente doente em casa precisando de atenção médica e, talvez, do atendimento hospitalar? E há, ainda, os tributos a serem quitados, mesmo que o poder público não corresponda com eficiência a nossos pedidos e reivindicações.

Num espectro mais amplo, constatamos que o entorno rodoviário de Belo Horizonte permanece um matadouro de pessoas, sem que se tomem providências, embora prometidas. O metrô não foi ampliado como necessário e anunciado pelas autoridades competentes. Põem-se em dúvida a competência, ou que se chama “vontade política”... pois o de Caracas, na sofrida Venezuela, foi parcialmente financiado pelo Brasil.

Nem desejaria falar na BR-381, a sempre lembrada Rodovia da Morte. Promessas se fazem, são renovadas por outros protagonistas da história mais recente da República.

A importante rodovia fica no mesmo. Não é tanto. Poder-se-ia perguntar: quantos metros foram realmente construídos durante o calendário, enquanto aumentavam quilometricamente as notícias sobre corrupção nesta nação abençoada por Deus. E se não fosse?

Lembro: em maio de 2014 – decorridos mais de cinco anos – a presidente Dilma Rousseff assinou ordem de serviço para duplicação dos 330 quilômetros da 381, entre a capital e Governador Valadares. Não funcionou. A rodovia inconclusa soma as estatísticas de acidentes e aumenta o número de vítimas. Para 2020 faltam dias.

Não posso terminar sem referir-me à indefinição da prisão de condenados em segunda instância. Quanto já pagou o poder público, isto é, o contribuinte brasileiro para manter o debate aceso? Mais de duzentas nações aprovam a prisão em primeira e segunda instâncias. Ficamos entre os que não querem decidir e todo o mundo sabe o porquê. Pergunta-se como Cícero: Quosque tandem? Até quando?


84412
Por Manoel Hygino - 15/12/2019 11:48:13
Gente que escreve

Manoel Hygino

Montes Claros, ponto de passagem dos que, procedentes do Nordeste, procuravam melhor sorte no que chamam de Sul, transformou-se no grande polo econômico de vasta região de Minas e no limite da Bahia para cima.

Minas Gerais, liderando vários ramos de atividades econômicas, não ficou nisso, pois se orgulha de sua cultura e arte, contando com prestigiosas entidades de cultivo do mais belo que há em termos de sentimentos e pensamentos.

Nela, há atuantes o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, o Instituto Histórico e Cultural das Polícias Civis, a Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas, a Academia Montes-clarense de Letras, a Academia Feminina de Letras, a Academia de Ciências, Letras e Artes do São Francisco, a Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, o Grupo das Amigas da Cultura e o Grupo da Confraria de Prosa.

Em matéria para a revista Memória CULT, em novembro, eu ressaltava que a cidade sempre cresceu e buscou aperfeiçoar-se, enfrentando notórias adversidades. Hoje, lá existem universidades, institutos de educação técnica, emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas, sendo berço de figuras importantes das artes, da cultura e nas atividades políticas e sociais. Não esquecer a editora Millennium do Dário Teixeira Cotrim, polivalente e vitorioso em seus projetos, conquistando espaço desde que chegado de Guanambi (BA).

Deste modo, torna-se a este cronista fácil alinhavar o presente texto. Por oportuno, lembro que, este ano, Waldir de Pinho Veloso, professor universitário, lançou o “Direito Notarial e Registral: tabelionato de notas”, livro com 554 páginas. Destinou-se aos operadores de Direito, mas também a quantos se preparam para ingressar nesse mundo tão especial. Trabalho técnico, publicado pela Juruá, de Curitiba.

De solo assim tão fecundo, surgem poetas como Dóris Araújo, nascida sob signo de Áries, formada em Letras – Português/Francês -, dedicada ao magistério por mais de 25 anos, que se impregna de poesia e se devota a recitais em seus melhores instantes. Há algo melhor do que isso? Eleva-se quem o faz, e a quem se dá ao prazer de apreciar.

Com vários livros publicados, sempre com boa receptividade, participa das atividades literárias, com a mesma intensidade com que se interessa pela cultura. O escritor Domingos Diniz, que não está mais entre nós, da Comissão Mineira de Folclore, afirmava que Dóris trabalha a palavra à exaustão. Mas ela se obstina na lapidação, pois já traz a matéria-prima dentro de si. E faz a joia.

Dóris sabe das coisas e das pessoas, como registra no novo livro “A poética do olhar”. Assim, escreve sobre “O que é feio”: “É silenciar por omissão/é carregar ódio nas algibeiras/Feio é todo gesto de opressão/é por um nada perder as estribeiras/Feio é a exclusão por preconceito/é descumprir com a obrigação/Feio é negar ao outro um direito/é não saber compartilhar o pão”. Assim por diante.

E há “Jogue Fora: “Jogue fora tudo o que não lhe convém/jogue fora a ira, a revolta, o rancor/Tudo o que for contra a lei do Amor/O que entulha sua Alma de dor/Jogue fora a vaidade desmedida/Não seja uma pessoa ressentida/Jogue fora tudo que não lhe acrescenta/O que seu espírito não pascenta/Jogue fora a indiferença e o desdém/Jogue fora o que não lhe convém/Jogue fora todo ódio e amargura/Tudo o que lhe traz desventura/Jogue fora, para o seu próprio bem/A impaciência, o medo, a ansiedade/O ciúme, a cólera, a hostilidade/Jogue fora a preguiça, a ingratidão/Jogue fora a desenfreada ambição/A avareza, a injustiça, a falta de perdão”.


84408
Por Manoel Hygino - 13/12/2019 08:55:11
Violência sem fim

Manoel Hygino

Para tempo de paz, há muito sangue na mídia. A ideia que se tinha do Brasil habitado por um povo cordial, ameno e alegre, esvaneceu. Depois, Hollywood forjou um país que servia de abrigo a fugitivos da lei nos Estados Unidos e Europa. Fez-se palco de golpes de Estado, transformado finalmente em reino da corrupção.

Neste dezembro, fim de ano, não podemos ignorar as tropelias e violências múltiplas, nos lares e em reuniões públicas. No dia 6, noticiava-se que um filho matara o pai para defender a mãe, ameaçada de facadas, no povoado de Tocandira, no Norte de Minas. O jovem, de 20 anos, atingiu o genitor com pedradas na cabeça, tomou-lhe a arma e o executou. O cinquentão não queria separar-se da mulher, após 21 anos de relacionamento. Deu no que deu.

Em Tombos, Minas também, cidadão de 29, matou com faca o filho, de 8, portador de paralisia cerebral, e a companheira, de 26, ateando fogo nos corpos e ocultando os cadáveres. O argumento de que a criança falecera vítima de convulsões não pegou. O criminoso sofrerá, é o que se espera, longa sentença.

A mídia tem facilidade em captar notícias desse gênero. Assim, menina de 6 anos morreu baleada nas costas pelo irmão em Capitão Enéas, também no norte-mineiro. Os pais estavam em um “evento”, palavra que ganhou significado novo. A arma foi uma cartucheira artesanal de chumbinho e o tiro atingiu a região lombar da vítima. O autor explicou que tentou tomá-la da irmã, quando um disparo acidental resultou em morte.

Em todo o Brasil, repetem-se mortes e agressões a pessoas, de qualquer idade, sem condições de defender-se. Os registros de violência se ampliam por todo o território, embora as estatísticas mostrem redução dos índices. Nem se diga das marcas de hediondez, mesmo em âmbito de família, principalmente as não estruturadas legalmente. Tudo doloroso.

Outro caso bem elucidativo é o das confusões e tumultos no jogo de futebol entre Cruzeiro e Palmeiras, no Mineirão, há poucos dias. Lembre-se de que só havia ali torcidas do clube mineiro, mas a guerra declarada entre elas parecia de inimigos ferozes, ocorrências estendidas posteriormente a toda a capital e Grande BH. Um idoso foi agredido, teve a casa quebrada; coletivos foram depredados; cinco veículos do Move destruídos. O que deveria ser prática esportiva se transformou em batalha campal. No bairro Nova Contagem, uma discussão entre primos terminou com uma residência reduzida a nada e um carro danificado, em um acesso de fúria momentânea de um dos litigantes.

Em São Paulo, maior capital de estado do hemisfério e a mais poderosa do Brasil – a locomotiva que carrega consigo a economia nacional – como antigamente se dizia, deu-se o lastimável e indesejado acontecimento, na madrugada de um domingo, na comunidade de Paraisópolis. Cerca de 5 mil rapazes e moças, preponderantemente com menos de 18 anos, participavam de um baile funk, quando, durante entrevero não suficientemente esclarecido, nove jovens foram mortos, em parte pisoteados. Policiais militares entraram em ação para conter o tumulto e as pessoas foram sumariamente executadas. De quem é a culpa?

O governo paulista afirma que tudo fará para lançar luzes sobre as circunstâncias e responsabilidades do trágico episódio. Por que se mata tanto? Pergunto eu. Será que encontramos resposta no velho soneto de Augusto dos Anjos?: “O homem que nesta terra miserável mora entre as feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. É isto?


84403
Por Manoel Hygino - 10/12/2019 09:23:10
Washington X Brasília

Manoel Hygino

Projetos chineses para exploração de minérios em Minas estão atravancados. Previa-se a produção de 30 milhões de toneladas de ferro por ano a partir de jazidas em Grão Mogol e Padre Carvalho, no Norte do Estado. Afetam-se 21 municípios nas proximidades do limite com a Bahia, mas o Ministério Público Federal e o de Minas questionam a segurança. Seriam utilizadas cinco barragens, duas de rejeitos e três de água. No total, os reservatórios seriam mil vezes maiores do que o empreendimento de Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Em 25 de novembro, um terremoto foi sentido em Congonhas do Campo, às oito e meia da noite. Casas e estruturas tremeram. O Observatório Sismológico de Brasília informou que se tratava de fenômeno de pouca intensidade, com três pontos na escala Richter. A CSN Mineração, que opera na região, esclareceu que o tremor não causou qualquer anomalia.

O abalo letal foi mais longe: seis pessoas morreram e 150 se feriram em terremoto de 6,4 graus, que atingiu a Albânia, no mesmo dia. Edifícios desabaram, deixando pessoas soterradas.

A economia brasileira sim, tremeu, com a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre dólar e AI-5. O câmbio elevou a moeda americana a recorde de R$ 4,24. Pareceriam estranhos os fatos. O Brasil treme quando os terremotos ocorrem, mas não matam, felizmente. Houve um caso, há poucos anos, em Caraíbas, também no nosso sertão, em que morreu uma criança. Uma exceção.

Nos nossos lares, tremem os orçamentos, mesmo com a quota de R$ 500 do Fundo de Garantia, que amenizou a sensação de peso do preço da carne bovina nos açougues. Enquanto alguns importadores da grande república do Norte cortam suas importações do produto brasileiro, a China aumenta as compras. Primeiro, porque houve uma peste suína por lá, obrigando o consumidor a apelar para nossos porquinhos e frangos.

O Departamento de Agricultura do Tio Sam mostra que a produção brasileira de carne bovina supera em 13% a de 2017. Se na China, a doença estigmatiza os preços das carnes, por cá a situação é, por enquanto, suportável, enquanto houver algum saldozinho do FGTS e do 13º. Depois... Fiquemos de olhos e ouvidos atentos. Trump não dorme e vai enrolando o mundo, mesmo os supostos países tidos como amigos.

Anunciou-se que Washington elevará as tarifas sobre o alumínio importados do Brasil e da Argentina. Quem o disse foi o próprio sucessor de Obama, utilizando o twitter. O mandatário americano, já trabalhando para a reeleição no próximo ano, foi claro ao dizer que o fazia porque as duas nações sul-americanas desvalorizaram fortemente suas moedas (o que foi imediatamente contestado), o que não é bom para os agricultores lá de cima. Concluiu: “Portanto, com vigência imediata, restabelecerei as tarifas de todo o aço e alumínio enviados aos Estados Unidos por esses países”.

Mas enquanto assim procedia o presidente de cima e Bolsonaro prometia fazer uma ligação para a Casa Branca, o colega declarou que pediria ao Federal Reserve, o Banco Central de lá, que impeça que Brasil e Argentina armazenem vantagens com o dólar mais forte, desvalorizando suas moedas, isto é, as nossas.

Segundo o presidente brasileiro, ele tem “canal aberto” com Trump. Além disso, “eu converso com Paulo Guedes e depois dou a resposta”. Aguarde-se. Em meio ao torvelinho, a inflação atingiu o maior nível para novembro desde 2015.


84400
Por Manoel Hygino - 9/12/2019 08:16:19
Uma agenda cheia

Manoel Hygino

Um mês de muita atividade na Academia Mineira de Letras este dezembro. Mais do que tantos outros, porque o sodalício, ora instalado na bela mansão do médico e cientista Borges da Costa e no anexo batizado com o nome de Vivaldi Moreira, na rua da Bahia, comemora 110 anos de fundação, que se deu no último mês de 1890 em Juiz de Fora.

No dia 4, pelos 75 anos de Paulo Leminski, a professora doutora Luciana Pimenta fez palestra sobre a dimensão performática do autor curitibano, também se registrando os 30 anos de morte do poeta. No dia seguinte, a acadêmica Elizabeth Rennó, lançou seu mais novo livro – “Quântico”, alegre e triste na Palavra Maior, que dirige as nossas vidas, como explica a autora, primeira mulher a presidir a Academia.

Um dia após, o acadêmico Olavo Romano e o médico e ilustrador Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues, o Lor, apresentaram a palestra “Descobrindo Ângelo Machado”, para homenagear o celebrado escritor infantojuvenil Ângelo Machado, um dos maiores pesquisadores de libélulas do mundo. Então, lança seu mais recente trabalho – “Cristóvão e os grandes descobrimentos”, em parceria com a Caravana Grupo Editorial, destinado a crianças e adolescentes.
Uma azáfama. No dia 9, as pesquisadoras Clotildes Avellar Teixeira e Janete Flor de Maio Fonseca, conduzirão a palestra “História, Ensino e transversalidades: casos e reflexões”, em que se reúnem colaborações de professores e especialistas em torno da temática do ensino da história e valorização do patrimônio cultural.

No dia 10, será a posse do novo acadêmico Wander Mello Miranda, eleito para a cadeira nº 7, vaga com o falecimento do escritor Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza. No dia 12, haverá o lançamento pelo escritor Olavo Romano de seu livro “De volta ao tempo antigo” e o relançamento de “Os mundos daquele tempo”, com narração de casos vividos pelo escritor, presidente emérito da AML.

Não é tudo. Na sexta-feira 13, às 10h, no plenário da Assembleia de Minas, haverá a sessão com que o legislativo homenageará a Academia pela efeméride.

No dia 17, que cai numa terça-feira, os festivos acontecimentos se transferem a Juiz de Fora. A Academia Juisforana de Letras preparou, para 19h30, um evento muito justo. Será festejada a data, em plenário, realizando-se um recital de poemas dos fundadores da entidade, hoje estadual. Um encontro cordial, histórico e memorável.

O presidente da Academia, jornalista e escritor Rogério Faria Tavares, considera as atividades deste final de ano fundamentais a que se meça e se propague a importância do sodalício para a vida cultural e intelectual de Minas, a começar quanto à pureza da língua e a produção do que aqui se produz na área. Também para a preservação do patrimônio construído por gerações, inclusive a própria história de Minas.

É uma missão que não se pode perder, resultado do que se inscreve no próprio lema da instituição: “Scribendi nullus finis”.


84390
Por Manoel Hygino - 4/12/2019 09:02:41
Rui e a águia

Manoel Hygino

Cinco de dezembro é Dia Nacional da Cultura e, há dois anos, a Associação Nacional dos Escritores, homenageou Rui Barbosa, pois também é seu aniversário. O presidente da entidade, Fábio de Sousa Coutinho, lembrou a data, nas Quintas Literárias de 2017, em Brasília. Evocou a memória do monumental advogado, político e intelectual baiano, cuja atuação tanto eleva nossa terra. Ao ensejo, apresentou o orador do mês, o embaixador Carlos Henrique Cardim, diplomata e cientista político, aplaudido especialista na produção cultural ruiana.

Para o palestrante, Rui Barbosa, embora figura das mais citadas e referenciadas, ainda é um enigma. Registrou que, embora haja 167 volumes contendo sua obra, ele jamais escreveu um livro. Cardim observou: “O que se publicou são palestras, conferências, pareceres e prefácios”. Citou, à guisa de curiosidade, que ele traduziu, um livro “O Papa e o Concílio”, no qual o prefácio é maior que a própria obra”.

E os temas se misturam nas obras de Rui. Sua posição sobre os Estados Unidos, por exemplo, está ao lado de exposição crítica sobre o divórcio. Haveria muito a contar. O palestrante Cardim, com formação em sociologia, registra que Rui nunca foi muito prestigiado na sua faculdade. Afirmou: “Eu só vim conhecer Rui, reconhecer Rui, quando estava no Itamaraty, a partir de um trabalho do Santiago Dantas, em que ele mostrou a faceta desenvolvimentista de Rui. Ele foi o primeiro ministro da Fazenda que o Brasil teve na República e tentou industrializar o Brasil, o que não é pouca coisa. Ele foi contra todo um ciclo de pensamento, de interesses que defendiam, logicamente, um modelo agrícola exportador e quis implantar a indústria”.

Observou ainda Cadim: “E depois dizem que Deus é brasileiro. Não é. Tanto que eu mesmo, em debate com o professor Delfim e o Sérgio Amaral, disse o seguinte: Deus é mais norte-americano. Aliás, Bismarck costumava dizer que a divina providência de Deus tem uma especial predileção pelos tolos, pelos bêbados e pelos Estados Unidos”.

Rui Barbosa permaneceu pouco tempo no Ministério da Fazenda: oito, nove meses, por aí. Não aguentou as pressões numa situação sobremodo difícil. Enfrentou problemas e inimizades. No Brasil, à época, ou se era pró-Rui ou anti-Rui. Nada de meio termo.

Houve um embaixador do Brasil na ONU, antes reitor da USP, ruista doente. Ernesto Leme era seu nome. Numa conferência, ele lembrou o grande baiano como se fora de todos conhecido: Rui para cá, Rui para lá, a Águia de Haia, como apelidado. A certo ponto, um embaixador inglês, muito sarcástico, perguntou ao colega brasileiro: “Embaixador, but who is this Birdman? , que voa por todos os lados? Quem é esse homem Águia?”.

Recordou-se mais: o plenário do Senado em Brasília tem apenas dois bustos de Jesus Cristo e Rui Barbosa, este “uma figura quase santificada à distância”, acrescentou Cadim. “O Rui sofreu uma série de interpretações, as mais variadas e todas muito bem fundamentadas, mas como diz o Santiago Dantas (acho que ele foi quem mais estudou e colocou Rui em termos modernos, mostrando o lado não só progressista do Rui Barbosa, mas o verdadeiro), o Rui Barbosa foi realmente, no final da vida, só podia chamar um social liberal alinhado com o trabalhismo inglês totalmente. Somente agora estamos chegando a uma certa serenidade para poder ter uma visão clara”.



84389
Por Manoel Hygino - 3/12/2019 14:01:21
Juízes que se julgam

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, que presentemente preside o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, completa 30 anos de magistratura. Foi juiz de comarcas pelo interior, inclusive a de Montes Claros, de que guarda muitas lembranças.

Nascido em São João Del-Rei, “graças a Deus”, (como diz), aprendeu com mestres excepcionais, no Colégio Nossa Senhora das Dores e Colégio São João, na Politécnica de Cadetes do Ar em Barbacena e nas faculdades de Direito das Universidades Federais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

Destaca, entre seus professores, Paulo Neves de Carvalho, sua imorredoura referência, que lhe despertou o pendor pelo Direito Administrativo, também admirado amigo do autor do presente artigo. Mas não esquece outros conterrâneos como Tancredo Neves, Francisco Dornelles, Aristides Junqueira e Carlos Mário da Silva Velloso, hoje membro da Academia Mineira de Letras, nascido em Entre Rios de Minas e adotado pelos frades franciscanos do Ginásio Santo Antônio, segundo Medeiros.

Com tais mestres, confessa ele, aprendeu que “trilhar o caminho do bem e colocar o interesse geral acima do interesse individual é dever que se impõe não apenas aos cidadãos, mas também aos governantes, legisladores e juízes”. E aduz ao raciocínio, a lição de Rui, em sua “Oração dos Moços”: a magistratura é “a mais eminente das profissões, a que um homem se pode entregar neste mundo”. Completa o pensamento, citando José Américo de Almeida: o juiz tem de ser culto, operoso, justo e probo, pois “o mau juiz é o pior dos homens”.

O ensinamento do rude autor do romance “A bagaceira” serve de advertência. Rogério Medeiros observa: “Contemplo hoje o panorama de meu país e me bate um terrível desalento. Contemplo a derrocada da Justiça brasileira e penso se não é chegada a hora de parar”. Partindo a ideia de quem parte, do alto de sua posição na magistratura, exigir-se-ia de todos, sobretudo dos juízes, um olhar íntimo, sobre seu papel nesta hora tão difícil, principalmente para aqueles que se incubem de aplicar a lei para fazer justiça.

O magistrado de São João Del-Rei chegou a conclusões preciosas: “Assim percorri a minha trajetória. Sempre sonhei com um Brasil mais justo. Nunca desanimei. A minha utopia sempre foi a subordinação da ética à política, apregoada por Platão e Aristóteles: “Nessa subordinação da ética à política, incidiu clara e determinadamente a doutrina platônica que amplamente ilustramos, a qual, como sabemos, dava forma paradigmática à concepção tipicamente helênica, que entendia o homem unicamente como cidadão e punha a Cidade completamente acima da família e do homem individual: o indivíduo existia em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo. Diz expressamente Aristóteles: “Se, de fato, idêntico é o bem para o indivíduo e para a cidade, parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade; é certo que o bem é desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa, porém é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades”.

Define-se: “Não, não posso parar. Brasil: verás que um filho teu não foge à luta! Há muitas pessoas de bem em nossa Pátria e haveremos ainda de triunfar. Vou em frente. Lutarei até o fim. Recordo a profissão de fé de Fiódor Dostoiévski, no clássico romance “Os Irmãos Karamazov: “Crê até o fim, mesmo que todos os homens se hajam desviado e tenhas ficado fiel sozinho; leva então tua oferenda e louva a Deus, por teres sido o único a manter a fé”.


84384
Por Manoel Hygino - 30/11/2019 10:00:11
Crescer, eis o desafio

Manoel Hygino

O governo federal lançou, na primeira quinzena de novembro, o programa Previne Brasil, alterando procedimentos de transferência de recursos do Sistema Único de Saúde para os municípios. A iniciativa pretende incluir mais pessoas nos programas de atenção primária, incluindo 50 milhões de brasileiros em diferentes programas do SUS. Em números, a previsão é de que os aportes passem de R$ 18,3 bilhões para mais de R$ 20 bilhões. Serão beneficiados especificamente os casos mais frequentes, inclusive diabetes e hipertensão, através de consultas médicas, exames e vacinação em campanhas.

Uma feliz, porque necessária iniciativa da União com referência às UBS. Mas é imprescindível, além de melhor e mais rápido atendimento nas Unidades Básicas de Saúde, que os passos seguintes – como os exames – sejam facilitados. Há alguns dias, milhares de pessoas entraram em fila à porta do CEM – Centro de Especialidades Médicas da Santa Casa de Belo Horizonte para inscrição a exames pedidos pelas UBS. E se atente: aquela unidade da SCBH atende mais de 55 mil pessoas por mês, procedentes da capital e municípios do interior.

É preciso renovar a constatação. A falta de repasses às prefeituras, aliada à defasagem na tabela do SUS, prejudica o atendimento à população em Santas Casas e hospitais beneficentes de todo o país. Algumas ameaçam fechar as portas ou suspender o atendimento. A maioria dos pacientes é servida pelo Sistema, mas as prefeituras alegam que foram afetadas pela crise econômica geral e reivindicam apoio de outras esferas do governo.

O presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo, Edson Rogatti, afirma que parte expressiva dos estabelecimentos paulistas vive dificuldades. Acrescenta que a situação decorre também de problemas resultantes da crise econômica no país, além evidentemente da defasagem na tabela do SUS, sem reajuste há 15 anos, que deixou os hospitais endividados e dificulta o crédito.

O médico Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Organização Pan-Americana de Saúde no Brasil, tem opinião formada: “temos um investimento privado muito importante e um gasto público insuficiente. Não chegamos a 4% do PIB, quando internacionalmente o sistema público universal deveria alcançar 6% do PIB. Estamos muito atrás. O subfinanciamento é real, mas a gestão é fundamental”.

Para o provedor da Santa Casa de Belo Horizonte, Saulo Levindo Coelho, o SUS é fundamental para a saúde da população. Por sabê-lo, o Hospital Central da instituição, o maior de Minas e um dos maiores do Brasil, se dedica exclusivamente a clientes SUS. Os resultados são altamente benéficos, por ser um programa que vai muito além da atenção médica.

A SCMBH é, assim, mais do que mero coadjuvante, pois – partícipe essencial – incluído na lista das cem melhores ONGs do Brasil, destacando-se por sua estrutura administrativa e financeira, elevado nível técnico de serviços, captação de recursos e transparência.

Seu projeto é aprimorar sempre, atender mais, não parar nunca.


84380
Por Manoel Hygino - 27/11/2019 08:36:52
Napoleão, o ator
Manoel Hygino

Nascido em Mariana – o que diz muito – o escritor Danilo Gomes, além do bom humor já tão restrito em nosso tempo – é um excelente cronista, um dos maiores do Brasil atual. Residindo em Brasília, depois de longo percurso como jornalista do serviço de imprensa da presidência da República, desde o Catete, continua servindo aos seus leais leitores – inúmeros.

Recentemente, ele escreveu sobre “Napoleão Bonaparte, ator teatral”, uma jóia como se fala em Minas. Começa por referir-se a Jean Tulard, o maior especialista sobre o tema, que afirma existirem mais de 60 mil livros sobre o personagem. Danilo evoca um de L.B. Horta Barbosa, publicado no Rio de Janeiro, em 1923, em que o autor execra o imperador; “livro cruel, excessivamente severo para com o gênio político e militar”. Lembram-se seus fracassos, erros, desencantos, tudo que pudesse denegri-lo.

O marianense, meu dileto confrade na Academia Mineira de Letras, prefere um ensaio do pensador Ralph Waldo Emerson – sensato, equilibrado, justo, brilhante. Ele repete Emerson: Napoleão era “potente ator, sempre pronto, que agarrou a ocasião pelos cabelos”. Acrescenta: “divertia-se a fascinar Josefina e as suas damas de honra numa sala fracamente iluminada, pelos terrores de uma ficção, na qual sua voz e o seu poder dramático exerciam largo papel”.

O tradutor, Alfredo Gomes (não é da família de Danilo), em nota ao pé de página, observa: “Napoleão preocupou-se demais pela encenação, pelo artifício e pela retumbância”. E mais: “a colaboração de seus auxiliares lhe proporcionou a atmosfera de glória”. A personagem lembra algum político deste nosso tempo?

Não há quem, em algum período da vida, não tenha sentido um certo fascínio por Napoleão, o homem ou o artista, porque afinal todos vivemos o nosso papel na face da terra. Ele procurava haver-se com as ocasiões que se lhe ofereciam. Sabia conduzir-se diante do público, tendo declarado: “uma grande reputação é feita de muito ruído; quanto mais barulho se faz, mais longe se ouve. Leis, instituições, pronunciamentos, nações, tudo cai, porém, o ruído continua e ressoa nos séculos seguintes”.

Jean Tulard observou que Bonaparte cuidou, ele próprio, de tecer sua coroa de imortalidade. Exercia fascínio sobre as pessoas, as tropas. Fez questão de manter sua lenda, nos jornais interessados em relatar suas campanhas. Diz Danilo Gomes: era um campeão da mídia, um tal da política-espetáculo, como Carlos Magno, reverenciada a memória por outro craque das letras da AML, Pedro Rogério Moreira, em agradável livro.

No entanto, o cronista de Mariana aduziu: já no Consulado, o corso criou sua própria figura: a mão enfiada no colete, o chapéu característico e exótico para sua época; os arroubos, como ao arrancar do peito a Cruz da Legião de Honra (que ele próprio inventara), o andar inquieto, pra lá e pra cá, com as mãos para trás, como os atuais garçons de restaurantes, entrelaçadas.
Tulard vai além: “Napoleão tinha um senso inato – a propaganda”. Ainda hoje, lembra-se sua frase no Egito: “soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”. E foi aplaudido por suas legiões.

O biógrafo não deixa por menos: “penso o que teria feito, se tivesse tudo à disposição, como De Gaule, uma televisão por exemplo”.




84378
Por Manoel Hygino - 26/11/2019 08:36:12
JK e nossa água

Manoel Hygino

A chuvarada que caiu sobre Belo Horizonte, sábado, com pesado volume de água descendo pelas serranias, limpando a poeira acumulada pelos lados da Serra, Sion, Cruzeiro e demais bairros, fez lembrar o tempo em que a capital estava ameaçada, como hoje, por falta de água nas torneiras, em épocas futuras.

Época tormentosa, porque a população crescia e os mananciais abastecedores não eram suficientes para atender à demanda. Seus prefeitos quebravam a cabeça em busca de soluções, mas todas eram apenas paliativas.

Cedo, a cidade ultrapassara à casa de um milhão de habitantes e se sabia que a evolução demográfica não pararia. A população do interior queria e sentia a necessidade de reinstalar-se em lugar que lhe oferecesse melhores condições de vida. Desejava casa própria, assistência médica, escolas, o que, enfim, as grandes cidades podiam oferecer. A capital era a solução.

As administrações se viam em dificuldade, porque as receitas dos tributos aumentavam bem abaixo do imprescindível. Belo Horizonte se transformou num deserto de gente que pleiteava e precisava de água. As fontes mais próximas já tinham sido utilizadas, como no caso do Cercadinho, dos Menezes, depois da Mutuca e dos Fechos, esta já na gestão de Giannetti, gaúcho com grande experiência no trato da coisa pública e do empreendimento privado.

Celso Azevedo veio depois, eleito em 1954, belo-horizontino que poderia ajudar na solução. Conhecia a dimensão do desafio. Naquela época, não havia secretarias, mas departamentos municipais. O professor Saul Macedo, da Escola de Engenharia, foi convidado para chefiar o de Água e Esgoto.

Durante longo tempo, debruçou-se com seus auxiliares em procura do melhor caminho, enquanto a população pedia e reclamava. Como lenitivo, se implantou um serviço de perfuração de poços, ainda incapaz de atender às necessidades da trepidante cidade.

Diante das circunstâncias, marcou-se com o presidente da República, o ex-prefeito da capital Juscelino, uma audiência no Catete, Rio de Janeiro. Era uma grande comitiva – com deputados, vereadores, representantes do empresariado, quando o chefe do Executivo municipal entregaria um minucioso projeto de aproveitamento de cursos de água das redondezas. Seria a salvação.

No entanto, no velho palácio, depois de ouvir exposições sobre a situação hídrica da capital e da proposta, Juscelino apresentou uma inesperada proposição: captação da água do rio das Velhas, em Bela Fama, empreendimento que possibilitaria o suprimento da metrópole inaugurada em 1897 e poderia esperar um novo século. Além do mais, com execução e financiamento por organismo federal. Assim se fez, não houve objeção, nem poderia. Pôde-se aguardar até o século XXI, com ajuda de outras fontes. Agora, o desastre de Brumadinho, com interrupção da adução do Paraopeba, mudou tudo. Voltamos no tempo.



84375
Por Manoel Hygino - 25/11/2019 09:41:13
Antes pelo contrário

Manoel Hygino

Crer ou não crer, eis a questão. Com a curta frase, reportamo-nos, sem qualquer vênia ou autorização, à famosa dúvida suscitada por Shakespeare em seu sempre lembrado e respeitável “Hamlet”. Incontestavelmente, cruéis as indagações que perpassavam pela cabeça do príncipe, protagonista da tragédia, em que o herdeiro do trono dinamarquês procura desvendar o mistério do assassinato do pai, nas lonjuras do frio castelo de Elsinore. No último ato, muitos personagens já morreram e poucos sobraram para contar a história.

No Brasil de agora, a decisão do Supremo Tribunal Federal, proibindo o encarceramento de réus após condenação em segunda instância, ateou farta lenha à fogueira extemporânea, pois não é mais o mês das tradicionais comemorações. No conturbado período que ora se atravessa, constata-se o desagrado de ponderáveis parcelas da sociedade por determinadas decisões judiciais, embora evidentemente não se negue também que elas resultam de posições ideológicas, políticas ou mesmo pessoais. Depois de longas esperas e de extensos votos, tudo fica como antes. Nem sim, nem não; antes pelo contrário.

O ambiente, que já não é dos melhores quanto ao conceito que se faz da mais alta corte de Justiça do país, com ênfase a alguns de seus integrantes, acirrou ânimos e aqueceu interesses. Chegou-se à manifestação de grupos que saíram à via pública para protestar e acusar, suscitando suspeitas sobre a conduta de alguns ministros, cujos nomes apareceram amplamente nos meios de comunicação. Algo especialmente triste num país em que se recebiam as manifestações do Tribunal com respeito quase religioso e em que se tornou popular a lição de que sentenças são para serem cumpridas, e não discutidas.

No Congresso Nacional dos Advogados Públicos Federais, Conafe, há pouco realizado em Salvador, pôde-se verificar como se encontram divididas as opiniões sobre temas que tão intimamente tangem ao interesse nacional. Entre elas o cumprimento de prisão após segunda instância, uma polêmica que não terá fim tão cedo por sobejas razões.

Carlos Mário da Silva Veloso, ex-presidente do STJ, magistrado conspícuo, foi muito peremptório em sua posição no conclave da capital baiana: “o pano de fundo desse teatro do absurdo é a presunção de inocência interpretada isoladamente e de forma absoluta”.

Veloso citou casos diversos, inclusive de crimes contra a vida, para defender a prisão após condenação em segunda instância. E, mesmo sem pretender dar lição, o fez: “a grande função política do STF é de realmente pensar nas consequências que as decisões trazem para a nacionalidade. A vítima, a sociedade, deve ser protegida”.

No caso específico da Lava-Jato se expressou com clareza: “não fora a sua coragem, nós não teríamos sucesso em combater o conúbio adúltero entre poder econômico corrompido e poder político corrompido, ambos corruptores. Pela primeira vez, nós vimos os mais importantes representantes do poder público presos confessando delações e construiu-se um edifício probatório com base em tudo isso”.


84370
Por Manoel Hygino - 22/11/2019 08:22:55
Mais de um século

Manoel Hygino

A data é 25 de dezembro. Não me refiro ao Natal propriamente, mas à fundação da Academia Mineira de Letras, em Juiz de Fora, em 1909. Uma dúzia de intelectuais julgou chegada a hora de se criar uma entidade estadual para os devotados à literatura e à língua, ao modo da Academia Brasileira de Letras, inspirada à sua vez na Francesa.

Os fundadores, liderados por Machado Sobrinho, e eram gente reconhecida por seus méritos na área, como Belmiro Braga, Dilermando Cruz e Amanajós de Araújo, dentre outros. Coube a esta dúzia eleger mais dezoito outros.

Por coincidência, a Academia Brasileira e Belo Horizonte, a capital de Minas, nasceram no mesmo ano – 1897, com atenção voltada não só para cultuar o passado, mas para bem aproveitar as perspectivas que se abriam para o Brasil com a instalação da República. Assim, sentiram os pioneiros que se obrigavam a transferir a sede da AML para a nova metrópole, mais próxima dos centros do Poder e núcleo de convergência de atividades e interesses de toda natureza. Em 1915, quando presidente Hely Menegale, com apoio do prefeito Otacílio Negrão de Lima, o sodalício ganhou sede própria em edifício da Carijós. Ao comemorar, em 1917, Belo Horizonte, 90 anos, o acadêmico Vivaldi Moreira conseguiu tornar realidade o sonho de uma sede à altura da importância da Casa, instalando-se a AML no belo palacete Borges da Costa, na rua da Bahia.

Transcorridos 110 anos da Academia Mineira de letras, seu atual presidente, Rogério Vasconcelos Faria Tavares, esforça-se para comemorar o acontecimento com todo brilho. Será difícil alinhar tudo o que se fez para marcar a data. Em 11 de novembro, por exemplo, houve o chá de confraternização, com presença de familiares dos antigos acadêmicos, atraindo centenas de pessoas, a despeito da ameaça de chuva. O presidente da Academia Brasileira, Marco Lucchesi compareceu, cumprimentando e abraçando os presentes. O Hino Nacional ficou por conta do coral do BDMG, enquanto se preparava a sessão solene, que também previa um Recital de Poesia, pelo Grupo Teatral Palavra Viva. Uma noite de gáudio, a que não faltou Leila Barbosa, vice-presidente da Academia de Letras de Juiz de Fora.

Quarta-feira, a escritora Maria José de Queiroz foi homenageada pelos seus 50 anos de Academia. Algo muito especial para ela, que ora vive entre Paris e Rio de Janeiro, mas não foi esquecida, nem esqueceu.

Para a ocasião, pesquisadores de sua obra festejaram até quase meia-noite a data tão querida, aberto o amável encontro, pelo presidente Rogério Tavares, saudando-a o acadêmico Ângelo Oswaldo. O romance inédito “Terra Incógnita” foi lançado, seguido do romance, “A literatura encarcerada”, com texto atualizado. No dia 21, à noite, dom Walmor Oliveira de Azevedo, também acadêmico, no Palacete Borges das Costa, celebrou missa em ação de graça alusiva à efeméride.

O essencial é que nestas onze décadas desde a fundação da Academia Mineira de Letras, ela vem cumprindo o lema que move sua existência – scribendi nulus finis, e desempenhando o seu papel de incentivo à preservação da cultura e da literatura de Minas Gerais. Demonstra que se mantém irredutível para enfrentar os desafios da deficiência de recursos materiais e as imposições dos novos tempos.


84360
Por Manoel Hygino - 19/11/2019 08:33:49
Extrema pobreza

Manoel Hygino

Dizia aqui, há poucos dias, que o Brasil não está pior ou melhor materialmente do que antes. Com toda sua grandeza territorial, não conseguimos confirmar na prática o que previra, em sua carta a Lisboa, Pero Vaz Caminha, após o descobrimento. Em se plantando, tudo aqui se dará.
Evidentemente, não adivinhava que a fortuna não seria apenas vegetal. Depois se soube que havia muito mais, como ouro e pedras preciosas. Mais do que isso: o tempo se encarregou de revelar que existia inclusive o nióbio, que ora amenizará as agruras do funcionalismo público em um estado que guardava riquezas gerais em suas montanhas.
Quanto delas se extraiu durante séculos! O suficiente para manter o esplendor da coroa lusitana e para o gasto enorme da aristocracia. Jamais faltou o necessário para sustentar o luxo e a ostentação de famílias ilustríssimas, através de épocas, mediante a usurpação de um patrimônio que não poderia restringir-se a privilegiados. Não poucos sofrem até agora, quando permanece a desigualdade ignominiosa.
Não é algo restrito aos países do hemisfério ou do continente, das colônias luso-espanholas. Não melhoramos, é doloroso reconhecê-lo.
No momento em que a Venezuela, a ex-poderosa república ao Norte sofre uma das mais profundas crises de sua história, constatamos que o Brasil acumula problemas e reptos, a que não tem respondido com soluções à altura e conveniência. Esta, aliás, uma das razões da insatisfação que percorre as ruas ou pernoita sob as marquises de nosso país.
A mais recente Síntese de Indicadores Sociais, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fornece dados que enlutam as expectativas. Em resumo, demonstram que a terra em que vivemos, com amplo convite aos turistas a que a visitem e se deliciem com o mais belo que a natureza lhes oferece, tem mais miseráveis do que a soma de todos os habitantes de Portugal, Bélgica, Cuba ou Grécia. Só em nossa Minas Gerais, são 739 mil pessoas nessa situação.
Se o leitor tiver dúvida, pode reler o parágrafo e seu conteúdo. É humilhante.
Segundo a mesma fonte, que merece respeito, o Brasil, atingiu nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria em 2018. Foram 13.537 milhões, um contingente maior do que toda a população da Bolívia, que alcançou o índice de 4% do PIB, enquanto rastejamos em pouco mais de 1.
A pequena melhora no mercado de trabalho não chegou a milhares. A extrema pobreza cresce, diz André Simões, gerente da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE. A pesquisa considerou a classificação do Banco Mundial de pobreza extrema: ou seja, pessoas com rendimentos inferiores a US$ 1,90 por dia, o equivalente a cerca de R$ 145 mensais. Nem se diria pobreza, porque de fato isso é miséria, que inúmeros suportam, enquanto os privilegiados mantêm belas mansões no exterior, com direito a jatinhos para uso pessoal e iate para passeio com os amigos.
Os R$ 145 mensais constituem, em última análise, um insulto ao brasileiro.


84357
Por Manoel Hygino - 18/11/2019 11:06:36
Um hemisfério em conflito

Manoel Hygino

A América Latina volta a ser o que sempre foi ou se pensou que era. Os acontecimentos mais recentes, a partir da revolta no Equador, põem em evidência uma situação que se supunha superada desde o fim das ditaduras instaladas em torno da metade do século findo.
Nem se fale a respeito da tenebrosa situação a que foi relegada a Venezuela, a partir de Hugo Chávez. O governo implantado pelo seu sucessor, Nicolas Maduro, se tornou um acinte à democracia e aos melhores sonhos e projetos de sua gente, sabedora da imensa riqueza de seus hidrocarbonetos, que a fizeram uma das mais poderosas nações do continente, mesmo do mundo. Tudo se esvaiu, foi corroído pelo desvario e ambição de poder, ao final transformando a nação em fonte de famintos, desempregados, sem liberdade política, obrigada a fugir para outros países, sobretudo Colômbia e Brasil. Para aquele, ainda estigmatizado pela ação das Farcs, para o qual fugiram mais de quatro milhões de foragidos.
O Peru veio depois, somando novos dramas aos antigos, presidentes depostos, multidões desenganadas, um ex-mandatário se mata, restabelece-se o reino da discórdia e da desesperança. O Chile, a nação mais adiantada do hemisfério, ainda sofre com as dolorosas marcas da sangrenta ditadura Pinochet, se vê atropelada por novos e graves conflitos, não circunscritos a Santiago. O presidente Sebastian Piñera não conseguiu pacificar a pátria, a despeito de sua obstinada ação no campo político e administrativo.
Finalmente, a Bolívia. Embora a excelente performance econômica nos últimos anos, o presidente índio Evo Morales, já movido pela sede de poder, candidata-se ao quarto mandato e assiste à população invadir as ruas e depredar bens públicos e privados, na revolta ainda sem fim. Renunciando à chefia nacional e entregue o comando nacional a alguém não suficientemente definido, o ex-presidente escapa em avião mexicano, encontrando refúgio na terra de Benito Juarez.
Por suas dimensões geográficas e importância no contexto continental, mesmo mundial, o Brasil não escapa às circunstâncias. Tanto que, na quarta-feira, um grupo de partidários de Juan Guaidó, pretenso presidente da Venezuela, invadiu a embaixada daquele país em Brasília.
Uma enorme confusão, porque os funcionários da representação da Venezuela reagiram, houve troca de empurrões, agressões físicas, gerando problemas para o Itamaraty e para o serviço de segurança. Houve detenções, gerando um espetáculo extra para a cidade-sede do governo do Brasil.
Fatos como o registrado na capital federal podem ser repetidos, principalmente em função e decorrência do papel do Brasil no âmbito das relações com todo o continente. No fulcro dos eventos e episódios, nossa situação se torna crescentemente delicada. A nota do Ministério de Relações Exteriores da Venezuela vale como advertência. Não podemos perder de vista a extensão de nossas responsabilidades.
O texto atribui às autoridades brasileiras uma “atitude passiva” diante da invasão e cobra que o país cumpra suas obrigações como Estado signatário da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas “que estabelece a obrigação de proteger as sedes diplomáticas em qualquer circunstâncias”.


84345
Por Manoel Hygino - 15/11/2019 10:21:55
A receita municipal

Manoel Hygino

O Plano Mais Brasil, apresentado pelo Executivo ao Congresso Nacional, no último dia 4, traz medidas visando ao saneamento das contas públicas e que, sob alguns aspectos, resultaram de motivação meramente política. São três os Projetos de Emenda Constitucional.

Um deles atinge diretamente o interior, em caso de Situação de Emergência, prevista pela criação do denominado Estado de Emergência Fiscal. Mudança de grande impacto refere-se à incorporação de cidades com menos de 5 mil habitantes e com arrecadação própria inferior a 10% da receita total e que passarão àqueles que têm receita própria.

Segundo dados do Ministério da Economia, há presentemente 1.254 municípios que deixarão de existir, caso a norma entre em vigor. O prazo estipulado para adequação dos pequenos municípios às novas exigências será a partir de 2026.

À primeira vista, há muito tempo: pelo menos mais seis anos, para que se cumpram as novas regras. No entanto, o tempo não pára e medidas preliminares precisam ser postas em prática, desde já.

O secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues, julga que a providência contribuirá expressamente para redução das despesas da União, por reduzir gastos tidos como desnecessários, pelo menos para a União. “Muitos municípios foram criados gerando novas despesas e não atendendo ao cidadão na ponta. É o que queremos corrigir”, concluiu o raciocínio.

Até aí, tudo bem. Mas não é tão simples assim. Verdade é que a receita gerada pela atividade econômica de 1.856 cidades brasileiras não foi suficiente nem para custear a estrutura administrativa da sua geralmente muito cara câmara de vereadores e da prefeitura, em 2018. Os dados são do Índice Firjan de Gestão Fiscal.

Significa que a economia local não gera recursos nem para pagar o mínimo do funcionamento da burocracia local. O índice analisou a situação de 5.337 prefeituras que entregaram dados ao Tesouro Nacional.

Segundo a Firjan – Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a baixa geração de receitas pelas economias municipais é o principal entrave à gestão fiscal dos municípios brasileiros. Em 2018, 73,9% dos municípios tiveram a situação orçamentária avaliada como “difícil” ou “crítica”.

A situação atual, contudo, não constitui novidade. Esses municípios já eram deficitários, quando de sua emancipação, que serviu apenas a interesses políticos. Surgiram novos líderes (?) locais e regionais. Mas o que se pretendia era fundamentalmente usufruir do repasse às novas unidades de recursos do Fundo de Participação dos Municípios, que não é arrecadação própria. Assim, se perder a receita, proximamente os municípios voltarão à míngua anterior.

Em Minas, serão 231 que perderão a condição atual, sem terem conseguido arrecadar mais por seus próprios meios e instrumentos. Uma situação extremamente delicada, em ano de eleições municipais. Além disso, outras medidas que tocam de perto o interesse de nossas comunas serão submetidas mui proximamente pelo Executivo ao Congresso através do Plano Mais Brasil.

Aguardamos.


84337
Por Manoel Hygino - 13/11/2019 09:05:16
Morte de um Nobel

Manoel Hygino

Na oportunidade de aproximação entre Brasil e China, a exemplo do que fizeram os Estados Unidos, lembro que, em 13 de julho este ano, completaram-se dois anos do falecimento do dissidente Liu Xiaobo, de 61, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2010.

Pouco se falou do ilustre morto, acusado de subversão pelo regime de sua pátria, condenado a 11 anos de prisão, quando ou por lutar por reformas democráticas. Estava internado na cidade de Shenyang, no Norte, com um câncer terminal no fígado, transferido de prisão. À véspera do desfecho, informara-se que o paciente apresentou “insuficiência respiratória” e sofrera falência múltipla de órgãos.
Naquele julho, o escritor brasileiro, nascido em Santa Catarina, Emanuel Medeiros Vieira, ex-preso do governo autoritário, que também sofria de câncer que resultou em seu óbito, comentou em mensagem, por julgar escondida a notícia:

“Meu coração sempre esteve ao lado dos perseguidos e humilhados – na esfera política – como os perseguidos da ditadura brasileira (o signatário foi um deles...) e os presos, torturados e mortos das ditaduras do Cone Sul etc”.
Emanuel recordava que Liu fora libertado condicionalmente para tratar-se do mal que o consumia. O dissidente recebia tratamento sob guarda policial no hospital. Comparando sua situação com a do Nobel, o brasileiro observou:

“Tratar de um câncer, mesmo sem perseguição política, com todos os cuidados, já é difícil e complicado. Imaginemos (todos nós) como deve ser um tratamento com escolta policial”.

Seria verdadeiramente “comunista” um regime que persegue os seus dissidentes e que admite o trabalho escravo? Claro que não. Todos sabem que lá reina o “capitalismo de Estado”.
Para o Comitê do Prêmio Nobel da Paz, o governo chinês tem uma pesada responsabilidade na morte de Lui Xiaobo, pelo fato de “ele não ter recebido tratamento adequado por um longo período”.

O catarinense acrescentou: “só gostaria que, depois de tanto sofrimento, o dissidente chinês possa descansar em paz, e que sua morte possa lembrar – a todos nós – que nenhum homem é uma ilha, como escreveu John Donne”.
E estamos no século XXI.

Eu sei: na tecnologia, melhoramos. E no resto? Se combatemos o fascismo, o macarthismo, as ditaduras que existiram na América Latina e em outros países, não podemos nos calar. A morte do humano é a derrota da civilização e da democracia como valor universal.
No começo de sua mensagem, escreveu-me o autor catarinense, já então morador de Brasília:

“Creio que o nosso humanismo não pode ser ‘seletivo’. Em qualquer lugar, em qualquer espectro ideológico, quando os direitos do homem forem violados, nossa palavra deve ser dita – mesmo que cause incompreensões e injustiças. Espero estar correto”.



84334
Por Manoel Hygino - 12/11/2019 10:27:26
A volta da cobra

Manoel Hygino
:
Não causaram pasmo, assustaram ou surpreenderam a postura assumida e os insultos, em vocabulário de cais de porto, utilizados por aqueles que saíram da prisão por decisão do Supremo Tribunal Federal, na quinta-feira, 7 de novembro. Há gente acostumada ao verbo das ruas, que não mede o poder de ofensa ao adversário; ou pior, aos que formam a plateia, obrigada a ouvir as diatribes por circunstâncias diversas.

O Brasil não está melhor ou pior do que antes. As várias tentativas que se fazem em busca do tempo perdido e dos recursos públicos desviados criminosamente demonstram à suficiência que houve algum sucesso, mas o que se conseguiu ainda é apenas um começo. O ex-presidente, libertado após 580 dias, em seu estilo muito pessoal, sem travas na língua, endurece a crítica ao governo empossado há menos de um ano, à Operação Lava-Jato e ataca da Polícia Federal e Ministério Público a membros da magistratura.

Entre os adjetivos utilizados para classificar os antagonistas nesta hora tão triste da história nacional está canalha, sinônimo nada menos de vil, baixo, grosseiro, ordinário, próprio de gente reles, desavergonhado. Como substantivo, porção de gente ordinária, sem educação, íntima, plebe, ralé, populaça.

É com ponderável parcela desse tipo de gente que temos vivido e a quem damos ou demos a gestão dos mais altos negócios nacionais. Eles próprios o dizem e se acusam. Os que se julgam isentos acham melhor silenciar, para não provocar maior dano diante da consciência popular.

Do atual chefe da nação, disse o ex-presidente e ex-presidiário: “Bolsonaro foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para governar para os milicianos do Rio de Janeiro”. “Esse país não merece um governo que manda seus filhos contarem mentira todos os dias através de fake news”. “Ele (Bolsonaro) nunca fez um discurso que prestasse, ele só sabia ofender as mulheres, ofender os LGBTs”.

Em Brasília, Bolsonaro contesta, com veemência:
“Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa. Lula está solto, mas continua com todos os crimes dele nas costas. A grande maioria do povo brasileiro é honesto e trabalhador, não vamos dar espaço e nem contemporizar para um presidiário”.

O filho do presidente, Carlos, classificou a soltura de Lula e demais considerados criminosos repetindo o pai para que não dê mais munição ao “canalha que momentaneamente está livre”. O deputado federal, Eduardo Bolsonaro, observou: “Além de Lula, Zé Dirceu e outros quadrilheiros, milhares de criminosos estão soltos no país, fazendo com que você fique à mercê de seus atos malignos”.

Em verdade, com a decisão do ministro Tófolli, presidente do Supremo, a “jararaca – a palavra fora utilizada antes pelo próprio Lula – está solta”. E foi a cobra que classificou o juiz que o condenou:

“O Moro é mentiroso, o Dallagnol é mentiroso. Eu tomei a decisão de ir lá na Polícia Federal. Eu poderia ter ido para uma embaixada, para outro país. Mas eu fui lá para provar que o juiz Moro não é um juiz, é um canalha”.
Não deixou por menos, o ex-ministro também solto, José Dirceu: “Agora a luta não é por Lula livre. Agora, (a luta) é para nós voltarmos, retomarmos o governo do Brasil”.


84328
Por Manoel Hygino - 7/11/2019 21:01:30
Restaurar é preciso

Manoel Hygino

Nem todos têm tamanho interesse, zelo e carinho por Minas Gerais como Eugênio Ferraz, cavalheiro da melhor cepa, nascido em São Lourenço, lá no Sul do Estado. É o que se poderá sentir no dia 8, nesta sexta-feira, quando precedido de palestra – seu passado, suas histórias – ele lançará os dois primeiros volumes da trilogia “Restaurações singulares no Brasil e outras experiências acerca do Patrimônio Nacional”.

Muito a propósito: a reunião será na Academia Mineira de Letras que, em 2019, completa 110 anos de fundação em Juiz de Fora – depois, transferida para Belo Horizonte. Enfim, o objetivo era concentrar na capital projetada por Aarão Reis a gestão dos interesses da arte literária e propagá-la em todo o país. Não tem sido pouco o esforço, muito sacrifício se exigiu, pela falta de recursos do erário e dos segmentos sociais que poderiam amparar-lhe a trajetória.

Pois Eugênio Ferraz foi um dos aliados da AML, coadjuvando nas edições da revista do sodalício, enquanto diretor da Imprensa Oficial, que deixou de existir em 2017. Um atentado às nossas melhores tradições e à própria história.

No entanto, nem tudo morreu. E a prova está na própria reunião da sexta, em que se ouvirá Ferraz, em sua exposição sobre o que logrou construir durante largo tempo como engenheiro responsável por valiosas obras de restauração em todo o país, conhecendo enfim os dois primeiros volumes da obra que elaborou. É resultado de pesquisas do mais alto significado para uma nação que ainda não soube oferecer o necessário apreço a um legado insubstituível.

A edição que acaba de se liberar com distribuição nacional, isto é, os Volumes I e II – Restaurações Singulares no Brasil e Outras Experiências Acerca do Patrimônio Nacional – já foram distribuídos a bibliotecas e estão disponíveis para o público. O volume I tem apresentações do promotor de Justiça e escritor Marcos Paulo de Souza Miranda e do atual desembargador e escritor Bruno Terra Dias. O Volume II traz as apresentações do jornalista e acadêmico Manoel Hygino dos Santos e do desembargador, também acadêmico, Doorgal Andrada. Todos são unânimes em destacar a importância das obras de Eugênio Ferraz para o resgate e a preservação da história e da cultura das Minas Gerais e do Brasil.

O primeiro volume da trilogia mostra as restaurações de importantes monumentos brasileiros, exemplos de manutenções – ou o resultado de suas ausências – e outros artigos abordando o patrimônio histórico, meio ambiente, história e preservação hidromineral. Nele há ainda um breve resumo de algumas restaurações citadas no projeto e, em especial destaque, a restauração do Convento dos Mercedários de Belém do Pará, monumento histórico completamente destruído por incêndio, e o teatro Amazonas, em Manaus.


84316
Por Manoel Hygino - 2/11/2019 07:23:07
Hora de prudência

Manoel Hygino

O presidente está de volta após dez dias de ausência do país, durante os quais muito se discutiu, se levantaram suspeitas sobre tudo e todos, e nada de prático e positivo se resolveu. Não faço comparações para não acrescentar mais lenha à fogueira. Há no âmbito da administração órgãos e pessoas a que se incumbem propor soluções. Assim se fará.

De minha cidade natal – que como no restante do território nacional acompanha os fatos –, recebo a nota que bem espelha nossa realidade: “O ambiente político é de expectativa, depois dos fatos das últimas 48 horas, envolvendo o forte atrito entre o presidente e o noticiário da TV Globo. Os acontecimentos públicos das últimas horas são dos mais fortes já vistos pela República brasileira, onde a política de punhos de renda é mais recorrida do que a política com luvas de nocaute. Que o diga o governador do Rio, ex-aliado. Vamos a ver, repetiria velho mestre do Caraça, que foi berço de presidentes mineiros. O ambiente é de crispação geral. Tem sido”.

De qualquer modo, é possível repetir Shakespeare. No Hamlet, em que o soberano foi assassinado por quem o sucederia no trono, sobrepaira a afirmativa solene: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, o que acontece nas lutas pelo poder, em todas as épocas e lugares. Não mais estamos no tempo de Saxo Grammaticus, do século 12, narrador da história do príncipe que se empenhou em apurar e punir o culpado da execução do rei dinamarquês, seu pai. Aqui e agora, o governo não é feudal, pelo contrário, pretende-se aprofundar a democracia, que tanto nos custou resgatar e tanto sacrifício nos impôs.

Causaram espécie, quando não repúdio, declarações de um deputado, filho do primeiro mandatário da nação, ao admitir uma volta ao AI-5, que tantos males causou ao Brasil e aos brasileiros, deixando um legado trágico às futuras gerações.

Precisa-se sepultar, de vez as expressões precipitadas de nossas autoridades, quaisquer que sejam os cargos que ocupem. Os desmentidos supervenientes não conseguem apagar definitivamente as inquietações produzidas por votos e expressões emocionais, que só podem contribuir para acirrar ânimos e atrasar a nação na retomada do crescimento, e para aliviar os cidadãos dos pesados ônus de agora.

O Brasil repudia justiceiros. Que se apurem os fatos, punam-se os culpados por delitos cometidos. O Brasil precisa é de paz e voltar a produzir, ressarcir-se dos prejuízos do passado e, finalmente, ingressar numa nova era de prosperidade.

Disse bem o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia: “O Brasil é uma democracia”, aduzindo que “manifestações como as divulgadas são repugnantes e têm de ser repelidas. A apologia reiterada a instrumentos da ditadura é passível de punição pelas ferramentas que detêm as instituições democráticas brasileiras”.


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Por Manoel Hygino - 1/11/2019 07:38:45
Hora de lançar luz

Manoel Hygino

A sucessão de suspeitas e acusações nos altos escalões da República, nos últimos dias de outubro, chega ao ponto de causar indignação nos vários segmentos da sociedade. Justifica-se: na hora em que se caminha para o fim da aprovação do projeto da reforma da Previdência, indispensável à recuperação da economia, problema que desafiou gerações de brasileiros, as dúvidas que se levantam no caso Marielle podem até sinalizar desconfiança de futuros parceiros no processo de restauração.

As farpas que se trocam, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação, já provocam um ambiente de insatisfação, quer entre os segmentos mais humildes da sociedade, quer entre os mais informados, que concluem pela necessidade de completa elucidação dos fatos. Evidentemente, o choque de denúncias, inclusive as acusações tornadas públicas entre autoridades, não contribui absolutamente em nada para referendar os pleitos e temas que o Brasil está levando ao concerto das nações com que mantém relevantes negociações.

Não é hora de apenas retrucar, pois cumpre a cada um oferecer colaboração para aclarar fatos que certamente precisam de elucidação. Tentar tapar o sol com a peneira ou esconder episódios ainda duvidosos afeta a própria confiabilidade de pessoas e grupos em que a nação entregou a direção de seus destinos.

Esta não é a hora própria para insultos e suspeitas, para lançar culpas sobre fatos não suficiente e completamente investigados. Aliás, é bom observar que o presidente da República e o governador do Estado do Rio, tão atuantes no affair, apelaram em suas declarações à imprensa, citando o evangelista João 8:32: “E conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”.

Neste ano 130 da proclamação da República, em que nascemos e vivemos, cumpre lembrar o 24 de agosto de 1954. Naquele tempo de grandes desavenças, o chefe da nação admitiu que um mar de lama parecia atingir o palácio do Catete, sede do governo federal. Para evitar humilhação, decidiu por fim á própria vida, com um tiro no coração.

Não é hora de repetir a trágica experiência. Cabe afugentar os fantasmas, afastá-los para bem longe. O Brasil não terá a condescendência para aqueles que o traem.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, manifestou preocupação com a democracia brasileira. “A toada não é democrática-republicana. Os ventos, pouco a pouco, estão levando embora os ares democráticos”, afirmou em um jornal.


84311
Por Manoel Hygino - 31/10/2019 10:21:56
A nossa hora

Manoel Hygino

Mesmo no exercício de altos cargos, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima não deixa de observar seus velhos hábitos. Aqueles que vão às raízes, na sua São João del-Rei natal, que não esquece, nem deixa de visitar “religiosamente”. Aliás, o advérbio vem muito a propósito, se reconhecer os vínculos da cidade com as lições pregadas desde a colonização pelos sacerdotes de Portugal.

Em artigo para jornal de sua terra natal, conta que, em outubro, lá faleceu o amigo Eustáquio Carazza, apelidado de Taco, dono de um bar muito popular.

Lembra: “aos domingos, no final da manhã, agrada-me encontrar amigos no ‘Bar do Taco’, à avenida Leite de Castro. As mesas são postas na passarela central da avenida. Faço exercício vendo as pessoas correrem ou caminharem. A roda é capitaneada pelo nosso líder Fernando Magno Mendonça. A maior parte dos frequentadores são futebolistas de São João del-Rei. Eu sou apenas comentarista e preparador físico. A cerveja é bem gelada, acompanhada por saudáveis tira-gostos importados das cercanias: o Taco não fazia quitutes. A prosa é muito boa. O dono do boteco também participava das conversas. Taco era um sujeito dócil, respondia às inúmeras provocações com bom humor e alguns palavrões inofensivos. Muito católico, rezava todas as manhãs na grutinha de Nossa Senhora, perto da ponte do final da avenida Antônio Rocha. Eu recordo um sábado friorento do mês de julho, há uns três anos. Sentei-me em uma mesa do Bar do Taco. Ali pelas duas da tarde, aproximou-se, a passos leves e ligeiros, um magro e grisalho ancião. O Taco, à aproximação da personagem, nos preveniu:

– Esse velho é surdo e mudo. Todo dia, nessa mesma hora, vem aqui olhar o relógio. Coisa doida!

O ancião mirou um relógio de parede com o escudo do Flamengo – time do coração do Taco. Olhou para o dono do bar e este confirmou: – São duas da tarde!

Ora, diabos: o velho não era surdo e mudo? Por que o dono do bar lhe falou as horas? Por que o velho fez cara de entender? Do mesmo jeito furtivo com que se aproximou, o ancião se afastou, até sumir na primeira dobra de esquina. Sorvi um longo gole da gélida bebida maltada e divaguei um pouco mais. Por que aquele ritual das horas? Para que o ancião quer as horas? O que ele faz das horas? Então lembrei o diálogo de uma peça de Shakespeare:

– Que horas são, senhor?

– São horas de ser honesto.

Agora que o Taco se foi, eu recordo essa passagem meio fantástica. Faz sentido. O Taco era do bem. Era honesto. Vejo o Brasil. São horas de ser do bem. São horas de ser honesto. Não vamos fechar o Bar do Taco”.


84305
Por Manoel Hygino - 30/10/2019 08:33:01
A vez do Chile

Manoel Hygino

O mundo, como um todo, jamais teve paz completa. O período que atravessamos confirma a afirmativa. Nem falo do Reino Unido e do Brexit, que põe em atenção a Europa. Por ali, há uma espécie de convulsão civilizada como convém.

No Oriente Médio, é o que se sabe e se confirma presentemente, com uma guerra que se estende até a Europa, passando pela Turquia, aliada à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), mas nem tanto. Conjectura-se sobre se a morte do Califa Baghdadi, do grupo islâmico que se suicidou com os filhos, terá repercussão entre os vários grupos extremistas. No hemisfério Sul das Américas, persiste o ambiente de permanente insatisfação, que gera perspectivas sombrias.

A Bolívia, com impressionante performance econômica nos últimos anos e com PIB de 4%, em 2019, ainda assiste aos efeitos do pleito, disputado entre o presidente Evo Morales e Carlos Mesa. Aparentemente, Morales assumirá o que já está em suas mãos, pela quarta vez. Falta comprovar que o pleito foi correto, sem fraudes.

No Chile, a grande e má surpresa, pois parecia que a nação andina aprendera a andar seguro pelas vias da democracia. Não foi tanto assim, e a revolta se generalizou pelas principais cidades, apesar de o presidente Sebastian Pinëra ter revogado a decisão sobre reajuste de preços de combustíveis, que causou a revolta.

Desfaz-se, assim, o que Mário Vagas Lhosa preconizara: Tem-se de “reconhecer que esse país cresce e melhora seus níveis de vida num ritmo febril parecendo para muita gente uma forma de justificar as torturas, os exílios, as censuras e outros atropelos cometidos pela ditadura Pinochet.

Mas isso é dar forma de avestruz e tentar escamotear a verdade histórica. Simplesmente não é verdade que a ditadura era o requisito indispensável para as mudanças que fizeram o Chile o que é agora, a sociedade mais próspera da América Latina e aquela sobre a qual a liberdade se sustenta com bases mais firmes”.

Acrescentou: “foram as reformas econômicas, a abertura ao mundo, a transferência à sociedade civil das empresas públicas, e a privatização da previdência social e o formidável alento à difusão da propriedade das empresas privadas o que colocou em andamento esse deslanche que fez o Chile crescer em todos estes anos, às assombrosas médias de nove por cento e dez por cento”.

E não poderia faltar o julgamento: “o acontecido no Chile nos anos do general Pinochet é uma anomalia, uma exceção à regra; em geral os regimes autoritários trazem consigo mais intervencionismo e arbitrariedade, a democracia, para funcionar de verdade, necessita de um sistema legal equitativo e eficiente que nenhuma ditadura pode garantir”.

Contados mortos e feridos, o Chile procura voltar aos seus melhores dias. A capital, Santiago, e as demais grandes cidades tentam superar os problemas mais flagrantes como o transporte urbano, seriamente sacrificado pelos danos causados, principalmente no sistema metroviário.

O presidente Pinëra não esclareceu exatamente o que significa a sua afirmativa: “Estamos em guerra contra o inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém, que está disposto a usar a violência e a delinquência sem qualquer limite”. Nas ruas de Santiago, os dispositivos militares começam a ser reduzidos. A explosão de violência arrefeceu, nas últimas horas.


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Por Manoel Hygino - 28/10/2019 13:39:04
Na hora do aperto

Manoel Hygino

Quem te viu, quem te vê. No dia 21 de maio, era 1899, menos de dez anos após a proclamação da República e menos de dois da solene inauguração de Belo Horizonte, em 1897, como capital de Minas Gerais, a população sentiu que a cidade precisava de um hospital para atender à crescente demanda de assistência médica. Cuidou de resolver o problema um grupo de pessoas, a nata da sociedade como então se dizia. Assim, constituiu-se uma entidade, que seria a Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Misericórdia – era a palavra-chave da iniciativa – assumindo os primeiros médicos, dois ou três, para exercício gratuito de seus misteres, formados evidentemente onde já havia faculdade de medicina no país: Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. E mãos à obra.
Parodiando Camões, poderia dizer agora que, inúmeros sóis são passados, somando hoje 120 anos, a partir da benemérita sociedade formada no governo republicano. Ela ganhou espaços, venceu dificuldades de toda ordem, para transformarse na maior empresa da área de saúde no Brasil. O galardão foi proclamado em outubro de 2019, mediante julgamento e definição de equipe da revista Época Negócios, com parceria técnica da Fundação Dom Cabral. Para chegar ao resultado, considerou-se a avaliação dos participantes em seis dimensões: desempenho financeiro, governança corporativa, inovação, visão de futuro, pessoas e sustentabilidade.
Não foi, nem é tarefa fácil, manter essa preciosa máquina de fazer o bem sem saber a quem, funcionando 24 horas por dia, com mais de cinco mil colaboradores. Mantendo seu pagamento em dia, mesmo quando algum devedor deixa de fazê-lo à instituição, como no caso do governo de Minas. E acrescente-se: o título recém conquistado não veio de uma hora para outra, pois desde 2017 a Santa Casa BH se encontrava inserida entre as melhores empresas no setor saúde do país.
Li na Época, o título e subtítulo da matéria assinada por Silvia Kochen: “O milagre aqui, se chama Planejamento: “Desde serviço ágil de ambulâncias, já apelidado de “uber das macas” até acordos estratégicos com hospitais como o Einstein, a Santa Casa de Bh busca os caminhos da cura”.
Há de advertir-se para a dimensão, por exemplo, do seu Hospital Central, cujo complexo já integra o cenário urbanístico da cidade: são 1018 leitos para atendimento exclusivo ao SUS, dos quais 170 de tratamento intensivo. Atendendo a 35 especialidades, é o maior hospital transplantador de órgãos do Brasil, inclusive de coração, procedendo a mais de 2,6 milhões de pacientes por ano. Quem quiser, pode conferir.
Quando a doença aperta, sabe-se a quem recorrer com segurança em Belo Horizonte ou, conforme o caso, nas mais recônditas regiões da velha província, como acolhe presentemente pacientes de todo o país, para determinados procedimentos específicos. Estou certo de D. Leonor de Lencastre, fundadora das Misericórdias, há mais de quatro séculos se sentirá feliz pelos serviços que, em sua Santa Casa, se presta na capital montanhesa.


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Por Manoel Hygino - 24/10/2019 08:45:42
Vieira no Maranhão

Manoel Hygino

O padre Antônio Vieira conquistou lugar definitivo na história do Brasil e Portuga. Nem precisaria repeti-lo, mas chama a atenção que sua biografia não estagnou, não ficou parada no tempo. Edmilson Caminha aborda o fato em artigo recente. E o fez de maneira atraente, com seu estilo muito peculiar, que o distingue no mundo literário da época, em que muito se produz e se publica, mas relativamente pouco se aproveita.

Edmilson começa por contar como nasceu “Vieira na ilha do Maranhão”, de Ronaldo Costa Fernandes, romance lançado este ano pela 7 Letras. E que já mereceu elogios compreensíveis também de Adelto Gonçalves, o que corresponde dizer que se trata de mercadoria de boa qualidade.

O articulista descreve como nasceu a ideia do escritor maranhense, Ronaldo, nascido em 1951, em São Luís. Ele é mestre em Literatura Hispano-americana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Literatura pela de Brasília, dentre outros títulos, sendo autor de várias obras de reconhecidos méritos.

Eis como se forjou o projeto: em visita a Lisboa para uma feira de livros, Ronaldo identifica o título do angolano Pepetela, historiando a presença de Vieira na África, continente em que o sacerdote jamais pusera os pés. De volta à feira de livros, não achou a obra e vendedores nada sabiam a respeito.

Pesquisou mais, perambulou, mais perguntou, porém, ninguém conhecia algo sobre o bendito livro. Decidiu: “se o autor angolano não escreveu sobre Vieira na África, ele - Ronaldo Costa Fernandes – o faria, escrevendo sobre o jesuíta no Maranhão”.

No Brasil, o que se sabe, relativamente pouco é sobre seus sermões, alguns famosos, vigorosos, de crítica aos poderosos da colônia, que se esmeravam em explorar os mais pobres e humildes, os escravos. Pelo romance , pode-se aprender, mesmo se tratando de ficção, muito sobre os costumes da época, desde a cama à mesa, sem maiores cuidados e zelo, pelo vocabulário utilizado por personagens pouco pudicos.

Nada melhor, contudo, de que ingressar no clima do século de Vieira tão bem acompanhado. O romance de Ronaldo Costa Fernandes contribui para sentir e compreender o tempo em que viveu, as posições e comportamentos dos personagens que transformaram o romance numa das mais significativas criações da ficção brasileira neste ano que caminha para o fim. Edmilson é um bom julgador e conselheiro.

Vou adaptar uma linha do crítico: Bendito comentário, que nos possibilita ler “Vieira na ilha do Maranhão, romance que engrandece a ficção brasileira e honra a literatura em língua portuguesa. Por sinal, o prestigioso jornalista e escritor virá a Belo Horizonte, em 28 deste mês, para palestra na Academia Mineira de Letras, sobre um dos nossos mais admiráveis escritores, ex-integrante do sodalício. Edmilson escolheu para sua palestra o título: “as histórias de Agripa (de Vasconcelos), garimpeiro da história”.



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Por Manoel Hygino - 19/10/2019 07:21:42
Em tempo de decisões

Manoel Hygino

O tempo, inclemente, com altas temperaturas e umidade relativa do ar castigando, não correspondeu às necessidades e reclamos do Sudeste, e a chuva não caiu como desejado e necessitado. Para a semana, que começa em 21 de outubro, a perspectiva é mais generosa. Precipitações a partir de segunda-feira. Vamos ver...

Em São Paulo, um assalto no aeroporto de Viracopos deixou mortos e feridos. A ousadia dos fora da lei advertiu para a situação da violência no país, nas pequenas cidades interioranas ou na maior metrópole do hemisfério. Para restabelecer a ordem, muitas centenas de agentes de segurança municipais, estaduais e federais, entraram em ação, enquanto se suspendiam pousos e decolagens de aeronaves e se fechava uma rodovia.

Neste ambiente pesado e de inquietude, no dia em que se começava o julgamento pelo STF da controversa matéria sobre prisão após segunda instância, um alto oficial das forças armadas manifestou-se. O general Villas Boas, líder do Exército, usou das redes sociais para afirmar que o país corre risco de “convulsão social”.

Embora ainda hospitalizado para traqueostomia, Villas Boas, hoje assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, começou um depoimento com trecho de conhecida fala de Rui Barbosa, em 1914: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus e a rir-se da honra, tem-se vergonha de ser honesto”.

A Folha de S. Paulo, entre suas noticias mais lidas, noticiou que a “mensagem de Villas Bôas em suas redes às vésperas de o STF retomar julgamento sobre prisão em segunda instância, atiçou ânimos na corte”. “Ministros dizem que, desta vez, a chance de a pressão surtir efeito contrário é grande. No texto, o general cita risco de convulsão social. Villas Bôas publicou mensagem mais incisiva no ano passado, às vésperas do julgamento de um habeas corpus do ex-presidente Lula. Na ocasião, o voto de Rosa Weber foi creditado à esse gesto dele”.

Dados do Conselho Nacional de Justiça dizem que 4.895 presos seriam beneficiados com a mudança de interpretação que começou a ser julgada no Supremo. Entre eles o ex-presidente Lula, que está em sala da Polícia Federal de Curitiba desde 2018.

O jornal espanhol El Pais adiantou: “Voto de Rosa Weber no STF pode definir destino de Lula e quase 5.000 presos”. Segundo o noticiário, a corte suprema, sob pressão e em meio a alarme de bolsonaristas, o julgamento demorará, começando com previsão de até três sessões. O jornal britânico BBC resume:

“Depois de autorizar em 2016 que réus condenados em segunda instância fossem presos, o Supremo Tribunal Federal (STF) pode rever essa decisão no julgamento. Se isso acontecer, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alguns milhares de outros presos no Brasil podem vir a ser soltos”. O mundo está de olho no Brasil.

A resposta se terá, em princípio, na próxima semana, já que se preveem três reuniões para todos os ministros votarem. E cada voto demora.


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Por Manoel Hygino - 18/10/2019 08:08:55
A morte por perto

Manoel Hygino

Em 6 de setembro de 2018, a família de Adélio Bispo de Oliveira viu sua imagem pela televisão, quando tentou matar, com uma faca, o candidato a presidência Jair Messias Bolsonaro, em Juiz de Fora. O episódio chamou a atenção. No Brasil, presidentes ou concorrentes ao cargo não são vítimas desses crimes como em outras regiões do mundo.

Mas, acontecera em nossa Manchester, na Zona da Mata. Muito longe dali, em Montes Claros, no Norte do Estado, cidade natal do quase homicida, a imagem de Tuca, seu apelido, é de uma pessoa religiosa, correta e trabalhadora, que – em condições normais – nunca teria praticado o gesto.

O ato parece ter suscitado exemplo. Em 26 de setembro de 2019, o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também mineiro, declarou que foi armado à sessão do Supremo Tribunal Federal com a intenção de matar a tiros um ministro. Objetivo: executar o ministro Gilmar Mendes e depois se suicidar.

Janot acrescentou que, logo depois de apresentar uma exceção de suspeição contra Gilmar Mendes, o ministro difundiu uma história mentirosa sobre sua filha. “E isso me tirou do sério”. Segundo o ex-procurador, impediu-o do ato criminoso a “mão de Deus”. Gilmar observou em seguida: “Recomendo que (Janot) procure ajuda psiquiátrica. Continuaremos a defender a Constituição e o devido processo legal”.

A Associação Nacional dos Procuradores da República, em seguida, publicou: “Os membros do MPF repudiam qualquer ato de violência que se cogite ou seja praticado em detrimento de qualquer pessoa, seja autoridade pública ou não, como o que foi revelado pelo ex-PGR. A democracia prevê, por meio do livre funcionamento das instituições, a eterna vigilância contra a barbárie”.

O affair não ficou por aí. Uma semana depois do caso Janot, um procurador da Fazenda Nacional, em São Paulo, foi preso em flagrante pela Polícia Federal sob suspeita de tentar matar uma juíza no Tribunal Federal da 3ª Região. A magistrada viu seu gabinete ser invadido pelo procurador, que teria acertado uma facada no pescoço, mas sem gravidade.

O fato está sendo apurado. A Advocacia Geral da União informou que determinou a imediata abertura de sindicância no âmbito da instituição. Disse a AGU que “lamenta o ocorrido, registra irrestrita solidariedade à magistrada e repudia todo e qualquer ato de violência”.

Fatos novos não apagam os antigos. Quantos morreram na ponta da faca – inclusive por virulentos ciúmes entre casais – desde o atentado contra o candidato à presidência da República? A família de Adélio Bispo – olhem que é bispo, pelo menos no nome – lamenta nada conhecer a respeito, senão o divulgado por televisão ou rádio: “A gente não sabe como ele está e não tem como ir lá visitar”, disse um deles. Ao ouvir que se encontra em cela individual, com duas horas de sol por dia, vigiado, alguém observa: “Aí é que ele vai endoidar mesmo”.

Uma reportagem da Folha de São Paulo mostra que Adélio, que hoje tem 41 anos, desde os 16 saía “para o mundo e só voltava na hora que queria”, segundo uma irmã dele. E, à noite, ia orar. Virou evangélico na juventude e chegou a ser pregador em uma das denominações que frequentava a Igreja Missionária Resplendor da Glória de Deus.


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Por Manoel Hygino - 17/10/2019 07:45:33
Perspectiva para 2020

Manoel Hygino

Caminhamos para o fim de 2019 (ou nele já estamos) quando se completa o primeiro ano de gestão de Jair Bolsonaro na presidência da República e de Romeu Zema à frente do governo de Minas. Sobre ambos recai a pesada carga de administrar um país em confusão e um estado com a economia em frangalhos.

Quando agosto evoluía a óbito, como se diz, o IBGE atualizou os dados: o Brasil já tem mais de 210 milhões de habitantes, quando, no ano passado, situávamo-nos em 208 milhões. Para ser mais exato, estamos com 210.147.125 habitantes, sem contar os que nasceram depois da mais recente avaliação. São Paulo lidera, com 45.919.049, seguido de Minas com 21.168.791. A Bahia tem mais gente no Nordeste - 14.873.064 ­ e, lá embaixo, o Rio Grande do Sul, com 11.433.957.

Não findara o oitavo mês do ano, todavia, quando o confiável IBGE divulgou, ainda pela manhã, que a taxa de desemprego ficara em 11,8% no trimestre encerrado, abrangendo 12,6 milhões de pessoas. O resultado representava estabilidade frente ao trimestre concluído em julho, quando a taxa ficou em 11,8%, e o número dos desempregados foi calculado em 12,6 milhões. Em comparação com o mesmo trimestre de 2018, o desemprego caiu 0,3 pontos percentual, pequeno declínio embora consolador.

Enquanto o ambiente político-institucional-jurídico permanece enfarruscado com notícias e boatos, a bandidagem percorre estados e municípios, como recentemente aconteceu no Ceará e no norte-mineiro, no qual grupos de criminosos levaram e levam pânico às populações que querem apenas tranquilidade. Os índices de violência decresceram, segundo os números oficiais, mas assustam as informações que ininterruptamente ocupam espaços nos veículos de comunicação.

Há esperança para 2020, até ou principalmente para aqueles que gostam do descanso prolongado. E têm razão: o Brasil somará dez feriados nacionais em meio de semana, sem contar os estaduais e municipais. Representará o dobro dos de 2019, porque os do vindouro calendário serão próximos de sábados e domingos.

Recorro, para os devidos fins, ao que a imprensa relacionou: 1° de janeiro cairá numa quarta-feira. O feriado da Terça-feira de Carnaval será em 25 de fevereiro. Em abril, serão dois feriados: a Sexta-feira da Paixão, dia 10, e a sexta de Tiradentes, dia 21. O Dia do Trabalho, em 1º de maio, ocorrerá numa sexta-feira. Em junho, o feriado de Corpus Christi será numa quinta, dia 11. Em setembro, o Dia da Independência será numa segunda-feira. Doze de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, será numa segunda. O 2 de novembro, Finados, será também numa segunda. Por fim, o Natal vai cair numa sexta. Março, julho e agosto não terão feriados nacionais.

Teremos um feriado muito especial no quarto mês do próximo ano: o 21 de abril, quando Brasília comemora 60 anos de inauguração. A capital, que Juscelino construiu no planalto, confirmando a profecia de São João Bosco, já ostentava, então, população fixa de 100 mil habitantes. Hélio Silva, o historiador, lembra que, na inauguração de Washington como capital dos Estados Unidos, havia apenas 126 pessoas. Só estavam prontos para uso o edifício do Congresso, o palácio presidencial e o do Tesouro. Os departamentos de Estado, Guerra, Marinha e Correios foram abrigados provisoriamente em residências particulares. O Brasil se orgulha: a nova capital foi construída rigorosamente em três anos.


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Por Manoel Hygino - 15/10/2019 09:36:23
Dias de fé

Manoel Hygino

A Igreja Católica Romana no Brasil viveu dias de intensas demonstrações de prestígio e de fé, em outubro, com presença e participação de Francisco. Enquanto o Papa se manifestava pública e claramente sobre a posição do Vaticano diante dos problemas da Amazônia, que envolveram as nações civilizadas e suas organizações, outras questões mobilizaram a comunidade.

Em Belo Horizonte, o falecimento do cardeal arcebispo metropolitano, Dom Serafim Fernandes de Araújo causou expressões de estima e de sentimentos de pesar a quantos conheciam sua dedicação à cidade, e a seu povo. Lembraram-se suas iniciativas, atuação e presença nos encontros esportivos, a notável ampliação na Universidade Católica de Minas Gerais, suas gestões de altiva serenidade, ao lado de D. João Resende Costa no período de ditadura militar, a propagação dos instrumentos de comunicação com a sociedade, sua sensibilidade diante dos problemas que atingiam os segmentos mais carentes da população. Milhares e milhares de fiéis levaram-lhe o último adeus até seu corpo descer à cripta da Boa Viagem.

Naqueles dias, a capital e os mineiros saudaram a reabertura, após longo processo de recuperação, da Igreja de São Francisco de Assis, no complexo turístico da Pampulha, graças ao qual Belo Horizonte se integrou no rol do Patrimônio Cultural da Humanidade. E 4 de outubro, como sabeis, é o dia de São Francisco.

Mas o oitavo mês seguia e já estava agendado para o dia 13 a canonização de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce dos Pobres, falecida em 1992, aos 77 anos. A celebração, em Roma, conforme estabelecido pela Congregação das Causas dos Santos, contou com 88 bispos e cem padres, inclusive os que se encontravam em Roma, para o Sínodo.

Desta vez, houve mais: concomitante com os atos no Vaticano os brasileiros festejaram o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, data que atrai à cidade paulista muitos milhares de peregrinos de todos os estados. Mas, a partir de agora o dia do azar no Brasil, o 13 de agosto, conforme os supersticiosos, será também o de Santa Dulce dos Pobres, que por aqui não faltam.

Muitos milagres, sim, atribuídos à Irmã Dulce, uma pequenina religiosa deste tamanhozinho, que superou corajosamente todos os desafios para empreender uma obra fantástica, além – de 10 mil relatos de fiéis em todo o mundo. Entre eles, curas de câncer, superação de vícios em drogas, problemas familiares, sobrevivência a acidentes graves. Para prova, considera-se milagre, o fato ser peternatural, isto é, a ciência não explica; instantâneo, ou seja, acontece imediatamente após oração; e duradouro e perfeito.

No entanto, além desses, julgo eu, são também aqueles que resultaram na construção de um empreendimento assistencial imenso em Salvador, cujas descrições os jornais revelaram. A OSID – Associação Obras Sociais Irmã Dulce - foi instalada oficialmente há 60 anos, em 1959.

O Papa, contudo, não perdeu o ensejo e deixou um recado: no dia da padroeira do Brasil, gravou mensagem especial aos brasileiros, pedindo que a santa cubra o caminho de Justiça e acompanhe a população diante de limitações políticas, sociais ou ecológicas. “Trago no coração o povo brasileiro e envio uma saudação. Que ela (nossa Senhora Aparecida), pequenina e humilde, continue os cobrindo e acompanhando em seu caminho: caminho de paz, de alegria, de Justiça”. No vídeo, Francisco pede também “que ela os acompanha em suas dores, quando não podem crescer por tantas limitações políticas ou sociais ou ecológicas, e de tantos lugares provêm. Que ela os ajude a crescer e a se libertar continuamente. Que os abençoe”.


84272
Por Manoel Hygino - 14/10/2019 07:14:35
O dignitário que parte

Manoel Hygino

Na proximidade da data dedicada a São Miguel, brasileiros do Sudeste, principalmente no interior, esperavam que as chuvas marcassem efetiva presença. Aconteceu, porém, em pequena proporção – menos que o solo queria e os reservatórios das hidrelétricas exigiam. O tempo não parou.

Após setembro, chegou o dia de São Francisco de Assis, 4 de outubro. O jornalista Paulo Narciso resgatou a mensagem de Dom João Resende Costa, arcebispo de Belo Horizonte, ao ensejo da data e do santo. Dom João, com quem mantive sucessivos contatos, escreveu no já remoto 2/10/1992, sob título de “Francisco, pobre e humilde”.

“São Francisco esteve de certo modo no batismo cristão do Brasil, pois foi um franciscano, Frei Henrique de Coimbra, que, na praia de Porto Seguro, celebrou a primeira missa em chão brasileiro. Dois franciscanos, Santo Antônio e São Benedito, estão entre os santos mais queridos da devoção brasileira. E franciscanos estão aqui presentes em todas as áreas de trabalho da igreja, ensinando, pregando, santificando, distribuindo ‘paz e bem’. Ele é o santo que mais se assemelhou a Cristo. Não lhe faltou sequer o sinal misterioso das chagas do Crucificado, marcando-lhe o corpo, num trasbordamento do imenso amor que lhe queimava a alma. Francisco marcou a igreja com sua santidade. Nele brilhou a virtude da pobreza e da humildade como em nenhum outro. Ele é um monumento vivo das bem-aventuranças do Evangelho. Mostrou como as riquezas de nada valem e só um coração livre, que a elas não se escraviza, se pode encontrar a felicidade. Ele é como um irmão de todos. O irmão universal. E irmão também de todas as criaturas: do sol, da lua, das estrelas, da água, da terra, do vento, das nuvens, do fogo. O ‘Cântico do Sol’, que ele compôs, está entre as coisas mais belas que se produziu em toda a poesia do mundo. Até a morte ele chamou de irmã! Sentia-se em paz com todos e com tudo. O homem de um mundo em harmonia. Teve razão o Papa João Paulo II em proclamá-lo Padroeiro da ecologia. Francisco nos ensinou a sentir mais de perto a força do amor, a única capaz de converter o mundo. Há demasiados conflitos. Há antagonismos demais. Francisco nos ensinou como superá-los: pelo Amor!”.

Em 8 de outubro, correu a cidade a notícia do falecimento de Dom Serafim Fernandes de Araújo, cardeal arcebispo de Belo Horizonte e, sucessor de D. João, continuador de sua obra, autor e responsável por inúmeras outras no campo da assistência à comunidade. Igualmente foi fundamental sua atuação na gestão da Universidade Católica de Minas Gerais, que ganhou novos espaços no ensino universitário Brasil afora, utilizando as novas ferramentas de tecnologia.

Incentivador do esporte e das boas causas, durante a exposição de seu corpo na catedral da Boa Viagem, celebraram-se missas ao longo de três dias, quando muitos milhares de pessoas renderam as últimas homenagens ao ilustre dignitário, homem simples do interior mineiro que tanto honrou nossas melhores tradições.


(N. da Redação - A mensagem citada pelo escritor Manoel Hygino foi publicada neste montesclaros-com na sexta-feira 4/10/2019, às 17:21:38, e é de autoria do engenheiro Afonso Claudio)


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Por Manoel Hygino - 11/10/2019 15:53:17
Os políticos e o poder

Novos governantes, habitações luxuosas para os que sonham com o poder, que proporcione benesses e pompa, como acontece comumente. É natural, embora haja aqueles outros que desprezam ou relegam a ostentação.

De tudo existe, em todas as épocas e lugares, mas algo é certo: os palácios favorecem o ambiente de adulação, de bajulação, com objetivos muitas vezes escusos, embora o correto senso de servir glorifique ou honre detentores do poder. Com este propósito, eles concorrem aos pleitos e fazem promessas populares em praça pública ou pelos modernos meios de comunicação. Há os que assim procedem e esquecem os compromissos.

Há casos curiosos. Na época da proclamação da República, aconteceu um dos episódios lembráveis. Deposto Pedro II, em 15 de novembro de 1889, ele recusou uma bela pensão que lhe ofereceram a bordo do navio que o levaria para o exílio. O “Alagoas” levantou ferros depois das duas da madrugada, enquanto o imperador mantinha a maior dignidade e a imperatriz chorava. Explicou-se: “como deixar de vertê-las ao sair de minha terra que nunca mais hei de ver?”.

No Rio de Janeiro, ficaram os muitos afoitos, elementos exaltados do Governo Provisório da República. Redigiram um decreto, assinado por Aristides Lobo, ministro interino da Justiça, declarando o confisco dos bens da Coroa. Entre estes, o Palácio Isabel, depois Palácio Guanabara.

Aí o engano ledo e cego, que permaneceu por muito tempo. O Palácio Isabel havia sido doado à princesa (que proclamara a libertação dos escravos um ano e pouco antes), por subscrição pública, como presente de núpcias, quando do seu casamento com o Conde d’Eu.

Era, deste modo, propriedade particular. Logo, deram de si e elaboraram um novo decreto, do qual se excluía o Palácio. No entanto, o edifício ficou esquecido: não pertenceu ao Estado do Rio, ao Estado da Guanabara, nem ao governo federal, ou à família imperial. Somente quando Epitácio Pessoa assumiu a Presidência da República, o exílio da família foi revogado e permitido o regresso ao Brasil dos jovens príncipes, que eram rapazes.

Os que sobreviveriam dos descendentes de Pedro II voltaram com sotaque francês, mas o presidente da República morava no Palácio Guanabara, despachando no Palácio do Catete. D. Pedro Gastão, o de Petrópolis, chefe da Casa Imperial, trocava. “Como é que podia eu chegar e requerer na Justiça o despejo do presidente da República, que tinha deixado a gente voltar para o Brasil? Não era possível”.

A família real constituiu advogado o mineiro San Tiago Dantas, que entrou com ação na Justiça. Acontece que, então, lá já despachava o general Mendes de Morais, o prefeito. A mesma situação de antes: como despejar um general chefe de executivo?

Com a saída de Mendes de Morais do cargo, a ação parecia ganhar espaço. Mas com San Tiago Dantas já no Partido Trabalhista Brasileiro, como entrar contra a família imperial, para tomar do povo do Rio de Janeiro o Palácio Guanabara? Assumiu a pendenga, naquela hora, o advogado Miguel Lins, por substabelecimento. A partir daí, faltam-me informações.


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Por Manoel Hygino - 10/10/2019 06:51:20
Equador sem paz

Manoel Hygino

Embora menos frequente na imprensa do que os demais países latino-americanos, o Equador não escapa aos sobressaltos, às insânias e inquietação do novo mundo descoberto por Colombo. A história equatoriana é marcada por sucessivos governos, em que pontificaram a baixa política, a corrupção, os golpes militares.

Não se esquecerá, assim, a afirmativa de José Maria Velasco Ibarra, presidente da República cinco vezes, a primeira vez em 1934: “quero deixar explícita minha total falta de ambição pelo poder”.

Na semana inaugural deste ano de 2019, aconteceu o que antes fora registrado, algumas vezes. Trabalhadores do setor de transportes declararam greve, em protesto contra o aumento de 123% nos preços dos combustíveis. Lá como cá, os derivados de petróleo fazem a paz ou a guerra.

O reajuste resultou do corte de subsídios do governo para manter uma aparente tranquilidade social. Com a supressão dos subsídios, violentos confrontos eclodiram em todo o país e a capital se transformou em campo de batalha, obrigando o presidente Lenin Moreno a decretar estado de exceção.

No primeiro dia da paralisação houve 35 feridos, entre os quais policiais, além de 277 prisões, enquanto se suspendiam a aulas nas escolas. Nada menos de 27 milhões de pessoas ficaram sem transporte coletivo e táxi, enquanto o movimento se estendia além de Quito a outras cidades como Guayaquil e Cuenca.

Na crônica política do Equador, não se há de esquecer Abdalá Bucarán, sobrinho do ex-presidente do Congresso, de nome Assad. Eleito em 1946 (é, pois, bem deste nosso tempo), Abdalá foi afastado do poder em 6 de fevereiro de 1947 e por um motivo assás compreensível. O Parlamento aprovou moção declarando sua “incapacidade mental”.

Carlos Taquari acrescenta que outros aspectos altamente negativos eram lembrados: corrupção e comportamento inadequado para chefiar um Estado. Queria dizer o já de conhecimento público: o presidente, dentre outros fatos notórios, realizava festas em palácio, se embriagava e se divertia em companhia de mulheres de conduta duvidosa, contratadas por sua assessoria.

Foi, pelo que se deduz, um chefe de governo fora do comum mesmo na América: depois de goles caprichados, punha-se a cantar e tocar guitarra. Por seus dotes, aliás, chegou a gravar um disco com baladas românticas e rock, alcançando o máximo de exposição com apresentação em programas de auditório pela televisão. Quando alguém se referia a ele como um doido, confirmava observando: “un loco que ama”.

É bom resgatar: nos dias 6 e 7 de fevereiro de 1997, o Equador teve três presidentes: Bucarán, que foi afastado e se recusava a deixar o palácio, a vice-presidente Rosalía Arteaga, que desejava o cargo por direito constitucional, e Fabián Alarcón, presidente do Congresso, que por força constitucional tinha de assumir. E assumiu pro tempore.

Mais fatos e pormenores virão depois, todos confirmando a ideia que se tem de cidadãos que chegaram ao comando do Executivo de seus países, repetidamente com aval dos cidadãos. O futuro, deste modo, preocupa.


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Por Manoel Hygino - 5/10/2019 07:23:35
Perspectiva para 2020

Manoel Hygino

Caminhamos para o fim de 2019 (ou nele já estamos), quando se completa o primeiro ano de gestão de Jair Bolsonaro na presidência da República e de Romeu Zema à frente do governo de Minas. Sobre ambos recai a pesada carga de administrar um país em confusão e um estado com a economia em frangalhos.
Quando agosto evoluía a óbito , como se diz, o IBGE atualizou os dados: o Brasil já tem mais de 210 milhões de habitantes, quando no ano passado situávamo-nos em 208 milhões. Para ser mais exato, estamos com 210.147.125 habitantes, sem contar os que nasceram depois da mais recente avaliação. São Paulo lidera os estados, com 45.919.049, seguido de Minas com 21.168.791. A Bahia tem mais gente no Nordeste - 14.873.064 e lá embaixo, o Rio Grande do Sul com 11.433.957.
Não findava o oitavo mês do ano, todavia, quando o confiável IBGE divulgou, ainda pela manhã, que a taxa de desemprego ficara em 11,8% no trimestre encerrado, abrangendo 12,6 milhões de pessoas. O resultado representava estabilidade frente ao trimestre concluído em julho, quando a taxa ficou em 11,8%, e o número dos desempregados foi calculado em 12,6 milhões. Em comparação com o mesmo trimestre de 2018, o desemprego caiu 0,3 pontos percentual, pequeno declínio embora consolador.
Enquanto o ambiente político-institucional-jurídico parece convulsionado com notícias e boatos inquietantes, a bandidagem percorre estados e municípios, como aconteceu no Ceará e no norte-mineiro; neste, grupos de criminosos levam pânico às populações que querem apenas tranquilidade. Os índices de violência decresceram,
segundo os números oficiais, mas assustam as informações que ininterruptamente ocupam espaços em todos os veículos de comunicação. Sem falar evidentemente no episódio Janot-Gilmar, que dá a impressão de que reingressamos no conturbado ciclo do velho Oeste norte-americano.
Há esperança para 2020, até ou principalmente para aqueles que gostam do descanso prolongado. E têm razão: o Brasil somará dez feriados nacionais em meio de semana, sem contar os estaduais e municipais. Representará o dobro dos de 2019, porque os do vindouro calendário serão próximos de sábados e domingos.
Recorro, para os devidos fins, ao que a imprensa relacionou: Primeiro de janeiro cairá numa quarta-feira. O feriado da terça-feira de Carnaval será no dia 25 de fevereiro. Em abril, serão 2 feriados: a Sexta-feira da Paixão, dia 10, e a sexta do Dia de Tiradentes, 21 de abril. Já o Dia do Trabalho, em 1º de maio, ocorrerá numa sexta-feira. Em junho, o feriado de Corpus Christi será numa quinta, dia 11. Em setembro, o Dia da Independência será numa segunda-feira. Doze de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, será numa segunda. O 2 de novembro, Finados, será também numa segunda. Por fim, o Natal vai cair numa sexta. Março, julho e agosto não terão feriados nacionais.
Um feriado muito especial, teremos no quarto mês do próximo ano: o 21 de abril, quando Brasília comemora sessenta anos de inauguração. A capital, que Juscelino construiu no planalto, confirmando a intuição de São João Bosco, já ostentava, então, população fixa de 100 mil habitantes. Hélio Silva, o historiador, lembra que, na inauguração de Washington como capital dos Estados Unidos, havia apenas 126 pessoas. Só estavam prontos para uso o edifício do Congresso, o palácio presidencial e o do Tesouro. Os departamentos de Estado, Guerra, Marinha e Correios foram abrigados provisoriamente em residências particulares. Mas, o Brasil leva vantagem: a nova capital foi construída rigorosamente em três anos.


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Por Manoel Hygino - 5/10/2019 07:15:13
Após São Miguel

Manoel Hygino

Daqui a pouco outubro chegará ao meado (não miado). Mineiros confiam nas chuvas. No Norte, o nosso, choveu no dia de São Miguel Arcanjo, depois dos pingos da véspera. Caiu uma coisinha de água em terras ermas, como li em prestigiado veículo de comunicação.
Ao dealbar, como repetiu o jornalista, veio razoável chuva, de 5mm. Arrastou novas esperanças. Impôs o frescor na manhã. Acordou os pássaros mais cedo. Instaurou a alegria dos ninhos. Pôs aroma nas velhas árvores e arbustos, agradecidos. Despertou o relvado, exangue. Louvada seja a Chuva, e louvado seja o seu irmão Francesco de Assis, do Cântico das Criaturas.
O domingo seguiu nublado pela manhã, propício a mais chuvas, com nuvens por todo o horizonte, e o novelo delas vai debruçado sobre a serraria, faz dela travesseiro. Serraria - que não é Serra do Mel, onde acharam este nome?, mas é a serra dos “montes claros”, que dão nome à cidade.
Chamo atenção para a meteorologia, que já admitia chuva no período. Acertou. Mas quero alertar para a sabedoria popular.
Sabemos de muitas décadas, centúrias, que o Dia de São Miguel é a data que abre, desata o período das águas; nosso “inverno” em plena Primavera. Quase todos já ouvimos que é por volta do Dia de São Miguel, intrépido, fim de setembro, que devemos aguardar as chuvas inaugurais, pioneiras. A Chuva de Broto.
José Ponciano Neto, técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos conta: O “desenvolvimento sustentável” tão badalado na Conferência Eco-21 (Rio) na elaboração da “Agenda 21”, ainda não é realidade. A falta de políticas pode levar o nosso planeta a uma autodestruição - é a teoria do francês Antoine Lavoisier. Como o planeta não cria, tudo vai se transformar. Partindo deste princípio, virão mais tempestades – erupções – terremotos – longas estiagens. Quando a consciência da humanidade acordar para ecologização poderá ser tarde – e a problemática do ethos continuará a ser uma incógnita entre as partes: os que querem destruir deixando passivos, que pensam em conservar, e aqueles que tentam recuperar o irrecuperável.
Estão destruindo as áreas de “recargas” – nestas, a maioria deu lugar à silvicultura, que também destruiu para sempre várias e várias veredas; concomitantemente a destruição dos olhos d´água. O desmatamento das arvores nativas é o inicio da desertificação - depois vão querer recuperar o “irrecuperável”.
Muito se discute e pouco se chega ao denominador comum. A Cúpula do Clima é novamente o centro das atenções do mundo, das pessoas “ecologicamente corretas”. O que esperam as autoridades da Organização das Nações Unidas?
Como as decisões das nações irão afetar o nosso dia a dia? Que resoluções irão favorecer a gestão hidrológica com sustentabilidade? O norte de Minas espera decisões para agir localmente com os rios das Velhas, Verde Grande e PacuÍ.
Os rios estão perdendo para o homem, suas águas estão sendo interceptadas antes de atingir os lençóis que os alimentam. É quase uma utopia querer revitalizar o Verde Grande como em anos idos.
Conheci o Verde Grande na sua plenitude. Achava – até uns dez anos atrás, que ele voltaria novamente a ser perene, o ano todo, mas depois que o alto da sua bacia hidrográfica virou tapete para eucalipto e pinus; e o baixo, ao longo do talvegue, virou uma tábua de pirulito com milhares de poços profundos perfurados sem técnica e na clandestinamente. - Abdiquei! Assim, aliás, também é o moribundo Congonhas em Itacambira. O dia de São Miguel passou, as chuvas de outubro e novembro vêm aí.


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Por Manoel Hygino - 2/10/2019 08:44:43
Nicodemos em cena

Manoel Hygino

Nesta hora, as nações discutem a Amazônia e o seu futuro, a poluição no mundo e as queimadas, nossos indígenas, nossas riquezas de um modo geral e se reacendem as apaixonados debates sobre a maior floresta do mundo. O governo reitera que aquele território é brasileiro, intocável e inalienável sob qualquer pretexto ou motivação. Caberia, assim, que o conhecêssemos melhor, desde seus primórdios e àqueles que lhe dedicaram obras literárias que não podem perder-se no silêncio das estantes das bibliotecas e nas prateleiras das livrarias.

Entre os autores deste século (Raimundo de Morais é do passado), há de dar-se destaque a Nicodemos Sena, nascido em Santarém do Pará. Em tempos mais recentes, ele oferece, além de artigos publicados em sua cidade, excelentes obras já publicadas em Taubaté. Ali, de onde partiu Fernão Dias Pais, para sua obra bandeirante por imensas regiões de Minas Gerais, Nicodemos instalou seu QG para desvendar as selvas de sua região natal, com sua gente, seus bichos, suas árvores, seus segredos e mistérios.

O quartel-general de Nicodemos é a Letra Selvagem, em que promove a edição e de onde faz a divulgação de seus livros e de outros autores, importantes, que merecem interesse, sobretudo neste momento. A inspiração emana da Amazônia brasileira, da qual partiu para produções que ganharam dimensão nacional, ou mais.

Para ajudar a compreender o universo fantástico que há no Norte brasileiro, indicam-se dele “A noite é dos pássaros”, “Choro por ti, Belterra”, “À espera do nunca mais”, e “A mulher, o homem e o cão”, que proporcionam uma visão ampla sobre o autor e da sua obra e do que ela já representa no cenário de nossas letras.

Lá da fronteira Sul, em sua Roque Gonzales, o apreciado autor gaúcho Nelson Hoffmann, situa o colega de profissão: é sul-americano, brasileiro e amazônico e seu relato persegue um tempo e um espaço há muito deixados para trás, pojados de sonhos e esperança”. “Incrível Brasil. E tão verdadeiro”:

Um pouco acima do Rio Grande, Enéas Athanázio, de Santa Catarina, um dos nossos mais conceituados escritores, também emite parecer: “como tantas vezes ocorre com a boa ficção, o romance de Nicodemos Sena é um documento mais útil e veraz da vida amazônica e da época do que muitos trabalhos históricos e científicos. Mais proveito terá o historiador e o antropólogo de sua leitura do que com exame de volumosas obras de outros gêneros”.

A “Letra Selvagem”, a editora de Sena, tem propiciado ao leitor desta nação a oportunidade de saber mais sobre o território e o homem. “Choro por ti, Belterra” descreve, em cores fortes a até pungentes, a saga do projeto de Henry Ford ao instalar na Amazônia um grande empreendimento industrial. Não deu certo.

O escritor conta ali a viagem de reencontro de seu pai, com a recôndita terra de seu nascimento, Bernardino, o Bibi, nascido em Lago Grande, município de Santarém. Órfão com um ano, o avô e outros membros da família foram vítimas da “Grande Peste de Impaludismo”, um surto de malária que matou milhares de pessoas no Baixo Amazonas, quando poucos sobraram para sepultar os mortos. Era durante a segunda grande guerra e aconteceu no Brasil, na região que tanta celeuma ora causa. Resgatar a memória da Fordlândia, dos que ali passaram dias dolorosos, é um serviço que Nicodemos presta à pátria. Constitui uma lembrança poderosa para os brasileiros, um alerta nesta hora de discussões polêmicas e pouco produtivas. Um bom serviço que se presta ao Brasil!





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Por Manoel Hygino - 1/10/2019 07:43:12

O temor de Eros Grau

Manoel Hygino

O Brasil ficou de olhos pregados à televisão, em 27 de setembro, para assistir à reunião plenária do Supremo Tribunal Federal que debateria e julgaria ação que ainda pode ter grande repercussão. Por 7 a 3, decidiu que os réus delatores devem apresentar alegações finais em processos antes dos demais acusados, como aconteceu com a Lava Jato. As ações que não seguiram esse rito anteriormente deverão ter condenações revistas, alcançando um grande número de pessoas que aguardam agora decisão judicial.

O experimentado e culto ministro Eros Roberto Grau, que hoje mora na pequena e histórica Tiradentes, comentou, em sua alta sabedoria, o tema em “Porque tenho medo dos juízes (a interpretação/aplicação do direito e dos princípios”) – se expressou de maneira suficientemente clara sobre a invasão de competência do Legislativo pelo Judiciário, alertando que não mais vivemos em “Estado de Direito”, mas em “Estado de Juízes”.

Ex-integrante da Suprema Corte do Brasil, observa Eros Grau: “é necessário afirmar bem alto: os juízes aplicam o direito, os juízes não fazem justiça! Vamos à Faculdade de Direito aprender direito, não justiça. Justiça é com a religião, a filosofia, a história. (…). Assim é o juiz: interpreta o direito cumprindo o papel que a Constituição lhe atribui”.

E Eros tem “medo de que a Constituição seja corroída pelo Supremo Tribunal Federal”. “O STF, de alguns anos para cá, tem-se excedido, tem ido muito além do que a Constituição e a prudência permitem, passando a exercer não apenas o controle da constitucionalidade, mas também o controle da razoabilidade das leis. Não somente ministros do STF, mas juízes de qualquer instância julgam-se no direito de decidir se determinada lei é, ou não, razoável. O que prevalece, em cada decisão, é a preferência, o subjetivismo de cada um desses ministros.

“No Estado democrático de direito o poder é uno e indivisível, embora as funções estatais sejam atribuídas entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Todos eles exercitam a função normativa – função legislativa, função regulamentar e função regimental – mas a parcela mais relevante dessa função, a legislativa, é própria do legislativo. Ao poder Judiciário é vedado o exercício da função legislativa, ainda que lhe caiba o da função regimental. Essa regra essencial ao Estado democrático de direito é rompida sempre que os juízes passam a exercer o controle da razoabilidade – ou proporcionalidade – das leis.

“O que então prevalece na decisão judicial já não é a Constituição, porém a preferência, o valor que cada juiz adota subjetivamente, como critério de aferição da razoabilidade ou proporcionalidade de cada lei. Em outros termos, o juiz avalia não a sua constitucionalidade, mas se a lei é boa (razoável) ou má (irrazoável), segundo suas preferências pessoais. Cada qual – repito – decide conforme o seu gosto pessoal. Ainda que os juízes devam considerar as pautas da razoabilidade e da proporcionalidade na Constituição, não estão autorizados a decidir cada caso discricionariamente, segundo os valores que adotam, tomando como sem valor, como se não valesse nada, tudo quanto não corresponda aos seus valores. Como se tivessem legitimidade para exercer função legislativa. Perde-se, assim, a referência da Constituição e a harmonia entre os poderes é sacrificada. No caso do STF, tudo se torna ainda mais grave na medida em que o tribunal sai do seu recato e, voluntariamente, submete-se às pressões da sociedade, pressões às quais tipicamente, caracteristicamente, deve estar sujeito o Legislativo. O que a um Poder dá legitimidade - o decidir do Legislativo sob pressão social – a outro desnatura”.

Os mais recentes acontecimentos e episódios na vida brasileira dão razão ao grande magistrado, que decidiu instalar-se em Tiradentes, esperando ter tranquilidade para pensar e manifestar-se.


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Por Manoel Hygino - 30/9/2019 09:18:09
No tempo de Benedito

Manoel Hygino

Os tempos são outros, mas os homens, em sua essência, são os mesmos. Pelo menos em termos de corrupção na política. Não dispúnhamos, para efeito de comparação, há algumas décadas, da parafernália eletrônica no âmbito das comunicações. Não sem razão os hackers gozam de tanta e tamanha importância no jogo sujo das denúncias sobre os que fazem da política um meio de viver, de conquistar cargos públicos, de projetar-se na sociedade já conhecedora das falcatruas para chegar a postos de destaque e neles alcançar benesses.

A troca de gentilezas ou de acusações integram os embates nas campanhas ou o debate em torno de proposições no Legislativo ou no Executivo. Mais do que nunca, pode-se afirmar que política é igual guerra... e guerra é guerra.

Durante o Estado Novo, período em que Getúlio Vargas, presidia o Brasil sob forte ditadura, Benedito Valadares foi governador de Minas, sem o título de “Interventor”, considerado depreciativo pelos que insistiam na busca das liberdades públicas. Benedito, que permaneceu no Palácio da Liberdade até o fim do regime autoritário, no entanto, foi hábil articulador político e, se diria, um pacificador nos interesses de seu partido nos municípios.

Deixando o Palácio, Benedito se instalou em apartamento no 5º andar do Hotel Financial, pertinho da Praça 7. Lá o transformou no QG de suas articulações, recebendo lideranças de todo o Estado, inclusive como presidente do PSD – Partido Social Democrático, criado após o “curto período” de 15 anos de Getúlio na chefia da nação, como ditador.

A atuação do ex-governador no apartamento do hotel no Centro de Belo Horizonte era difundida pela imprensa e pelos próprios pretendentes a lugares no governo. Lá, muito se discutia e muito se decidia sobre nomeações na máquina governamental. Deputados de Minas na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal eram identificados naquele quinto andar, que era uma espécie de filial do Palácio da Liberdade, enquanto pequenas comitivas esperavam sua vez.

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, hoje presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Minas, encerrando agenda em Governador Valadares, à noite, na Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce, sobre Novas Tecnologias e Direito, falou muito sobre redes sociais, disseminação de ódio, fake news e desavenças. Terminou invocando o espírito de mineiridade.

Lembrou uma história do nosso folclore político, envolvendo o governador Benedito Valadares, de Pará de Minas.

Numa manhã, Benedito recebeu a velha-guarda do PSD, em atrito com a jovem guarda. Ouviu as queixas e lhes disse:

– Vocês têm razão!

De tarde, recebeu a nova geração e as queixas se inverteram. De novo o governador:

– Vocês têm razão!

Á noite, jantando com a esposa Odete Valadares, (nome de famosa maternidade em BH) ela falou:

– Benedito, ouvi no rádio que você recebeu as duas alas do PSD hoje e deu razão a todos. Você precisa tomar uma posição!
Benedito deu uma colherada na sopa e respondeu:

– É, Odete, você tem razão.


84231
Por Manoel Hygino - 27/9/2019 10:16:05
Entre Cali e a AML

Manoel Hygino

No dia 19 de setembro, juntamente com o juiz Renato Jardim, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima ministrou palestra na Academia Mineira de Letras sobre magistrados e literatura, presente o juiz do Tribunal de Justiça Militar, Fernando Ribeiro, em sessão presidida pelo escritor Rogério Faria Tavares, presidente da entidade.

Disse o magistrado, em resumo: “juiz tem de ser culto para julgar com segurança. Não só cultura jurídica, mas cultura geral. A literatura é indispensável para o juiz discernir entre o belo e o feio, o mau e o bom, o justo e o injusto. Do contrário, será um robô. Este mundo superficial das novas tecnologias nos afasta da boa literatura. A sociedade está doente, com fake news, ódio, incompreensão e falta de afeto. No almoço de domingo uma família inteira, à mesa, não conversa. Cada qual se concentra no seu smartphone. Juízes não podem ser transformados em robôs. As pessoas em geral também não podem ser robotizadas. A literatura salva”.

A palestra no palacete Borges da Costa, sede da AML, fez lembrar Cali, Colômbia, na Facultad de Derecho de la Universidad Libre, quando Medeiros evocou o jurista Jorge Eliécer Gaitán, junto a cujo busto, encontrou a frase do ilustre colombiano: “el pueblo no demanda la igualdad sino la igualdad real ante la vida”.

Admirador da obra de Gabriel Garcia Marquez, que cita Gaitán em suas memórias, o magistrado mineiro discorreu sobre o tema: “É preciso fortalecer o constitucionalismo democrático, sem esquerdismo ou direitismo exarcebados”.

Cabe, por oportuno, lembrar os fatos finais da vida de Gaitán. Aconteceu durante a ditadura de Rojas Pinilla general, sucessor do terrível Gómez, que fugira para a Espanha. Inicialmente, parecia com o novo presidente tudo daria certo. Pinilla tentou amainar a situação, mas implantou um novo sistema tributário para aumentar a arrecadação. Repudiado pela população civil, buscou amparar-se nos militares. Mas amigos e parentes entraram em cena para sua própria arrecadação, construindo fortunas. Repetia-se 1948, o 9 de abril, quando em torno do meio dia, o político liberal Jorge Eliécer Gaitán foi morto a tiros, quando saía de seu escritório, em pleno centro da capital.

Um episódio terrível. Pessoas que presenciaram o atentado, segundo Carlos Taguari, agarraram o assassino. Multidão se formou e o criminoso foi espancado até sucumbir. Não satisfeitos, os manifestantes saíram em baderna pelas ruas, depredando tudo que encontravam, desde imóveis a estabelecimentos comerciais a veículos. Milhares em fúria.

Resultado: dois mil mortos em dois dias de conflito, batizado de El Bogotazo. Era a resposta de inúmeros colombianos que pretendiam votar em Gaitán para a presidência, interrompida a campanha pela trágica intervenção das ruas. Jamais se soube exatamente de onde ou de quem partira a explosão de violência, admitindo-se que o assassinato de Gaitán fora ato de um louco.

Após o Bogotazo, o movimento teve sequência por vinte anos, deixando um legado superior a 200 mil mortos. Denominado depois de La Violencia, o confronto teve ápice entre 1948 e 1958.


84228
Por Manoel Hygino - 26/9/2019 09:09:53
Entrevero no Norte

Manoel Hygino

Novos problemas em escala internacional ofuscaram os desastrosos momentos que vive a Venezuela, estendida a preocupação a outras nações das Américas. A situação ali não melhorou, apenas entrou em penumbra. Na semana finda, o Parlamento do país, com maioria da oposição, ratificou Juan Guaidó como presidente e, até que cesse a usurpação do poder pelo presidente Nicolas Maduro, por reeleição tida como fraudulenta em 2018.

Enquanto Maduro acusa os Estados Unidos de insistirem em removê-lo do poder, grupos de famílias venezuelanas continuam fugindo principalmente para a Colômbia e Brasil, em busca de sobrevivência e oportunidades de trabalho. Mas Caracas anunciou, no final da semana passada, que irá denunciar Guaidó à ONU de manter vínculos com paramilitares colombianos.

Delcy Rodríguez, vice-presidente, em ato público na capital, sexta-feira última, afirmou que os fatos são mais graves, inclusive pelas ligações de Guaidó com a facção criminosa Los Rastrajos, que o teria recebido no estado fronteiriço de Táchira.

A Venezuela, contando com apoio de Moscou, tem recebido ajuda militar da Rússia, sendo documentadas cargas que chegam via aérea a seu território. O senador José Sarney, ex-presidente do Brasil, vem perguntando: “para que a Venezuela está se armando?”. Esta pergunta, que está na cabeça de cada um de nós, constitui um enigma que ninguém responde, nem entende. Tudo gira em torno de Essequibo, nome dado originalmente à região leste da antiga Guiana Inglesa, vendida ao Reino Unido.

A Guiana Essequiba (também conhecida como Território Essequibo ou, na Venezuela, de Zona em Disputa) é o nome do território do Planalto das Guianas, compreendido entre os rios Cuyuni e o Essequibo, com extensão territorial de 159.500 km². O território faz parte atualmente da República Cooperativa da Guiana, mas sua soberania é reclamada pela Venezuela internacionalmente por força do Acordo de Genebra, de 17 de fevereiro de 1966.

Ainda que a Venezuela reivindique o território como seu, ele não faz parte de sua jurisdição e em seus mapas a área somente aparece listrada obliquamente ou com a legenda: ZONA EM LITÍGIO, porque sujeita ao Acordo de Genebra, de 17 de fevereiro de 1966, e ao Protocolo de Porto Espanha, de 16 de junho de 1970.

O rio Essequibo é um curso d’água guianense que nasce nas serra Acaraí, fronteira com o Brasil, e corre para o Norte por aproximadamente mil quilômetros até desembocar no oceano Atlântico, formando um largo estuário de 32 km de largura pontilhado de 360 ilhas. É o mais extenso dos rios das bacias independentes que se situam entre o Amazonas e Orenoco.

O próprio Sarney se encarregou de descrever a questão, contando que Rio Branco decidira resolver o problema de fronteiras com outras nações do hemisfério: “Foi o caso da Guiana, naquele tempo Guiana Inglesa. Defendíamos a tese de que nossas fronteiras iam até a foz do Orenoco. Foi Joaquim Nabuco o nosso advogado. O árbitro escolhido foi a Itália, e seu rei, Vítor Emanuel III, decidiu fazer uma divisão que não fora pedida entre o Brasil e a Inglaterra. Aceitamos o Laudo Arbitral. Perdemos território. A Venezuela, que disputava com a Inglaterra a região a Oeste do Rio Essequibo, não aceitou um outro Laudo Arbitral de Paris em 1899, e considera a área como uma “Zona en Reclamación” e nela não permite que nada seja feito”.


84223
Por Manoel Hygino - 24/9/2019 06:13:19

Novos crimes e golpes

Manoel Hygino

O Brasil não está em guerra, mas o clima é de temor diante da violência registrada em todos os recantos, até numerosas vezes ao dia, como as queimadas que assumiram a liderança das preocupações. A despeito dos revelados índices oficiais de criminalidade, em nossa sociedade, que apontam decréscimo em alguns itens, os fatos cotidianos assustam – pelo número e pela crueldade.

As autoridades estão atentas e em ação, o que já é sobremodo importante, embora se reconhecendo que mais terá de ser feito. A Secretaria de Segurança do Estado, por exemplo, informou que, de janeiro a junho deste ano, nossas escolas recorreram às autoridades para atender 10.134 registros de furtos, ameaças e agressões.

Nas unidades de ensino, segue-se a regra geral. O número de episódios de violência foi 6,3 maior do que o apontado no mesmo período do ano passado. Segundo a Secretaria, não se trata só de agressões ou algo semelhante. Há invasões com danos ao patrimônio, hostilidade e medo na comunidade escolar, desestimulando os professores e, evidentemente, os pais das crianças.

Na imprensa, leio: é consenso que o uso da força se tornou corriqueira nas escolas. Um dos educadores se manifestou: “a violência gera o desinteresse dos alunos pela escola e provoca desgaste emocional no professor, impelindo-o a pensar em uma carreira diferente”.

As reportagens, editoriais e noticiários dão ênfase ao fenômeno. Viu-se, no saque de dinheiro do Fundo de Garantia, exemplo claro. Embora fossem apenas 500 reais a se levantar na Caixa, espertalhões atuaram, aplicando golpes, ao prometer auxiliar o beneficiário, evitando filas e agilizando o atendimento. Obtidos do sacador informações do dia e hora da retirada, eles subtraíam o dinheiro e desapareciam. Enfim, há desonestos de todos os tipos.

No caso da ampliação do objetivo do decreto de posse de arma nas propriedades rurais, e não apenas na sede, o cidadão poderá agora melhor defender-se. Pelo menos assim pretende lei sancionada pelo presidente da República. É experiência válida, mas se perguntará como agirão os malfeitores diante da nova regra.

No caso de violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha foi alterada: o agressor terá de pagar as despesas do atendimento às vítimas pelo SUS. Dará certo? O autor do crime procurará, de algum modo, safar-se da pena, principalmente sabendo que o dinheiro vai para um organismo público.

No Norte de Minas, existe também um Alvorada; não um palácio, mas um presídio, em Montes Claros. Em ação preventiva e proativa da equipe plantonista de agentes penitenciários, um telefone celular e seis chips foram apreendidos dentro de ave. A desconfiança se deu por volta de 0h50, quando funcionários observaram um pombo na tela que cobre o pátio de banho de sol. Como a ave não tem hábito noturno, os agentes desceram para socorrê-la. Os plantonistas encontraram a ave morta e com uma perfuração. O peso do animal também chamara a atenção: eram os aparelhinhos.


84220
Por Manoel Hygino - 20/9/2019 06:41:20
Vigiando a lua

Manoel Hygino

Toda Minas com olhos nos céus à procura de sinais de chuva e atenta às previsões da meteorologia. Jornalista de minha terra, usando expressões da região, observa: a meteorologia espicha o olho e vê chuva em redor do dia 29 de setembro. É dia de São Miguel, que pela tradição abre o período das águas.

As temperaturas continuarão altas, enquanto se prevê que devam alcançar 36 graus. A verdade é que elas vêm superando estes limites máximos em grande parte da terra mineira. Para domingo, 29, se atribui a possibilidade de início da temporada das chuvas, ou em derredor da data, quando começa a semeadura.

Este ano tem sido atípico em termos de calor, embora os especialistas e técnicos digam que se trata de algo normal no final de inverno, aproximação de primavera. Mas, a sexta-feira, 13 de setembro, teve lua cheia pela primeira vez em duas décadas. A última vez fora na sexta-feira, 13 de outubro de 2000, segundo meu conceituado informante.

Este ano pode trazer surpresas: o 13 de dezembro poderá cair também numa sexta-feira, coincidente com uma noite de lua cheia. Há décadas, estudiosos investigam a influência do satélite em nossas vidas, até no corte de cabelo, no sono, mesmo no ciclo de fertilidade das mulheres.

A velha Folhinha Mariana, editada na primeira capital das Minas, era – ou é – minuciosa em orientações para os cultivadores da terra. Deve ainda ser consultada.

Especialistas dizem que o calendário biodinâmico, que inicialmente era usado para aconselhar os agricultores nas plantações, seria capaz de concluir qual dia é ideal para a colheita das uvas. Na astrologia, há quem afirme que, quando a Lua passa pelos signos de sagitário, leão e áries, a produção pode tornar o vinho mais saboroso.

Jornal de Belo Horizonte dá em manchete que a despedida do inverno em Minas será com temperatura de 42 graus. A expectativa da primavera é de que entre em cena na próxima semana com granizo. É esperar.

Nuvem de fumaça cobriu o céu da capital e região metropolitana no meio da semana. A umidade relativa do ar atingiu 10%, 12%, propiciando clima de deserto. E não temos praia.

O governo federal proibiu por 60 dias permissão de queimadas em todo território brasileiro. Fiscalizar a obediência à ordem constitui problema. E as televisões mostram sucessão de incêndios em florestas.

A suspensão não será aplicada em casos de controle fitossanitário autorizado por órgão ambiental, em práticas de prevenção e combate a incêndios e na agricultura de subsistência de indígenas. Na semana anterior, Bolsonaro editou decreto autorizando o uso das Forças Armadas no combate ao fogo.


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Por Manoel Hygino - 18/9/2019 10:17:30
A casa de Stroessner

Manoel Hygino

Jornais da semana passada davam conta de uma descoberta, considerada macabra: era de três crânios e outros restos humanos, enterrados em um banheiro da mansão de propriedade do general Alfredo Stroessner, que governou ditatorialmente o Paraguai por muitos anos, inclusive correspondentes a Getúlio Vargas no Brasil.

Stroessner governou o país com mãos de ferro e, até hoje, investigam-se mortos, cujos corpos não foram identificados, desaparecidos na mais longa ditadura da América do Sul.

Apelidada de “A Casa de Stroessner” ou “A Mansão do Horror”, foi construída na década de 1970 e fica em Ciudad del Este, na conhecida tríplice fronteira com o Brasil e a Argentina, passagem obrigatória dos brasileiros que atravessam a famosa Ponte da Amizade para fazerem compras e trazerem muambas para o lado de cá.

Acontece que o imóvel esteve abandonado por muitos anos, desde a queda do presidente, e, lá como aqui, sofreu invasão de cerca de 180 famílias “sem teto”.

Eles (os invasores) encontraram, há duas semanas um úmero e vários crânios, três fêmures e restos soltos. Tudo foi guardado, rotulado com a placa de “protegido”. O material vai para Assunção, disse Rogelio Goiburú, da Unidade Especializada de Direitos Humanitários.

De quem eram estas partes de corpos? Tem-se como muito provável tratar-se de gente de certo prestígio, senão lá não se achariam. Se prisioneiros comuns, contrabandistas talvez, deveriam estar em locais menos guardados.

O repórter Edmar Morel, que trabalhou, no Rio de Janeiro, para os principais jornais do Brasil à época dos dois presidentes, visitou mais de uma vez aquela região, chamando a atenção para o fato de ser Stroessner de origem germânica: “o Paraguai que encontrei tinha censura prévia, cárceres cheios e serviam de abrigo a refugiados nazistas”.

Morel, contudo, admoesta que no Paraguai havia campos de concentração no Chaco, onde se prendiam os inimigos do regime, desde o governo de Higino Morinigo, um ano depois, do final da guerra, em 1946. Por sinal, o presidente esteve em Belo Horizonte, então, e a cidade foi preparada com cartazes para saudá-lo.

O jornalista comentou sobre Morinigo, “tipo perfeito do ditador sul-americano, saiu da caserna, chegara ao poder com um golpe, tal qual diversos tiranos que infelicitaram os povos do hemisfério, sufocando as liberdades políticas de seus povos. Morinigo, porém, tinha um toque especial pessoal: bonachão, barrigudo, contador de anedotas, não era arrogante”.

A visita do repórter brasileiro ao campo de concentração só se deu no dia seguinte, quando já esvaziado de tudo que lá se encontrava, até o arame farpado que o cercava. Agora, resta aguardar as diligências do atual governo guarani em busca da identificação dos ossos encontrados na “sagrada mansão” perto à fronteira.


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Por Manoel Hygino - 17/9/2019 08:22:50
Harari vê Frankstein

Manoel Hygino

Yuval Noah Harari era apenas um desconhecido há poucos anos. O escritor, todavia, conseguiu revelar-se, a partir de “Sapiens, uma breve história da humanidade”, um livrão com mais de 500 páginas, distribuído pelas livrarias de todo o mundo.

O estudo lançado em 1911, em Israel, nação de origem do autor, já percorreu o planeta em várias línguas e, presentemente, quem disser que o leu, julga-se atualizado com o que de mais moderno apareceu no mundo do conhecimento.

Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, não se cinge a responder sobre as inquinições do ser humano e da humanidade. Seu leitor deve preparar-se para uma visão ampla e profunda da história e sua evolução. Ele faz uma exposição sobre a Revolução Cognitiva, que se iniciou há 70 mil anos; depois, a Revolução Agrícola, de 12 mil anos, e a Científica, que faz 500 anos.

A obra, deste modo, é preciosa sob todos os aspectos e impõe uma leitura cuidadosa. Não é sempre que se encontra um trabalho tão valioso, capaz de exercer natural atração sobre o público de modo geral.

O autor, por exemplo, evoca a escritora Mary Shelley que, em 1818, lançou “Frankstein”, ficção sobre um cientista que tentou criar um ser superior e, em vez disso, produziu um monstro. Nos dois últimos séculos, o caso foi recontado inúmeras vezes, com variações evidentemente, transformando-se, porém, no tema central de uma nova mitologia científica. Conclusão de Harari: a história de Frankstein parece alertar-nos de que, se continuarmos brincando de Deus e fabricando vidas, seremos punidos severamente.

É imensa a gama do que há a ser discutido na obra de Harari, e o mundo hoje a está analisando. O escritor mineiro César Vanucci, por exemplo, em seu blog se manifestou há dias sobre os Estados Unidos e os norte-americanos. Vanucci não vê a grande nação do Norte como seus aliados e apoiadores.

Diz Harari: “a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776, com a “Declaração da Independência”, para dar sustentação às redes de cooperação em massa organizadas pelos seres humanos com vistas ao relacionamento em comunidade, caracterizou-se pela incoerência e hipocrisia. Embora pregando, teoricamente, a igualdade de todos os homens, a referida ordem estabeleceu como regra, na prática, uma divisão social contundente. Consagrou – sublinha ele – “a hierarquia entre ricos e pobres”.

Palavras também de Harari: “a maioria (...) quase não tinha problemas com a desigualdade causada por mais ricos que passavam seu dinheiro e negócios para os filhos. Na visão deles, igualdade significava apenas que as mesmas leis se aplicassem a ricos e pobres. Não tinha nada a ver com seguro-desemprego, educação integrada ou seguro-saúde. A liberdade também tinha conotações muito diferentes das que tem hoje. Em 1776, não significava que os desprivilegiados (negros, índios e muito menos, mulheres) podiam conquistar e exercer o poder”.

Pelo que aí ficou dito, há realmente muito a se buscar em Sapiens, nem que seja para contrapor-se. Vale a pena, portanto.


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Por Manoel Hygino - 14/9/2019 07:52:38
Um novo vírus

Manoel Hygino

Velhos problemas, velhas doenças. E o sistema de saúde do país: deficiente, incapaz de atender a ponderável contingente da população. Agora, como antes, a insuficiência de recursos para suportar a demanda crescente. Não se vislumbra perspectiva de soluções a curto prazo e o cidadão insiste em não obedecer orientações médicas.

Em Bocaiúva e São Francisco, duas crianças foram picadas por escorpiões. A da terra de José Maria Alkimim e Henfil, de 3 anos, faleceu. A segunda estava em um Centro de Terapia Intensiva (CTI).

E há a dengue. O Ministério da Saúde, no dia 11, informou que o Brasil registrou 1.439.471 casos até 24 de agosto de 2019 (aniversário do suicídio de Vargas), o que representa aumento de 7 vezes em relação ao verificado no mesmo período do ano passado. Em índices percentuais, a variação foi de 599,5%. O Brasil não pode parar.

Quando o oitavo mês terminou, noticiava-se que, nos últimos 90 dias, o Brasil teve 2.931 casos de sarampo confirmados. Em Minas, milhões de pessoas não tinham tomado as duas doses de vacina, estando vulneráveis, segundo a Secretaria de Saúde. Como São Paulo não pode ficar superado, a primeira morte por sarampo foi confirmada, em 1.637 notificações.

A tuberculose ainda perambula e a sífilis causa apreensão em quem tem o mínimo de responsabilidade. Sem esquecer o Mal de Hansen, de que poucos conhecem sequer o nome, embora amofine os especialistas de todo o planeta. Não é privilégio cá dos trópicos.

Nem se omitirá a caxumba que voltou a assustar em várias regiões do Brasil, embora baixos os níveis de vacinação. Não é novidade, porque conhecemos a terra que habitamos e com quem vivemos. No Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Bahia, Piauí e São Paulo, o percentual de crianças vacinadas não alcança 75%, quando o exigido é 85%.

Grande preocupação na recepção de hospitais e postos de atendimento é saber se caxumba se escreve com X ou CH. Não se preocupa em saber que a enfermidade pode causar inflamações no pâncreas e nas meninges, que envolvem o cérebro. Se tratar de mulher, a infecção atinge os ovários e, nos homens, os testículos.

Sem embargo, o rol das doenças que nos amofinam o cotidiano não espira aí. Surgiu um novo vírus: o patinete. A cada dois dias, uma pessoa é dele vítima em Belo Horizonte. Um engenheiro de telecomunicações, de 43 anos, morreu em pleno centro urbano. E era um sábado.

O repórter Raul Mariano, do Hoje Em Dia, informa que nenhuma das exigências colocadas pela BHTrans às empresas que oferecem aluguel de patinetes elétricas na capital tem data para entrar em vigor. A informação foi dada pelo prefeito Alexandre Kalil, que descartou a proibição dos equipamentos na metrópole até a regulamentação.

Após a fatalidade referida, a autarquia se reuniu com os responsáveis pelo serviço compartilhado e determinou a contratação de um seguro de responsabilidade civil para os usuários e a redução dos limites de velocidade do aparelho para quem estiver fazendo as primeiras viagens.



84204
Por Manoel Hygino - 13/9/2019 09:42:05
Além da Antologia

Manoel Hygino

Com colaboração de 36 autoras, acaba de sair a Antologia da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, que demonstra a elevada qualidade intelectual e artística das mulheres daquela cidade. É contribuição vária e múltipla, que muito bem expressa os méritos e predicados das escritoras. Estas seguem os caminhos de D. Yvone de Oliveira Silveira, por anos presidente da Academia Montes-clarense e fundadora de outras congêneres que ampliam as vias para manifestações literárias.

A partir da trilha inicial, percorreram-na as presidentes Maria da Glória Caxito Mameluque, Marta Verônica Vasconcelos Leite, Evany Cavalcante Brito Calábria e Ângela Vera Tupinambá de Castro. Agora, Felicidade Patrocínio, que usa toda sua capacidade criativa e pertinácia para consecução de novos projetos e frentes de ação.

Como fizera Vivaldi Moreira, presidente perpétuo da Academia Mineira de Letras, Felicidade conquistou espaço definitivo para a entidade, em imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico, na rua Justino Câmara, e transferido pela Secretaria Municipal de Cultura. A propriedade foi restaurada, inaugurada para servir a seus misteres, que são muitos e valiosos para uma cidade tão importante.

O lançamento da Antologia integra esse esforço, e a acadêmica Ivana Ferrante Rebello observa: “A escrita, com sua feição de catarse e beleza, é um bom ensaio para a esperança”. E dela, acrescento eu, estamos carecendo, em regime permanente.

O Norte de Minas se tornou conhecido do Brasil por circunstâncias diversas, inclusive a operosidade dos que ali nascem e trabalham, e, no campo dos que se devotam às letras, pelo alto nível dos escritores, entre os quais dois que chegaram à glória da Academia Brasileira de Letras, numa mesma época. A comunidade feminina não ficou parada no tempo, pois vem mostrando sua relevante participação em numerosas ocasiões. As integrantes da recente publicação da AFLMC são a prova.

E não somente nas artes e temas intelectuais elas se destacam. Outro dia, Petrônio Braz recordou muitas mulheres que são vozes da gente de Minas, inclusive na área política. Citou Maria da Cruz, descendente dos Ávilas da Casa da Torre, de notável e reconhecida atuação na conjura do São Francisco, em 1735, além de outras mulheres extraordinárias que merecem ser lembradas e seus esforços enaltecidos pelas gerações que as sucederam. Há muita história a contar e as historiadoras de ontem e de hoje poderão muito fazer com esse objetivo. Elas dão grandeza ao São Francisco e a toda a região mineira que o rio atravessa.

A Antologia lança luzes sobre a participação feminina no desenvolvimento de uma extensa e privilegiada região brasileira. Os nomes das 36 autoras devem ser resgatados. Ei-los: Amelina Chaves, Felicidade Patrocínio, Filomena Alencar Monteiro Prates, Glória Caxito Mameluque, Gilsa Florisbela, Ivana Ferrante Rebello, Marina Couto, Marta Verônica Vasconcelos Leite, Milene Antonieta Coutinho Maurício, Nannah Andrade, Ruth Graça, Terezinha Campos, Alcione G. R. Vieira, Carmen Netto Victória, Cecy Tupinambá Ulhôa, Dóris Araújo, Geralda Magela de Sena Almeida e Souza, Júnia Velloso Rebello, Maria do Carmo Veloso Durães, Marijô Rodrigues, Marlene Porto Bandeira, Palmira Santos Oliveira, Ângela Vera Tupinambá de Castro, Elza Costa Gonzaga, Evany Cavalcante Brito Calábria, Filomena Luciene Cordeiro Reis, Ilca Terence Noronha, Irani Teles de Oliveira Antunes, Lígia dos Anjos Braga, Mara Narciso, Maria Lúcia Becattini, Maria Luiza Meira Araújo, Marilda Versiani de Souza, Nancy França, Raquel Souto Chaves, Virgínia A. de Paula.


84200
Por Manoel Hygino - 11/9/2019 07:34:13
120 anos depois

Manoel Hygino

Na terça-feira, 3 de setembro, realizou-se a inauguração da Faculdade Santa Casa BH. O provedor da instituição, Saulo Coelho, como a solenidade se alongava, pôs o discurso no bolso e disse algumas palavras sobre o evento. Os secretários de Saúde do Estado e do município, respectivamente Carlos Eduardo Amaral e Jackson Machado Pinto, não ouviram, assim, o que Saulo diria, naquele momento.
O provedor, contudo, lembrou que, exatamente 230 anos atrás, os Inconfidentes mineiros tinham incluído em seu projeto de emancipação política a criação de uma universidade. Davam, assim, ao movimento emancipatório conteúdo humanístico e certeza ao povo mineiro de um instituto de ensino superior, para assegurar desenvolvimento e evolução da cultura, que já distinguiam a província no século 18.
Aliás, quando se cogitou, já na República, da criação de uma universidade no Brasil, a província de Minas foi preferida para recebê-la, por ser a mais populosa desde o Império, a mais polida do interior e geograficamente a mais adequada no meio das demais.
Evidenciou-se, à suficiência, que a semente lançada pelos Inconfidentes começava a estimular o idealismo de políticos interessados em educação. O deputado Acaiaba de Montezuma, que sequer era mineiro, teve participação muito ativa à época. Afirmou: “a haver uma só universidade, deve ser em Minas Gerais”. A posição do parlamentar e de outros ilustres homens públicos do Brasil ecoou rigorosamente.
Mais à frente no tempo, Antônio Carlos, presidente do Estado, instituiu a Universidade de Minas Gerais, em 1927 quando já existia a Faculdade de Medicina, (implantada em 1911, hoje da UFMG). Sem pretender alongar-me no assunto, acrescenta-se apenas algo sobre esta história.
A Santa Casa, primeiro hospital e instituição na área de saúde da nova capital, já somava 12 anos quando da inauguração do primeiro instituto de formação médica em BH. A entidade, desde seu nascedouro, demonstrando sua vocação para a saúde e o ensino, praticava a arte hipocrática, mas paralelamente teve notável presença no ensino, contando com atuação de expressivos vultos da medicina brasileira.
Ao longo de sua existência, a Santa Casa possibilitou a criação também da Faculdade de Ciências Médicas, cumprindo seus deveres com a cidade e com a comunidade médica. Tanto que, instalou, em 2001, o seu Instituto de Ensino e Pesquisa, para oferecer importantes cursos, como de doutorado e mestrado, além de programa de residência e especialização médica, e outros. Além, evidentemente, de manter a Escola Técnica, opção para os interessados em adquirir conhecimento e qualificação em ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação, referenciadas nas necessidades de saúde individuais e coletivas.
Dá-se um precioso passo agora, com a inauguração da Faculdade Santa Casa, com projetos já aprovados pelo Ministério da Educação. Saulo Coelho observou: “nossa centenária instituição está absolutamente consciente do papel que assume no limiar da segunda década deste século, para servir unicamente à saúde e na formação de seus profissionais. Os atos de hoje assinalam um imperativo na presente realidade e complemento lógico das atividades da Santa Casa nos seus doze decênios de existência e labor”.


84196
Por Manoel Hygino - 6/9/2019 09:17:32
O Uruguai é ali

Manoel Hygino

O Ministério de Relações Exteriores do Uruguai divulgou que a procura dos brasileiros pelo país como novo lar cresceu 38%, entre 2016 e 2018, e se acelerou ainda mais em 2019. Entre janeiro e julho deste ano, o Uruguai emitiu 1.591 vistos de residência fixa para brasileiros. O número de documentos concedidos no período já representa 94% do total de 2018 – quando foram emitidos 1.686 vistos.
A facilidade no processo legal de migração também contou a favor. Há casos em que os vistos de residência foram solicitados ainda no Brasil, em 2018, e emitidos quando a família já morava no Uruguai.
A maior parte dos brasileiros que migra para o Uruguai se estabelece na capital, Montevidéu. Quem se muda diz que gosta da liberdade e do modo de vida uruguaio. O Uruguai é excelente proposta. Sua população equivale aproximadamente à de Belo Horizonte, anda pelos 4 milhões de habitantes. São cidadãos altivos, conscientes de sua responsabilidade e de seus direitos. Leis existem para serem cumpridas, tanto quanto as placas orientadoras do trânsito urbano, por exemplo, que têm de ser obedecidas. Nas praças, se há a placa proibindo pisar na grama, a orientação é observada religiosamente.
As pessoas, ao passarem umas pelas outras, saúdam: “bom dia, boa tarde, boa noite”, evidentemente, em espanhol. “Gracias” é uma palavra rotineira em todos os lugares e momentos. A boa educação é amplamente cultivada, “permiso?”. Ser amável está no cotidiano, até nos estádios esportivos, e a despeito da “incha”.
Há o que se ver ou se assistir em Montevidéu. Desde as pitorescas ruas de La Ciudad Vieja, junto ao porto, ou o museu do Cerro no alto, um pouco distanciado do centro urbano, mas de onde se divisa esplendidamente a metrópole. Teatros, há muitos e bons e com peças de sucesso. Os hotéis podem ser escolhidos à vontade, e há ótimos.
Pocitos é uma atração de Montevidéu, uma Copacabana. Quem tiver disposição de fazer um excursão pelo rio de La Plata, desde que tenha plata, perdoem-me o péssimo trocadilho, muito apreciaram ir à Argentina, quem sabe?
A principal via pública – a avenida 18 de Julio – é uma passarela para todos os gostos, emoldurada com lindas praças bem cuidadas e monumentos que mais embelezam a capital. Numa delas, o grande monumento a Artigas, o herói nacional, em cujo subsolo está depositado seu corpo, guardado dia e noite pelas Forças Armadas.
Na mesma praça, um cartão de visitas – o maior hotel da cidade e o palacete Salvo, com singulares linhas, e bem próximo, o mercado, em cujo primeiro piso, ao nível da rua, pode-se deleitar com a melhor culinária, o público atendido por mozos devidamente uniformizados e falando além do espanhol.
Para quem gosta de mar, lá estão, entre outras, a playa de Pocitos, no elegante bairro, ou a Ramirez, junto à qual se localiza o Cassino em que Obdulio Varela, campeão nacional de futebol, foi croupier. Se quiser sossego, há belíssimos parques, como o Rodó, cujo nome homenageia um celebrado escritor. Nos bancos sob árvores frondosas, pode-se ler o melhor da literatura – nacional ou mundial. Já vou arrumar as malas, até porque não há necessidade de passaporte.


84191
Por Manoel Hygino - 4/9/2019 07:04:25
Noite no Mangabeiras

Manoel Hygino

Habitar ou não habitar o Palácio das Mangabeiras, na Serra do Curral, que circunda parte de Belo Horizonte. Esta a pergunta que se fez o governador Romeu Zema, tão logo empossado. Não queria morar em palácio, para dar ar de simplicidade pessoal e de seu governo.

Escolhido para chefiar a administração do Estado, também Juscelino sentiu necessidade de ter, fora do burburinho da cidade, das honrarias do Palácio da Liberdade, um local que lhe permitisse espairecer, que propiciasse condições de descanso ao administrador roído pela azáfama. Assim, surgiu o Mangabeiras, que virou palácio, mas não passava de casa ampla, sem luxo e pompa, de onde se descortinava a Belo Horizonte de então. Eu despachei lá, com Israel Pinheiro, algumas vezes e posso afiançar a modéstia da moradia.

Getúlio Vargas, depois do assassinato, na rua Tonelero, Copacabana, do major Rubem Florentino Vaz, em 5 de agosto de 1954, vivia sob o cerco dos oficiais das Forças Armadas, que exigiam providências drásticas, talvez a deposição. Veio, então, a Belo Horizonte, no dia 12, para a inauguração da Mannesmann, sendo recebido com carinho.

Longe do ambiente pesado da capital da República, Vargas se acomodou no Mangabeiras. Após todo o cerimonial cumprido, recolheu-se a um apartamento. Quietude não sentia. Seu estado de espírito tampouco o permitia. Os ventos sopravam fortes. De morro dos ventos uivantes, era o ambiente. Sem conciliar o sono, quis saber o porquê de tanto ruído. Geraldo Ribeiro, motorista de Juscelino (e que com ele morreria no acidente da Via Dutra, em 1976), privava da intimidade do governador, e funcionava como uma espécie de mordomo. Ele explicou: ali no alto ventava muito e agosto trazia consigo rajadas fortes.

Preocupado, Geraldo se dirigiu novamente, ao aposento de Getúlio, horas depois. Contou que o encontrara ajoelhado, junto ao leito, e chorando. O testemunho está inserido também em “Esse velho vento de aventura”, livro de Paulo Pinheiro Chagas.

Tancredo Neves não confirma integralmente a versão. Diz que Geraldo Ribeiro vira apenas Getúlio andando pelo quarto e fumando charuto. Em determinado momento, deparara a cena insólita: o presidente se encontrava junto ao leito, como se orasse. Tancredo acrescentou: Getúlio “nunca chorou”. Murilo Badaró observa que se propalava que o presidente era ateu.

Naquele dia 12, Vargas passou por um refrigério em Minas. Mas a capital federal fervia. Já nos primeiros instantes do dia, o brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica, assinou a portaria que instaurava o IPM – Inquérito Policial Militar para apurar o crime de Tonelero.

Não houve prisão. Getúlio apenas se matou no dia 24 seguinte. Havia indignação e revolta de muitos segmentos do povo. Vargas deixou a vida para entrar na história. Todos os demais personagens da hora trágica que viveu a nação são mortos. O palácio das Mangabeiras parece que se tornou efetivamente Palácio. Mas um presidente da República ali passou sua última noite. Fora do Catete – o outro palácio do qual foi levada a urna fúnebre para a terra natal, São Borja.


84189
Por Manoel Hygino - 3/9/2019 11:35:11
Aconteceu em agosto

Manoel Hygino

O agosto encerrado no dia 31, neste 2019, foi um dos mais marcados por profusas notícias divergentes nas áreas do poder constituído da República inaugurada em 1889. E observe-se que o movimento que conduziu Deodoro à chefia dos destinos nacionais faz, em 15 de novembro, apenas 130 anos. Tempo supostamente suficiente para que os sucessores, responsáveis pelo novo regime, tomassem juízo, como diziam meus avós. Contudo, o que se vê agora é a barafunda dos 31 dias do oitavo mês, provavelmente aziago. Chegou-se a temer por dias piores, o que felizmente não aconteceu.
Lembremo-nos de que, apenas 65 anos atrás, em outro agosto, no dia 24, um presidente brasileiro, de grande prestígio popular, revolucionário de 1930 e que sucedera Washington Luís no Palácio do Catete, desencantado com o que ocorria em derredor de si, sentiu-se maculado em sua honra. Depois de uma longa reunião no palácio, decidiu simplesmente extinguir a própria vida. Apanhou a arma, companheira inseparável, no dormitório pela manhã, apertou o gatilho e preferiu encaminhar-se a outro destino, em busca talvez de novas e mais fiéis companhias.
Em agosto de 2019, (observa-se que mudara o século, o Distrito Federal já tinha sede em Brasília, os dirigentes não eram evidentemente os mesmos, tampouco as ideias), o presidente da Câmara dos Deputados, de nome Rodrigo Maia, afirmava que muito do ativismo da mais alta corte de Justiça do país, resultava da responsabilidade (ou irresponsabilidade?) da política. Declarou com todos os pingos nos is.
“Desde que me entendo como deputado, todo conflito político a gente joga no Supremo e induz o Supremo a decidir. Muita da responsabilidade é nossa, que fomos demandando e demandando, e chegou uma hora em que alguns entenderam que esse ativismo fazia sentido”.
Nesta ocasião em que o Supremo e seus membros sofrem reparos e críticas, ouvir o que declarou o presidente da Câmara dos Deputados é relevante. Ajuda a melhor entender a parafernália de decisões que aparecem interminavelmente a público conhecimento, além de incessantes recursos jurídicos. Rodrigo, filho de outro político – César Maia, depõe:
“Quando se estimula o Supremo, ele acaba decidindo. O excesso de poder do Supremo é responsabilidade da política. Temos de organizar as reformas institucionais, reduzindo o protagonismo da Corte, com uma Constituição mais enxuta”.
É bom que se diga: uma reforma não para, como a da Previdência, embora não evolua como se pretendera. Há também um projeto de lei para debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de que é relatora a deputada Laís Tonietto. Mas como sói ocorrer, a tramitação está em ritmo de tartaruga. Além do mais, seria suficiente reformar a Carta? Nos Estados Unidos, sempre evocados, a lei maior é ainda a da época da Independência. Ou é preciso modificar a consciência dos cidadãos que há na política entre nós?
Por enquanto, diante do quadro instalado, o Supremo e seus integrantes padecerão críticas severas e o palco está montado. Os ministros sabem perfeitamente que a causa de tudo não é deles, como admite Rodrigo Maia. De todo modo, teremos cáusticos debates até que se abram as janelas para 2020, quando se comemora o terceiro centenário de nossa Capitania. De lá pra cá, muita água correu sob a ponte. E mais água virá.


84178
Por Manoel Hygino - 30/8/2019 07:43:01
Bom senso indispensável

Manoel Hygino

Questões ambientais e indigenistas, ampliação de queimadas na Amazônia e troca de farpas entre presidentes – um na América do Sul, o outro na Europa. Em Paris, Macron classificou como “crise internacional” a situação na Amazônia, acrescentando que os líderes do G7, antes G8, formado pelos países mais ricos, discutiram “a emergência” na cúpula do fim de semana, em Biarritz.
Em Brasília, no Dia do Soldado, o ministro do Exército, em discurso, elevou o tema: “aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem: os soldados do Exército de Caxias estarão sempre atentos e vigilantes, prontos para defender e repelir qualquer tipo de ameaça”.
Em 26 de agosto, Dia de São Zeferino, segunda-feira, grandes jornais ostentavam manchetes alentadoras, após a parafernália verbal: “Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia”, publicou “O Globo”; “Zero Hora”, de Porto Alegre explica: “G7 concorda em ajudar a conter o fogo na Amazônia”; “Diário de Pernambuco”, do Recife, a sua vez: “G7 vai ajudar o Brasil a combater incêndios”.
Ao fim e ao cabo, prevaleceu um pouco de bom-senso no que tange ao recebimento de ajuda do G7 ao Brasil. Bolsonaro titubeou sob o argumento de que Macron queria tutelar-nos. Criaram-se arestas de todo tipo, envolvendo a própria primeira-dama francesa.
Dias depois, o Brasil resolveu “aceitar” a colaboração do grupo dos mais ricos do mundo, inclinando-se a ponderações prudentes, embora esses desagradáveis episódios devam marcar o primeiro ano da gestão Bolsonaro. Macron, em discurso a embaixadores em Paris, classificou de “erro profundo” a postura hostil em resposta a emergências que ultrapassaram limites nacionais. O chefe do governo francês foi suficientemente claro:
“A Amazônia é estratégica para o mundo inteiro, tanto em termos de aquecimento global quanto de biodiversidade”, disse. “Nesse sentido, notei as inquietudes, a falta de tato de alguns dirigentes, ao considerarem que soberania, no fundo, era agressividade”, afirmou.
Em seguida, Macron insistiu no argumento de que a mancha amazônica se estende por nove países, inclusive a França – que tem um departamento em solo sul-americano (Guiana Francesa). “Vários outros (países que não o Brasil) solicitaram nossa ajuda. É importante mobilizá-la logo para que a Colômbia, a Bolívia e todas as regiões brasileiras que desejem usufruir desse auxílio possam recebê-lo e reflorestar a área rapidamente”, completou o presidente francês.
Parece incrível que, no miserê em que nos achamos, ainda tenhamos relutância em receber recursos estrangeiros para empregar em bens brasileiros, que necessitam de preservação em caráter imediato. Curioso que, enquanto “pensamos” se recebemos ou não ajuda externa das nações mais ricas, aceitemos um avião do Equador para auxiliar no combate aos incêndios na selva.
Quanto aos Estados Unidos, até agora não se viu a cor do seu dinheiro, mas apenas as palavras de elogios de Washington às decisões de Brasília. Pelo que se vê, carecemos de uma dose de serenidade – não se confundir com submissão – para tratar de assuntos de interesse nacional. Como dizia Lauro Muller, o Brasil se mantém ao lado do grande país do Norte – até em duas grandes guerras – mas não andamos a seu reboque.
Enquanto se dão os fatos, o Banco Central se vê na contingência de vender suas reservas, pela primeira vez em dez anos, para tentar conter a elevação do dólar. Prudência e caldo de galinha fazem bem até nas negociações públicas.


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Por Manoel Hygino - 28/8/2019 08:33:13
Os segredos de Frieiro

Manoel Hygino

No Festival de Rua, em BH, na Fernandes Tourinho, Savassi, no passado fim de semana, o homenageado foi Eduardo Frieiro, uma das vozes mais importantes das letras mineiras no século que ficou para trás. Não foi dos que queriam entrar em cena para aparecer, tímido sob vários aspectos. Não se afastou de Minas Gerais para brilhar em São Paulo e Rio, como do feitio dos autores da época. Nem procurou casar em família rica e conceituada, não buscou espaço nas folhas. Assim, passou toda a vida, legou cerca de 200 livros publicados, que ganham provas de apreço e admiração das gerações que o sucederam.

Criada a Coordenadoria de Cultura de Minas, precedendo a Secretaria, o professor Wilson Chaves, depois um dos fundadores da Escola de Direito Milton Campos, fez a apresentação de “Os livros nossos amigos”, de Frieiro, que cresce, com muita justiça, entre os mais lidos nas bibliotecas. É um primor de conhecimento, com fácil leitura. A edição se fez, quando o autor alcançava os 90 anos, muito já produzira, mas vários cadernos de anotações queimou pessoalmente. Frieiro tinha manias e desejos inarredáveis.

Aquele volume foi apresentado pelo escritor, já então aplaudido, Moacyr Andrade, que chegara à Academia Mineira de Letras, antecedendo-o. E o seu confrade comentou, sem fazer favor algum: “seus conhecimentos são profundos em quase tudo que é saber humano. Onde não é profundíssimo, é sempre o conhecedor bem equipado e lúcido, para dar banhos de segura informação. Basta perguntar-lhe e ouví-lo. Não se instruiu “à la diable”, embora fora de escola, pois não foi o menino além da escola primária de uma amiga professora”.

E houve mais: “O restante imenso ele procurou sozinho, mas metodicamente, rigorosíssimo no estudo curricular das matérias dos ginásios da época, feito porém, por ele em casa, avaliando o progresso de seus conhecimentos, para ele mesmo promover-se no período seguinte. Professor e aluno numa pessoa só. E ambos criteriosos: o professor era exigente e o aluno querendo saber. Com esse sistema curioso de estudar sozinho, dominou todas as matérias que constituíam, na sua juventude, o chamado “curso de Humanidades”. Assim, penetraria nos estudos de ordem universal, percorrendo os livros todos necessários, que ia buscando, mas sem qualquer mestre exterior. E, desse modo, sem diploma, ficou douto em tudo o que oficialmente é requerido para a pompa de diploma universitário”.

Eduardo Frieiro foi, assim, um produto raríssimo em nosso meio. Tipógrafo com todas as honras da nobre arte, atuou ao lado de famosos nas lides literárias, e do seu amigo Moacyr Andrade, revisor da Imprensa Oficial, e ínclita casa, que se transferiu de Ouro Preto e habitou, por muitos e muitos anos, o grande prédio da avenida João Pinheiro, esquina com Espírito Santo.

Venceram a epidemia de gripe espanhola – ele e o Moacyr, e depois das dez horas, terminados os deveres do ofício, iam conversar a pé nas ruas e no botequim do Fausto, um italiano amável, na avenida do Comércio, hoje Santos Dumont. Lá, existiam os famosos e enormes sanduiches da casa e a cerveja “Negrinha”, considerada saborosíssima, fabricada por Paulo Simoni, custando 500 réis a garrafa, época em que o chope não ingressara no mercado.

Ao longo da vida foi aquilo: avesso às rodas e companhias, preferia ficar lá pelos cantinhos, sisudo, se possível com um livro à mão e aos olhos. Para não aparecer colaborava com o jornal “Avante”, usando o pseudônimo de Bento Pires. O modernismo começava, e ele não o aprovou. Figura singular, Eduardo Frieiro, um dos autores de minha preferência, nascido em Bento Pires, antes da República – em 5 de junho de 1889.



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Por Manoel Hygino - 27/8/2019 08:09:40
No calor da crise

Manoel Hygino

Uma crise internacional que poderia ter sido evitada. Esta foi produzida em torno da questão ambiental, que tem como centro as queimadas na Amazônia e que, por motivos óbvios, atraíram a atenção do mundo. A imprensa, sempre tão criticada, teve razão mais uma vez, limitando-se a transmitir o que conhecera e apurara. Jornais de grande representatividade na comunidade brasileira, no dia 23, tinham como manchetes de primeira página:
Folha de São Paulo: “Queimadas acuam governo, que opta por ampliar críticas”. O Estado de São Paulo: “Queimadas na Amazônia provocam reação mundial”. O Globo (Rio): “Amazônia vira crise internacional”. Zero Hora (Porto Alegre): “Após críticas de Macron, Bolsonaro anunciará medidas contra queimadas”. Valor Econômico (São Paulo): “Amazônia vira preocupação global e gera crise ambiental”.
O Brasil inteirinho sabe dos problemas que inquietam os produtores rurais, os moradores de áreas atingidas pelos incêndios, ou destruição da selva, na Amazônia. Em Belo Horizonte, tão distante do palco dos acontecimentos, teme-se o fogo que se ergue nas fraldas da Serra do Curral, ameaçando a mataria, residências da elite ou de proprietários de baixa renda, até casas de saúde.
É bom que todos sintam o problema e procurem evitar danos maiores, até à vida humana. Aqui, situamo-nos no Sudeste, de mais recursos, inclusive em equipamentos de defesa e para debelar o fogo. Imagine-se lá nos rincões recônditos da maior floresta do planeta. Tem-se de cuidar, ao invés de dilatar um bate-boca, fora dos padrões de chefes de Estado ou da diplomacia, atitude que em nada ajuda, antes atrapalha.
Pode ser que o presidente Emanuel Macron tenha se precipitado, até para apresentar-se como protagonista em um drama, de que o Brasil não é ator sozinho, como se demonstrou antes da reunião do G7, em Biarritz. Aparentemente, Brasília permaneceu na conversa, enquanto os fatos se avultavam, resultando numa crise dispensável. Será que o papa também se precipitou?
O general Villas Bôas, uma das grandes lideranças das Forças Armadas, enganou-se na colocação da matéria, em recentes declarações. Os testes nucleares franceses na Polinésia, há tantos anos, jamais serão esquecidos, mas a situação agora é outra. A pátria de De Gaulle esteve ao lado do Brasil em inúmeras oportunidades no decorrer da história. Não é hora, nem há razões suficientes, para desencontros. Ademais, a Guiana Francesa faz fronteira com o Brasil, e suas angústias pela tragédia amazônica são pertinentes a ambas as nações.
Os governos da França e da Irlanda chegaram a anunciar o bloqueio do acordo com o Mercosul, o que seria altamente danoso ao Brasil, se o Planalto não tomasse providências para proteger a floresta, depois de mais de 20 anos de negociações. Logo, a questão está equacionada e clara. Nada de suscetibilidades feridas.


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Por Manoel Hygino - 24/8/2019 16:12:37
O que a ministra pensa

Manoel Hygino

No dia 14 de maio de 2016 – já se passaram mais de três anos pois – a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, declarou em aula inaugural da Faculdade de Direito da UFMG, em Belo Horizonte, que o Brasil vive atualmente em estado de guerra.

Observou: “e não é uma guerra contra o Estado, não é a raiva do servidor ou do presidente, mas a raiva do vizinho, porque ele não pensa igual. A intolerância é de uma geração que não quer nada diferente. E não se resolve a vida com raiva”. “Nós do Direito temos o dever de trabalhar pela pacificação – não no sentido abstrato, mas no sentido de viver em paz com o outro, porque só assim o outro se sente no estado de Justiça”.

A ministra demonstrou confiança no futuro, destacando que a democracia entre nós está cada vez mais forte. “Andamos muito para chegar a um tempo em que a pluralidade, que está presente na Constituição, seja a tônica da vida de cada um de nós”. Para ela, “a democracia, mais que um regime, é um modo de vida e uma conquista permanente”.

No entanto, manifestou-se também:

“O politicamente correto é o não pensar. O politicamente correto é uma renúncia à liberdade. Agora, é ainda pior, porque, se você não pensa igual, você não é tolerável. E isso me parece um pouco como era no Partido Comunista que tinha um slogan assim: você pensa que pensa? Pensa não. Quem pensa por você é o Comitê Central. E eu agora fico achando que estamos assim: você pensa que pensa? Pensa não. Quem pensa por você é o comercial”.

Nascida no sertão mineiro, aparentemente não é de ter medos. Mas afirmou, depois de terminar o mandato como presidente do STF, que o brasileiro não dormiria se conhecesse tudo o que ela sabe, ao comentar a situação dos presídios do país totalmente dominados por organizações criminosas:

– Hoje, temos as questões gravíssimas das organizações criminosas dominando em todos os estados do Brasil. Por isso, eu digo que não é cômodo nem confortável nenhuma poltrona na qual eu me assente, por uma simples circunstância – eu sou uma das pessoas que, mais tendo informações, não tenho a menor capacidade de ter sono.

No mesmo ano, a ministra se reuniu com os governadores no Palácio do Planalto. E disse: “não cabe ao Judiciário culpas pelos problemas na área de segurança pública pelos quais o país passa, mas, sim, de encontrar soluções”. Explicou, em seguida: “o Estado Democrático de Direito garante ao cidadão o direito ao sossego. É esse direito que faz a população confiar que o Estado vai cuidar disso”.

Sempre ouvida por presidentes da República, por membros do Senado e da Câmara Federal, além de governadores, a mineira de família de Espinosa observou: “uma democracia vive disso e só disso, da confiança de que o Estado não vai permitir que, pela força, lhe tirem os direitos. E é isso que não se está tendo no mundo de hoje, no Brasil de hoje”.


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Por Manoel Hygino - 23/8/2019 11:30:13
A violência por aí

Manoel Hygino

Não é mais um terrível privilégio de agosto: todos os meses têm sido de extremas violências. Nem há lugar específico. Os males se distribuem pelo território, em todas as regiões brasileiras, praticados por cidadãos (?) de toda cor, morador de elegantes apartamentos, de modestas casas de classe média ou de barracos dependurados nos morros, sem a poesia exaltada pelos compositores ou os moradores da margem dos córregos em que o lixo urbano é despejado sem cuidado ou compostura.
Não é o caso de se perguntar que país é este, atribuída erroneamente a frase a De Gaulle. Depoimento digno de que a indignação foi formulada por outra autoridade, fica aqui meu compromisso de revelá-lo a posteriori. Com mais propriedade eu questionaria: como transformaram este país no que aí está? No fundo, o país não é isto... Foi nisso transformado e temos de lutar imensidades para removê-lo de onde se encontra.
Examinemos: no dia 2 deste mês houve um brutal homicídio na maior cidade norte-mineira, Montes Claros, onde nasci: um antigo jogador de futebol, de 87 anos, foi morto em casa por um homem com extensa ficha criminal. A descrição dos fatos dão detalhes estarrecedores.
No dia 18, na mesma cidade, um homem, com comprometedor histórico na polícia, contratado para pintar uma casa em bairro também de classe média, assassinou a proprietária, encontrada envolvida em panos e plásticos, com sinais de violência. Era uma professora, funcionária pública, ex-diretora escolar, aposentada. O homicida estava em prisão domiciliar, réu por prática de estupro, dentre outras acusações.
No dia 20, o mundo todo viu, pela televisão, um homem armado – depois se constatou um simulacro – sequestrar pela manhã, na segunda maior cidade brasileira, um ônibus lotado na ponte Rio-Niterói. Os passageiros feitos reféns eram em torno de 40. O sequestrador, de pouco mais de 20 anos, ameaçou incendiar o coletivo com todos os ocupantes. Foi abatido a tiros por policiais de elite.
Nem terminara a semana para a mídia informar que o Brasil registrou queda de 22% de mortes violentas nos primeiros meses deste 2019, comparativamente ao mesmo período do ano passado. O fato foi revelado no índice nacional de homicídios, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.
Aparentemente, uma evolução fantástica. Mas somente em maio houve 3.521 assassinatos contra 4.327 no mesmo mês de 2018. Espantemos nós: apenas nos cinco meses deste ano foram 17.907 mortes violentas. Os dados apontam que houve 5.108 mortes a menos no país até maio. Dois estados tiveram quedas superiores a 30% – Sergipe e Ceará. Mas três – Piauí, Tocantins e Roraima – registraram alta de assassinatos.
Segundo especialistas, integrantes e ex-integrantes dos governos e entidades atribuem o declínio no número de mortes a ações mais rígidas em prisões, com constantes operações de revistas e implantação do Regime Disciplinar Diferenciado e isolamento ou transferência de chefes de grupos criminosos para presídios de segurança máxima.


84170
Por Manoel Hygino - 22/8/2019 07:20:37
Minas, um osso

Manoel Hygino

Podemos dizer que Minas Gerais completa 300 anos em 2020. A Capitania das Minas foi criada em 1720, sendo nomeado seu primeiro governador, D. Lourenço de Almeida, que servira à coroa portuguesa na Ásia e, ultimamente, em Pernambuco. A formalização do ato se fez pela patente de 13 de dezembro de 1720. Empossado festivamente em Ouro Preto, em 18 de agosto de 1721, teve ele a sorte de assumir quando descobertos os diamantes em Minas.
Antes, Antônio de Albuquerque, governador do Rio de Janeiro, passara a gerir, em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, recém-criada. Coube-lhe pacificar a região e convocar uma reunião, na hoje Sabará, dos representantes da nobreza da terra, do clero e o povo. Mas também anunciou a organização das municipalidades, mediante o que os respectivos povos teriam governo próprio e democrático. Vejam! Instalou-se em seguida, em 1711, em 4 de julho, a Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, hoje Mariana, tornando-se a primeira sede da capitania, transferida a Vila Rica de Albuquerque, nomeada depois Vila Rica e Ouro Preto, antecessora de Belo Horizonte, já no século XIX.
Governar este grande território das Minas Gerais sempre foi difícil. O historiador João Camillo de Oliveira Torres, nascido na mesma terra de Drummond – Itabira, registrou que desempenharam sua missão governadores, “bem ou mal, com alguns enganos, errando muitas vezes, com as virtudes e os defeitos de que eram possuidores. Na verdade, souberam dar conta de sua tarefa”. Ele se refere ao período em que Lisboa estava acima de tudo.
Naquela época, foi um osso duro, como o próprio itabirano ressaltou: “O problema era teoricamente simples; na prática, uma aventura prodigiosa: como fazer com que a imensa multidão de indivíduos, vindos de todos os quadrantes, oriundos de todas as classes sociais, movidos pela cega paixão do ouro, muitos deles, para não dizer a maioria, fugindo para Minas e, um pouco, fugindo de outros lugares, escapando à lei, como fazer com que aquela multidão se tornasse, ao fim de algum tempo, em um povo, isto é, uma comunidade de famílias e de indivíduos, vivendo dentro da lei, cada qual ocupando o seu lugar na sociedade, e todos agindo de conformidade com sua situação?
Como, afinal, implantar uma ordem em tudo aquilo?”
Mesmo o cidadão de nosso tempo, por menos conhecimento que tenha, percebe um desafio imenso: o primeiro e grave problema era fazer com que aquelas pessoas se transformassem em cidadãos, em povo. Nem se pode esquecer que tudo se fazia em regime de escravidão.
Os Dragões de Minas tiveram de agir muitas vezes no curso da história. Transcorridos séculos, não foram todos os problemas resolvidos e governar Minas ainda é um repto difícil a que têm de responder os que optaram por chegar, e chegaram, ao dificultoso desígnio de comandar as Minas Gerais.
Centênios se passaram, os costumes são outros, as leis idem, mas os problemas, que também são diversos muitas vezes, desafiam aquele território que se transformou em estado, e nele habitamos.
Trezentos anos após a capitania, enfrentam-se descomunais desafios. Assim são os grandes estados, um país dentro de outro.


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Por Manoel Hygino - 20/8/2019 07:19:52
Escolhendo candidato

Manoel Hygino

Cargo importante está na hora de ser seu ocupante definido pelo presidente da República: o do titular da Procuradoria-Geral da República, ocupado até aqui por Raquel Dodge, que tem atuação destacada, sem os abalos da gestão Janot Pacheco, que a antecedera. Nomes de proa foram lembrados, mas Bolsonaro, tão falante em outras ocasiões, mantem-se agora discreto.
O desempenho do futuro chefe do Ministério Público Federal é fundamental nesta hora de tamanhos desencontros do Planalto com outros setores, como a própria Polícia Federal, após o recuo na nomeação do superintendente no Rio de Janeiro. Não é bom negócio agora a escolha de um procurador que lance mais chamas ao fogaréu. Bolsonaro tem sido alertado de que neste caso não pode errar, sob risco de atritar com o MPB e o próprio Judiciário.
A propósito de decisões no gênero, lembraria o que o jornalista Sebastião Nery conta, quando da posse do governador Milton Campos, ao ser procurado por Artur Bernardes, que presidira Minas e a República. Eis o registro:
“Logo após a posse do governador Milton Campos, em Minas, em março de 1947, o ex-presidente Arthur Bernardes pediu ao novo governador uma audiência para aquela mesma tarde, a fim de tratar de assunto inadiável. Realizou-se o encontro, por mais de meia hora. De um lado, o ex-presidente da República, com a auréola de austeridade e energia que o cercava. Duro, inflexível, com a experiência de quase meio século de militância política. E a consciência de que fora tudo. De outro lado, bem mais jovem, o advogado oposicionista que, a certa altura da vida, escrevera cáustico artigo sobre o seu confrontante – “O Imperador Divino”. Ameno no convívio, discreto no relacionamento, mas a mesma postura e a mesma segurança no diálogo.
Bernardes invoca os termos de compromissos partidários e pede para ele mesmo indicar, como presidente do PR, os nomes de dois representantes de seu partido para o secretariado. Milton reage. Recusa. Os compromissos – que são da UDN e não pessoalmente dele – serão mantidos. Duas pastas estão reservadas para Lei da Ficha Limpa e a conjuntura brasileira 167 o PR. Mas, secretário é cargo de confiança e, portanto, a ele, Milton Campos, cabe a escolha dos nomes. Não aceitaria indicações, menos ainda, imposições. Informa que já fizera a sua opção por Mário Brant e Campos Cristo, como representantes do PR”.
Perguntou: o presidente tem alguma objeção a estes nomes? “Bernardes desarma-se, mas Milton Campos insiste: o presidente, que já ocupou esta cadeira com tanta dignidade, não há de querer que ela se diminua agora”.
O diálogo prossegue exaustivo, penoso. Milton Campos prossegue até o fim. Ele mesmo escolheria os secretários, como escolheu. Do primeiro dia de governo até o último, compreendeu e sentiu que “governar é resistir”. Fazia-o com todo respeito, como era do seu feitio e formação.


84160
Por Manoel Hygino - 16/8/2019 07:35:11
Em tempo de votar

Manoel Hygino

As eleições municipais de 2020 estão muito longe. É o que se pensa e se diz, embora os candidatos, geralmente conhecedores das campanhas e de seus óbices, estejam em pleno trabalho. O processo é lento e exige trabalho sem interrupção e cuidados até a hora da votação.

As coisas mudaram, as circunstâncias, mas não se pode deixar para depois. A semeadura é lenta mas continua até a colheita. Ainda bem que, por aqui e diferentemente de outros países, já temos as urnas eletrônicas.

O desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, presidente do Tribunal Regional Eleitoral em Minas, demonstra muito otimismo quanto ao desenrolar do processo. Ele tem longa experiência, nasceu em São João Del Rei, terra de políticos hábeis. Além disso, deposita confiança nas suas equipes, como manifestou uma série de vezes. Tem-se de crer no êxito de seus esforços.

Os tempos mudaram, mas se deve aguardar o melhor. Está-se muito distante da época descrita por Márcio Aristeu Monteiro de Barros, de ilustre família mineira, desembargador, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que já enfrentou grandes dificuldades, como aliás também Rogério Medeiros, este com raízes ancestrais na Paraíba, terra de João Pessoa, por exemplo.

Márcio Aristeu, o magistrado, descreve as amarguras dos juízes no interior: era muito difícil exercitar uma atividade ligada à Justiça, no já distante ano de 1958, mas se ouvia dos mais velhos que antes era ainda pior. Tudo faltava na comarca. De uma fita de máquina, goma arábica, dinheiro para selo, até as coisas menores.

Além de tudo, quando nomeado ou promovido, era uma batalha para alcançar as comarcas. Estradas de terra mal conservadas, fóruns caindo aos pedaços, serventuários despreparados. Salários? Nem é bom lembrar. Havia comarcas em que o pagamento permanecia atrasado até oito meses. “Enfim, era por muito amor à Justiça que se dedicava à judiciatura e ao Ministério Público”.

A organização da lista de jurados no fim do ano constituía um tormento. Nas pequenas comarcas, era difícil conseguir-se o número suficiente de pessoas para sua composição. Os funcionários públicos eram tirados da Coletoria e dos Postos de Saúde. As professoras, as mais indicadas, não podiam ser convocadas para não sacrificar os alunos. Além do mais, eram mestras e donas de casa.

E mais havia. Para compor o corpo de jurados, restavam os fazendeiros, que em suas atividades eram bons, mas, quando jurados, tinham compromissos político-partidários. Pequenos agricultores constituíam maior número, porém, sempre manobrados pelos fazendeiros de maior porte, de quem dependiam para serem avalistas ou fiadores. Era essa a luta do juiz nessa difícil tarefa. Os advogados, em número de dois, eram ligados aos partidos políticos, que naquela época não se misturavam e tinham fidelidade partidária.
Como fazer justiça?


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Por Manoel Hygino - 15/8/2019 08:18:07
Uma voz ao longe

Manoel Hygino

Para os que residem em Belo Horizonte, um bom dia especialmente para meditar. É dedicado à Assunção de Nossa Senhora, embora não poucos aproveitam o ensejo para encerrar a semana, no que passou ser apelidado de Feriadão, a que os brasileiros são tão afoitos.

Pois eu me valho de mensagem enviada em 17 de outubro de 2018, via e-mail, assinada pelo jornalista e escritor Emanuel Medeiros Vieira. Falecido em 29 do mês passado, natural de Santa Catarina e formado em Direito, começou a escrever aos 14 anos, lançando mais de 25 obras, na maioria romances (“Olhos azuis; ao sul do efêmero”); vencedor de prêmio da União Brasileira de Escritores, chegou a ser indicado pela Writers and Artists Association ao Nobel.

Não participo de sua ideologia política, mas não posso deixar de elogiar sua produção literária e sua lhana conduta com os colegas de profissão. Preso pela ditadura, sofreu muito e, ao final da vida, foi vítima de um câncer de próstata.

Na data referida inicialmente, mandou-me mensagem: “sem confetes, tua coluna é um verdadeiro roteiro humanístico e como estamos precisando desse tipo de postura nestes tempos! Vá em frente. És a voz de muitos que não têm voz! Meus cumprimentos!”.

Escreveu-me: o que é verdade? Essa pergunta também foi feita a Jesus, durante o seu “julgamento”. A realidade é difícil? Os fatos são dolorosos? Então, muda-se o conceito e abandona-se a verdade. Num exemplo muito prosaico, “vendedores” viram “consultores” – consultores de perfume e de tudo. É o reino do eufemismo!

Onde prevalece a propaganda, o mercantilismo, cerveja virou algo intrinsecamente ligada às festas de São João, tão enraizadas no Nordeste. Forrozeiros autênticos são abandonados pelos “sertanejos universitários” – que praga! Já não basta a dupla sertaneja/goiana Joesley & Wesley, patrocinada pelo BNDES, Caixa Econômica e outras instituições dominadas pelo gangsterismo e pelo banditismo, que estão ou estavam no topo da República?

Nosso mundo acelera com velocidade estonteante a informação (não a “formação”). Acelerar e aprofundar não são verbos semelhantes. Ou não? Dispersei-me. O adjetivo pós-verdade adquiriu importância e significância que transcende o vernáculo e a semiologia da geopolítica internacional.
Como alguém observou, o facciosismo fascista e a intolerância desumana hiperbólica, associam-se à hipocrisia flagrante que renega a veracidade factual do viver. (...) O niilismo está na soleira da porta. A verdade é o que é – segue sendo verdade, ainda que pensemos o revés, disse A. Machado. Qual é a primeira vítima de, por exemplo, numa guerra? É a verdade.

Um poeta espanhol disse que a verdade nunca é triste... A busca de fabulação pode anestesiar a nossa dor, mas não pode prevalecer – senão será roubada a nossa autenticidade. E eu só posso pedir que alguém acredite em mim, se previamente eu acreditar fundamente no que digo.

Ludwig Wittgenstein, acima citado, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico. Participou do chamado “Círculo de Viena”, que contribuiu para a renovação da lógica na década de 20 do século passado. Ele é considerado um dos pais da “filosofia analítica”. Estudou com Bertrand Russel (1892-1970) entre 1912 e 1913.




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Por Manoel Hygino - 14/8/2019 10:16:38
O problema ambiental

Manoel Hygino

O problema da preservação ambiental aquece a discussão em todos os lugares do Brasil. Sábado, a novidade foi o presidente da República declarar que não precisa de dinheiro da Alemanha para esse objetivo. À noite de domingo, a Globo News discutiu o problema com três conceituados entendedores do assunto, a começar pelo respectivo ministro, o quente na defesa de Bolsonaro e suas posições.

O presidente fizera uma sugestão controversa, à imprensa. Ao ser perguntado sobre medidas para equilibrar a preservação ambiental e o crescimento, apelou para o controle fisiológico humano. Explicou:

“É só deixar de comermos um pouquinho. Você fala para mim em poluição ambiental. É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também, declarou ao sair do Alvorada acompanhado do ministro Sérgio Moro”. Completou com um paralelo entre o número de filhos das famílias e sua cultura. “O mundo, quando eu falei que cresce mais de 70 milhões por ano, precisa de uma política de planejamento familiar. Não é controle não. Eu entendo que tem que ter controle de natalidade”.

No entendimento presidencial, o número de filhos será critério para esta observação. Contudo, ele afirmou ser uma exceção à própria regra. “Você olha para as pessoas que têm mais cultura – têm menos filhos. Eu sou uma exceção à regra – tenho cinco. Mas como regra é isso”.

A ideia do chefe da nação desperta para a poesia de Salomão Sousa, que habita a região descoberta por Juscelino para capital do Brasil. Com muita poesia publicada e muito mais a sê-lo, Salomão soma elogios daqui e dali, no Brasil e no exterior.

No seu livro mais recente, que é de 2020, depara-se finalmente com uma revelação, para mim desconhecida, mas que pode servir – quem sabe? – para as circunstâncias do Brasil presente e do atual ocupante do Palácio dos Despachos:

“Para concluir uma observação inútil sobre a manifestação do processo de composição poética de Salomão Sousa que, na infância, manipulava bostas secas para adubação de flores e hortaliças. Em sua poesia, os versos não advêm de uma escrita automática, mas não espontâneas e felizes como as moscas que se agrupam e se alimentam da bosta verde, indiferentes ao asco. Com a experiência de decomposição, e com o avanço do desmanche desaparecem os desenhos do arquiteto e da cartografia, desaparecem o sumário e a paisagem de onde surgem as imagens. Com a experiência da manipulação do excremento, Salomão Sousa tem confiança de que o sol ressecará com urgência a bosta verde para que desapareçam as moscas que causam o desastre social e prevaleçam a poesia e a harmonia que a Democracia estimula”.

Diante da desagradável situação por que passam os setores envolvidos, inclusive entidades internacionais e técnicos prestigiosos de várias nacionalidades (nem fale nos brasileiros), as observações de um poeta nascido no interior – como o é a cidade goiana de Silvânia (o nome já diz muito), sobre a infância de Salomão e a transformação de dejectos humanos – fazem sentido e merecem estudos adequados.


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Por Manoel Hygino - 13/8/2019 07:52:13
As festas de agosto

Manoel Hygino

As festas de agosto se realizam no Norte de Minas, mais precisamente em Montes Claros, há mais de cem anos. São festas religiosas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Bendito e ao Divino Espírito Santo, respectivamente. Quem o conta é o médico e historiador Hermes de Paula. Ele pormenoriza: além das práticas estritamente religiosas, como bênçãos, missas e levantamento de mastros, há ainda os marujos, cabocladas e/ou caboclinhos, catopês ou dançantes, cavalhadas, bumba meu boi, estas desaparecidas há anos dos programas.

O registro mais antigo dessas festividades é de 23 de maio de 1839, não se relacionando quais eram, mas pela coroação do segundo imperador, após o cortejo ou passeata em honra e com a efígie de D. Pedro II. Eram permitidos divertimentos durante três dias, desde que “não ofendamos a moral pública. O escritor explica que os divertimentos como o zumbi ou congada em outros lugares existiam, mas com certas características regionais.

Detalhe: os participantes eram na maioria pretos dóceis e alegres, agrupados em ternos, isto é, de mais ou menos vinte pessoas, entre adultos e crianças, somente homens, distribuídos em colunas, começando pelos mais altos, à frente.

Há um chefe, que dança e comanda os cantos entre duas colunas, com dois porta-bandeiras à paisana. Usavam uniforme simples, composto por calça, paletó e camisa, esta de cor branca ou clara. O calçado não é obrigatório. Cada ator leva um lenço atado sobre a cabeça e, sobre este, um capacete, espécie de cilindro ocado de papelão do tamanho da cabeça, aberto dos dois lados e enfeitados com espelho, aljôfar e fitas de várias cores, com metros até.

O grupo é incentivado por uma banda, com pandeiro, tamborim ou caixa. Não pode faltar uma flauta de bambu. Os dançantes, donos da festa, têm o dever de acompanhar o reinado como nas festas de Chico Rei, em Ouro Preto.

Jornalista e advogado conceituado, Paulo Narciso - como Darcy Ribeiro, sociólogo, educador e ex-ministro, este já falecido -, é ardoroso admirador das festas.

A Festa de Catopês, a mais importante manifestação cultural de Montes Claros, e que se aproxima dos 200 anos, este ano não terá a presença de um dos dançantes que nos últimos mais de 70 anos jamais faltou. O carroceiro Tonão, de presumíveis 80 anos, embora seu documento registre pouco menos, partiu deste mundo. Tonão estava internado, num quadro de complicações respiratórias. Além de Catopê histórico, irmão de João Faria que o antecedera na partida por três anos, era carroceiro. Consta que nos tempos mais difíceis da vida, quando a renda do dia não cobria todas as despesas, ele reservava o primeiro dinheiro para alimentar o burro de sua carroça, explicando que dali vinha o sustento de todos.

Os catopês, marujos e caboclinhos estão consternados, a duas semanas da sua trajetória bicentenária. Hoje ainda, nos ensaios marcados, houve homenagem ao velho companheiro, enquanto o corpo seguia em visitação, em casa, na Vila Telma.

O carroceiro Tonão, cuja generosidade era parelha com sua imensa mão de tratador de burros, foi um dos personagens mais fotografados de toda a já longa história dos Catopês. Como último pedido, o carroceiro doou suas córneas. Todos os ternos de catopês, marujos e caboclinhos se organizaram para cantar o “A retirada, A retirada, eh meus camaradas...”.

Filhos e netos de Tonão e do irmão João Faria, também carroceiro e mais novo do que ele, já substituem os dois irmãos do Terno de Nossa Senhora do Rosário. A tradição da família nas Festas de Agosto é das mais antigas, passada através de sucessivas gerações.

Há poucos anos, no enterro de João Faria, a quem cedeu a liderança do grupo, Tonão encerrou a cerimônia ao pronunciar bem alto, comovido, um “vá com Deus, meu irmão!”. Os Catopês se despediam, e o silêncio foi duradouro, solene, até que todos se retiraram.


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Por Manoel Hygino - 10/8/2019 08:39:47
Tempo enfarruscado

Manoel Hygino

Enfarruscar: nunca usara a palavra, nem a ouvira em qualquer tempo ou lugar. Recorro ao dicionário. O mesmo que mascarrar? Encontro, enfim, uma definição mais utilizada no cotidiano – o mesmo que enevoado, sujo de fuligem, carrancudo. Estes são mais utilizados. Nublado, talvez, indefinido. Companheiro de profissão vem em meu auxilio: “Muita mentira, distorções, má-fé. Ocupo-me mais em contemplar o belo céu noturno de nossa cidade. E em exaltar o Criador, do ‘oceano sem margens’, sua própria definição. O Oriente, Sigamos”. Melhor assim.

No dia 7 último, a juíza federal Carolina Lebbos autorizou transferência do ex-presidente Lula para São Paulo. A decisão foi publicada. Lula está preso em Curitiba, desde de abril de 2018, condenado pelo caso do tríplex do Guarujá. No documento, a juíza responsável pelas decisões sobre a custódia de Lula acolheu o pedido da defesa e decretou que as autoridades policiais tomassem as providências pertinentes.

Ao autorizá-la, a magistrada acatou pedido da Superintendência da Polícia Federal no Paraná. A PF diz que, desde a prisão, “diversas pessoas passaram a se aglomerar no entorno da sede da Polícia Federal”. Esta argumentou que a presença de “grupos antagônicos” (não tinham o quê fazer?) passou a demandar atuação permanente dos órgãos de segurança, para evitar confrontos, garantir a segurança dos cidadãos e das instalações. O TJ de São Paulo autorizou a transferência para a Penitenciária 2 de Tremembé.

Chamada de “presídio dos famosos”, a penitenciária abriga, entre outros, Suzane Von Richthofen, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados pela morte de Isabella Nardoni, e Gil Rugai, ex-seminarista condenado pelo assassinato do pai e da madrasta. Os três prisioneiros foram libertados para o Dia dos Pais, inclusive a primeira, assassina dos progenitores. Do último, não se teve notícia.

A defesa pediu suspensão da transferência de Lula para São Paulo por não concordar com a medida. E recorreu ao STF para impedi-la. Frei Chico, irmão mais velho de Lula, resumiu o sentimento entre os parentes: a intenção é esculachar ainda mais. O STF examinou o caso e, decidiu por 10 votos a 1, vetar a transferência de Lula.

A descrição do episódio sobre a pretendida libertação do ex-presidente dá ideia do tempo e do dinheiro público que se perde no Brasil em toda e qualquer providência. E ainda se pensa em reduzir a burocracia: é difícil, está difícil. Tudo leva a pensar em texto já envelhecido (de 2014) de João Ubaldo Ribeiro, que nos direciona à peça famosa – como tudo de Shakespeare – “Muito barulho por nada”. O texto do escritor baiano é expressivo – “O correto uso do papel higiênico”. Ei-lo:

“O título é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi, outro dia, num programa de tevê”.

Nada mais a declarar.


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Por Manoel Hygino - 9/8/2019 09:46:21
Um príncipe entre nós

Um príncipe entre nós. Boa parcela da população brasileira pensava que fosse algo pretérito, acolhido em lendas e contos da velha Europa ou, ainda, nas narrativas orientais, com lindas princesas ou haréns recheados de odaliscas e dançarinas experimentadas na dança do ventre. Algo dos tempos dourados de Hollywood.

Mas o príncipe que aqui veio, na primeira semana de agosto, é outra gente. Dom Bertrand de Orleans e Bragança, nascido na França, 78 anos, príncipe imperial do Brasil, o herdeiro presuntivo do irmão mais velho, dom Luís Gastão.
Protagonista de um caso mui raro, este renunciou aos seus direitos dinásticos para realizar um “casamento morganático”, ou seja, aquele em que a esposa é de condição social inferior, a quem não se transferem todos os direitos políticos e de cônjuge.

Com a família real vivia na Europa desde a proclamação da República, quando Pedro II abdicou de qualquer tipo de subsídio do governo instalado, o jovem Bertrand só veio ao Brasil com o término da II Grande Guerra, inicialmente se
instalando no Estado do Rio. Entretanto, seu pai adquiriu uma propriedade rural na cidade de Jacarezinho, onde se instalou como fazendeiro. Assim, Bertrand cresceu e realizou parte de seus estudos secundários no estado do Paraná, e,
mais tarde, estudou no Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente cursou a Faculdade de Direito da USP, formando-se bacharel em Direito em 1964.

Na Santa Casa, cerca de vinte pessoas em torno da mesa com o herdeiro da coroa. Curiosos ou interessados em conhecer, de própria voz, seus pensamentos sobre o Brasil e suas posições políticas. Confessou o que já se sabia: católico, defensor da doutrina social da Igreja, com participação em reuniões por vários países da Europa, sua oposição
ao aborto, o perigo sobre os direitos nacionais na Amazônia, a necessidade de prestigiar o militar e o policial, vítimas de campanhas de descrédito ou preconceito.
Enfaticamente contrário a uniões homoafetivas e à possibilidade de divórcio e do recasamento de divorciados, por considerar que “como católico, não posso ver com bons olhos o casamento de uma divorciada”. Quanto ao casamento do
príncipe britânico Harry, afirmou que jamais ele o teria aprovado. Se Harry se casasse com uma princesa ou uma mulher de família nobre, “e não com uma divorciada, a satisfação dos britânicos seria muito maior”.

A amável visita foi enaltecida pelo provedor da filantrópica, Saulo Levindo Coelho, que evocou a anterior em 19 de janeiro de 1921, feita pelo avô do atual príncipe, o Conde d’Eu, esposo da princesa Isabel, a libertadora dos escravos no Brasil, em 1888. Ele veio aqui acompanhado de Pedro de Orleans Bragança e do barão de Muritiba.

1921 foi o ano da morte da imperatriz Tereza Cristina, mas o Conde d’Eu deixou registrado em livro:

“A Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte deixou-me a melhor impressão pelo aperfeiçoamento que se nota em
todos os serviços e o excelente estado de todas suas partes”. O elogio era altamente significativo. As Santas Casas nasceram na casa imperial lusa no século XV, graças ao espírito solidário e cristão de D. Leonor de Lencastre, regente e rainha de Portugal.


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Por Manoel Hygino - 8/8/2019 08:28:05
A reboque, não

Manoel Hygino

O que acontece no Brasil presentemente lembra o tempo de Jânio Quadros, mas ao contrário. O embaixador Vasco Leitão da Cunha, de alto prestígio no Itamaraty, ao comentar a renúncia do presidente, observou: “O eleitorado, pela primeira vez na história da República, tinha eleito um presidente com 6 milhões de votos. Era uma coisa enorme! E ele traiu o eleitorado”.

Sobre Jânio Quadros, acrescentou: “Era muito inteligente, muito instruído e conhecedor dos problemas. Tinha muita razão de ser o presidente. Mas o temperamento lábil o anulava, o desequilíbrio o levava ao exagero”. Quis conferir o significado do adjetivo: lábil – sujeito a escorregar, a cair; que cai facilmente; transitório; instável. Isto é, que varia de opinião. Dá para entender o que Vasco queria dizer.

Assim, a política externa, posta em prática por Jânio e Arinos, pela primeira vez, se tornou assunto de debate pela opinião nacional. As relações com Cuba e os países africanos e comunistas eram tratados nas pautas e dividiram o país.

Leitão da Cunha explicou à Fundação Getúlio Vargas: “Acho que ela – a política externa independente – se define pela noção de que até então nós tínhamos o hábito de seguir docilmente, automaticamente, os Estados Unidos, e dessa vez íamos ser independentes da política americana, íamos criar uma política com a África”.

O embaixador era mais claro. “Eu estava de perfeito acordo em fazer política com a África, desde que não prejudicasse o interesse nacional. Mas não achava que a generalização a respeito de votar automaticamente com os Estados Unidos estivesse certa. Não tínhamos porque nos queixar maiormente dessa política, considerada a partir de então, como de subserviência aos Estados Unidos, porque nas coisas importantes sempre tomávamos as deliberações mais acertadas para o Brasil. Com os Estados Unidos, mas não a reboque, era a tese de Lauro Müller”.

Nação independente, o maior país do hemisfério sul da América, o Brasil quer andar de bem com os demais do Novo Mundo, conviver e somar esforços pelo desenvolvimento próprio e dos outros, mas sem subordinar-se. Daí, a preocupação que se tem com os passos dados recentemente com relação a Washington. Explica-se: o governo dos EUA designou o Brasil como aliado preferencial extra-Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A medida foi comunicada ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo, em memorando assinado pelo presidente Trump.

No memorando, Trump afirma que a designação se destina “para os propósitos do Ato e do Ato de Controle de Exportações de Armas”. A promessa havia sido feita por Trump durante a viagem do presidente Bolsonaro a Washington, em março deste ano.

De acordo com o Departamento de Estado, algumas das vantagens de ser um parceiro preferencial incluem a colaboração no desenvolvimento de tecnologias de defesa, o acesso privilegiado à indústria de defesa dos EUA, e aumento nos intercâmbios militares conjuntos, exercícios e treinamentos.

A medida, segundo especialistas, facilita um provável acordo comercial entre o Brasil e os EUA. Facilita, é o que consta. O presidente Bolsonaro digitou: “O Governo dos Estados Unidos oficializou na noite desta quarta, 31/07, a indicação do Brasil como aliado preferencial extra-Otan, medida mais que importante para nossa Defesa”.

O continente está de olhos ligados no andamento destas demarches, perdoem-me o galicismo. O que interessa são os “finalmentes”. O Brasil precisa de Washington, Pequim, Irã, Londres, Paris, Berlim. Viver bem com todos, eis a questão.


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Por Manoel Hygino - 2/8/2019 07:29:38
Desde o Parnaíba

Manoel Hygino

Médico-escritor não constitui novidade. Basta um correr de olhos pelas prateleiras das bibliotecas e localizar nomes de facultativos, brasileiros (ou não), que se devotaram às letras. Nem me refiro aos livros científicos, porque estes são obrigação do profissional.

Aqui em Minas não há exceção. Está na moda, com toda justiça, Guimarães Rosa, o grande nome no século passado, nascido em Cordisburgo, onde se situa a gruta famosa, e Pedro Nava, natural de Juiz de Fora, com ancestrais do Nordeste. Ou, ainda, o excelente Agripa de Vasconcelos, de Matozinhos. Os três, alunos e formados pela Escola de Medicina de Belo Horizonte, integrante hoje da Universidade Federal de Minas Gerais.

Francisco Chagas Lima e Silva veio à luz no município de Magalhães de Almeida, no Maranhão. A outra margem já é Piauí, e o rio Parnaíba, que separa os dois estados, pode ser atravessado a nado. No Piauí, nasceu Francelino Pereira dos Santos, que aqui colou grau como advogado, e ascendeu ao cimo político como governador de Minas e integrou a Academia Mineira de Letras. Quanto a Chagas, aparece agora com “pirlampejos”, poemas, o quarto fruto de sua criação literária. A edição é da Sarau de Letras, de Mossoró, Rio Grande do Norte. Com isso, desfaz-se a ideia de que a cidade é apenas local de presídio, que assusta o Estado há anos com fugas e vinditas entre os detentos.

Chagas veio para Belo Horizonte com 17 anos, em 1959, com objetivo de estudar medicina e construir carreira acadêmica. Logo, ingressou na Faculdade de Ciências Médicas, que funcionava em prédio em frente do hospital central da Santa Casa e por ela cedido temporariamente. O edifício, que deu lugar ao atual jardim, existiu até 1967.

Em 1965, concluiu medicina e, no ano seguinte, integrou a primeira turma de residentes em clínica médica da instituição. Atuou como clínico no hospital até 1970. Casou-se na capital, gerou filhos, inclusive um profissional da área médica residente e atuante nos EUA. Iniciou mestrado na USP e, após o curso, retornou a Belo Horizonte. Foi professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, e doutorado em Medicina Tropical pela Federal, e pós-doutorado na Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos.

Na Santa Casa, ideou o projeto para implantação da pós-graduação Stricto Senso, resultando no Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) da instituição. Pela primeira vez no país, um hospital filantrópico e sem ligação com universidade federal ou escola de Medicina conseguiu implementar e oferecer cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

O amor pela literatura, contudo, integra desde cedo suas realizações e devoções, ouso dizer – com obras expressivas, contos e crônicas: “Murmulhos” e “Humanâncias”; o romance “Donzela do Candeeiro” e “Pirlampejos”, lançado neste 2019. Em Minas, Chagas se revelou para a literatura e produziu páginas de rara inspiração, sempre lembrando a infância humilde e a adolescência, como comenta o escritor de sua terra Clauder Arcanjo: “sua poesia é plena de luz, advinda do fulgor das águas transparentes do rio da recordação”.

“Mortalha”, incluído no volume mais recente, é simbólico. Alguém bate na janela e acorda o dono da loja durante a madrugada profunda. “Um pai clama para comprar – sem dinheiro pra pagar – meio metro de morim para a mortalha do filho. Não parece tão aflito. No semblante, um certo alívio: quanto mais novo o menino, mais curto o pedaço de pano, mais próximo da casta de anjo, maior a certeza do Céu”.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:59
Onde a arca de Noé parou

Manoel Hygino

Amável amiga, de volta das andanças pelo mundo, traz-me um estojo com quatro conhaques e vários anos de produção, uma joia na verdadeira acepção da palavra. Um real presente, pela finura e cuidados na apresentação do regalo. Não menos precioso conteúdo, procedente da Armênia e com a marca Ararat. A curiosidade é aguçada.
A graciosa prenda viera da Armênia, uma das antigas repúblicas socialistas soviéticas, situada ao Sul do Cáucaso, com capital em Erivan, onde há uma universidade fundada pela URSS, em 1921. Localiza-se o país, assim, junto às nascentes dos rios Eufrates e Tigre, o que nos obriga uma incursão à história.
Com um milhão de habitantes – armênios, russos e turco-tártaros – o país não tem portos, coagindo os visitantes a cruzar os territórios do Azerbaijão e da Georgia. Ali, sempre foram ardentes os sentimentos de independência, ao longo dos séculos, causando à população sangrenta repressão, pois toda a região fora de domínio turco até 1914, quando se iniciou a dominação russa.
Pablo Neruda, que por lá também perambulou, exalta a terra laboriosa e legendária. Lá, pôde vislumbrar o cume nevado do Ararat, que preside a história do país. “Foi ali que a arca de Noé se deteve, segundo a Bíblia, para repovoar a terra. Tarefa difícil porque a Armênia é pedregosa e vulcânica. Os armênios cultivaram esta terra com sacrifício indizível e elevaram a cultura nacional ao ponto mais alto do mundo antigo”.
O poeta chileno, comunista de carteirinha, vencedor de um Nobel de literatura, elogia – com entusiasmo – o governo socialista naquele pedaço do mundo. Diz que só encontrou um russo, um engenheiro de olhos azuis entre milhares de olhos negros da população morena.
Pois Ararat, nome do meu conhaque e do monte na Armênia, citado no quarto parágrafo, é onde Noé estacionou sua arca, depois de vagar nas águas do dilúvio por 150 dias. Tinha 137 metros de comprimento, 23 de largura e 14 de altura, como especifica o confrade Pedro Rogério Moreira, da AML.
A arca se compunha de três pavimentos, havendo uma abertura de 45 centímetros abaixo do teto para a luz entrar, além de uma porta. Deus especificara até a madeira – gofer, isto é, cipreste, madeira resinosa. Mandara também que Noé a forrasse com piche, ou betume, por dentro e por fora.
A questão não fica por aí. Deus ainda determinara a Noé: “De todos os animais puros, tomarás sete casais, machos e fêmeas, e de todos os animais impuros, tomarás um casal, machos e fêmeas, das aves do céu igualmente sete casais, machos e fêmeas para que se conserve viva toda a raça sobre a face da terra, como se lê em Gêneses 7. 2-5. No Gêneses 7.15.15, contudo, conta-se: “De cada espécie que tem um sopro de vida, um casal entrou na arca com Noé. Eles chegaram, macho e fêmea, de cada espécie, como Deus tinha ordenado a Noé. E o Senhor fechou a porta atrás dele”.
Usufruindo o conhaque, aprazível nos dia de frio de 2019, aprendemos. Temos de aquecer os miolos e preservar a história.
Ararat contribui com suas lendas.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:31
Natal antecipado

Manoel Hygino

Embora o presidente tenha declarado publicamente que não há fome no Brasil, a verdade verdadeira é que existem inúmeros filhos desta terra passando necessidade, inclusive pelo desemprego que abrange a cifra de milhões. Sem fontes de trabalho suficiente para brasileiros de muitas categorias profissionais, o resultado desaba nas crescentes carências das pessoas e das famílias.
Assim, quando aparece a ocasião de receber algum dinheirinho, fica-se de antenas ligadas. Os governantes, aqui e alhures, precisam agradar aos anônimos eleitores e descobrem algum valor depositado em conta oficial e dele lança mão. Esperam aliviar dívidas e dores da população principalmente lembrada nas manifestações de apoio. É assim, assim tem sido, não há como mudar.
A descoberta mais recente foi a do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Vasculhando os cofres, localizaram-se R$42 milhões do FGTS e do PIS-Pasep e decidiu-se conceder um presente natalino extra no meio do ano. Só a promessa se tornou um alento valioso. Nem todo dia é 25 de dezembro.
A solução para a apertura dos que ricos não são virou uma novelinha, que preencheu páginas e páginas de jornais, virou manchete de meio palmo de altura. Mas a alegria se transformou em dúvida e, em seguida, em tristeza, porque demorou muito em se revelar o que de concreto existia.
No segundo semestre, soube-se que os saques só poderiam ser feitos a partir do nono mês, de modo que o Natal de meio de ano já se aproximava da data do nascimento de Jesus, o menino de Belém, de Judá.
O regalo, contudo, não é exatamente o que se esperava – reduziu-se a R$500 por conta ativa ou inativa, conforme calendário, com exceção dos trabalhadores com saldo poupança, que receberão automaticamente. Quem não quiser usar o oferecido deve informar à Caixa. Os saques aquém de R$100 poderão ser feitos em lotéricas. Não era tão fácil como se pensara e, em 2020, os saques poderão ser anuais. Atente-se para o verbo – poderão.
O presidente da Caixa afirma que a liberação de R$30 bilhões de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço terá efeito mínimo nas finanças da instituição, remunerada pela gestão do próprio Fundo, que é apenas 1% da sua receita. Assim, não haverá dificuldade em operacionalizar retiradas, que beneficiarão 100 milhões de trabalhadores.
O HOJE EM DIA, no dia 25 último, advertia em manchete de primeira página: “Saque do FGTS exige cautela”. No texto, alertava: “Quem optar por retiradas anuais a partir de 2020 perderá direito aos recursos restantes da conta por dois anos após adesão a essa modalidade, em caso de demissão sem justa causa”.
De tanto falar em Fundo, recordo um dos galantes escritores da segunda metade do século XIX, ao acompanhar a senhora robusta em quadris acomodando-se em bonde da época. Percebendo as dificuldades, comentou: “Nunca vi um banco ter riscos de quebrar por excesso de fundos”.


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Por Manoel Hygino - 31/7/2019 10:17:03
Emanuel segue Ruggero

Manoel Hygino

A mensagem chegou do escritor Fábio de Sousa Coutinho, presidente da Associação Nacional de Escritores, informando que, na noite do dia 29, falecera Emanuel Medeiros Vieira, de que publicara aqui trechos de comentários. Nascido em Santa Catarina, andou pelo mundo, escreveu, foi preso, assumiu um câncer que lhe devorou o resto da resistência. O velório e o sepultamento foram no Campo da Esperança, no dia seguinte em Brasília. Transcrevo parte de um depoimento seu:
“Lembro-me do padre jesuíta italiano Ruggero – tão alto – a gente varando noites, conversando sobre Teilhard de Chardin (1881-1955), Soren Kierkegaard (1813-1855), existencialistas cristãos como Gabriel Marcel (1889-1973) – que rejeitava o termo “existencialismo” –, Emmanuel Mounier (1905-1950) – fundador da revista “Esprit” –, agnósticos e ateus, como Albert Camus (1913-1960), Jean Paul Sartre (1905-1980), e marxistas como Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). No final – sempre no final – ele arrematava: – Nunca te esqueças da Misericórdia Divina. (Ele era sempre profundo, mas – nesta frase – queria ser abertamente “solar”.)
MISERICÓRDIA DIVINA. Ele acreditava que eu era possuidor de uma “fé forte e cósmica”, mas que o tempo, as leituras e as dúvidas me afastaram dela. – Quero te dar mais ÂNIMO, e falava mais alto e soletrava a palavra “ÂNIMO”. Ria, me abraçava.
Ruggero era muito culto, leitor voraz, mas sua sabedoria maior era a simplicidade.
Tomávamos vinho, assistimos juntos duas vezes a “O Sétimo Selo”, 1957, (“Det sjunde inseglete”); ”Morangos Silvestres” (Smultronstället”), 1957, de Ingmar Bergman (1918-2007). Também vimos várias vezes “Rastros de Ódio” (“The Searchers”), 1956, de outro grande mestre: John Ford (1894-1973). Gostávamos muito também de Orson Welles (1915-1985) e assistimos algumas vezes a “A Marca da Maldade” (“Te Touch of Evil”), 1958, que admirávamos muito, até mais que “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”) 1941 – por muitos considerado o melhor filme de todos os tempos.
Um dia, ele morreu.
Tinha um carinho enorme pelos “humilhados e ofendidos da terra”, como dizia, pelos pobrezinhos, pelos sem nada. Modesto, batina puída, evangelizava operários em comunidades pobres de Porto Alegre e pescadores em Florianópolis – não era amado pelos hierarcas, poderosos e conservadores da Igreja– afora a burguesia da capital gaúcha e da Ilha do meu nascimento.
E um dia– parece incrível – fui eu a consolá-lo. Triste, ferido com injustiças e perseguições (que não relato aqui), aquele sacerdote loiro (parecendo um camponês do interior de Santa Catarina), de quase dois metros, desajeitado, possuidor de um coração maior que ele, morando em uma casinha simples de madeira, num bairro humilde de Porto Alegre (antes estivera durante dois anos em Ponta das Canas, em Florianópolis, praia bela do Norte da Ilha de Santa Catarina, minha terra natal – ainda aprazível, pregando para os pescadores, dando para os pobres até a roupa do corpo, dividindo tudo o que tinha. Sempre achei que ele nascera na época errada. Deveria ter vivido na época das Catacumbas, levando a palavra de um Jesus pobre e libertador contra o Império Romano.
Escrevi acima: Um dia, ele morreu. Qual a causa (indagam)? Foi “pelo coração” – ataque cardíaco. Mas acho que morreu de tudo, de tudo um pouco, devido às perseguições sofridas, às injustiças que percebia no tão imperfeito mundo, à inveja de que foi vítima, difamado por tantos seres medíocres e mesquinhos. Havia abandonado a batina, voltou para a Itália, mas retornou ao Brasil para se despedir. Então, já era um velho, cabelos brancos, parecendo mais baixo, o olhar azul mais triste.
– “Desta vez, fui eu quem perdi a Fé”, me confessou. Tentei animá-lo, não falando em igreja, “reconversão”, nada. Mas nos filmes que havíamos assistido juntos. – Não há nada depois daqui, ele disse.


84110
Por Manoel Hygino - 26/7/2019 07:08:24
Salve-se quem puder

Manoel Hygino

A minha interrupção nos comentários sobre a Venezuela não significa que a América Latina, construída abaixo do rio Grande, esteja em tranquilidade. Nada disso. Nem se há de referir à incessante e desumana, seguidamente trágica, campanha empreendida pelos Estados Unidos para evitar o ingresso de centenas/milhares de migrantes dos pequenos países da América Central em terra de Tio Sam, através do território mexicano.

Na Venezuela, acontece o que se sabe e o que não se sabe, tentando-se um difícil apaziguamento entre o presidente-ditador Nicolás Maduro, sucessor do notório Hugo Chávez, e o pretendente Guaidó, líder da oposição que se queria já na chefia do Executivo. Petróleo não falta, como não falta a avidez de poder por todos os meios. No momento, quando se supunha quase irreversível uma guerra civil, sobreveio o intermezzo. Até quando, não se sabe.

Assim as diminutas nações da América do meio permanecem em atitude de expectativa. Suas populações sofridas buscam caminhos mais condizentes com a condição humana, procurando até fugir pelas fronteiras, também pouco receptivas, ou por mar.

Sabe-se amplamente, todavia, que o petróleo, ainda uma das molas da economia, constitui fator de inquietude e de guerra nas regiões produtoras. No Oriente, as autoridades iranianas se mantêm em alerta, diante da possibilidade de agravamento da tensão no estreito de Ormuz. A Europa, sobretudo o Reino Unido, na presente conjuntura, teme a posição hostil de Teerã. Um navio britânico foi aprisionado, mas isso pode ser o estopim de uma crise maior.

Parece um mal sem solução: refiro-me à dos países do lado de cá, das Américas.

Na Venezuela, não houve sequer equacionamento dos grandes e prolongados desafios, mas vão evoluindo. A Nicarágua, supostamente exemplar para a esquerda da centro-América, continua sob impasse. O presidente Daniel Ortega, sucessor dos Somoza, Tacho e Tachito, sente a pátria mergulhada em severa crise social e econômica. Ortega, hoje com 75 anos, governando com a esposa, não consegue dar conta do recado. Há uma ebulição.

Na Guatemala e em El Salvador, o momento não é menos doloroso. Por via de dúvida, multidões sonham transpor os terríveis obstáculos. Trump mantém posições drásticas com relação à transposição das fronteiras com o México. Mais do que isso; quer a deportação imediata de imigrantes ilegais. As respectivas ações agora serão mais rápidas e eficazes. Salve-se quem puder.

Ainda nesta semana, o governo da Venezuela denunciou que um avião-espião americano entrou novamente no espaço aéreo do país, sem sequer notificar as autoridades aeronáuticas. Segundo Caracas, foram nada menos de 78 violações por jatos tanques só neste ano. As autoridades julgam que a série de incursões de aeronaves acentuam a crescente hostilidade entre as duas nações. Um caça venezuelano seguiu “agressivamente” um avião da Marinha norte-americana. O advérbio é da agência informativa.


84106
Por Manoel Hygino - 22/7/2019 15:16:30
O homem e a lua

Manoel Hygino

Dados da Nasa revelaram que junho atingiu recorde de temperatura no mundo, marcado por severa onda de calor na Europa, com superação de recordes. Mantida a tendência, julho permanecerá com termômetros acima da média global. Não foi exatamente assim no Brasil, com frentes de ar frio do Polo Sul trazendo tempo variável, com ventos fortes durante os dias até agora. A baixa umidade relativa do ar, preocupava.
No meio do mês, mais especificamente no dia 15, registrou-se o eclipse parcial da lua, o último do ano, pois o próximo, total, visível, ocorrerá em maio de 2022. O do dia 15 coincidiu com a data da missão Apollo 11 completou 50 anos, com decolagem rumo à lua. O foguete, comandado pelo norte-americano Neil Armstrong desceu em nosso satélite, deixando os terrestres com olhos pregados à tela das televisões. O astronauta faleceu em 2012, com 82 anos, restando agora apenas a memória.
Mas tudo lembra entre nós gerações de brasileiros, que - à falta de rádio e televisão, que ainda não existiam, se entregavam às serenatas, que davam um brilho melancólico às noites de luar no interior brasileiro, inclusive as de minha cidade mineira lá do Norte.
Nelson Viana, nascido em Curvelo, formado em agrimensura em Ouro Preto, por Montes Claros se apaixonou. Ali viveu mais de trinta anos, casou, tornou-se figura singular e escreveu sobre os fatos e pessoas que ali via, numerosos e preciosos livros, que são resgate de uma época e de seus personagens...
“... E as serenatas passaram pelas noites enluaradas... Eram chorões, com flautas, bandolins, violões, pistons e cavaquinhos, tocando valsas, schoticts, mazurcas ou polcas em voga, e eram seresteiros inveterados, que cantavam modinhas sentimentais como a “Casa branca da serra”, “Pela janela da saudade” ou “A pequenina cruz do teu rosário”, provocando fundos e doloridos suspiros nos recessos das alcovas, as jovens românticas cujo coração madrugava para o amor, modinhas amarguradas, ternas modinhas que eles cantavam molhando a voz de pranto, nas horas em que as ruas dormiam silenciosas nos mistérios da noite cheia de encantamento e de luar...”
Seresteiros há que resistiram às agruras do tempo, mas desapareceram aqui os velhos ritmos e as letras de músicas possivelmente tidas como perenes. A lua só aparece para os demais jovens de hoje quando envolvem um fenômeno raro, mas previsto pelos cientistas e que lhes atraí a atenção.
Pior ainda:
Estudo da Nasa revela que a lua está encolhendo à medida em que o seu interior se resfria. De forma lenta, mas em pausas, a lua perdeu mais de 50 metros nos últimos 100 milhões de anos. Cientista do Museu do Ar e do Espaço dos EUA revela que o encolhimento faz com que a superfície da lua ganhe elevações e escarpas. O efeito também causa abalos sísmicos.
“Tal como uma uva se enruga na medida em que encolhe até se tornar uma uva-passa, escarpas se formam na lua conforme o satélite natural da terra diminui”, explicou a Nasa.
Mas, ao contrário da casca da uva, que é flexível, a crosta da lua é rígida e se quebra quando seu tamanho diminui, formando falhas onde um segmento é empurrado para cima de outro.
Como será, então, a lua ou o que dela sobrar?


84108
Por Manoel Hygino - 22/7/2019 15:15:42
O mineirês existe

Manoel Hygino

Sem limites claros e definidos, Minas não é una e única, como a própria nação. Nem poderia ser de outra maneira, se se considerar o estado com dimensões maiores de numerosos países continentes afora. O falar do Sul mineiro não é exatamente igual ao que se fala nas regiões limítrofes com Bahia, Espírito Santo, Goiás, Rio de Janeiro ou São Paulo. Basta conferir em visitas que se faça, mesmo sem interesse linguístico. O vocabulário também varia.
Daí ser perfeitamente compreensível que Joaquim Mendes de Sant’Ana tenha evocado para si laborar e editar um “Dicionário Norte-Mineirês Rural”, que me foi trazido por Wagner Gomes (cujo pai é responsável por uma coletânes fotográfica memorável sobre Montes Claros), autor de belos artigos sobre o Brasil de hoje, sob aspectos sociais, econômicos e políticos).
O próprio Wagner se encarrega de dizer quem é o autor do Dicionário: “... um homem à frente de seu tempo em todos os sentidos. Desprendido das coisas materiais, sua grande riqueza consiste em seus valores e em suas raízes. Tipicamente mineiro, sem deixar de ser um cidadão do mundo. Nascido com a ajuda de uma parteira analfabeta, numa pequena fazenda de uma cidadezinha que era pequena até no nome: Porteirinha. E essa cidade foi seu primeiro amor e a ela permaneceu sempre fiel. Até imaginou, um dia, mudar seu nome para Edenópolis... Fiel a esse mundo, guardou, ao longo de sua vida vitoriosa, cada palavra que ouvia dos matutos e dos interioranos... Engenheiro por formação, humanista por convicção, fez da vida o seu repente”. A excelente capa é de Nélson Flores.
Chico Mendonça acrescenta: “Esse dicionário é fruto de 12 anos de meticulosa pesquisa, feita por quem tinha o hábito de ser em tudo organizado, o que considero atributo invejável... O leitor tem diante de si, como resultado, um livro robusto de consulta, de qualidade e confiabilidade garantidas”. Estefânia Oliveira Sant’Ana auxilia a compreensão do significado: O autor “observou a paisagem rural com clareza, exuberância e afirmação contundentes”... que “resultaram em descobertas notáveis e criaram este guia sólido”.
Depois de tais comentários, é útil registrar que não se trata de meras observações de quem se interessa pela maneira como se fala em pedaços do Brasil- brasileiro, mas não único. O vocabulário que Joaquim Mendes de Santa’Ana nos oferece é perfeitamente representativo da realidade nacional. O próprio autor declara, e razão tem, o vocabulário contém palavras e expressões usuais no Centro e no Norte de Minas, principalmente entre as classes mais populares e na zona rural. Não são exclusivas dali e muitas delas, seguramente, nem são de lá originárias, mas incorporadas, trazidas pelos nordestinos que desceram para o Sul, como se diz.
Não só, contudo, as palavras e expressões, pois o próprio falar, que pincipalmente os baianos trouxeram e foi assimilado. Chamou-me a atenção, por exemplo, o adjetivo “bondadoso”, que corresponde a – bondoso- usado em espanhol: “Zé Roxinho era um sujeito moreno, de rosto redondo, de bigodeira farta- escorrendo pelos cantos da boca sem dentes. Homem bondadoso, dono de uma fazendinha ajeitada, de terras negras nos varjões de bengo”. Dá pra entender?


84103
Por Manoel Hygino - 22/7/2019 09:37:10
O decoro em pauta

Manoel Hygino

Até se admite que o Brasil procure imitar o presidente dos Estados Unidos de hoje, muito distante daquela outra nação que teve chefes de governo ponderados, sem excesso no uso da língua pátria – a deles, claro. Educação é essencial para os que se responsabilizam por dirigir os destinos de um país, com as dimensões das antigas colônias, agora maior potência do planeta.

O presidente dos EUA, que se prepara para candidatar-se à reeleição, declarou, em seu Twitter, que quatro parlamentares democratas de origem estrangeira ou de seus ancestrais deveriam retornar a seus países. Em uma de suas recentes declarações, classificou as terras de origem das deputadas de “países de merda”.

Embora sem mencionar nomes, Trump referiu-se a elas como integrantes de um grupo conhecido como “o esquadrão”, muito crítico ao presidente. São elas Alexandria Ocasio-Cortez, nascida nos EUA, mas de origem latina; Ayanna Pressley, nascida em solo americano, mas de origem africana; Rashida Tlaib, nascida nos Estados Unidos e de origem palestina; e Ilhan Omar, nascida na Somália, mas nacionalizada americana.

Pois alguns brasileiros, em termos de deseducação, parecem seguir de perto alguns súditos do Tio Sam, como se depreende do artigo de Fábio P. Doyle, advogado, jornalista, membro da Academia Mineira de Letras, a respeito da visita do ministro Sérgio Moro ao Congresso: “perdeu tempo em depoimentos no Senado e na Câmara dos Deputados, submetendo sua paciência à prova, tendo que ouvir, sem revidar, educado em excesso que é, deputados amolecados que o acusavam usando palavrões de baixíssimo nível”.

De minha parte, há poucos dias, espantei-me com a expressão de um alcaide de cidade grande durante desfile LGBT. Partindo de um chefe de Executivo, causou-me estranheza o calão, evidentemente a ser divulgado. No dia seguinte, o assunto apareceu, em manchete de jornal local, com o palavrão.

Veio-me à memória reportagem de “Isto é”, em 2016, descrevendo o comportamento da ex-presidenta (assim gostava de ser tratada), durante uma viagem em um Airbus A319, com destino ao Equador. Tripulantes e passageiros a bordo ficaram estupefatos com o palavreado da mais alta autoridade do país. Depois de forte turbulência, ela invadiu a cabine do piloto, aos berros: “Você está maluco? Vai se f... É a presidente que está aqui. O que está acontecendo?”.

Não era a primeira vez que ela perdia o equilíbrio durante um voo. Em outra ocasião, o avião despencou cem metros, enquanto passava pela região entre a floresta amazônica e o Acre. O piloto se preparava para pousar em Quito. Devido um tranco mais brusco, Marco Aurélio Garcia, o notório assessor especial, acabou banhado de vinho e uma Ajudante de Ordens bateu com a cabeça no teto da aeronave. Copos e pratos voaram. A ilustre passageira, gritou: “não falei para não pegar esse trajeto? Quer que eu morra de susto, cacete?”.

Nos dias finais de sua passagem pela presidência, a presidenta “disparava palavrões aos borbotões a cada nova e frequente má notícia recebida. Nem com Lula as conversas têm sidos amenas”. Com um assessor, investiu contra o juiz Sérgio Moro: “quem esse menino pensa que é? Um dia ele ainda vai pagar pelo que vem falando”.


84097
Por Manoel Hygino - 16/7/2019 10:05:37
Médicos e faculdades

Manoel Hygino

O Brasil é o oitavo maior mercado de saúde do mundo. Conta com 2,18 médicos para cada mil habitantes, formando o quarto maior país com população médica. Em outras palavras, somos uma população que carece ou precisa de assistência médico-hospitalar. Temos 6 mil hospitais e cerca de 2 milhões de enfermeiros, técnicos de enfermagem ou auxiliares, atendentes, ou o que o valha. Além disso, situamo-nos em 9º lugar no ranking de países com mais gastos em saúde, o que significa 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

É um quadro de proporções gigantescas, principalmente se levarmos em consideração que esse mercado exige investimentos anuais de US$ 38 bilhões. Assusta-se, porque o negócio é em termos de dólares, num país em que há permanentes reclamações ou denúncias sobre a qualidade de atendimento à população pelo sistema ora vigente.

Não se há de esquecer que o estabelecimento hospitalar que atende ao pobre é compelido a também servir aos privilegiados economicamente, ou pelo menos, os que detenham melhores condições socioeconômicas. É o caso, por exemplo, do candidato à presidência da República, obrigado a recorrer a uma Santa Casa, em 6 de setembro do ano passado, ao ser vítima de grave atentado em Juiz de Fora (Zona da Mata). Ainda bem que o hospital estava perfeitamente habilitado, técnica e profissionalmente. Não era da rede pública de saúde, mas estava habilitado a oferecer a assistência exigida naquelas circunstâncias.

Atender à população é um fantástico desafio, mas um dever do Estado, inclusive no que tange ao problema dos médicos e sua qualidade técnica. Não formamos esses profissionais em número suficiente para suprir à demanda nem os que colam grau se sentem dispostos a se instalar em regiões distantes, que não contam com o instrumental necessário. Trata-se de drama, que a nação não conseguiu equacionar.

Daí, o apelo aos médicos de outras nacionalidades, que têm, antes de tudo, de vencer a barreira da língua e se submeter às provas de revalidação de diplomas. Existiram aqui desde os governos petistas, os facultativos contratados com o governo de Cuba, mas o contrato esgotou. Esclareça-se: cerca de 8 mil profissionais cubanos, vieram ao Brasil para trabalhar no Mais Médicos. Em torno de 2 mil ficaram no país, muitos na esperança de serem readmitidos. Desses, cerca de 700 tiveram a situação regularizada, porque se casaram com brasileiros.

O governo Jair Bolsonaro trabalha em alterações no programa Mais Médicos, que deve contemplar a reincorporação de profissionais da ilha. Eles foram desligados no fim de 2018, após críticas de Bolsonaro à sua qualificação.

O governo quer editar até agosto uma medida provisória com as pretendidas mudanças, conforme noticiado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Pelo plano, cubanos que já atuaram no Mais Médicos voltariam à atenção básica no Sistema Único de Saúde (SUS) por dois anos e, terminado esse prazo, precisariam passar por revalidação do diploma. Começa tudo de novo. Mas o programa tem que dar certo, com urgência. A população não pode esperar indefinidamente assistência. No Hospital das Clínicas da UFMG, leitos estão fechados por falta de pessoal.

Não se pode esquecer que há respeitáveis instituições interessadas em implantar faculdades, que podem suprir a demanda, formando médicos com capacidade profissional e consciência de suas obrigações com a sociedade e com o homem. As faculdades não podem ser meras fornecedoras de diplomas.


84096
Por Manoel Hygino - 15/7/2019 13:15:10

Apelo a São Pedro

Manoel Hygino

A semeadura no Norte de Minas já espera seu tempo. Há intensa expectativa porque nem sempre apraz aos céus responder positivamente à súplica dos homens. A terra queda seca, os ventos levantam poeira, o volume de água dos córregos diminui, não poucos interrompem o curso, o agricultor se irrita ou chora. Como será 2019?

As carrancas do rio São Francisco mais fecham a cara, mas ainda há esperança. O desastre no córrego do Feijão, pelos lados de Brumadinho, causando centenas de mortes, em janeiro, haverá de apagar a fé nos santos que protegem aquele solo e os milhões que a habitam? Pede-se, insistentemente, que as nuvens abram suas torneiras.

Ninguém quer crer que o velho e amado Chico agonize. Três Marias, Sobradinho, e Itaparica reclamam mais água em seus reservatórios, para que os vapores (este o nome dos navios que ali se movem) percorram sem problemas os extensos trechos sem encalhar. Encalhar é mau sinal! Até outubro muito de bom precisa acontecer.

Uma autoridade ensina, e a corrente e suas margens pedem clemência. A
estimativa é dramática: “É muito provável que tenhamos que enfrentar período de seca. O ciclo hidrológico está modificado e não potencializa as fragilidades que já existiam, e, para piorar, pelos malfeitos humanos”.

O homem trabalha para prejudicar-se pois não mede consequências. As águas, que correm para o mar, depois de abastecer a população ribeirinha, exige proteção. E se as nuvens falharem? Como ficará a matéria-prima que chega às torneiras carentes de milhares de habitações ao longo do rio, que se diz da unidade nacional?

Fala-se demais, mas se atua pouco. Cumpre a recuperação das chamadas matas ciliares, mas quem está cuidando disso todo o ano, ao invés de somente protestar? Ou rogar nas orações das donas de casa quando o drama cai sobre elas, seus filhos, suas plantas, seus animais?

Há mais de um século, os governos já pensavam na captação do São Francisco para atender à demanda regional. Entre 1844 e 1845, era o Brasil de Pedro II, registrou-se a uma estiagem brutal. Surgiu sobre a mesa dos engenheiros o projeto para levar água até o sertão.

O plano era construir um canal que sairia de Cabrobó (PE) até o Ceará. O projeto chegou a ser elaborado e foi analisado por Dom Pedro II. Um grupo foi montado para avaliar a viabilidade.

No entanto, os técnicos entenderam que não existiam recursos para fazer com que a água transpusesse a chapada do Araripe, na divisa do Ceará e Piauí. No governo Getúlio Vargas a proposta foi retomada, mas pouco avançou.

No fim da ditadura militar, o general João Baptista Figueiredo autorizou a elaboração do projeto de transposição pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento. O alto custo da obra, estimado na época em US$ 3,3 bilhões e disputas políticas na caserna fizeram com que a transposição não passasse de um projeto.

Com tantas obras no país, a da transposição do velho Chico não se concretizou inteiramente. Novos entraves surgiram. Só resta orar para que não se repita a época de Pedro II. A metade do ano já passou.


84093
Por Manoel Hygino - 12/7/2019 10:16:05
A Califórnia é longe

Manoel Hygino

Quem não se dá ao luxo de ler jornais, certamente não soube em pormenores a respeito do terremoto que atingiu o Sul da Califórnia – Estados Unidos, é claro – no fim da primeira semana de junho passado.

Não era o bairro Califórnia, em Belo Horizonte, que deve enfrentar outros problemas, evidentemente de menor expressão e periculosidade. Lá, nos States, o fenômeno se viu classificado como o maior em 20 anos e o segundo a atingir a mesma região em menos de dois dias, com epicentro próximo da cidade de Ridgecrest, cerca de 200 quilômetros de Los Angeles. E é bom que se esclareça que ela é a segunda mais populosa dos Estados Unidos.

Mais de cem terremotos tinham sacudido o Sul da Califórnia no período imediatamente anterior e, dois dias antes, um mais forte encontrara ali seu epicentro. Dois mais perigosos fizeram ressurgir na população o fantasma (como contaram as agências de informação) do "“The Big One”, isto é, o grande tremor, tão devastador que abrangeria todo o Oeste, sem risco de ação contrária dos soldados da Cavalaria de Tio Sam, como se via nos velhos filmes, inclusive os de John Ford.

Todos já ouviram pelas tevês e rádios: o estado da Califórnia está situado na região conhecida como Anel de Fogo do Pacífico, onde terremotos e erupções vulcânicas são mais frequentes por força de encontro de placas tectônicas. Recordo-me, sim, do terremoto de 7,6 graus, que devastou parte expressiva de São Francisco, causando mais de três mil mortes, quando uma parte da falha de San Andreas, que tem 1,3 mil quilômetros, se rompeu.

Observe-se: no Sul da falha, não há o desastre há 300 anos. Mas existem registros geológicos que apontam para tremores de maior volume a cada 150 anos.

Nos abalos de junho, contudo, apesar do medo que despertou, ninguém morreu ou se feriu gravemente, apesar dos incêndios provocados pelos vazamentos de gás. No Brasil, sem tsunamis ou vulcões, a situação não é a mesma.

Este ano, segundo o Ministério da Saúde, houve 339 óbitos por vírus da gripe até o fim do sexto mês, sem falar em 1.766 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, causados pelo vírus influenza. Não só: sete pessoas se feriram em ataque de abelhas no Norte de Minas. Três militares foram picados pelo inseto, exigindo ação dos Bombeiros da principal cidade da região. Viaturas ficaram no local para atender às vítimas mais graves.

Outros riscos rondam os brasileiros, principalmente os sem recursos. É o caso dos que ganharam a classificação de “moradores em situação de rua”, ou seja, aqueles que não têm onde morar, o quê comer, nem qualquer fonte de manutenção pessoal. Entregues à própria sorte, ou ao azar, amontoam-se sob marquises (quando existem) de edifícios, nos centros urbanos ou qualquer outro lugar em que se deitam. Segundo a assistência social, não há vagas suficientes em abrigos, as autoridades não dispõem de meios compatíveis com as necessidades, restando à sociedade civil, assim como entidades religiosas ou ONGs, adotar ações pertinentes; ou deixá-los ao Deus-dará, como acontece mui repetidamente. Isto é, morrerem pelo intenso frio deste julho, como aconteceu na maior cidade do país, ou perecerem queimados, servindo somente para referência policial, nos famosos BOs.


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Por Manoel Hygino - 11/7/2019 09:10:10

Flor do Céu

Manoel Hygino

Os espaços que os veículos de comunicação deram ao ensejo do falecimento do cantor-compositor João Gilberto, no último fim de semana, estiveram acima das expectativas. Superaram os relacionados com o passamento de ilustres estadistas como os que registraram, por exemplo, a morte dramática de John Kennedy, em Dallas, mesmo a de Onassis ou Jacqueline, viúva do ex-presidente democrata dos EUA. Ou dos Beatles, entre os artistas.

Pela imprensa de cá, se tratava de um notável artista carioca, porque a eles o Rio e São Paulo fazem singular exposição e exaltação. Mas aquele que nos deixou, há poucos dias, era um baiano, de Juazeiro, por sinal. Estes detalhes, contudo, não lograram maior realce nos noticiários, aparentemente secundários. Enfim, depois de décadas no Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, o artista da Bahia, conterrâneo de Caymmi, Gal Costa e Caetano, se tornara carioca. Sem esse verniz, nada ou pouco feito.

Mas, João Gilberto passara por Diamantina, a velha Tejuco de JK, a quem e a que dediquei um livro publicado há pouco mais de um ano. A verdade é que nordestino, descendo no mapa e na geografia, teria inequivocamente de atravessar as montanhas, como aconteceu com inúmeros brasileiros. Com João Gilberto não foi diferente, pois aspirou ares diamantinenses para alcançar o Atlântico, via RJ, e alçar a notoriedade.

A permanência, durante algum tempo, de João Gilberto em Diamantina, eu já soubera pelo livro “Vesperata”, de Wander Conceição, um estudioso da música naquele rincão. O fato foi resgatado e corroborado agora por Pacífico Mascarenhas, empresário e compositor, cujo irmão Caetano lá viveu e se tornou companheiro de JG em noites de boa conversa. Teria sido gestada na velha Tejuco a bossa nova? O jornalista Paulo Narciso responde: “O tempo, senhor dos homens, clareará”.

Outro fato é que Diamantina e Montes Claros, irmãs em termos de modinhas disputaram a autoria de “É a ti, flor do céu”, uma das mais notáveis cantadas Brasil afora. Anos depois, soube-se: a modinha não é de Diamantina, nem de Montes Claros. Veio da Tchecoslováquia, terra de origem da mãe de JK, para aqui trazida pelo bisavô materno do ex-presidente.

Quem desfez o mistério foi um embaixador tcheco, ao visitar o Tribunal de Justiça de Minas. Naquele dia, o coral do TJMG ensaiava em sala ao lado da sala do presidente do tribunal, o desembargador Hélio Costa, que nos contou o episódio: “imagina que o embaixador visitante me agradeceu, comovido, tê-lo recebido com acordes da sua terra, a Tchecoslováquia”. A modinha, aqui popular, era cantada ao lado, com letra em português, com a melodia tcheca de “É a ti, flor do céu”.

Diamantina recebeu dos eslavos ocidentais a melodia. E pôs sua lírica e paixão na letra que não se apaga, atribuída a Teodomiro Alves Pereira, mas acolheu o que de belo havia. A luz de João Gilberto se apagou, Minas continua brilhando em todo o Brasil, consolidando a tendência reclusa do baiano que liderou a “bossa nova”, sem fazer declinar o prestígio do samba-canção, pelo qual os brasileiros de Norte a Sul tinham predileção.

A letra aqui trabalhada para a modinha é simplesmente representativa do melhor sentimento brasileiro: “Quem me dera, outra vez esse passado! essa era ditosa em que vivi; quantas vezes na lira debruçado, cantando em teu colo adormeci”.




84087
Por Manoel Hygino - 10/7/2019 08:19:07
Os riscos que corremos

Manoel Hygino

Estive excessivamente preocupado com o calor, que nos aqueceu durante dias antes desta onda de frio cortante. Não só eu. A Organização Meteorológica Mundial informou, no dia 28 de junho (e talvez poucos se interessaram), que este ano está encaminhado para situar-se entre os mais quentes em toda a história. Em consequência, o ciclo de 2015 a 2019 seria o quinquênio mais quente já registrado no planeta.

Para a OMM, é ainda cedo para atribuir definitivamente o atual período de calor excessivo na Europa à mudança climática, mas ela é “absolutamente consistente” com extremos relacionados ao impacto das emissões de gases do efeito estufa. “Ondas de calor se tornarão mais intensas, mais delineadas, mais extremas, e vão começar mais cedo e terminar mais tarde”. De janeiro a maio, foi apontado 2019 como o terceiro ano mais quente já registrado no mundo. Na França, registrou-se a temperatura mais alta de sua história: 45,5 graus.

A Organização Internacional do Trabalho advertiu que as mudanças climáticas e o aumento do estresse térmico na agricultura e outros setores industriais vão provocar perda da produtividade equivalente a 80 milhões de empregos até 2030. Em relatório, a OIT considera que 2,2% do total das horas trabalhadas no mundo poderão perder-se por causa das altas temperaturas, segundo projeções baseadas em aquecimento mundial de 1,5°C até o final do século. O impacto será maior no Sul da Ásia e na África Ocidental. No total, as perdas econômicas representariam cerca de US$ 2,4 milhões em escala mundial, o equivalente à economia do Reino Unido. O estresse térmico representa um calor superior ao que o corpo pode tolerar sem sofrer danos psicológicos. Ele costuma chegar quando as temperaturas superam os 35°C.

Ouvi a respeito José Ponciano Neto, que é técnico em meio ambiente, que assim se pronunciou: quanto maior a atividade solar, associada à troca de posição dos polos, pode produzir aquecimento em um determinado continente e resfriamento em outro. Com isso, maiores são os prejuízos que chegam aproximadamente a 1 bilhão de dólares (dados da ONU). As mais prejudicadas são as empresas de satélites e energia elétrica, trazendo panes nos setores. É só aumentar as tempestades solares que celulares e energia caem nas centrais. Como o mundo demanda energia, computadores e celulares, sempre que acontece um “blecaute” nestes setores vêm os prejuízos.

Concluindo: toda alta temperatura é originada das mudanças climáticas provocadas pelo sol por meio das suas explosões e tempestades. Ou seja: destroem a camada protetora da atmosfera, que provoca uma cadeia de eventos de efeito dominó – as radiações do sol com maior intensidade derretem as massas polares, que provocam inundações nas costas, dos terremotos que fazem os vulcões entrarem em erupção e secas severas nas regiões mais próximas da linha do Equador.

Afeta também os animais que necessitam dos polos magnéticos para a sua orientação durante a migração e começam a aparecer baleias onde não existiam e golfinhos doentes, além de tucanos desnorteados no Norte de Minas. E, o mais preocupante – a grande incidência de câncer – esta última, já fomentada pelos agrotóxicos e águas contaminadas. Tudo isso está relacionado aos ciclos do sol, da lua e do “stress ambiental” provocado pelo homem.
A importância do tema nos obriga a voltar, proximamente.


84085
Por Manoel Hygino - 9/7/2019 09:14:54
O mouro e o Moro

Manoel Hygino

De uma hora para outra, embora não constituísse surpresa, dados os interesses em jogo, o ex-juiz Sérgio Moro se vê envolvido em acusações principalmente por mensagens trocadas (?) com procuradores da força-tarefa da “Lava Jato”. O ex-juiz explica: “muita gente teve interesses contrariados, pessoas poderosas que se envolveram em corrupção”. Concluiu o raciocínio: “Falsos escândalos não me farão desistir desta missão. Sempre pautarei com base na lei e na ética”.

No episódio, importantíssimo para o Brasil atual, aparece, no centro dos acontecimentos, o magistrado Sérgio Moro na Justiça de Curitiba. Conduzindo-nos sobretudo pelo nome, chegaremos à tragédia de “Otelo, o Mouro, de Veneza”, de Shackespeare, que é lá de 400 anos atrás e considerada uma das peças mais perfeitas do autor inglês.

Ali, Otelo é um audaz soldado mouro a serviço de Veneza. Os relatos que faz de sua vida levam-no ao amor de Desdêmona, patrícia que se casa com ele, mas provoca rancoroso ciúme do alferes Iago, que inventou um inexistente terceiro personagem como amante. A jovem esposa é asfixiada na cama brutalmente pelo marido. O enredo, imortalizado pelo poeta de Stratford-upon-Avon, serviu de inspiração para outros autores europeus. Otelo não era ciumento extremado, mas se envolveu nos fatos confidenciados em determinados círculos e se sentiu ofendido em sua boa-fé. Além de matar Desdêmona, suicida-se em seguida.

O mouro do lado de cá, aqui e agora, se escreve sem o U e nada tem a ver com o de Veneza. E o ex-juiz, agora ministro, não tem parentesco com Aldo Moro, o grande líder italiano que se empenhou na luta contra a corrupção em sua pátria. Seu empenho foi tão eficaz que lhe custou a vida, sacrificada a serviço de cidadãos de mãos limpas no desempenho de cargos públicos.

Escolhido para ministro da Justiça, o Moro paranaense se aproximou do Moro italiano: não do mouro, com U medial, levado à morte pela intriga do próprio alferes. Segundo entrevista a jornal, o de cá declarou: “temos de nos preocupar com as tentativas de retrocesso. Porque o enfrentamento da grande corrupção contraria o interesse de poderosos. É uma ilusão pensar que não vão ocorrer essas tentativas. Temos de assegurar que o navio não volte ao porto. Por exemplo, a própria questão da segunda instância. É fundamental a decisão do STF que no fundo representa colocar o ponto final de um processo num prazo razoável, não se tornar aquele processo que se eterniza, mas chegam a um término dentro de um prazo razoável. Mas a gente não pode estar satisfeito em apenas evitar retrocessos. E isso inclusive foi um dos propósitos que me levaram a aceitar virar ministro. Temos de pensar em avanços”.

O pensamento do Moro curitibano não corresponde aos projetos de espertalhões que falharam e, evidentemente, gostariam, de passar o tempo a que foram condenados em liberdade. Não faltam recursos para bons advogados e despesas judiciais. Melhor isso do que ficar detrás das grades, expressão antiga que não representa mais a realidade. O tempo mudou. Mais recentemente, há até refrigeradores para autores de falcatruas de alto quilate e, mesmo os sentenciados por crimes graves contra a vida, conseguem um celular nos espaços que lhe são destinados nos presídios.

Precisamos de avanços, diz o ainda jovem ex-juiz, que não almeja uma vaga no Supremo, conforme afirma. Até lá, muita água correrá sob a ponte e fatos novos revelarão o futuro: dos bandidos e dos magistrados.


84078
Por Manoel Hygino - 5/7/2019 10:51:55
No tempo de Hitler

Manoel Hygino

Irmã Arnhild, uma religiosa da Congregação das Servas do Espírito Santo, deixou de viver, há poucos dias. Notícias assim se perdem no bulício das redações ou simplesmente são esquecidas. Enfim, quantas irmãs de caridade morrem por semana nos mais recônditos lugares do planeta?
Wilhelmine Antônia Gertrud Lahrkamp, a “irmã Arnhild”, nasceu em Munster (Alemanha), em 19 de março de 1933. Em 1955, formou-se em enfermagem e, três anos depois, iniciou sua vida religiosa no Monastério do Divino Espírito Santo (Heilig Geisthloster), em Wimbern. Em 1961, fez seus votos e foi enviada ao Convento da Santíssima Trindade, em São Paulo. O nome adotado é corruptela de Arnaldo, o fundador da congregação, e Hild, homenagem a Hildegard, santa alemã que viveu no século XII.

Em 1963, a irmã Arnhild veio para Belo Horizonte e, dois anos após, começou a trabalhar na Santa Casa. Superou todas as dificuldades, a começar pela língua, aprendendo o necessário para entender-se e desempenhar seus misteres. De 1969 a 1971, fez novamente o curso de enfermagem. Aqui, orientava os seus alunos sobre a importância de oferecer conforto espiritual aos pacientes – independente da religião. Sem descanso, desenvolveu suas atividades durante 20 anos, inclusive como chefe de enfermagem.

Adotou fielmente o programa da instituição, contribuindo com todas suas forças para o projeto de fundação e funcionamento de uma escola para profissionais da área, lecionando nos cursos de atendente e de auxiliar de enfermagem. Abraçou a ideia da Escola João Paulo II e, em seguida, da Escola Técnica de Enfermagem, formalmente aprovada pelos órgãos oficiais, inclusive nos termos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Entre as muitas ações, irmã Arnhild ajudou a criar, em 1980, a creche que cuidou dos filhos dos funcionários do Grupo Santa Casa BH até 2000. Depois, diante do grande número de funcionários (atualmente mais de 5 mil), a escolinha foi transferida a outra entidade.

É bom resgatar a história. No ano em que Arnhild veio ao mundo, Hitler assumiu os destinos da Alemanha, eleito em 24 de março, pela Câmara dos Deputados, com plenos poderes. O diário nazista “Volkischer Beobachter” publicou no dia seguinte: “o sistema parlamentar capitula diante da nova Alemanha (...). Um grande empreendimento começa! Chegou o dia do Terceiro Reich”. Naquela data, várias dezenas de milhares de alemães já estavam em campos de concentração.

A família, católica, de Arnhild não se curvou à vitória e credo nazistas. Assistiu em desolação ao rumo dos acontecimentos, enquanto a jovem enfermeira se desdobrava em BH, agindo humildemente, o ditador aprimorava métodos para desfazer-se dos supostos inimigos.

Hitler defendia a superioridade do povo alemão, culpava o povo judeu pela terrível crise econômica da Alemanha após a primeira grande guerra. Esmerou-se ainda na perseguição aos ciganos, aos homossexuais e deficientes físicos. Defendendo a tese do espaço vital, pretendia o mundo sob seu guante. Na Europa, existiam nove milhões de judeus, mas Hitler eliminou dois terços, dos quais um milhão de crianças e dois milhões de mulheres. Arnhild condenara bravamente o genocídio e a cultura da morte e da crueldade. Assim foi. Sempre em nome de Jesus.

A Escola Técnica da SCMBH, por decisão do provedor Saulo Coelho, recebeu seu nome, após 54 anos de devotamento da religiosa.



84076
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 15:33:39
Tema de tragédia

Manoel Hygino

Em 13 de março deste ano (por sinal de meu aniversário), Edmilson Caminha, o escritor que o Ceará gerou para o Brasil, enviou para seus amigos um “artiguete” (como o classificou) em que focaliza “o imenso Agripa Vasconcelos, tão injustamente esquecido, cujo cinquentenário da morte se completa este ano”.
Ultrapassada metade do ano, não se fez algo de maior grandeza para exaltar, em termos nacionais, o papel de Agripa, ex-membro da Academia Mineira de Letras, como se deveria. Sua produção pode ser comparada a trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo – um, ponto abaixo, porque sem a extensão e a magnitude dos seis romances que impressionam pela riqueza literária e pelo elemento histórico”.
“Fome em Canaã”, “A vida em flor de Dona Beja”, “Chica que Manda”, “Sinhá Braba”, “Chico Rei” e Gongo Soco”, dos quais dois adaptados para novelas da TV-Manchete, conquistaram popularidade e aplauso, mas muito aquém dos méritos do romancista de Matozinhos, nascido em 1896.
Neste ano de muitas tragédias, a começar pela de rompimento da barragem do córrego do Feijão, em Brumadinho, tive a impressão de que um dos seus romances, “Gongo Soco”, acordaria Minas Gerais, o Brasil enfim, para a dura perspectiva que envolve a cidade de Barão de Cocais, arrolada entre prováveis e gravíssimas vítimas das consequências de igual ou semelhante caos. A história ainda não terminou, a comunidade sofre tão dramáticos horizontes, mas Gongo Soco permanece apenas na pauta do noticiário de imprensa.
Gongo Soco, a mina sob observação incessante de técnicos do setor minerário, pertenceu a João Batista Ferreira Chichorro de Sousa Coutinho, a maior fortuna das Minas Gerais, como lembra Coutinho. Suas riquezas só lhe serviram para forrar o caminho da sede da fazenda até a igreja local e para bucha de fogos de artifício em data de festa.
Creio que está escapando ao interesse de produtores de televisão ou cinema este precioso conteúdo, que por sinal nos evoca o Barão de Cocais, um dos líderes da Revolução de 1842, tristemente perdido no vendaval da história.
Seria excelente ocasião para que alguma editora, que busca temas no exterior, usasse do aqui elaborado, para reeditar a obra, que é de primeira qualidade e porque a edição de 1966 já se acha possivelmente toda esgotada.
Parece, ao momento em que redijo este texto, que o grande Agripa tinha razões, quando escreveu carta ao editor Pedro Paulo Moreira, da Itatiaia, afirmando: “Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural, que aqui fui no começo, me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: ‘ seu livro sobre Beja foi o melhor romance que já li’”.
Será que os brasileiros de outras regiões têm mais visão de nossa terra, nossa gente e seus costumes? Mais apreço e respeito por nossa história e tradições?


84072
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 15:32:27
Olhar o céu e orar

Manoel Hygino

Meio ano já se passou, mês que vem é agosto, de calor intenso, ventos fortes, que levantam a poeira nas cidades em que não há pavimentação, formando redemoinhos que incomodam os que andam a pé e ofuscam a visão dos motoristas nas vias urbanas ou nas estradas. Mas é também o período em que os agricultores e os fazendeiros olham para as alturas e fazem votos de que a chuva não falte para recompensa dos esforços dos que cultivam a terra.
José Ponciano Neto, técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, antecipa o que pode acontecer: “Creio que teremos boas precipitações neste próximo ano agrícola que se iniciará na segunda quinzena de julho à primeiro de agosto”. É exatamente o que esperam os que já se preparam para a semeadura. Alguns duvidam – será? Porque há anos em que as previsões falham. Espera-se que não seja 2019.
O tempo não é mais como antigamente, bem definido e seguro. E quase normal que São Pedro não descarregasse sua caixa d’água no período historicamente combinado. O técnico medita: Estamos numa região que, nos últimos anos, vem desafiando os institutos de meteorologia. Lembremos que não é comum chuva apagar fogueira em junho, mas vem acontecendo, para tristeza dos apreciadores das festas no sexto mês.
Em junho, já choveu em Glaucilândia e chuviscou em Juramento. O dia 23 foi todo nublado e neblinou na Serra do Espinhaço, próximo às cabeceiras dos Rios Congonhas, Congonhinha e Encantado.
Sem água, sem agricultura. Como todas as atividades humanas, as lavouras e o gado têm necessidade vital de que a água flua através da natureza. Um déficit prolongado nesse recurso pode afetar a atividade agrícola e a economia.
A seca pode ser definida como um episódio de falta de água, mais ou menos longo, mas suficiente para que o solo e a flora sejam afetados. Esse fenômeno pode ser cíclico ou excepcional, e pode dizer respeito a uma área geográfica mais ou menos vasta. O Norte de Minas têm 12.845.108 Km² de área.
Com seus 4,2 bilhões de metros cúbicos de água subterrânea, chuvas geralmente escassas e rede hidrométrica muito baixa, o Norte de Minas carece de água, a priori. Todos os anos recebem cerca de 14,6 bilhões de metros cúbicos de água da chuva, dos quais dois terços evaporam. 4,9 bilhões de metros cúbicos restantes de água fornecem água superficial e subterrânea.
Neste período em que a União cuida de engordar seu faturamento, a produção no campo é de grande relevo no orçamento, pela importância da agropecuária na balança de pagamentos. Não se pode perder de vista, contudo, que há brasileiros no sertão das minas gerais carentes de água, que lhes assegura alimento e uma vida menos penosa. É gente que precisa de água, um meio de sobrevivência e de sustento.
Quando a água cair das nuvens, é imprescindível que os agricultores tenham recursos para sustentar e ampliar a safra, a produção, a garantia de trabalho. Enfim, água é vida.


84070
Por Manoel Hygino - 2/7/2019 11:06:54
Tema de tragédia

Manoel Hygino

Em 13 de março deste ano (por sinal de meu aniversário), Edmilson Caminha, o escritor que o Ceará gerou para o Brasil, enviou para seus amigos um “artiguete” (como o classificou) em que focaliza “o imenso Agripa Vasconcelos, tão injustamente esquecido, cujo cinquentenário da morte se completa este ano”.

Ultrapassada metade do ano, não se fez algo de maior grandeza para exaltar, em termos nacionais, o papel de Agripa, ex-membro da Academia Mineira de Letras, como se deveria. Sua produção pode ser comparada à trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo – um ponto abaixo, porque sem a extensão e a magnitude dos seis romances que impressionam pela riqueza literária e pelo elemento histórico.

“Fome em Canaã”, “A vida em flor de Dona Beja”, “Chica que Manda”, “Sinhá Braba”, “Chico Rei” e “Gongo Soco”, dos quais dois adaptados para novelas da TV Manchete, conquistaram popularidade e aplauso, mas muito aquém dos méritos do romancista de Matozinhos, nascido em 1896.
Neste ano de muitas tragédias, a começar pela de rompimento da barragem do córrego do Feijão, em Brumadinho, tive a impressão de que um dos seus romances, “Gongo Soco”, acordaria Minas Gerais, o Brasil, enfim, para a dura perspectiva que envolve a cidade de Barão de Cocais, arrolada entre prováveis e gravíssimas vítimas das consequências de igual ou semelhante caos. A história ainda não terminou, a comunidade sofre tão dramáticos horizontes, mas Gongo Soco permanece apenas na pauta do noticiário de imprensa.

Gongo Soco, a mina sob observação incessante de técnicos do setor minerário, pertenceu a João Batista Ferreira Chichorro de Sousa Coutinho, a maior fortuna de Minas, como lembra Coutinho. Suas riquezas só lhe serviram para forrar o caminho da sede da fazenda até a igreja local e para bucha de fogos de artifício em data de festa.

Creio que está escapando ao interesse de produtores de televisão ou cinema este precioso conteúdo, que por sinal nos evoca o Barão de Cocais, um dos líderes da Revolução de 1842, tristemente perdido no vendaval da história.
Seria excelente ocasião para que alguma editora, que busca temas no exterior, usasse do aqui elaborado, para reeditar a obra, que é de primeira qualidade e porque a edição de 1966 já se acha possivelmente toda esgotada.

Parece, ao momento em que redijo este texto, que o grande Agripa tinha razões, quando escreveu carta ao editor Pedro Paulo Moreira, da Itatiaia, afirmando: “Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural, que aqui fui no começo, me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: ‘seu livro sobre Beja foi o melhor romance que já li’”.

Será que os brasileiros de outras regiões têm mais visão de nossa terra, nossa gente e seus costumes? Mais apreço e respeito por nossa história e tradições?


84056
Por Manoel Hygino - 27/6/2019 10:03:07
As drogas voam

Manoel Hygino

Em 2017, o ministro do STF, Gilmar Mendes, votou favoravelmente à descriminalização de todas as drogas – se para uso pessoal. Os colegas Luis Roberto Barroso e Edison Fachin se manifestaram pela descriminalização apenas da maconha, tendo o primeiro sugerido a fixação de um limite de 25 gramas por pessoa para posse de droga. Diante do que a imprensa tem publicado insistentemente nos últimos dias, elas poderão até ser legalizadas no Brasil, inclusive porque tão ampla divulgação termina por confundir o distinto público, que pressiona as decisões em favor de seus interesses. Para o jornalista Carlos Alberto Di Franco, porém, o assunto não deve ser definido por um colegiado como o Supremo. E encerra comentário, afirmando que as evidências condenam a maconha e as políticas públicas irresponsáveis.
As informações não constituem novidade: desde 2015, a importação de óleos e extratos à base de derivados da maconha, como o canabidiol, é permitida, reconhecidos seus efeitos terapêuticos. Se a ANVISA autoriza, é porque se trata de algo útil ao ser humano, sem considerar aqueles compradores que julgam absurda impostura a exigência de apresentação de laudos e receita médica. Os pacientes, todavia, reclamam: os custos da importação são altos, daí muitos recorrerem ao próprio cultivo e apelarem ao mercado ilegal. Aliás, aqui mora um dos perigos: num país tão grande, de população pobre e mal formada, a autodefesa dos usuários é extremamente precária. Não causará surpresa alguém dizer que a maconha vendida pelos traficantes é bom para a saúde.
Deste modo, entidades se mobilizam para conseguir autorização para plantio e extração de óleos com canabidiol e THC, inclusive pretendendo agora contar com a colaboração de universidades. A ABRACE no país é a única que obteve liminar para cultivo e, ainda, a única a ter esse aval. O grupo mantém seis estufas e laboratório. A dispensação é feita a associados mediante laudos e prescrição médica. O custo fica em torno de R$ 89,90, enquanto alguns óleos importados chegam a R$1.000. “Seria uma maneira de fazer com que as pessoas não tenham que se expor a riscos de ter que recorrer ao mercado ilegal”, diz a entidade.
A empreitada judicial, porém, não é a única investida das associações. Planeja-se iniciar uma campanha para regulação do cultivo associado. Batizada de Repense, a campanha incluirá um vídeo e a distribuição de mil cartilhas a médicos e deputados com dados de pesquisas sobre a cannabis medicinal. Além da proposta da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para regulação do plantio de maconha no país, associações que reúnem pacientes que fazem tratamentos à base de derivados da planta se preparam para entrar na Justiça com ações para garantir direito ao cultivo por conta própria.
Nos últimos anos, ao menos quarenta famílias e a ABRACE já ganharam esse aval, como se disse. Agora, a ideia é ingressar com novas ações que possam ampliar o número de atendidos por meio de uma autorização coletiva a essas entidades. Em meio a tudo, contudo, há os picaretas de praxe interessados em tirar proveito da situação, sem medir os prejuízos de toda ordem que podem causar às pessoas que realmente precisam desses medicamentos.
Jornais de ontem, por exemplo, publicaram: “Um sargento da Aeronáutica, da tripulação que assumiria o voo do avião, reserva do presidente Jair Bolsonaro, foi detido por transportar drogas na bagagem, eram mais de 40 quilos de cocaína, em vários pacotes”. A prisão ocorreu em escala na Espanha, na viagem para o Japão, para Bolsonaro participar da reunião do G-20, em Osaka. Informam fontes ainda que não é a primeira vez que se registra este tipo de ocorrência, havendo o precedente, inclusive, do caso de um tenente-coronel, também preso por transportar cocaína em voo internacional.


84062
Por Manoel Hygino - 27/6/2019 10:02:11
A volta do rei

Manoel Hygino

Aprende-se nos cursos médios sobre dom Sebastião, aquele rei de Portugal que decidiu enfrentar os mouros no Norte da África e lá terminou por desaparecer, embora milhares de súditos continuassem a crer em sua volta para tirar a pátria da possibilidade de passar à governança pela Espanha. É uma história complicada, porque a época era de conquistas que começavam com a escolha na casa real de alguém para casar com alguém, alçar ao poder e à glória, alcançando o trono. O destino de Portugal, no entanto, estava em jogo.
Assim ocorreu com D. Sebastião, cujo pai era o príncipe Dom João Manoel, último dos nove filhos legítimos de D. João III e D. Catarina de Áustria.
Sebastião, o herdeiro do trono, era a esperança da nação. Daí, seu apelido “O Desejado” desde o berço. Mas ele se revelara enfermiço, somente assumindo o encargo de marido aos 14 anos.
É um emaranhado de nomes, de aventuras conjugais, devidas aos interesses políticos, em meio à luta com os sarracenos, D. Sebastião subiu ao trono de Portugal e Algarves, aos 24 anos, indo lutar na África. Na batalha de Alcácer-Quibir, em 5 de agosto de 1578, simplesmente sumiu, enquanto morriam oito mil compatriotas. Sovertera. Não constava que, no Marrocos, sucumbira ou fora feito refém. Apenas deixara de ser visto.
Os portugueses, que tanto esperaram por seu nascimento, julgavam até que ocorrera o mesmo que com Jesus, que deixara de ser visto por alguns dias. O soberano luso voltaria “a sentar-se no trono que lhe fora designado por Deus”. É o que conta Aydano Roriz, baiano de Juazeiro, que mora na ilha da Madeira e escreveu romance sobre o assunto (“O Desejado”, com que o estimado advogado Mauro Pereira Cândido me presenteou há algum tempo).
Os portugueses, contudo, não queriam acreditar que seu soberano morrera. Confiavam, com a graça de Deus, em tê-lo de volta, para eterna glória. Assim, segundo o autor de Juazeiro, a partir de 1584, começaram a aparecer supostos Dom Sebastião, avolumando a crença no milagroso retorno.
O primeiro aventureiro foi um noviço carmelita da Beira Baixa. O segundo, um açoriano que surgiu na praia da ericeira e anunciara entrar triunfalmente em Lisboa no dia de São João.
Mas vieram outros cidadãos de outros países. O terceiro, um pasteleiro espanhol de Madrigal, que tivera a ousadia de propor casamento a uma sobrinha de Felipe, da Espanha. O último Dom Sebastião foi um italiano da Calábria, que nem falar português sabia.
Chama a atenção o fato de que, por força do mito, todos os candidatos a Sebastião tinham conseguido seguidores e, até, conquistado prestígio e notoriedade. No entanto, se viram desmascarados e pagaram pelo atrevimento. O primeiro deles, o noviço carmelita, foi condenado a remar em galés até morrer. Os outros três tiveram fim mais rápido e trivial: foram simplesmente enforcados.
No Brasil, tivemos sebastianistas, o mais conhecido dos quais Antônio Conselheiro, que armou a sedição de Canudos, no século XIX, e urdia uma rebelião expressando seu sentimento de revolta contra “a república ateia”. Mas também teve um fim doloroso com seus fieis, o que pode ser conferido no livro clássico de Euclides da Cunha – “Os Sertões”.


84053
Por Manoel Hygino - 26/6/2019 08:37:47
A eleição em 2020

Manoel Hygino

O novo presidente do Tribunal Regional Eleitoral em Minas Gerais, empossado no dia 18, fez profissão de fé e exaltou a relevância da instituição. Lembrando a estrutura da Justiça Eleitoral, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima afirmou que: o modelo é bem sucedido desde sua criação em 1932. Usando a expressão futebolística, acrescentou: não se mexe em time que está ganhando.
Assim se comportará no exercício do cargo e das funções que lhe foram atribuídas. Deste modo também comporta para preparar as eleições de 2020, num dos momentos mais difíceis da história do país. Deste modo, dedicará especial atenção à cruciante problemática das “fake news”. O mundo virtual amplia a periculosidade da situação, e o exemplo mais evidente é o das acusações que se fazem ao ex-juiz Sérgio Moro, de contundente ação na operação “Lava Jato”, como registro eu.
Recordando “O veneno da madrugada”, do Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez, Garcia de Lima relata o caso dos panfletos anônimos, que circulavam de madrugada, atacando a reputação de autoridades, religiosos, casais e mais habitantes de uma cidade colombiana. Associando os fatos, conta que, como juiz eleitoral em cidades do interior mineiro, conheceu distribuição de panfletos semelhantes à véspera das eleições municipais. Porque difícil à época identificar seus autores, poder-se-ia classificar o ato de “crime perfeito”.
Para o pleito do ano que vem, sobre o qual ainda não se poderá seguramente antever acontecimentos, o presidente do TRE prometeu cumprir rigorosamente o que está definido em plano superior, para que o cidadão efetivamente participe do processo político-eleitoral.
Omitir não é boa recomendação para as pessoas de bem, sem o que se registraria o previsto por Platão: “o castigo daqueles que se recusam a ocupar-se das questões políticas é a queda das questões públicas nas mãos de gente menos virtuosa”, o que se verifica aqui e agora no Brasil, complemento eu o raciocínio.
O novo presidente do TRE adverte que a Constituição Federal de 1988, no artigo 37, caput, deve ser a bússola: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.
Assegurou que não admitirá desrespeito ao que está claramente definido: “aqueles eleitores, candidatos ou terceiros que desrespeitarem as regras deverão ser conduzidos às instituições de segurança”, não se admitindo “falta de respeito contra servidores honestos e dedicados”.
Enfatizando que os juízes eleitorais são os mesmos que atuam na justiça comum, garantiu que viabilizará o julgamento efetivo das ações penais que envolvem crimes comuns conexos com crimes eleitorais, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal, nos autos do inquérito nº 4435. Acentuou que seu compromisso é julgar em conformidade com a ordem jurídica e a verdade dos fatos. Concluiu: “Sou juiz integral. Tudo farei para jamais fracassar!” É o que o Brasil espera de todos os magistrados que trabalharão no pleito, tão importante para o tempo seguinte.


84051
Por Manoel Hygino - 25/6/2019 10:19:55
A despedida de Malheiros

Manoel Hygino

Um dia após o Corpus Christi, chegou a comunicação de que falecera Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza, querida personalidade dos meios intelectuais mineiros. Professor universitário de Teoria do Estado e de Direito Constitucional e membro da Academia Mineira de Letras, além de uma série de entidades. Faltaria lembrar, dentre outras, ter sido editor-adjunto da Del Rey, integrante da Academia de Letras Jurídicas e, ainda, do Grêmio Literário de Lisboa.

Residiu na capital portuguesa, onde a esposa fez curso de História e Arte na Fundação Gulbenkian. Lá, ele foi oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, condecoração especial da República Portuguesa e membro do Grêmio Literário de Lisboa, tradicional agremiação cultural fundada pela rainha Dona Maria II. Em 3 de novembro do ano passado, foi considerado cidadão português de origem – jus sanguinis, “sem deixar, é claro, de ser brasileiro em esperança”, como me disse.

Nascido em BH em 1937, honrava-se em ser também cidadão honorário de Dores do Indaiá, Boa Esperança, Pitangui e Ouro Preto, mas fazia questão de afirmar-se dorense. E confessou no seu livro “Dores de Indaiá, minha terra”, bela edição e que, se não me engano, foi seu último trabalho, publicado em vida. Justificava-se: “Minha terra? Por quê? Nasci em 1937, porém, pelo Direito Civil e pelo Direito Canônico, considero-me dorense, eis que fui concebido nessa singular terra do Oeste mineiro, numa bela noite do mês de maio de 1936. Aí fui registrado e inicialmente criado”.

Explicava seu amor pela cidade e pela gente de lá: “dorense é e sempre foi amante da natureza, da política e, sobretudo, da boa prosa. As serenatas das noites dorenses abalaram muitos corações femininos e, hoje, as músicas trepidantes de seus conjuntos abalam o corpo inteiro das moças moderninhas da cidade. Todos os dorenses são poetas: o folclore da cidade é repleto de quadrinhas cheias de beleza pura e ingênua”. “Em seguida, relaciona uma série das atrações locais que se tornam um chamariz para os turistas que querem conhecer a autenticidade de Minas.

Em tempos idos e vividos, jamais esquecidos, a viagem era pela Maria Fumaça. Depois de atravessar o rio São Francisco, ao cair da tarde, em meio à passagem bonita e agreste do cerrado, a locomotiva reunia todas as suas forças para levar os carros de passageiros e vagões de carga, para chegar, por volta das oito da noite, à querida cidade, onde os lençóis limpos e cheirosos esperavam. Muita e inesquecível saudade.

A esta altura, o confrade da Academia não deixa de evocar Guimarães Rosa, um desbravador que, a partir de Cordisburgo, descobre um pedaço do Brasil: “Minas – a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe. Sei, um pouco, sua fácies, a natureza física, vales escorregadios, os andantes belos rios, as linhas de cumeeiras, aeroplanície ou cimos profundamente altos, azuis que estão nos sonhos- a teoria dessa paisagem... Saberei que é muito Brasil, e ponto de dentro, Brasil conteúdo, a raiz do assunto. Soubesse-a mais”.

De uma pessoa que conhecera e tanto apreciara, escreveu Arnaldo Fiúza: “A notícia de sua morte deixa a mim, tenho certeza, triste com a sensação irreversível de um desfalque penoso em nossa legião terrena”. Podemos agora dizer do falecimento do belo-horizontino de Dores de Indaiá: Irá fazer muita falta para aqui também.

José Renato de Castro César, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, comentou: “Faleceu Ricardo Fiúza. Um gigante! Poeta, historiador, jurisconsulto. Um dos homens mais honrados que tivemos em Minas Gerais! Quem sou eu para declamar em sua honra? Apenas posso dizer da simplicidade com que me recebeu, e do carinho e do afeto que me dispensou quando eu sonhei ser eu... Como ele era... Tão sábio... Tão humilde, simples e intelectual. Calmo e sincero, escolhia palavras, media pensamentos e aconselhava...Hoje, já está no céu... Obrigado Deus por este homem tão bom. Que possamos seguir seus passos bem calma e lentamente!”


84047
Por Manoel Hygino - 24/6/2019 10:06:53
Rosa e o inverno

Manoel Hygino

Olhando para o céu como de costume, o jornalista de nossa cidade natal descobre segredos que temos receio de identificar. Mas quem sabe? Haveria prenúncio de chuva, talvez antecipada, a inquietação permanente dos que vivem no sertão mineiro. O redator de notícias e comentários medita: era para ter sol, mas o dia veio nublado. A temperatura máxima recua 2 graus e a mínima sobe 1 – é a previsão.

Realmente. O tempo está se comportando de maneira atípica neste outono. Os agricultores falam que não é bom sinal. Se era para começar a esfriar, e não esfriou, é mau presságio. Se o tempo fica nublado, em pleno junho, também não. Pode significar que as chuvas – pelas quais espera tanto o Sertão – podem se atrasar, ou até não terem a intensidade que todos esperam.

As perspectivas não são benévolas e levam a outras considerações a quem conhece o tempo. O fato é que maio não teve frio e trouxe nuvens no céu, o que não é muito comum, embora não seja exatamente incomum. Detalhe: além do dia nublado desde cedo, as nuvens rabos de galo, especiais mensageiras das chuvas, frequentaram os céus nos últimos dias. Dias de Júpiter no firmamento, risonho, translúcido, ostensivo – o supremo Deus dos Romanos. O povo da área técnica, como sempre, procura explicar tudo com duas palavras – El Niño, um personagem tão citado quanto pouco compreendido pelos nossos puros agricultores. Mas, existe Deus. Basta.

José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente e recursos hídricos, supervisor de estação climatológica e membro da Câmara Consultiva Regional do Alto São Francisco, dentre outros títulos, usa os dados de que dispõe para tirar conclusões. Todas as chuvas do quinto mês foram abaixo do previsto, esperado e necessário. E como será o inverno, a temporada de chuva na região norte-mineira, este ano? É bom preparar-se para o que vier, seja o que Deus quiser.

Os nascidos em Montes Claros, a maior e mais poderosa cidade da grande região, sabem dos problemas inúmeros dos longos períodos de seca, quando desciam do Nordeste levas e levas de pessoas, famílias inteiras que vinham de caminhão pelas estradas poeirentas, ou mesmo a pé em direção ao Sul. Fugindo da fome e das inclemências do sol que queima e arde.

Não poucas famílias se foram estabelecendo ao longo do caminho, em Minas, constituindo povoados que viraram cidades. E mais água exigiam. Em anos precedentes, a Copasa fez rodízio - maneira de racionalização ou racionamento no abastecimento a Montes Claros. Não apenas porque a população cresceu, mas porque a água que caiu das nuvens foi insuficiente para atender à demanda. E se insistiu contra o desperdício. O uso racional dos recursos hídricos englobou educação ambiental e a organização comunitária.

Assim é esta terra, esta gente, suas indecisões, suas certezas – do tempo, da política. Inspiro-me em Guimarães Rosa, no “Grande Sertão- Veredas”:
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza (...)

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”.


84044
Por Manoel Hygino - 22/6/2019 10:09:38
A nação quer saber

Manoel Hygino

Evidente que o Brasil tem de cobrar de outros países o débito que conosco têm. E não é pequeno. Na época em que nos julgávamos poderosos e sonhava nosso governo em manter hegemonia sobre as demais nações, foram altíssimos empréstimos que fizemos na América e África. O sonho acabou e, para mal dos pecados, estamos em situação hoje dificílima. É hora, pois, de solicitar a quitação. Não é favor algum, apenas e simplesmente o cumprimento de obrigação.

O ministro da economia, Paulo Guedes, fez um lembrete àqueles que nos devem. Há dias, em reunião restrita a deputados da Comissão de Agricultura da Câmara, ele se referiu ao problema, enfatizando que o Brasil ultrapassou R$1 trilhão, dos quais R$600 bilhões de calote já consolidado. Guedes foi objetivo: “Um cano de trilhão por conta de uma ideologia obsoleta”. Declarou, referindo-se ao socialismo falido, que levou a Venezuela à situação pré-guerra civil.

É oportuno e imprescindível repetir, nesta hora em que o BNDES se acha na berlinda. O banco mesmo revelou que, em abril, os governos da Venezuela, Cuba e Moçambique já acumulavam dívidas superiores a R$2 bilhões conosco. O dinheiro se destinava a financiar obras de infraestrutura de que nós carecemos e impeditivas à retomada do nosso crescimento. Não só os três países se beneficiaram da generosidade do governo brasileiro. Também Gana recebeu US$98 milhões e o Senegal US$95 milhões, através também do BNDES, embora o segundo país tenha sido perdoado na gestão Dilma Rousseff. Além disso, nos termos da modalidade Proex, estava destinado e deve ter sido liberado um crédito de R$215 milhões, isto é, em torno de US$98 milhões para compra de equipamentos agrícolas das indústrias brasileiras, a fim de beneficiar agricultores daquele país.

O presidente do BNDES, Joaquim Levy, foi exonerado fragorosamente do cargo pelo chefe da nação, há pouco, por não divulgar a situação do Brasil com as nações beneficiadas. Agora, que já tem sucessor, é hora de se contar o caso, tintim por tintim, porque o dinheiro emprestado pelo Banco não lhe pertence, mas à nação, ao povo. Aliás, o advogado Aristóteles Atheniense, há muitos meses, advertia que “não se tem notícia de qualquer providência do Congresso que pudesse evitar tamanhos favorecimentos em empréstimos reconhecidamente impagáveis”.

A época é outra, outros são os dirigentes, chegou a hora de se cobrar dos devedores. Em verdade, o Brasil não sabe quanto concedeu em empréstimos às nações “amigas”. Cabe apurar e tentar receber, porque o dinheiro saiu das economias do país, dos altíssimos tributos pagos pelos brasileiros, que vivem presentemente uma das mais penosas fases de sua história.

Mesmo assim, não faltam piadas sobre a ilha dos Castros. Conta-se que, em Cuba, um menino retorna da escola faminto e pergunta: “Mamãe, o que vamos comer?” Ela responde: “Nada, filhinho”. A criança viu o papagaio da casa e questiona: “Nem papagaio com arroz, nem papagaio assado?” Seria só passar na churrasqueira elétrica, mas não havia eletricidade. Enfim, que tal papagaio frito? Mas tampouco havia óleo. O pássaro falante interferiu: “Viva Fidel! Viva Fidel!”.


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Por Manoel Hygino - 21/6/2019 08:37:01
O Partido único

Manoel Hygino

Alaor Barbosa, prestigiado escritor nascido em Morrinhos, GO, publicou há seis anos “Pensar e Viver”, estudos e opiniões sobre temas políticos e jurídicos. Altamente conceituado, mereceu elogios francos do crítico Wilson Martins, que afirmou tratar-se de “romancista da província de Goiás, onde nada do que é humano lhe será estranho”, acrescentando que ele é daqueles autores que ainda não receberam a atenção que merecem”.

Admirador de Guimarães Rosa, com ele manteve sucessivos encontros, escrevendo uma biografia do autor de “Grande Sertão- Veredas”, que lhe deu dores de cabeça, em face da oposição de Wilma, filha do romancista cordisburguense, que tentou impedi-lo na Justiça. A Academia Mineira de Letras o trouxe a Belo Horizonte, para – no Auditório Vivaldi Moreira – pronunciar excelente conferência, sobre Rosa e sua produção.

Em “Pensar e Viver”, Alaor focaliza com ênfase o partido único, dentro da prática que prevaleceu na Itália e Alemanha e que, parece até certo ponto, “uma consequência natural da adaptação fascista do pensamento soreliano”, na opinião de Afonso Arinos. Este recorda que, na Alemanha, foi o Partido Trabalhista Alemão, fundado em janeiro de 1919, com um programa militar fascista, que se transformou no Partido Nacional – Socialista, o partido nazista, o partido de Adolfo Hitler”.

Para Afonso Arinos, o partido único da revolução moderna, o comunista, foi concebido por influência do pensador Sorel. Com ele não concordando, contudo, Alaor Barbosa, chega a afirmar: “Por mais que haja sido o pensamento revolucionário da Europa, precisamente no período em que se desenvolviam os partidos revolucionários na Rússia e na Europa, a verdade é que a ideia de um partido único, vanguarda do proletariado e fator de transformação socialista da sociedade rumo ao comunismo, é inerente ao pensamento marxista”.

O escritor goiano não se sente suficientemente convencido. “Ficariam as perguntas: Como construir o socialismo? Como liquidar e exterminar a burguesia? Senão pela mão fortíssima e inexorável de um partido único e unido da forma mais monolítica possível, sem divisões e dissidências enfraquecedoras do partido e do poder e desviadores da direção para a grande meta final e o oceano largo do comunismo?”.

A questão estava posta e esquentou a cabeça de Karl Marx. Ao longo de sua tormentosa existência, empenhou-se, com todas suas forças, para formar e desenvolver um partido proletário, o partido da Revolução Comunista. Aliás, Barbosa observa que, antes até do “Manifesto Comunista”, em 1848, Marx se preocupava com a ideia de criar tal agremiação.

“Lutar afincadamente por constituí-lo foi uma das demonstrações dadas por Marx de que teoria e prática devem-se complementar reciprocamente, uma a outra. É o que ele denominou práxis. Fiel a esta ideia, Marx toda a vida foi um teórico militante e um militante teórico incansável. Suas ideias, teses e teorias foram engendradas em meio a lutas práticas, sob a motivação e necessidade de encontrar justificações e métodos para a sua ação prática. Em Marx, a teoria é filha da prática, e a prática uma aplicação da teoria”.

Assim sendo, pensando e agindo, concluiu que havia necessidade de um partido do proletariado. Um partido. Assim, procedeu bem antes de 1848, pregando e defendendo sua ideia, tornando-se o dirigente mais importante, como na fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores e quando fundou o Partido Socialista Operário Alemão. Uma agremiação que tivesse condições para opor-se a todas as formações partidárias das classes possuintes. Para Barbosa, o que Lenine fez foi retornar e continuar as ideias de Marx e Engels, o “centralismo democrático”, no qual as decisões tomadas pelo partido não podem mais ser questionadas.



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Por Manoel Hygino - 18/6/2019 11:12:02
A dependência química

Manoel Hygino

A incessante publicação, em manchetes enormes, de reportagens sobre estudos que se fizeram sobre o uso da maconha, deve excitar e estimular o seu consumo por estes Brasis afora. Se o assunto não fosse tão importante, não levaria cientistas a tão aprofundadas pesquisas por todo o mundo. Mas, por outro lado, devem mais estimular os jovens a prová-la. O que o experimentador deste hemisfério ignora é que os testes científicos se interessavam por propriedades psicoativas e medicinais. Há de se ficar atento porque o que ajuda também pode prejudicar.

O que se diz da maconha poderia ser dito de outras drogas. No caso do cigarro, por exemplo, estudo do Instituto Nacional de Câncer do Ministério da Saúde revelou que é preciso, isto sim, divulgar o problema com ênfase indispensável. Primeiramente, para que se saiba que a lei que instituiu ambientes 100% livres de fumaça do tabaco resultou, entre nós, na redução da mortalidade infantil, evitando 15 mil óbitos pela diminuição da exposição das crianças à substância. Lamentavelmente, porém, a fumaça nas residências persiste. Se o vício não continuasse em casa, outras milhares poderiam ter sido salvas. O Brasil se situa em 34º lugar entre 149 países pesquisados. Em resumo, estamos permitindo que nossos filhos sejam mortos.

Mas não apenas o tabaco. Quem assiste às reportagens por televisão fica terrivelmente impressionado com as dolorosas cenas de ruas nas cracolândias existentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. O pior é que o vício pode ser um mal sem remédio. No caso paulistano, sabe-se que 56% dos viciados internados desistiram do tratamento.

Na maior cidade do Brasil, no nosso mais rico Estado, dos cerca de 10 mil dependentes químicos que passaram por internação psiquiátrica custeada pela prefeitura, nos dois últimos anos, mais da metade abandonou o tratamento.

Segundo a Folha de São Paulo, em 11 de junho, 54% das internações são de dependentes químicos que retornaram aos hospitais psiquiátricos pouco tempo depois de voltar às ruas. Há poucas informações, porém, sobre o grupo restante, isto é, dos dependentes que, de fato, aderiram ao tratamento, ficando internados até alta médica e, depois, fizeram o acompanhamento ambulatorial com médicos e uso de remédios. São 3% do total das internações e nulas as informações sobre efetividade do programa, como o número de pessoas que conseguiram afastar-se efetivamente do vício ou retomaram à rotina.

Realmente, as normas mudaram para internações involuntárias. Concedeu-se prerrogativa a agentes públicos, e não mais apenas a familiares, o poder de encaminhar um dependente para hospital psiquiátrico, mesmo contra sua vontade. Não queremos seguir por aqui o que acontece no Canadá, que espera iniciar em dezembro a venda de alimentos com maconha, para evitar a venda ilegal desses produtos. Ficam proibidos aqueles que contenham a cannabis em doces e sorvetes, para não atrair as crianças.


84029
Por Manoel Hygino - 15/6/2019 09:14:06
Minas não se curva

Manoel Hygino

Humilhantes é o que se poderia dizer das condições estabelecidas pela União para Minas aderir ao regime de recuperação fiscal pretendida. Embora se diga que se trata apenas de recomendações de técnicos do Tesouro Federal, não se poderá deixar de convir que elas são deprimentes para uma das maiores unidades da Federação, que tem oferecido contribuição valiosíssima ao longo da história.

Embora o governo de Minas esteja alinhado às propostas a serem apresentadas, e após analisadas pelo Legislativo, é incontestável que nossa situação financeira é de penúria, como se pode aferir e conferir com o regime que aqui se vive. Com compromissos assumidos além de sua arrecadação, não resta dúvida de que remédios amargos terão de ser administrados ao paciente, como registram os próprios técnicos.

Segundo o Diagnóstico do Tesouro, Minas Gerais acumulou R$ 36,2 bilhões de déficit de 2014 a 2018. Somente a folha de pessoal aumentou R$ 13 bilhões em quatro anos. Mencionado relatório, aliás, acrescentou: “são preocupantes os fortes reajustes das remunerações das carreiras da segurança e educação; o pagamento do piso do magistério para professores com carga horária inferior a 40 horas; e as regras benéficas da previdência dos militares”, ainda não inteiramente satisfeitos com as remunerações.

Ter-se-á, contudo, de decidir e agir com o devido cuidado diante dos altos custos dos medicamentos previstos para o enfermo. No que concerne, por exemplo, à privatização da Cemig, cabe considerar aspectos históricos, como as de fundação da empresa. No governo do ínclito mineiro Milton Campos, o Plano de Recuperação Econômica e Fomento da Produção, embasado em minuciosos estudos do secretário Américo René Giannetti, da Agricultura, Indústria e Comércio, já considerava uma empresa energética indispensável para assegurar a Minas desenvolvimento nos anos seguintes, diante do estrangulamento da geração e transmissão. Com base nessa constatação, Juscelino estabeleceu o binômio – Energia e Transporte - para sua gestão, prevendo a criação da estatal que relevantes serviços prestou ao Estado. E presta.

A garantia de eletricidade capaz de promover o desenvolvimento de Minas Gerais, maior em dimensões geográficas e potencialidade do que numerosos países, resultou de inequívoca demonstração de obstinação. Foi uma causa defendida ardorosamente pelos governos que passaram pelo Palácio da Liberdade, e confirmadas por todas as mensagens do Executivo, de Afonso Pena a Magalhães Pinto.

Minas Gerais não seria presentemente o que é sem a energia da Cemig, exemplo para muitas grandes empresas, inclusive Furnas, Itaipu e Eletrobras. É insofismável que ninguém é arauto do retrocesso e estagnação. Há bens e causas, como as três estatais, que não podem ser simplesmente privatizadas por dívidas contraídas pelo próprio poder público. Condições de segurança desaconselham.

Para grandes territórios, grandes problemas, grandes desafios, que precisam ser encarados com superior grandeza. A hora é extremamente difícil e a terapêutica muito exigirá dos mineiros, que jamais se dobrarão às circunstâncias adversas.

Agora, como em tantas épocas, exige-se prudência nas decisões. Não é a primeira vez que o drama acontece em Minas. Em 1780, examinando a questão mineira, o desembargador José João Teixeira Coelho se expressou na famosa instrução para o governo da Capitania das Minas Gerais. Advertiu sobre a sua lastimosa situação econômica e social, que podia resumir-se em: desorganização econômica, ruína, indolência e pobreza. Não chegamos a esse ponto, mas a situação tem de ser enfrentada com toda a força de Minas posta à prova. Não poderá apenas simples e servilmente dobrar-se às circunstâncias adversas. Estes não são o feitio e a postura do Estado e de sua brava gente.


84028
Por Manoel Hygino - 14/6/2019 09:48:10
A segurança nacional
Manoel Hygino
O período eleitoral no interior de todo o Brasil é tempo de festa, com foguetório nos dias de comício, quando há fartos comes e bebes, a que não faltam também, às vezes, desavenças causadas repetidamente pelo excessivo apelo à aguardente. De todo esse espetáculo cívico (?), restam sempre lembranças alegres e amargas, que conseguem vencer os limites do tempo. Assim tem sido, assim será, a despeito da inserção da televisão nos costumes nas pequenas cidades, vilas e favelas.
A turbulência no pleito do próximo ano pode extrapolar. Nunca antes, jamais, em tempo algum, chegou-se a tamanha e tão delicada situação, suscitada por acusações e suspeições de toda procedência. As redes sociais ganharam espaço antes não vislumbrado e se registrou uma invasão imprevista de notícias falsas, que – entre nós – ficam mais chiques na tradução inglesa – fake news.
Há alguns anos, o quase conterrâneo José Luiz Rodrigues, professor de Matemática e Química na Escola Normal de Montes Claros e no Colégio São João, de Januária, fez proezas; fundou o primeiro cursinho e mais dois centros culturais na região e participou do encontro da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco. Após escrever o primeiro livro, logo se popularizou.
José Luiz decidiu reunir em um só volume três trabalhos já editados, acrescendo poesias não conhecidas. Uma das crônicas se refere ao período que viveremos: o eleitoral, em que os candidatos fazem a pregação em favor de seus candidatos, seus projetos e plataformas.
O escritor conta que, eleito vereador por Mocambo, Zé Funil, seu personagem, assumiu a tribuna, e num vozeirão de barítono, apresentou o projeto principal:
- Povo de minha terra, aqui estou para assegurar um direito que é de todos nós. Solicito e defendo uma quota de pelo menos dez por cento de analfabetos em nossa terra. É questão de segurança mundial.
Vaiado de pé, Zé Funil foi questionado pela oposição num aparte cheio de ironia: “Vossa Excelência perdeu o juízo? Explique-se!”
O orador pediu silêncio e, quando o público se acalmou, toda Mocambo ali representada ouviu um discurso recheado de lógica incontestável. É o seguinte, senhores, meus pares: O governo quer acabar com o analfabetismo. Isto é um perigo. E se tudo que ensinam nas escolas estiver errado? Escutem minhas razões: A medicina é estudada desde antes de Cristo. Mas não se consegue curar uma simples gripe. Existe um tal de micróbio que ninguém vê. Só os doutores. É exame disso e daquilo só pra comer o dinheiro da gente. As leis mudam tanto que a gente passa a desconfiar. Aquela lei de ontem tava errada? E a de amanhã vai consertar a lei de hoje?
Fez uma pausa, para descansar as cordas vocais, e voltou ao tema: E assim vai, assim vai indo, sem fim. A Matemática ensina que a estrada mais curta é uma reta. E sabemos que Deus escreve certo é por linhas tortas. E assim, senhores, se essas ciências todas estiverem erradas, é bom que a gente tenha uma reserva de analfabetos. Deste modo quando aparecer a verdade, todo mundo já estará contaminado. Por isso, proponho uma quota de dez por cento de analfabetos. Por medida de segurança.


84026
Por Manoel Hygino - 13/6/2019 09:15:37
Uma enrascada para Moro

Manoel Hygino

Interesses múltiplos interferem pesadamente no andamento de projetos em tramitação no Congresso Nacional e, consequentemente, repercutirão na vida do país: se não bastassem as idas e vindas de providências anunciadas ou decretadas pelo Executivo na gestão iniciada em janeiro. E o sétimo mês logo terá início, pondo em dúvida o ilustre eleitorado: É para valer? Ou não?

Em 22 de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça e Segurança Pública para o Ministério da Economia. A gestão passa de uma para outra importante área do governo. Ou seja, de Sérgio Moro para Paulo Guedes, nomes de grande evidência no cenário da administração, por motivos sabidos.

A transferência aprovada pela Câmara dos deputados mereceu mais de uma interpretação: derrota para o governo Bolsonaro, representando dupla vicissitude: para Moro, que nutria esperança de mencionado Conselho permanecer em sua pasta e, para o colégio eleitoral do país, que confiava mantê-la no ministro/ex-juiz, uma espécie de guardião contra falcatruas e corrupção.

Verdade que a ida do Coaf ainda teria de passar pelo crivo do Senado Federal, mas as mesmas razões que totalizaram 228 votos da Câmara prevaleceram entre os senadores. Isso equivaleu a uma segunda derrota do Executivo e nova decepção e desesperança para aqueles que adivinham o que estaria por detrás dos números.

Até agora, porém, a maioria do povo não percebeu o sentido da manobra de alguns de nossos representantes no Congresso. Caso soubesse, talvez programasse passeatas contra a corrupção e a armação urdida para mudança do Coaf.

O momento é muito mais crítico do que parece, deles se ressentindo os brasileiros de modo geral, mais perdidos do que cegos em tiroteio. Como escapar, eis a questão. Chama a atenção a posição a que foi lançado Sérgio Moro, juiz-símbolo da Lava-Jato, num “sistema centenário lubrificado a dinheiro público e relações de compadrio”, na expressão correta de Antônio Machado.

Moro se transformou? A articulista Cora Rónai, no último dia 15, em O Globo, registrou: “Dizem que o brasileiro precisa ser estudado. Quando isso acontecer, sugiro começar por Sérgio Moro, que encarnou todas as promessas de um novo tempo, mas preferiu trocar a sua independência e o seu bom nome por um carguinho em Brasília. Seria uma história como tantas outras se não tivesse elementos políticos explosivos, não se misturasse com o destino do país e não comprovasse, mais uma vez, que não existem salvadores da Pátria.

No final do ano passado, quando aceitou o Ministério da Justiça, Moro era maior do que Bolsonaro. Moro era um herói, Bolsonaro era apenas o candidato eleito na falta de um nome pior. Para parte da população que estava apreensiva com o novo governo, Moro era o avalista moral da nova administração, a garantia de continuidade da Lava Jato e de respeito à Constituição.

Agora, nem seis meses passados, ele encolheu como uma camisa que nunca deveria ter sido lavada na máquina. “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos muito bem”, dizia o Millôr.

Conhecíamos o juiz Moro, o que bastava: o seu trabalho, a sua coragem, as suas sentenças, as suas camisas pretas cafonas, a inicial aversão a entrevistas. Raramente, tivemos, no Brasil, um juiz que, como ele, peitasse os grandes e os mandasse para a cadeia”.

Não sem razão, o jornalista Leandro Manzzini afirmou após a polêmica conversa telefônica entre Moro e Dallagnol, que tanta celeuma tem causado à nação: “A fragilidade de Sérgio Moro é tudo o que a criminalidade queria. Lula da Silva, com todas as provas contra ele, sai de inocente; os bandidos do Congresso travam o pacote anticrime do ministro; os bandidos da Lava Jato ganham fôlego e argumentos para deixar o então juiz sob suspeição; e o caso ameaça tirar Sérgio Moro do STF – onde uma turma de togados adora censurar e perseguir jornalistas”.



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Por Manoel Hygino - 12/6/2019 08:28:52
Jesus: Um julgamento político

Manoel Hygino

“Jesus” é o título do livro de Rodrigo Alvarez, tido pela editora Leya como o autor laico que mais vende livros de temática religiosa no Brasil. Levado a Pilatos, estava um homem machucado, extremamente cansado, que provavelmente passara a noite sem dormir, rezando e refletindo sobre as consequências do julgamento, tão apressado quanto injusto e agora tendo que responder à ironia do prefeito: “É você o rei dos judeus ?”.

Pedro Rogério Moreira, meu confrade na AML (filho de Vivaldi, presidente perpétuo da Academia, sobrinho, pois, do poeta Édson Moreira, cujo centenário ora celebramos), intervém em seu “O livro de curiosidades da Bíblia,” afirmando ter sido um julgamento político, o de Jesus Cristo. Explica: “O Sinédrio, misto de tribunal religioso e civil, composto da nobreza da nação judaica, condenou Jesus à morte. Mas não tinha a autoridade de matar. Por este motivo, o Sinédrio encaminhou o condenado ao representante de Roma em Jerusalém, Pôncio Pilatos.

Deu-se, então, a segunda fase do processo, diante do tribunal civil romano, o Pretório. Pilatos não se convenceu da culpa de Jesus e o enviou à presença de Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia, a mais alta autoridade civil judaica. Nem mesmo Antipas, que mandara matar João Batista, viu culpa em Jesus. E o enviou de volta a Pilatos. Mesmo sem convicção jurídica e moral, o representante de Roma acabou fraquejando por medo político, e referendou a sentença imoral, reclamada aos berros pelo populacho arregimentado pelo Sinédrio (João18, 13-27 e 19.1-13 e ‘Vida de Cristo’, de Ricciotti)”.

O rabino Rami M. Shapiro, presidente do Centro Metivta de Judaísmo Contemporâneo, em Los Angeles, provido de uma série de títulos de relevo, não foge a indagações: “Crê que Jesus foi crucificado pelos romanos? “Sim. Jesus atraía grandes multidões, e estas deixavam os romanos nervosos. Eles eram o exército de ocupação e muito odiados pelos judeus. Sempre havia a possibilidade de uma multidão se rebelar.

Crê que as autoridades judaicas fizeram um acordo com Pilatos para acabar com a ameaça de violência que a atração de multidões por Jesus representava? “Sim. A fim de manter a integridade do Templo, os sacerdotes tiveram de fazer um acordo com Roma. Acho que a motivação da liderança judaica era política e não teológica, ao contrário do que alegam os Evangelhos. A Palestina do Século I estava repleta de candidatos a Messias, e Jesus teria sido visto como apenas um outro numa longa linhagem de representantes ao trono de Davi.

O que lhes causava preocupação era a ameaça que Jesus representava para a sobrevivência nacional. Crê que o povo judeu rejeitou Jesus e trocou sua vida pela de Barrabás? “De modo nenhum. Em primeiro lugar, a lei e os costumes romanos não permitiam a libertação de um criminoso.... A história foi deliberadamente invertida a fim de passar a culpa pela morte de Jesus dos romanos para os judeus, e com isso facilitar a propagação do cristianismo entre os romanos”.



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Por Manoel Hygino - 11/6/2019 11:53:00
São João no TRE

Manoel Hygino

Nascido em São João del-Rei, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima assume a presidência do Tribunal Regional Eleitoral em Minas no próximo dia 18 e pretende desenvolver um programa intensivo para cumprir os deveres antigos e os mais recentes: que os processos de crimes comuns, conexos com crimes eleitorais, sejam julgados pela Justiça Eleitoral. Ou seja: o trabalho já está em pleno desenvolvimento. “Nós já estamos recebendo alguns processos, aqui em Minas, os outros Estados também, e precisamos dar efetividade à decisão do Supremo Tribunal Federal”.
A disposição para o trabalho vem de longe, mas não lhe tolhe o humor. Começou a carreira na comarca de Bonfim, mas foi um bom começo, passando pelas de Montes Claros e Visconde do Rio Branco, logo promovido por merecimento a Belo Horizonte. Depois, ei-lo desembargador do TJ de Minas e, sem sofrer solução de continuidade, ascende a outros relevantes cargos e altos misteres, até empossar-se como vice-presidente do TRE de Minas e Corregedor Regional Eleitoral.
Tudo isso, diga-se, sem deixar de exercer o magistério em duas prestigiosas faculdades de Direito, como professor universitário, ou em cursos de graduação e pós. Sem falar, ainda, na elaboração de livros jurídicos e monografias ou participação em numerosos cursos, congressos e seminários de avaliação de teses de doutorado e dissertação de mestrado.
Não pestaneja sobre as fake news: “Evidentemente, a conclusão inevitável é a de que as fake news são um mal que acompanham a proliferação das redes sociais. Não há como eliminá-las totalmente; o importante é aprendermos a conviver com elas e diminuir o seu impacto”.
“A gente fica muito esperançoso, porque a recente experiência foi traumática, mas nos ensinou muito. E, nesse ponto, devo destacar o papel muito importante da imprensa e de entidades da sociedade civil, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na contrainformação, que é a verdade. E que os próprios partidos políticos e candidatos entre si promovam esse debate no mais alto nível”.
Ao regressar de viagem pela América do Sul, declarou: “proferi hoje minha palestra em Cali, Colômbia. Falei de improviso e resumi o texto que preparei e será publicado pela Universidad Libre. O público entendeu o meu surrado portunhol; e ainda me pediu para falar meia hora além do tempo regulamentar sobre o Poder Judiciário. Desmistifiquei certas pregações contra determinadas decisões da justiça brasileira. Aplaudiram-me. Que bom ter conseguido esclarecer! Ao final recebi efusivo cumprimento do amigo e coordenador professor Jaime Angel. Grato aos colombianos”.
Na Argentina, foi também autêntico: “Amigos. Entrei naquela do verso de Manuel Bandeira: O único jeito é tocar um tango argentino. Fui à tradicional casa de show de tango” El viejo almacén”. Onde los Hermanos argentinos vão. Tango clássico. Tomei um honesto vinho Mendoza. Como praxe, chorei quando ouvi” Por una cabeza”, de Carlos Gardel; e” Adios Nonino”, de Astor Piazzola. Haja vinho para consolar as emoções... ou como se diz em Minas: eta ferro!”


84011
Por Manoel Hygino - 5/6/2019 18:11:26
Os caminhos do pescador

Manoel Hygino

Junho, sexto mês do ano, é o das festas que movimentam todo o interior brasileiro, herança lusitana. Joaquim Cabral Neto, mineiro, advogado, com uma série de títulos na carreira, incluindo a presidência da Associação Mineira do Ministério Público e da Confederação Nacional, professor de Direito Penal da PUCMG por mais de 25 anos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, decidiu prestar reverência a Pedro, apóstolo de Cristo, e o fez, este ano, publicando “Pelos caminhos do pescador”. E o fez em um livro de quase quatrocentas páginas.
O autor confessa que sempre imaginou Pedro como “o mais humano dos Apóstolos, em quem encerravam todas as virtudes e fraquezas do homem: vaidade, animação, medo, desprendimento, fé, amor, alegria, fingimento, arrogância, coragem, bazófia, confiança e covardia. Pobre, estouvado, trabalhador, honesto, bom pai de família e temente a Deus, era a imagem do homem comum. Talvez seja por isso que eu tenha encantado com ele! Sem nenhuma característica especial que o destacasse dos demais tornou-se um líder. Isso é que o diferenciava de Paulo – um renovador extremista – e de Thiago, o justo – um conservador empedernido”.
Descrever um homem assim não foi missão fácil para o magistrado, mas conseguiu fazê-lo com todo mérito, embora o seu livro não se tenha restringido ao apóstolo de mais de dois mil anos atrás. Joaquim Cabral reconstrói, em pormenores, os anos vividos por Pedro, um judeu simples que se meteu numa enrascada ao lado de Jesus para chegar também ao martírio em nome de uma causa.
Mas o autor não se cinge ao lado humano de Pedro e de seus companheiros de aventura, acompanhando Jesus. Aprende-se muito, porque Cabral nos leva a conhecer as estradas percorridas para difundir a Boa Nova, a crença num Deus eterno e supremo, cuja imagem não pode ser reproduzida e que não há de perecer. Um pormenor: A mensagem, atraente: Todos iguais! Ricos, pobres, escravos, romanos, gregos ou judeus, letrados, incultos, agricultores e comerciantes. Todos recebidos pelos Nazarenos, que os tratavam com igualdade, porque o seu Deus tinha a todos como filhos.
Mas, como foi o desempenho dos Apóstolos dos primeiros tempos, se o líder fora sacrificado no Gólgota? Onde se reuniam, como se comportavam, quem os acudia, onde se localizava o seu trabalho? O autor procura oferecer respostas a todos os quesitos, e o faz em amplitude e profundidade.
Admira a constatação de que uma religião, que surgiu numa remota província romana, ao cabo de relativamente poucos anos, expandia-se tão rapidamente, examinando-se os fatores que colaboraram para a transformação. A partir de um pequeno grupo judeu, o movimento adquiriu maiores proporções dentro do Império, primeiramente nas províncias orientais de língua grega e, em seguida, nas províncias romanas ocidentais ao longo da Europa mediterrânea. O cristianismo era, então, um fenômeno urbano, desenvolvendo-se especialmente nas cidades costeiras do Mediterrâneo.
Cabral alerta que a língua grega, na qual os textos cristãos foram originalmente escritos ou traduzidos – era, na verdade o Coiné, um dialeto falado pelo povo nas regiões helenizadas do Oriente. Deste modo, se Paulo não houvesse escrito suas Epístolas em grego e os textos da Boa Nova não tivessem sido traduzidos para aquela língua, poucos teriam sido convertidos entre os não-judeus de língua grega, e o cristianismo dificilmente se teria tornado um religião mundial no decurso de três séculos.
A difusão da mensagem cristã, por muitos anos, se fez através do grego, e não só aramaico ou do hebraico. Os judeus, já no século IV a.C., estudavam o antigo Testamento na chamada tradução dos setenta (Septuaginta) elaborada em Alexandria por sábios da diáspora. É o que o livro de Cabral conta, em linguagem acessível, e ensinando muito, o que justifica sua leitura.


84007
Por Manoel Hygino - 4/6/2019 17:50:53
São Miguel em ação

Manoel Hygino

Não é do meu feitio usar o cotidiano espaço para referir-me a assuntos que, de algum modo, me dizem respeito. No entanto, não posso omitir-me. No dia dos 120 anos de fundação da Santa Casa de Belo Horizonte, fomos honrosamente homenageados: o conceituado médico Odilon Lobato, a família de José Maria Alkmim e eu, com a medalha Aloysio Faria (belíssima por sinal), em ato presidido pelo provedor da instituição, Saulo Levindo Coelho.
Na capela, repleta, contemplava-se a imagem de São Miguel, supostamente de tamanho natural, parecendo que dele se esperava uma ajudazinha extra à padroeira Nossa Senhora do Carmo no amparo à entidade centenária e aos que dela dependem nas carências e nos infortúnios. Ficou a dúvida: por que?
Em verdade, precisaria retroagir no tempo. A instituição (fundada em 1899) na hoje Praça Hugo Werneck (antes,15 de Novembro) fez funcionar o primeiro hospital da capital mineira, e integra uma legião de misericórdias existentes no Brasil. Inicialmente, aqui a protetora era só Nossa Senhora do Carmo, como proposto por um dos pioneiros – o cel. Emydio Germano.
Ocorre que, antes das Santas Casas, outras associações beneméritas já marcavam presença na assistência aos mineiros, tornando-se credoras da gratidão e veneração dos que recebiam seu amparo. Basta conferir o que o historiador Caio C. Boschi, nosso confrade na Academia Mineira de Letras, registrou em Saparata da Revista de Ciências Históricas XI, Universidade Portucalense, em 1996: “A destacar, também, o fato de que, em Minas Gerais, as Santas Casas surgiram muito tardiamente. Por isso, na sua ausência, ou mesmo como fator inibidor ou neutralizador ao seu advento, é que determinadas irmandades, como as da invocação do Santíssimo Sacramento, de São Miguel e Almas e das Almas, especialmente estas últimas”, passaram a formular determinadas reivindicações ou, de algum modo, impô-las.
Em resumo, como chegaram primeiro, ficaram as funções assistenciais a cargo dos Senadores das Câmaras e das associações legais. No interior das gerais, os habitantes da região encontraram ajuda espiritual e material. Com isso, ainda que pareça paradoxo, indiretamente essas agremiações atendiam aos interesses do Estado, na medida em que lhes transferia o encargo de certas obrigações essenciais ao convívio social, particularmente aquelas relativas ao assistencialismo, onde não existissem as misericórdias.
Entre os privilégios de certas associações, estava assegurar o enterro de seus associados ou fiéis. A atitude diante da morte era uma das preocupações dominantes. “Participar de uma ou mais irmandades tornava-se condição de vida e morte para o habitante das Minas”, sendo importante e necessário ser “irmão” de uma irmandade. Vê-se que aqueles sodalícios tinham prestígio e poder, até religioso ou quase. Com razão José da Paz Lopes observou que “era importante e necessário ser irmão”.
A festa litúrgica de São Miguel é em 29 de setembro e, no Apocalipse, lidera os exércitos de Deus contra as forças de Satã e seus aliados. Em Epístola, Miguel é citado especificamente como arcanjo. Convém lembrar que ele é venerado tanto pelo cristianismo como pelo judaísmo e padroeiro da Igreja Católica Apostólica Romana.
Apurei, no Google, que os santuários cristãos em honra a Miguel começaram a aparecer no século IV, quando era considerado um anjo de cura e, com o tempo, protetor e líder do exército de Deus contra as forças do mal. No século VI, a devoção a São Miguel já se havia disseminado tanto no Oriente como no Ocidente. Assim, São Miguel não concorre com a Senhora do Carmo: até acrescenta.


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Por Manoel Hygino - 4/6/2019 17:49:55
Moro na berlinda

Manoel Hygino

Interesses múltiplos interferem pesadamente no andamento de projetos em tramitação no Congresso Nacional e, consequentemente, repercutirão na vida do país: se não bastassem as idas e vindas de providências anunciadas ou decretadas pelo Executivo na gestão iniciada em janeiro. E o sexto mês logo terá início, pondo em dúvida o ilustre eleitorado: É para valer? Ou não?
No dia 22 de maio, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a transferência do COAF do Ministério da Justiça e Segurança Pública para o Ministério da Economia. A gestão passa de uma para outra importante área do governo. Ou seja, de Sérgio Moro para Paulo Guedes, nomes de grande evidência no cenário da administração, por motivos sabidos.
De um modo geral, a transferência aprovada pela Câmara dos deputados mereceu mais de uma interpretação: derrota para o governo Bolsonaro, representando dupla vicissitude: para Moro, que nutria esperança de mencionado Conselho permanecer em sua pasta e, para o colégio eleitoral do país, que confiava mantê-la no ministro/ex-juiz, uma espécie de guardião contra falcatruas e corrupção.
Verdade que a ida do Conselho de Controle de Atividades Financeiras ainda teria de passar pelo crivo do Senado Federal, mas as mesmas razões que totalizaram 228 votos da Câmara prevaleceram entre os senadores. Isso equivaleu a uma segunda derrota do Executivo e nova decepção e desesperança para aqueles que adivinham o que estaria por detrás dos números.
Até agora, porém, a maioria do povo não percebeu o sentido da manobra de alguns de nossos representantes no Congresso. Caso soubesse, talvez programasse passeatas contra a corrupção e a armação urdida para mudança do COAF.
O momento é muito mais crítico do que parece, deles se ressentindo os brasileiros de modo geral, mais perdidos do que cegos em tiroteio. Como escapar, eis a questão. Chama a atenção a posição a que foi lançado Sérgio Moro, juiz-símbolo da Lava-Jato, num “sistema centenário lubrificado a dinheiro público e relações de compadrio”, na expressão correta de Antônio Machado.
Moro se transformou? A articulista Cora Rónai, no último dia 15, em O Globo, registrou: “Dizem que o brasileiro precisa ser estudado. Quando isso acontecer, sugiro começar por Sérgio Moro, que encarnou todas as promessas de um novo tempo mas preferiu trocar a sua independência e o seu bom nome por um carguinho em Brasília. Seria uma história como tantas outras se não tivesse elementos políticos explosivos, não se misturasse com o destino do país e não comprovasse, mais uma vez, que não existem salvadores da Pátria.
No final do ano passado, quando aceitou o Ministério da Justiça, Moro era maior do que Bolsonaro. Moro era um herói, Bolsonaro era apenas o candidato eleito na falta de um nome pior. Para parte da população que estava apreensiva com o novo governo, Moro era o avalista moral da nova administração, a garantia de continuidade da Lava Jato e de respeito à Constituição.
Agora, nem seis meses passados, ele encolheu como uma camisa que nunca deveria ter sido lavada na máquina.
“Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos muito bem”, dizia o Millôr.
Conhecíamos o Juiz Moro o que bastava: o seu trabalho, a sua coragem, as suas sentenças, as suas camisas pretas cafonas, a inicial aversão a entrevistas. Raramente tivemos, no Brasil, um juiz que, como ele, peitasse os grandes e os mandasse para a cadeia.
O Juiz Moro virou símbolo do que queríamos para o país: um homem ainda jovem, discreto, que não devia satisfações a ninguém, dedicado ao trabalho e a construir um Brasil melhor.” Concluiu Cora: “Errei na mosca”.



84002
Por Manoel Hygino - 1/6/2019 10:25:35
Os punhais nas togas

Manoel Hygino

O apreço pelo latim começava nos cursos médios. Os austeros professores de língua portuguesa, muitos dos quais tinham passado pelos seminários ou pelo Caraça, faziam questão de lembrar as raízes da língua de Camões e Alexandre Herculano. Foi assim comigo, aluno de José Mesquita de Carvalho, nascido em Mariana, o que me ajudou muito no vestibular para ingresso no curso de direito. Lá, fui encontrar o professor Antônio Augusto de Melo Cançado, que era de Pará de Minas, mestre no direito romano e apaixonado pela língua de Cícero.

No Brasil, em tempo no qual não se ensinava direito romano, constava de currículo universitário na União Soviética. Daí, a junção de interesses históricos inesgotáveis sobre Roma, sua língua, as que dela descendem e por vultos permanentes que a fizeram ferramenta para seus desígnios.

Daí se sentirem as razões que levaram Napoleão Valadares a publicar “Frases da História”. Embora o título seja de “frases”, tem-se muito mais no volume editado este ano e que revela outras faces de Napoleão, nascido em Arinos, no Noroeste mineiro. Formado em direito pela UnB, se valeu do latim em importantes cargos públicos e em outros livros.

Nos seus deveres escolares, em especial os universitários, Napoleão foi recolhendo informações e afirmações que mereciam ser preservadas, fundamentando seu mais recente trabalho, valioso em época de menosprezo pela própria língua. As frases recolhidas pelo escritor de Arinos recordará o aprendido em outros estudiosos, inclusive que “Roma deve sua origem a Eneias”, imigrante de Tróia e que Rômulo e Remo, seus netos ou descendentes remotos, foram os fundadores de Roma, como Michael Rostovtzeff consignou.

Valendo-se de frases de Oliveira Martins, Suetônio, Allan Massie, Michael Rostovtzeff, Tom Holland e Barry Strauss, Napoleão Valadares resgata os dias e horas finais da vida de César:

Cássio já tinha pensado em assassinar César nas margens do Cidno, enquanto andava pela Ásia Menor. Trebônio estivera a ponto de o assassinar também em Narbona, quando da última expedição na Espanha. Décimo Bruto o exortava a não faltar à palavra empenhada aos senadores, que se achavam reunidos e o esperavam desde muito. Os conspiradores não o haviam escolhido (Cícero) para fazer parte do complô.

Nos idos (ou 15 de março) do ano 44 a.C, César foi assassinado numa reunião do Senado por um grupo de conspiradores, dos quais Marco e Décimo Bruto e Cássio eram os líderes. Trebônio conversava dissimuladamente com Antônio, apoiava-lhe as queixas contra César, espiando com o olhar inquieto os movimentos da ação.

Eram cerca de 60 os homens que o cercaram. Todos haviam puxado punhais de dentro de suas togas. Todos eram conhecidos de César. Casca, por trás de César, ergueu o braço e vibrou-lhe um golpe à nuca – como se faz no matadouro aos bois. O punhal escorregou porque o braço tremia, e foi cair no ombro, ferindo-o levemente. Um dos Cássios feriu-o pelas costas, um pouco abaixo do pescoço. Cassius tentou aplicar um segundo golpe, mas terminou por atingir Brutus em uma das mãos; Minucius Basilus errou seu golpe tendo atingido Rubrius em uma das coxas. Vários conjurados também se feriram ao infligir tantos golpes a um só corpo.

De todo modo, César não resistiu ao atentado, como a história e a maioria que frequenta os bancos escolares sabem. O assassinato do grande líder é uma das páginas negras da história, de que se valeu Shakespeare genialmente. Mas, para Michael Parenti, os autores da morte logo se deram conta de que o populacho não os adotaria como heróis. Nenhum sobreviveu por mais de três anos depois de sua morte e nenhum de causa natural.


84000
Por Manoel Hygino - 31/5/2019 07:47:08
Os punhais nas togas

Manoel Hygino

O apreço pelo latim começava nos cursos médios. Os austeros professores de língua portuguesa, muitos dos quais tinham passado pelos seminários ou pelo Caraça, faziam questão de lembrar as raízes da língua de Camões e Alexandre Herculano. Foi assim comigo, aluno de José Mesquita de Carvalho, nascido em Mariana, o que me ajudou muito no vestibular para ingresso no curso de direito. Lá, fui encontrar o professor Antônio Augusto de Melo Cançado, que era de Pará de Minas, mestre no direito romano e apaixonado pela língua de Cícero.

No Brasil, em tempo no qual não se ensinava direito romano, constava de currículo universitário na União Soviética. Daí, a junção de interesses históricos inesgotáveis sobre Roma, sua língua, as que dela descendem e por vultos permanentes que a fizeram ferramenta para seus desígnios.

Daí se sentirem as razões que levaram Napoleão Valadares a publicar “Frases da História”. Embora o título seja de “frases”, tem-se muito mais no volume editado este ano e que revela outras faces de Napoleão, nascido em Arinos, no Noroeste mineiro. Formado em direito pela UnB, se valeu do latim em importantes cargos públicos e em outros livros.

Nos seus deveres escolares, em especial os universitários, Napoleão foi recolhendo informações e afirmações que mereciam ser preservadas, fundamentando seu mais recente trabalho, valioso em época de menosprezo pela própria língua. As frases recolhidas pelo escritor de Arinos recordará o aprendido em outros estudiosos, inclusive que “Roma deve sua origem a Eneias”, imigrante de Tróia e que Rômulo e Remo, seus netos ou descendentes remotos, foram os fundadores de Roma, como Michael Rostovtzeff consignou.

Valendo-se de frases de Oliveira Martins, Suetônio, Allan Massie, Michael Rostovtzeff, Tom Holland e Barry Strauss, Napoleão Valadares resgata os dias e horas finais da vida de César:

Cássio já tinha pensado em assassinar César nas margens do Cidno, enquanto andava pela Ásia Menor. Trebônio estivera a ponto de o assassinar também em Narbona, quando da última expedição na Espanha. Décimo Bruto o exortava a não faltar à palavra empenhada aos senadores, que se achavam reunidos e o esperavam desde muito. Os conspiradores não o haviam escolhido (Cícero) para fazer parte do complô.

Nos idos (ou 15 de março) do ano 44 a.C, César foi assassinado numa reunião do Senado por um grupo de conspiradores, dos quais Marco e Décimo Bruto e Cássio eram os líderes. Trebônio conversava dissimuladamente com Antônio, apoiava-lhe as queixas contra César, espiando com o olhar inquieto os movimentos da ação.

Eram cerca de 60 os homens que o cercaram. Todos haviam puxado punhais de dentro de suas togas. Todos eram conhecidos de César. Casca, por trás de César, ergueu o braço e vibrou-lhe um golpe à nuca – como se faz no matadouro aos bois. O punhal escorregou porque o braço tremia, e foi cair no ombro, ferindo-o levemente. Um dos Cássios feriu-o pelas costas, um pouco abaixo do pescoço. Cassius tentou aplicar um segundo golpe, mas terminou por atingir Brutus em uma das mãos; Minucius Basilus errou seu golpe tendo atingido Rubrius em uma das coxas. Vários conjurados também se feriram ao infligir tantos golpes a um só corpo.

De todo modo, César não resistiu ao atentado, como a história e a maioria que frequenta os bancos escolares sabem. O assassinato do grande líder é uma das páginas negras da história, de que se valeu Shakespeare genialmente. Mas, para Michael Parenti, os autores da morte logo se deram conta de que o populacho não os adotaria como heróis. Nenhum sobreviveu por mais de três anos depois de sua morte e nenhum de causa natural.



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